OS CADERNOS DE KINDZU: COSTURANDO SONHOS EM TERRA MORTA

FOTOS/ DANIEL BARBOZA

O que andas a fazer com um caderno?/Nem sei ,pai./ Escrevo conforme vou sonhando./E alguém vai ler isto?/ –Talvez./É bom ensinar alguém a sonhar”...
É, assim,  a partir da segunda parte do romance Terra Sonâmbula, de Mia Couto, celebrado escritor moçambicano, que se estrutura a narrativa teatralizada pelo Amok Teatro na sua última concepção, titulada como Os Cadernos de Kindzu.
Escrito em 1992, o livro mostra uma terra devastada por uma década(1965/75) de guerras civis, capazes de tornar todos , vítimas ou carrascos, uma massa humana informe e desmemoriada.
E onde, na tragicidade da inexorável predestinação de  efeitos “sonambulizantes” , a única perspectiva de “futuros e felicidades” seria o visceral mergulho nos sonhos.
Sentindo-se estrangeiro em sua própria nação, Kindzu((Thiago Catarino), com as raízes familiais dizimadas, inicia sua trajetória de exilado em país de ninguém.
Cruzando, na sua  sonhada costura de desejos reprimidos, com o fantasma do pai (Sérgio Loureiro) e com as áridas lembranças da irmã de desterro Farida(Graciana Valladares). Remetendo-se, ainda, às presenças femininas maternais ou prostituídas (Luciana Lopes e Vanessa Dias) e às personalizações masculinas do indiano rejeitado (Stephane Brodt) ou do português dominador (Gustavo Damasceno).
Adaptar dramatúrgicamente o purismo de um texto literário de perceptível inventividade  , com seus neologismos e suas nuances de poética oralidade, é um desafio à não perda de sua intrínseca substancialidade.


Retomando o nativismo mítico da peça anterior “Salina - a Última Vértebra”, a presente concepção diretorial/cenográfica de Ana Teixeira e Stéphane Brodt revela,outra vez, um privilegiado alcance do substrato de sensorial esteticismo,  no dimensionamento psicológico dos personagens e em sua pulsão de emotiva interatividade palco/plateia.
Tanto na apurada  austeridade plástica  dos elementos cenográficos e dos figurinos, como na instauração de um clima de mágico realismo na execução de música autoral pelos atores e nas filigranadas modulações do desenho de luz( Renato Machado).
O elenco ,na sua irrestrita entrega à performance ,tem tal exaltação e organicidade em suas linhas dramáticas que  quase impossibilita destaques individualizados na segurança coletiva da construção de seus papéis.
Mas, diante da potencialidade carismática no protagonismo titular de Kindzu  na condução da trama, não há como cada espectador escapar de ser cúmplice da espontaneidade gestual e da força interior de seu intérprete( Thiago Catarino).
No reflexivo propósito de Mia Couto  “para que cada homem fosse visto sem o peso de sua raça”, Os Cadernos de Kinzdu ressoam, enfim, na triste paisagem da contemporaneidade, olhando a vida pelo sonho  com transcendental  “ousadia  para levantar asas pelo azul”.

Wagner Corrêa de Araújo




OS CADERNOSDE KINDZU , com o Amok Teatro, em cartaz no Teatro III do CCBB, Centro/RJ, de quarta a domingo, às 19h30m. 120 minutos. Até 18 de dezembro.
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