SEDES : DA BELEZA E DA FEIURA SOB UM CONTUNDENTE E POÉTICO CONCEITUAL DRAMATÚRGICO

 

Sedes. Wajdi Mouawad/Dramaturgia. Thiago Bomilcar Braga/Direção.  Agosto/2023. Fotos/Léo Aversa.


Depois que os palcos brasileiros tiveram a surpresa inventiva e o deslumbramento estético das peças Incendios e Céus, estreadas respectivamente em 2014 e 2016, é a hora de Sedes (Assoiffés, no original) também retomar o impacto habitual da obra do libanês-franco-canadense Wadji Mouawad.

Este projeto descortinador de uma potencial dramaturgia, com o olhar armado na problemática da contemporaneidade, tem seu conceitual sustentado numa reflexiva provocação. Que parte ora de uma controversa realidade política, ora do questionamento filosófico da condição humana, situada entre a “poesia e o pânico” (podendo lembrar, a propósito, este dístico muriliano).

O que faz ecoar seu visceral ceticismo no desafio redentor do processo da criação, segundo as palavras do próprio Wajdi Mouawad : Um artista é um besouro que encontra nos excrementos da sociedade os alimentos necessários à produção das obras que fascinam e revolucionam seus semelhantes”.

Dando continuidade ao belo ideário de Aderbal Freire-Filho e do produtor/ator Felipe de Carolis, este terceiro espetáculo de uma serie estreou numa outra montagem experimental paulista, dirigida lá por Zé Henrique de Paula, em 2020, chegando ao Rio, em diferencial versão, sob o comando direcional de Thiago Bomilcar Braga.

Na presente temporada carioca, o elenco inclui dois nomes da produção anterior – Felipe de Carolis e Luna Martinelli, acrescida pela participação dúplice de Lucas Garbois e Fábio de Luca para um mesmo personagem em duas fases etárias.

Numa ficha técnica que traz ainda a acurada tradução de Angela Leite Lopes (a partir do original Assoiffés), as tonais climatizações psicológicas das luzes de Paulo Cesar Medeiros, a trilha sonora de Márcio Castro priorizando as vocalizações cantantes e recitativas do ator Felipe de Carolis. Sem deixar de falar em outro dos acertos indumentários de Wanderley Gomes.

Sedes. Com Luna Martinelli, Lucas Garbois, Felipe de Carolis, Fabio de Luca. Fotos/Léo Aversa.

Com uma narrativa de circularidade dramatúrgica que conecta ficção e realismo, ironia mordaz e riso melancólico, para caracterizar a trajetória infeliz de dois jovens que no desalento de um amor adolescente pleno de reveses, optam por  enigmática terminalidade. Investigada quinze anos depois por um antropólogo forense e antigo colega da mesma faixa de idade do trágico casal.

Sylvain Murdoch (Felipe de Carolis) sequencia monólogos consigo mesmo e com o espectador sobre o vazio existencial e a impossibilidade de fugir de um cotidiano opressivo.  Enquanto a jovem Noruega (Luna Martinelli) dialoga com o silêncio no isolamento de seu quarto domiciliar, em comportamento alterativo expondo sua gritante revolta confrontada com o delirante sonho subliminar  de  um amor platônico.

Paralelamente, em dois planos temporais, vai sendo dimensionada a narrativa de Boon, ora como o aspirante a escritor (Lucas Garbois) ou pelo oficio adulto do investigador jurídico (Fábio de Luca). Na intrigante descoberta de dois cadáveres abraçados, sob a amarga certeza de que seriam os seus contemporâneos de juventude Murdoch e Noruega.

O tom confessional destes personagens "sedentos" tem um alcance sensorial na cumplicidade emotiva da plateia, resultado de convicto domínio direcional (Thiago Bolmicar Braga) sobre este inventário dramático.

Indo da rompante espontaneidade performática de Felipe de Carolis na transgressividade de sua tensa rebeldia à tocante nuance de interiorização que Luna Martinelli imprime à sua angustiada espera por aquilo que nunca vem.   

Além da coesa busca investigativa de dois atores (Lucas Garbois e Fábio de Luca) para um mesmo personagem. Simbolicamente metaforizada no sobrevivente único que imaginara, em tempo passado, uma escritura literária, sinalizada pelo difícil ato de suporte da condição humana.

Quando a onírica percepção em relação à beleza da arte e da vida é transmutada na irracionalidade da feiura do mundo. Dimensionada pelo espanto dos transes cotidianos e fazendo da trajetória existencial um terrível pesadelo que só acaba no túmulo...


                                          Wagner Corrêa de Araújo



Sedes encerrou sua temporada, no Teatro Gláucio Gil/Copacabana, no último dia 28 de agosto, com previsão de volta ao cartaz em breve.

SRA. KLEIN : UM MERGULHO ABISSAL NOS CONFLITOS PSICANALÍTICOS

 

Sra. Klein. Nicolas Wright/Dramaturgia. Victor Garcia Peralta/Direção Concepcional. Agosto/2023. Fotos/Lucio Luna.


“A transferência é a maneira pela qual o paciente ou o analisando transforma o analista em personagens importantes de sua vida que tiveram um efeito traumático sobre ele. Geralmente uma mãe ou um pai”.

Assim o dramaturgo britânico Nicolas Wright sinaliza o fio narrativo que conduz a trama de sua peça Sra. Klein, que estreou em Londres 1988, seguida em 1995 pelo circuito off Broadway, paralelamente à sua versão alemã para as telas pelo cineasta Ingemo Engström.

Depois de duas reconhecidas montagens brasileiras, protagonizadas titularmente por Ana Lúcia Torre (1990) e Nathalia Timberg (2003), está de volta à cena na concepção direcional de Victor Garcia Peralta, tendo Beatriz Nogueira no papel de Melanie, ao lado de Natália Lage como Melitta e Kika Kalache, personificando Paula.

No enredo há um confronto de três mulheres todas elas ligadas ao universo psicanalítico numa Londres de 1934 onde Melanie Klein, refugiada da Alemanha nazista, atua como analista desenvolvendo suas teorias especialmente focadas na psicanálise infantil.

Ela, aqui, vive uma dúplice crise psicológica com a perda de seu filho num suposto acidente de escalada, enquanto está prestes a romper com a filha Melitta, com divergências que vão do âmbito familiar à discordância pessoal quanto às teses da mãe. E num procedimento substitutivo quase de adoção Melanie se aproxima cada vez mais da outra psicanalista refugiada, Paula, com seu dúbio comportamento de afagos, sem tomar partido por ser colega de profissão de ambas e amiga de Melitta.



Beatriz Nogueira numa marcante performance como a Sra. Klein. Agosto/2023. Fotos/Lucio Luna.


Numa ambiência menos realista (Dina Salem Levy) preenchendo o estúdio/sala londrino da Sra. Klein apenas com duas filas de cadeiras similares e que vão se misturando, entre a ordem e a desordem, num paralelo com os distúrbios mentais.

Através de um processo cênico em que os efeitos luminares (Bernardo Lorga) são marcados pelo andamento, cada vez mais ascendente, de uma claridade branca à proporção que se intensifica o clima de  tensão entre as três personagens.

As atrizes portando uma indumentária (Karen Brusttolin) elegante partindo de traços dos anos trinta com um subliminar sotaque de contemporaneidade. Havendo discricionárias intervenções musicais numa trilha sonora (Marcelo H) prioritariamente incidental.

Em espetáculo que se alinha nos âmbitos do chamado Teatrão, com prevalência de falas longas em detrimento da ação, marcado pelo embate teórico que transita no desafio entre os dilaceramentos internos e o seu possível enfrentamento através das teorias e práticas psicanalíticas.

Presidido pela obstinação de certezas absolutas de uma personagem impositiva e controladora - a Sra. Klein.  Que através da luminosa performance de Beatriz Nogueira explora sob convicta veemência todos os contornos psico/gestuais  de um papel com potencial apelo carismático.

Em linhas dramáticas que se cruzam, a Melitta de Natalia Lage envereda por um subtexto confessional e contundente, ao sustentar o argumento de que o irmão na verdade se suicidara diante do desalento existencial, causado desde os abusos de métodos experimentais pela mãe na infância de ambos.

Enquanto, por outro lado, o ambíguo comportamento de Paula (por Kika Kalache) num dimensionamento entre a mãe e a filha, opta pelo que mais lhe convém. Aumentando o contraponto crítico e a luta de poder entre as três personagens femininas.

Havendo que se destacar o artesanal empenho da direção de Victor Garcia Peralta para decifrar e fazer compreender, estética e emotivamente, uma textualidade grandiloquente, extensa e reiterativa com seu abuso de termos e noções psicanalíticas.

Sabendo como imprimir-lhe a pulsão de uma dramaturgia necessária tendo muito a dizer não só ao segmento psicanalítico, mas a todos os tipos de público que acreditam na força resgatadora da palavra teatral. Afinal, são as reflexivas palavras autorais de Nicolas Wright que contextualizam na medida exata a sua Sra. Klein :

A função da maioria das peças, sejam elas Hamlet, Lear ou qualquer outra, é fazer com que alguém descubra a verdade sobre si mesmo”.

 

                                     Wagner Corrêa de Araújo



Sra. Klein está em cartaz no Teatro Prudential, Gloria, de quinta a sábado, às 20hs; domingo, às 19hs. Até 27 de agosto

MATAR OU MORRER / DILERMANDO E EUCLIDES : O OLHAR CONTEMPORÂNEO SOBRE UM ACERTO DE CONTAS LAVADO EM SANGUE

Matar ou Morrer - Dilermando de Assis e Euclides da Cunha. Myriam Halfim/Dramaturgia. Agosto/2023. Fotos/Guga Melgar.



Num momento em que a sociedade brasileira assiste a uma absurda sequencialidade de assassinatos brutais de mulheres, causa e consequência de uma pulsão machista insana, reviver a saga trágica que envolveu os nomes de Euclides de Cunha e Dilermando de Assis, com o olhar na  retomada metafórica de um julgamento pela  contemporaneidade, soa mais que oportuno diante de tudo isto.

Afinal quem seria o verdadeiro culpado por um crime de amor e morte que abalou o ferrenho tradicionalismo da sociedade brasileira ao final da primeira década do século XX? Que tal reavaliar o fato homicida num encontro imaginário dos dois partners de paixão e sexo, marido, amante e uma mesma mulher Anna Emilia, confrontando-os num tribunal de nossos dias?

Depois do sucesso da série televisiva (Desejo), de um livro da historiadora Mary del Priore (Matar Para Não Morrer) e também de uma  recente ópera brasileira de João Guilherme Ripper (Piedade) é a vez também de Miriam Halfim surpreender, numa releitura do mesmo tema, com outra de suas precisas e diferenciais incursões dramatúrgicas.

Que, sob uma fictícia abordagem e personalíssimo sotaque autoral, a partir de um episódio de vivência realista, aparece, aqui, sob a simbólica titulação de Matar ou Morrer – Dilermando de Assis e Euclides da Cunha. Com um luminoso comando direcional de Ary Coslov para um estelar tríptico atoral - Marcelo Aquino (Dilermando), Sávio Moll (Euclides) e Maria Adélia (Juíza). Ao lado de outro trio de craques - Marcos Flaksman (cenografia), Aurélio de Simoni (iluminação) e Wanderley Gomes (figurino).


Matar ou Morrer - Dilermando de Assis e Euclides da Cunha. Ary Coslov/Direção Concepcional. Agosto/2023. Fotos/Guga Melgar.


Numa ambiência de sugestionamento emblemático, a começar pelo palco (CCJF) num tradicional espaço arquitetônico que foi sede do Supremo (STF), nos  tempos do Rio Capital Federal, desde sua inauguração em 1909. Abrangendo, assim, o período de acontecência da “Tragédia da Piedade” e tornando maior a subliminar comoção a partir da peça estar acontecendo ali.

Com sua caixa cênica (Marcos Flaksman) preenchida frontalmente por um espelho de época fissurado por tiros e uma solene tribuna jurídica, com luzes (Aurélio de Simoni) vazadas favorecendo um clima psicológico de confronto entre os dois “réus” perante uma autoridade jurídica, sob indumentária atemporal de traços cotidianos (Wanderley Gomes).

Buscando, de um lado, redimir a culpa assassina atribuída exclusivamente ao jovem aspirante militar Dilermando (Marcelo Aquino) que se tornara, segundo depoimento literário do próprio, “um eterno e irremediável condenado" pelo exacerbado conservadorismo familiar e social brasileiro extensivo à opinião pública, tentando vencer a pecha de um pária até sua morte nos anos 50.

E de outro, procurando ouvir as razões do escritor e acadêmico Euclides (Sávio Moll) que justificava sua revolta e tentativa homicida, pelo desvio amoral do comportamento de sua esposa Anna com um amante domiciliar, em palavras rompantes e classificatórias de um amor blasfemo, insano e indecente.

Onde a postura conciliatória de Maria Adélia, no ritualístico papel presencial da Juíza, é exposta com expressiva dignidade dramática para compreender e decifrar o desalento dos dois personagens/réus daquele julgamento de volta ao futuro.

Sendo correspondida, com coesa tensão interior e unidade interpretativa, pela manifestação de espontânea e vigorosa maturidade dos atores Marcelo Aquino e Sávio Moll que, junto a Maria Adélia, estabelecem um carismático intercambio de cumplicidade emotiva palco/plateia.

Tudo se ampliando pela originalidade autoral de uma linguagem dramatúrgica de  poética contundência  (Miriam Halfim) que alcança uma envolvente transposição cênica no reconhecido domínio direcional de  Ary Coslov.

Em espetáculo necessário e reflexivo quando tanto se expande a violência punitiva e de apelo vingativo em nome de uma suposta lavagem da honra nas relações amorosas. Valendo relembrar, nesta hora, as palavras de desabafo confessional nas letras literárias de Anna Emilia, tornada escritora como o marido Euclides e o amante Dilermando de quase uma vida inteira, com seu transcendente e especular eco feminista:

Homem não peca, por isso pode prevaricar (...) Só os maridos tem honra a vingar”...


                                         Wagner Corrêa de Araújo


Marcelo Aquino (Dilermando de Assis), Maria Adélia (Juiza) e Sávio Moll (Euclides da Cunha). Fotos/Guga Melgar.

Matar ou Morrer – Dilermando de Assis e Euclides da Cunha está em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal, Cinelândia,  quinta e sexta, às 19h; sábado e  domingo, às 18h. Até 27 de agosto.

BÁRBARA : QUANDO A EUFORIA ETÍLICA TRANSITA ENTRE O RISO E O PESADELO


Bárbara. Dramaturgia/Michelle Ferreira. Direção/Bruno Guida. Com Marisa Orth. Fotos/Marcos Mesquita.


Por favor, não afastem tanto a bebida da festa, porque ela está sempre perto. A minha vida foi uma festa até que virou um pesadelo”. Estas palavras caracterizam bem a narrativa etílica que a jornalista Barbara Gancia faz de fio condutor para seu livro autobiográfico “A Saideira : Uma dose de esperança depois de anos lutando contra a dependência” (Editora Planeta).

E que, por sua vez, inspira a dramaturgia de Michelle Ferreira titulada Bárbara, um monólogo tragicômico de sensitivo e diferencial apelo na trajetória da atriz Marisa Orth, mais reconhecida por seu timing humorístico em personagens populares como a Magda da série televisiva Sai de Baixo.

Não sendo esta a sua estreia em incursão dramática, o que ela já experimentou, entre acertos e desacertos, indo de personificações mais sérias nos palcos tais como Simone de Beauvoir (O Inferno Sou Eu) em 2010, ou Norma Desmond (Sunset Boulevard), de 2019, tendo passado ainda pelo protagonismo feminino em Misery, como uma enfermeira psicopata, na montagem paulista de 2005.

E é a própria intérprete que, no prólogo de Bárbara, deixa perceptível neste seu primeiro monólogo, sinalizador de suas quatro décadas como atriz, de que o que vai representar ali não é uma comédia mas um drama. Entre o riso e as lágrimas, não deixando de ser lúdico mas provocando, antes de tudo, uma árdua mas saudável mudança comportamental na vida da personagem.


Bárbara. Direção/Bruno Guida. Com Marisa Orth. Agosto/2023. Fotos/Marcos Mesquita.


Através de um jogo performático cativante que acaba por envolver atriz/espectador numa problemática que ultrapassa o mero vício da saideira alcoólatra. E, atravessando a quarta parede, vai fundo nos conflitos internos identificados naqueles que julgam prencher o vazio das frustrações virando um copo atrás do outro.

Tema tratado com uma dose subliminar de tragicomicidade pela acurada concepção direcional de Bruno Guida e que, paralela à irreversível pulsão da dependência, sugestiona uma “dose de esperança” por intermédio da vivencia guerreira de uma jornalista pela redenção definitiva de um vício implacável. 

Ao lado de um suporte cênico/gestual imprimido por Ana Turra e Fabrício Licursi, sob o conceitual minimalista da bem cuidada direção de arte (Gringo Cardia). Que ecoa, nos efeitos luminares (Guilherme Bonfanti), na trilha autoral (André Abujamra) e na cotidiana indumentária (Fause Haten), convergindo tudo para o singular preenchimento psicofísico de uma narrativa confessional.

Ruy Castro afirma com empatia no prefacio do livro de Bárbara Gancia - “Há pessoas cujas vidas imploram para ser escritas”. O que pode ser constatado nesta  transposição à escritura dramatúrgica com um dúplice referencial de desafio, tanto na  trajetória da jornalista como no registro do supreendente descortino de um instigante caminho artístico para Marisa Orth. 

Ao transmitir à sua personagem um enunciado de veemência e verdade interior, além de demonstrar convicta força atoral para vencer um desafio em sua carreira. Sabendo como bem explorar todos os contornos de uma personificação teatral fora de sua habitualidade cênica mais voltada à comédia.

Em carismático dimensionamento estético capaz de conectar seus rompantes de irônico humor a um incisivo inventário dramático no entorno da dolorida dependência etílica. E revelando, sobretudo,  a maturidade interpretativa de um sólido percurso, tanto nos seus já reconhecidos recursos histrionicos como aqui e agora, nesta irreverente e, ao mesmo tempo, reflexiva gramática cênica de Bárbara...


                                                  Wagner Corrêa de Araújo


Bárbara está em cartaz no Teatro XP/Gávea, sexta e sábado, às 20h; domingo às 19h. Até 03 de setembro.

FURACÃO / CIA AMOK : EM CENA APOCALÍPTICA A CATÁRTICA RESISTÊNCIA NEGRA


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Furacão. Concepção dramatúrgica/Ana Teixeira/Stephane Brodt. Agosto/2023. Fotos/Sabrina Paz.


Eu, Josephine Linc Steelson, negra de quase cem anos, abri a janela esta manhã...” Assim se inicia a frase que marca enfaticamente, como um leitmotiv verbal, a textualidade narrativa de Furacão que, a partir do romance Ouragan, de Laurent Gaudé, torna-se a mais nova criação da Cia Amok.

Onde, por intermédio das sempre inventivas concepções direcionais de Ana Teixeira e Stephane Brodt, é feita uma releitura visceralizada desta obra do escritor e dramaturgo francês que, inclusive, já teve, ali no Amok, outra de suas  representações teatrais, por intermédio de “Salina - A Última Vértebra ”.

Sempre priorizando um enfoque nos dilaceramentos civilizatórios da contemporaneidade através do confronto com o legado étnico da ancestralidade. Seja no enfrentamento das turbulências de políticas opressivas em relação a povos e raças, como no descaso ao meio ambiente provocando sequenciais desastres ecológicos.

E é aí que se sustenta o conceitual ético e dramatúrgico da peça ao mostrar, nas falas visionárias de uma emblemática personagem feminina, um empático ato de resistencia contra as manifestações racistas de desprezo aos menos favorecidos, seja pela cor de sua pele, seja por sua carente condição social.

Transitando do seu relato de fatos discriminatórios no cotidiano da comunidade negra de Nova Orleans à segregação racial perceptível nos procedimentos de socorro às vítimas do cataclisma com sua  acontecencia na Louisiana, pelo furacão a que se titulou de Katrina, em agosto de 2005.


Furacão/Cia Amok. A partir de um romance de Laurent Gaudé. Agosto/2023. Fotos/Sabrina Paz. 

Havendo na peça uma concentração absoluta no entorno da figura icônica da velha negra o que surpreende, em processo metafórico com subliminar sotaque de tragicidade grega, pelo peculiar enfoque dado a este protagonismo feminino, ao contrário da trama romanesca que se divide entre cerca de uma dezena de vítimas da catástrofe.  

Num ideário estético capaz de sugestionar uma cantata cênica camerística através de dois potenciais músicos (Anderson Ribeiro e Rudá Brauns) manipulando, ao vivo, vários instrumentos em processo alternativo. Na afinada execução de repertório com alguns clássicos do blues americanos, acompanhados pelos bonitos contornos do timbre vocal da jovem atriz e cantora Taty Aleixo.

Como a trilha é desenvolvida simultaneamente sob andamento contínuo, junto às falas de uma solista teatral (Sirlea Aleixo), é como se estivéssemos assistindo a recitativos de um oratório moderno ou de uma cantata barroca, com um certo referencial bíblico na praga punitiva de uma natureza em pane.

Ao mesmo tempo em que induz, no presencial de uma convicta caracterização da protagonista-mor (Sirlea Aleixo) a um mítico fabulário de vivências ancestrais, desde um gestualismo ritualístico a um dramático expressionismo facial, resultado da tensão interior de um personagem sofrido e humano.

Na plasticidade de uma simbólica instalação cenográfrica frontal provocada por uma visita in loco de Ana Teixeira ao palco da Preservation Hall Jazz Band, em New Orleans, um reconhecido repositório da tradição do blues e da cultura negra norte-americana. E, ainda, ampliada na conexão climática dos efeitos luminares (Renato Machado) com a envolvência carismática dos acordes musicais.

O que acaba transcendendo a temática da resistência singular de uma negra americana, em necessária postulação de defesa e protesto a favor da mulher brasileira vitimizada pela crescente onda de violência homicida à causa de um assumido e desprezível comportamento machista.

Ao lado referencial de um processo civilizatório em declínio, sinalizado pelo pânico de um cenário ambiental à beira do risco e de uma condição humana sob o desafio de sua proximidade terminal.

Lembrando, enfim, no enunciado tragipoético da criação literária de Laurent Gaudé, a advertência reflexiva de palavras suastornadas tão oportunas a propósito do investimento estético/ideológico deste Furacão transcendido, com sangue e alma, na montagem da Cia Amok:

“Mal posso esperar, porque há nobreza em saber que uma rajada de vento pode varrer nossas vidas e não deixar nada para trás, nem mesmo a vaga lembrança de uma pequena existência”...


                                       Wagner Corrêa de Araújo


Furacão / Cia Amok está em cartaz no Teatro Sergio Porto, de quinta a domingo, às 20h. Até 27 de agosto.

MULHERES EM AUSCHWITZ : REFLEXIVA INCURSÃO CINEMATOGRÁFICA SOBRE UM PERIGO SEMPRE À ESPREITA

Mulheres em Auschwitz. Regina Miranda e Patricia Niedermeier/Direção Concepcional. Agosto 2023.


Acompanho de perto, desde os anos 80 quando cheguei ao Rio, o multitalento de Regina Miranda descortinado numa diversidade de criações artísticas que vão da dança ao teatro coreográfico e, agora, chegando também à experiencia da realização fílmica, através de "Mulheres em Auschwitz : Escritas de Resistência". Contando com a valiosa parceria da atriz/cineasta Patricia Niedermeier e do inestimável incentivo do bravo guerreiro do cinema brasileiro Cavi Borges.

Não posso deixar de mencionar nosso primeiro contato quando, como editor de cultura do programa da TVE - Curto Circuito,  tive o privilégio de contar com ela, à  frente do quadro semanal de dança. Foram muitas as surpresas criativas nestas quatro décadas, desde a potencial Divina Comédia no MAM/RJ com sua Cia de Atores-Bailarinos às suas recentes incursões no Teatro Coreográfico.

"Mulheres em Auschwitz" configura-se como uma das belas realizações de sua maturidade artística, provocando oportuna reflexão através deste tema de visceralidade tão trágica. Focada na trajetória amarga de muitas mulheres tornadas escritoras ao terem suas vidas direcionadas aos terrores cotidianos de campos de extermínio como Auschwitz, simplesmente por apresentarem uma identidade feminina judaica.




O filme reune extratos confessionais tanto de autoras que ali perderam seu direito ao existir, como daquelas que sobreviveram algumas até os nossos dias, dando seu testemunho como legado de advertência.

Sobre um risco sempre à espreita através da crescente onda de regimes nazifascistas ou simpáticos ao sistema, exemplificada na aproximativa indiferença quanto a esta tendencia em nossa anterior (des)governança.

Além de apresentar um artesanal tratamento na plasticidade da sua cenografia, numa sugestiva ambiência de estações ferroviárias em ruínas, pedreiras e muros de tijolos, sobrepondo-se numa fusão com imagens documentais realistas da era nazista, tornando-se de extrema expressividade com os melancólicos acordes schubertianos de sua trilha.

Isto sem deixar de falar na convicta entrega de Patricia Niedermeier dando voz a estas mulheres, com sua habitual força performática num gestualismo tocante em busca do reflexo da dor, na especularidade do seu patético olhar às passagens verbalizadas para evocar um retrato dramático com tal dimensionamento psicofísico.

Comovente ao término da sessão, quando ninguém ficou insensível à triste lembrança histórica e ora se abraçavam, sempre em lágrimas, ora aos criadores e interprétes, num coesivo apelo emocional, depois de terem assistido a mais uma sensitiva abordagem cinematográfica deste tema. 

Luminosa com seu forte engajamento num conceitual estético, de substrato político e filosófico, sob um sotaque de tragicidade grega armada na contemporaneidade, sabendo sobretudo como dar seu recado de resistência...


                                        Wagner Corrêa de Araújo  



    Mulheres em Auschwitz : Escritas de Resistencia foi exibido dentro da Mostra Cavídeo 26 anos/  Estação Net Rio 3; domingo, 06/08, às 21h.

ESTHER WEITZMAN CIA DE DANÇA : NO “BREVE” RITO DE PASSAGEM ENTRE A DANÇA E A VIDA

Breve. Esther Weitzman Companhia de Dança. Agosto/2023. Fotos/Renato Mangolin.

 

Há exatos cinquenta anos o livroDançar a Vida", de Roger Garaudy, estabelecia metafórica conexão entre o pensamento filosófico e o ato de dançar. Era uma tese que antecipava um movimento estético no entorno de novas perspectivas para a criação coreográfica e que se estenderia, inclusive, a Maurice Béjart, o responsável pelo entusiasta prefácio original da obra.        

E quando assistimos à última das obras de Esther Weitzman que ela, simbólicamente, denomina de Breve, chegando a integrar palavras faladas como prólogo do espetáculo, há uma subliminar percepção de permanência do pensar reflexivo de Garaudy : “A dança é um modo de existir”.

Como se, ali, num conceitual poético com um sutil sotaque de melancolia, estivessem ela e os três bailarinos (Paulo Marques, Toni Rodrigues e Federico Paredes), num manifesto artístico confessional, em tempo "breve", se despedindo de tudo em caráter definitivo.

Sustentados pela similar maturidade profissional de suas trajetórias, sob a brevidade da arte e da vida, frente ao desafio terminal da condição humana. O que concede à performance uma sensorial e carismática cumplicidade emotiva palco/plateia.

Onde Esther Weitzman, em dúplice ofício, atua como bailarina além do ideário coreográfico-direcional, contando também com a valiosa parceria artística de Frederico Paredes. Apresentando-se, performaticamente, numa mesma identidade estética de busca investigativa, junto com os artistas/bailarinos Paulo Marques e Toni Rodrigues.



Breve. Esther Weitzman Companhia de Dança. Agosto/2023. Fotos/Renato Mangolin.


Num processo criador que dá sequência a uma linha coreográfica que ela vem desenvolvendo em sua Esther Weitzman Companhia de Dança, desde 1999, para uma dramaturgia corporal que prioriza um gestual cotidiano, longe de quaisquer maneirismos.

Na “manifestação exterior dos sentimentos interiores”, com um referencial às teorias de Rudolf Laban, sabendo integrar o movimento numa expressiva linguagem coreográfica antenada em muitos avanços inventivos.

Cuja força cênica reside na singularidade das relações temporais estabelecidas pelos bailarinos transitando pelo espaço de uma caixa cênica despojada, sendo preenchida apenas pelo presencial físico desta corporeidade dançante, em imersiva conexão gestual.

no caso de Breve, eles dialogam na intensidade de espontâneos trios e duos, ou se apresentam em delicados solos. Que sugestionam a envolvência do olhar/espectador na personificação simples de uma psicofisicalidade, plena de tocante apelo sensitivo.

Com pés nus pisando o chão, paramentados numa funcional indumentária  (Manuela Weitzman) dia-a-dia e um desenho de luzes vazadas (José Geraldo Furtado), ora se apresentando em posturas energizadas nos seus caminhares, ora em rodas de ciranda a três. Ou, então, nas relaxantes marcações respiratórias, intermediadas por pausas de silêncio.

Impulsionados por uma trilha sonora (Esther Weitzman/Paulo Marques) à base de acordes variados que vão de frases baléticas de Tchaikovsky a solos instrumentais, de sonoridades pop/jazzísticas a citações que remetem ao teatro musical.

Caracterizando o legado artístico, de percursos individuais ou coletivos, para cada um destes reconhecidos nomes no universo da dança contemporânea, em moldes brasileiros, Breve faz um belo tributo ao convicto empenho de um existir dedicado, em sua integralidade, à arte coreográfica.

Esta singular celebração promove, assim, um reencontro da dança com a vida. E porque, afinal, não conecta-la também à lembrança reflexiva de Roger Garaudy no oportuno meio século de seu emblemático livro :

O que aconteceria se, em em vez de apenas construir nossa vida, nós nos entregássemos à loucura ou à sabedoria de dançá-la”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo

 


Breve está em cartaz no Sesc Copacabana/Mezanino, de quinta a domingo, às 20hs. Até 06 de agosto.



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