DANÇA 2022/RETROSPECTIVA : AINDA SOB O DESAFIO DE UMA EFICAZ RETOMADA COREOGRÁFICA

ST Tragédias. Ana Botafogo/Marcelo Misailidis/Concepção Cênica/Direcional. /Julho/2022. Foto/Wagner Brum.


A Suíte Rock Para Loucos e Amantes, da Renato Vieira Cia de Dança, é um manifesto gestual, estético e reflexivo, que se apropria de clássicos do rock anos 70 e 80, sob o sotaque introspectivo de acordes camerísticos, através de um quarteto de cordas e de  solistas entregues a uma simultânea gestualidade musical. Em afetivo e político referencial a tempos emblemáticos que marcaram uma geração com mais de meio século de trajetória, direcionada ao paraíso (Stairway to Heaven/Led Zeppelin), mandamento libertário de uma religião artístico-existencial do não desistir nunca, na potencializada performance de cinco bailarinos.

Foi a Cia de Ballet Dalal Achcar que, através de sua conceituada diretora titular, teve a boa e bela ideia de confiar na habitual competência criativa de Alex Neoral – o mentor da Focus Cia de Dança – para idealizar Tal Vez, original concepção coreográfica exclusiva para os seus 18 jovens bailarinos. Numa dramaturgia da fisicalidade sincronizando movimentos rítmicos, antenados na contemporaneidade de uma linguagem com luminoso aproveitamento da base clássica dos bailarinos e a envolvência de uma proposta conectando energia à nostálgica trilha de substrato latino.

A São Paulo Cia de Dança ( SPCD), em Cor do Arco Iris, fez necessário projeto de exaltação memorial ao centenário da Semana de Arte Moderna, através de inventiva incursão coreográfica pela obra de alguns de seus grandes mentores. Desde seu legado musical (Villa-Lobos, Mignone, Camargo Guarnieri) a expoentes de sua criação pictórica, das pinturas de Di Cavalcanti à iconografia indumentária de Flávio de Carvalho, na responsabilidade estética, entre outros, de coreógrafos do naipe de Antônio Gomes (Madrugada) e Henrique Rodovalho (Desassossegos).

Com Primavera aconteceu a volta presencial do Grupo Corpo, num alcance mais longe pós um interregno nos palcos. Enquanto as vigorosas danças terra-a-terra de Gira em processo ritualístico/religioso traziam subliminares traços da Sagração russa transportada ao Candomblé, a delicadeza expressiva do movimento nesta primavera dançante, em sua conotação de espontânea leveza espacial, sintetiza o resgate de um respirar fundo direcionado à esperança de que dias melhores hão de vir...


Macunaíma. Balé do TMRJ. Carlos Laerte/Coreografia. Setembro/2022.Foto/Conrado Krivochein.


ST Tragédias assume o desafio de imprimir uma dramaturgia da corporeidade transmutando o significado shakespeariano através de um sensorial vocabulário do movimento e da gestualidade. O que a concepção cênico/coreográfica de Marcelo Misailidis viabiliza, com raro apuro artesanal, no seu empenho para traduzir este dimensionamento não verbal. Antecipada pela fluidez romantizada de Romeu e Julieta, sequenciada ainda no mais ousado enfrentamento da adaptação de Otello para dez bailarinos, representando a totalidade dos personagens de um intricado e extenso jogo circular de teatralidade.

Titulado simbolicamente como Sacro, este espetáculo de dança-teatro de Márcio Cunha,  faz eco a um vínculo sagrado entre o corpo e a natureza numa transcendência gravitacional com as energias cósmicas através de sua representação performática. Na busca da empatia coreográfica correspondente ao  que o filósofo Merleau-Ponty chama de fenomenologia da percepção capaz, assim, de possibilitar o "entrelace sinestésico" ou troca sensorial entre o artista/bailarino, representado por significativos nomes geracionais, em comunhão carismática com o espectador.

Quanto a Olhos da Pele, é uma proposta de teatro coreográfico inspirada no entremeio do legado provocador de Hélio Oiticica e que Regina Miranda acompanha, atenta e criativamente questionadora, desde os anos setenta. Em trabalho consistente, sensual e contemplativo, rigoroso esteticamente e lúdico em sua fruição catártica, transgressivo ao propor rupturas no conceitual mimético de um espetáculo coreográfico e no seu direcionamento a uma obra aberta. Reunindo à volta de Regina Miranda, como intérprete, um afirmativo e convicto staff performático.

A temporada do Corpo de Baile de TMRJ começou com O Lago dos Cisnes, onde o senso plástico da cenografia e dos figurinos voltados à tradição, procurou se  sintonizar no processo coreográfico a partir da criação original. Dentro de uma certa releitura técnica e com pequenas alterações no enredo, não tanto significativas ou prejudiciais ao andamento da pulsão estética de uma obra emblemática da história da dança. Mas onde o destaque maior ficou mesmo no protagonismo estelar de David Motta Soares.

No caso de Macunaíma,  tributo do Balé do TMRJ aos 100 anos do Modernismo, este se faz na concepção do coreógrafo convidado Carlos Laerte, numa demarcação estética do encontro das linguagens do cinema e da dança. Através das inserções de imagens projecionais em proposta de interatividade pictórica, na fusão presencial dos bailarinos com as paisagens cinéticas referenciais à floresta amazônica, sempre em surpreendente qualidade de inovação ampliada pelo apuro de sua representação.

Se o Balé do TMRJ ainda não logrou o alcance completo do ansiado perfeccionismo clássico de outros de seus memoráveis momentos, felizmente parece estar caminhando, mesmo a passos lentos, para isto, como comprova no acerto de sua recente remontagem para Don Quixote. Mas para que isto se processe com maior instantaneidade, repito aqui, é preciso urgentemente retornar à diversidade de outras visões coreográficas mais a participação de solistas convidados, como sempre ali aconteceu.

Voltando a ressaltar como isto é parte fundamental da proposta estético/coreográfico evolutiva de qualquer grande Cia, pois, só assim, tornam maiores sua pulsão e élan criativos. Ancoradas, afinal, no encontro de outros olhares e outras linguagens, direcionados sempre à busca investigativa de uma técnica transfigurada em arte...Veja-se uma exemplar adoção brasileira com resultado primoroso, através de diferenciais experimentos do clássico e especialmente do contemporâneo, no processo criador da São Paulo Cia de Dança. 

                                            

                                              Wagner Corrêa de Araújo


Desassossego. São Paulo Cia de Dança. Henrique Rodovalho/Coreografia. Junho/2022. Foto/Charles Lima.

DON QUIXOTE/CORPO DE BAILE DO TMRJ : A MAIS TRADICIONAL CIA. BRASILEIRA DE BALÉ APOSTA NO RESGATE DE SEU LEGADO CLÁSSICO

Don Quixote, com o Balé do TMRJ,  no encerramento da Temporada 2022. Fotos/Daniel Ebendinger.


No ano em que se comemora o centenário presencial de Tatiana Leskova há que se referenciar que foi um programa/tributo aos Balés Russos, com remontagem dela para Les Sylphides, em 2015, um dos últimos exemplares  absolutos da tradição qualitativa do Balé do Theatro Municipal.

Daí em diante, foram se sucedendo as crises, de um lado por problemas financeiros aos quais se junta o biênio do surto pandêmico, de outro pela instabilidade estética, com raríssimas exceções quanto a um razoável êxito, nas tentativas para retomar seus anos memoráveis de brilho no repertório clássico. O que ocasionou a partida, na perspectiva por novos horizontes, para muitos de seus solistas em cias do exterior.

Depois de sofríveis tentativas em obras como Giselle e Bodas de Aurora, o Balé começou a reativar seu folego com o preenchimento de vagas (incluídas aí a Orquestra e o Coro do TMRJ) e os primeiros resultados, mesmo  tímidos, apareceram com uma remontagem sob superficiais  ressalvas, no entremeio de seus altos e baixos, de um recente Lago dos Cisnes, seguida de um despretensioso O Corsário.

Dando sequência ao desafio pela reconquista de seu padrão clássico, o Balé do TM encerra sua Temporada 2022, finalmente com uma boa retomada do seu resgate conceitual, através deste Don Quixote. Contando já há algum tempo com os novos acréscimos em seu Corpo de Baile, sob um dúplice comando artístico/coreográfico de Hélio Bejani ao lado do maître Jorge Teixeira.

Don Quixote, Ato II. Balé do TMRJ. Remontagem de Helio Bejani(direção artística) e do maitre Jorge Teixeira. Dezembro/2022. Fotos/Daniel Ebendinger.


E sob a sustentação de uma OSTM, com sólida e convicta direção do maestro Jésus Figueiredo, em sua releitura dos acordes românticos, mais ludicamente energizados que de assumida inspiração lírica, como aqueles dos balés tchaikovskianos, e segundo o ideário da própria partitura original de Ludwig Minkus.

Onde se destacam os funcionais figurinos (Tania Agra/João Corrêa) com prevalência de rubros nas indumentárias ciganas e dos toureiros, além dos apliques dourados nos vestidos coloridos das juvenis aldeãs, confrontando-se com a elegância mais formalista dos trajes do casal romântico protagonista – Kitri (Marcia Jaqueline) e Basílio (Cicero Gomes).

A cenografia (Glauco Bernardi/Manoel Pucci) conservadora em seu figurativismo, acompanhando a tendência antiga do uso de telões, comete um deslize modernoso no exagero kitsch das bolas que enfeitam a praça flamenca das bodas finais, prevalecendo sobre os habituais décors florais. Sempre com efeitos luminares (Paulo Ornellas) mais vazados nos Atos 1 e 3, e alterativos nas luzes entre sombras do Ato 2.

O argumento usa a titulação e a citação visual do Don Quixote, junto ao seu eterno escudeiro Sancho Pança, apenas como um incidente subliminar do percurso errante destes personagens pela aldeia, e nos delírios cavalheirescos confundindo as visões de donzelas (incluída Kitri) com a de sua musa Dulcinea, atacando também o moinho de vento como um inimigo imaginário.

No mais, a narrativa, a partir do entrecho coreográfico básico por Marius Petipa, de 1869 às suas inúmeras outras revisões, se completa com os embates da conquista amorosa do casal Kitri/Basílio. Paralelo à representação coadjuvante de tipos característicos como o estalajadeiro e um típico açougueiro, além do empostado fidalgo Gamache, da rapariga Mercedes e do grupo de ciganos e toureiros.

Em espetáculo coreográfico que sempre exige muito timing na representação mimética dos tipos e situações, além da entrega à psicofisicalidade das danças grupais e solistas. O que o duo estelar da estreia (Márcia Jaqueline e Cícero Gomes) atende com sua espontaneidade performática, seu senso de teatralidade e humor, culminando seu aporte técnico numa envolvência carismática, especialmente na cena do  sedutor  pas-de-deux final.

Se o Balé do TMRJ ainda não logrou o realcance completo do ansiado perfeccionismo de outros de seus memoráveis momentos, felizmente parece estar caminhando, mesmo a passos lentos, para isto. Mas para que isto se processe com maior instantaneidade é preciso urgentemente retornar à diversidade de outras visões coreográficas como sempre ali aconteceu.

Isto é parte fundamental da proposta estético/coreográfico evolutiva de qualquer grande Cia, pois, assim, tornam maior sua pulsão e élan criativos. Ancoradas, afinal, no encontro de outros olhares e outras linguagens, direcionados sempre à busca investigativa de uma técnica transfigurada em arte...

 

                                          Wagner Corrêa de Araújo



Don Quixote/Balé do TMRJ, está em cartaz no Teatro Municipal, Cinelândia, quartas a sábados, às 19hs; domingos, às 17h; até 23 de dezembro

DIGNIDADE : OS VENAIS CAMINHOS QUE SINALIZAM A ASCENÇÃO AO UNIVERSO POLÍTICO

Dignidade, de Ignasi Vidal. Daniel Dias da Silva/Direção. Dezembro/2022. Fotos/Rafael Blasi.


Além de seu reconhecimento como ator e diretor, Daniel Dias da Silva vem se notabilizando no ofício de tradutor com a revelação nos palcos brasileiros de nomes fundamentais da dramaturgia espanhola contemporânea como o catalão Josep Maria Miró, do qual ele já traduziu e publicou uma coletânea de suas peças.

E agora, também, com o descortino surpreendente de Ignasi Vidal, natural de Barcelona e integrante de uma mesma geração autoral. Desta vez, através de uma entre as mais de dez peças deste premiado ator e dramaturgo – Dignidade, estreada em 2014, com atuação do próprio  dramaturgo como um de seus dois personagens.

Além da tradução, Daniel Dias da Silva assume, aqui, a concepção cênica/diretorial contando no elenco com dois craques do teatro carioca e brasileiro, Claudio Gabriel e Thelmo Fernandes, em parceria com este último no ideário da montagem. Há que se ressaltar, ainda, a escolha da peça, com sua abordagem temática tão oportuna, depois de momentos tão incertos e arriscados de quase quebra do processo democrático e que nós todos vivenciamos de tão perto.

Afinal é, assim, o espúrio e sujo jogo das mazelas que sustentam o universo politico, não importando se esta narrativa originalmente tenha sua locação na Espanha mas sendo capaz de ultrapassar quaisquer limites espaciais e temporais. Ao colocar em questão o desafio entre a escolha pela postura ética e a prevalência viciosa da vantagem pessoal isto pode ser até equiparado à disputa de um lance de dados num tabuleiro de xadrez.


Dignidade. De Ignasi Vidal. Em cena, Thelmo Fernandes e Cláudio Gabriel. Dezembro/2022. Fotos/Rafael Blasi.

O que, a propósito da inventividade do projeto cenográfico (Natalia Lana), sugestiona a mobilidade presencial de peças como uma subliminar e metafórica citação do referido jogo, possibilitando a circularidade entre elas da dupla de atores, como se eles próprios as simbolizassem no confronto ao vivo dos dois lados da partida.

Destacando-se este paisagismo cênico como uma instalação de plasticidade imersiva sob os efeitos das sutis tonalidades luminares de Vilmar Olos. Preenchida ainda com a elegância mais formalista de trajes executivos (blazers, gravatas, camisas sociais) caracterizando o imaginário visual dos figurinos de Victor Prado.

Ao falar de política versus amizade, a peça usa este mote controverso para privilegiar o lugar icônico dos relacionamentos humanos, sejam aqueles que vem da resistência dos tempos juvenis ou aqueles continuados por razões profissionais, como a parceria nas disputas por cargos eletivos. Não deixando de questionar a prevalência de súbitos interesses personalistas que podem colocar em cheque tanto a dignidade quanto o  conceitual da amizade.

Fran (Thelmo Fernandes), o candidato a um cargo  presidencial, convoca um amigo próximo Alex (Cláudio Gabriel) para um encontro em horário pós expediente na sede de seu partido onde, no entremeio de doses de uísque, pretende acertar com ele o posicionamento na vice liderança. Neste vai e vem da conversa, os ânimos vão se exaltando com a devassa de bastidores poluídos que, por sua sórdida e interesseira ambição no entorno do projeto de ascensão politica, vão colocando os dois amigos em posições absolutamente opostas. 

Trazendo à superfície suspeitas de corrupção que provocam um estado simultâneo de mágoas e de decepção, numa derrubada ferina de qualquer princípio ético. Em narrativa dramatúrgica cada vez mais tensa e que contamina não só a amizade dos dois ansiosos personagens/aspirantes a cargos eleitoreiros, como perturba a lúdica acomodação da plateia obrigando-a a refletir.

Esta luta insana pelo poder alcança um absoluto e feroz estado de nervos através da veemência do papel de Alex (Claudio Gabriel) enquanto digladia com a convicta serenidade das certezas políticas de Fran (Thelmo Fernandes), ambos dando uma lição de maestria performática assumindo, com perceptível maturidade e em contínuos avanços dramáticos, todos os contornos de seus personagens.

Ampliando-se tudo na consistência cênica e na competência artesanal que Daniel Dias da Silva imprime a este duelo sensorial, ao transmutar o risco de perda da dignidade em irradiante performance psicofísica. Capaz de desentorpecer e tornar cúmplice o mais desatento dos espectadores para o necessário despertar de uma honrada  consciência politica; tudo, enfim, daquilo que o Brasil mais precisa nesta hora...


                                             Wagner Corrêa de Araújo

                 

Dignidade está em cartaz no Sesc/Arena/Copacabana, de quinta a domingo, às 20h. Até 18 de dezembro.

AUTO DA COMPADECIDA: OBRA EMBLEMÁTICA DA CULTURA NORDESTINA SOB UM META DIMENSIONAMENTO OPERÍSTICO


Auto da Compadecida. Ópera de Tim Rescala. Soprano Marilia Vargas como a Compadecida. Novembro/2022. Fotos/Raphael Garcia.


Desde sua criação nos anos 50 o Auto da Compadecida se tornou um signo emblemático na obra do escritor paraibano Ariano Suassuna. A partir de seu formato teatral, sustentado na autenticidade das tradições populares nordestinas, tem inspirado reconhecidas versões para o cinema, para a dança e para a ópera.

A começar pelo compositor José Siqueira que o apresentou como uma ópera integrando a temporada lírica 1961 do Teatro Municipal carioca com o titulo de A Compadecida. E agora é a hora e a vez de Tim Rescala resgatar o tema em meta concepção musical, classificando-a como uma opera buffa brasileira.

Contando para isto com o incentivo da Orquestra de Ouro Preto, por intermédio da competência investigativa de seu regente titular Rodrigo Toffollo (ele já estreou ali três óperas inéditas brasileiras), e a participação de renomados nomes da cena lírica mineira, carioca e paulista, tendo ainda o suporte valioso do artista plástico Manuel Dantas Suassuna, filho do escritor, na idealização indumentária.

Da sua origem nominal como autos medievais/barrocos, este formato alcançou especial identificação, em seu legado de brasilidade, com as narrativas escritas, cantadas e dançadas no entorno de um fabulário mítico nordestino. Ora sagrado, ora profano, em vigorosa conexão de lendas populares à literatura de cordel e à representação teatral/circense sob ritmos musicais,  exemplificados com clareza nas manifestações, entre outras, dos pastoris e do bumba-meu-boi.


Auto da Compadecida. Jabez Lima (João Grilo) e Rafael Siano (Chicó). Novembro/2022. Fotos/Raphael Garcia.

E toda esta química estética contribuiu para o brilho cênico deste Auto da Compadecida como uma “opera buffa” que, em seu envolvente substrato, reúne elementos do teatro popular, do circo, do musical, da comédia e do melodrama. Pela inspirada e inventiva escritura composicional de Tim Rescala que, desde o prólogo do primeiro ato, provoca uma carismática interação palco/plateia.

Onde há espaço para falas teatrais, ora em recitativos ora para a expressão do mais puro canto lírico, nas melodiosas árias da mezzo-soprano Carla Rizzi e da emotividade sacra que a soprano Marilia Vargas imprime aos cantares  etéreos da personagem titular.

Sem deixar de citar o luminoso alcance em compasso mais de teatro musical, das tessituras do tenor Fernando Portari e do barítono Marcelo Coutinho. E os bonitos sotaques líricos/cômicos nas dialetações burlesco/vocais de Jabez Lima (João Grilo), junto a Rafael Siano (Chicó), com direito a uma lúdica inserção de frase da ária mozartiana de Papageno e sua mágica flauta, alterativo com a bem humorada caracterização do cantor/ator como o  satânico Encourado.

Mais as convictas atuações atorais/lúdicas de Claudio Dias, Glicério do Rosário  e Mauricio Tizumba, este último depois de ser o intimidador Antônio de Moraes, adotando um linha mais irônica como um menos compassivo Filho de Deus, acólito rigoroso no julgamento celestial presidido pela sempre Compadecida (Marília Vargas).

O libreto, fiel ao original de Suassuna, é da lavra do maestro Rodrigo Toffolo em conluio com a partitura de Tim Rescala, este último a cada dia mostrando mais sua artesanal especificidade na conceituação estética de um sólido ideário composicional, seja através de uma opereta, uma ópera infantil ou adulta ou de uma peça teatral direcionada aos palcos musicais.

Alcançando um potencial resultado nesta proposta, em sua funcional conjugação do referencial cenográfico nordestino (na dúplice concepção de Camila Buzelin/Luiz Abreu) e pela energizada caracterização dos temas musicais dos personagens, sabendo como equilibrar climas risíveis e ambiências mais dramáticas, através de exemplar jogo cênico direcional assumido por Chico Pelúcio.

Além de manter a oportuna essencialidade de uma temática capaz de retratar os diferenciais naipes politico/sociais de um país de contrastes: pátria dos pobres ou dos mais afortunados, dos aproveitadores sempre ou de certos religiosos não lá muito santos, todos imbatíveis diante de suas ansiadas benesses.

Em metafórico sugestionar como recurso providencial, para estes explorados seres humanos diante dos infortúnios da sobrevivência, a recorrência à única e possível salvação pela misericórdia divina, sob a prevalente crença sertaneja no acolhimento excelso da Compadecida ainda que esta seja uma saída apenas post-mortem...

 

                                                 Wagner Corrêa de Araújo



Auto da Compadecida, a ópera, esteve em temporada paulista, carioca e mineira, de 5 de novembro a 10 de dezembro, respectivamente no Teatro Alfa, Cidade das Artes e Palácio das Artes.

TATIANA LESKOVA : O EMBLEMÁTICO CENTENÁRIO PRESENCIAL DE UMA PRIMEIRA DAMA DA DANÇA


George Balanchine, Tamara Toumanova, Igor Stravinsky e TATIANA LESKOVA. Um encontro de celebridades do mundo da dança e da música. Desenho publicado na imprensa nova-iorquina de 1940.


E, enfim, completaram-se os cem anos (1922/2022) de uma das mais luminosas representantes de um emblemático universo coreográfico, numa travessia estética entre a tradição clássica europeia e o descortino da perspectiva de uma vitoriosa trajetória de arte e de vida, extensiva exemplarmente  às  gerações de bailarinos brasileiros que passaram por suas sólidas e exigentes lições de dança.

Estabelecendo um elo simbólico entre o passado e o presente de três nações (Rússia, França e Brasil) com sua origem geracional russa a partir de pais exilados numa conturbada Paris dos anos vinte, onde nasce Tatiana Leskova e começa muito jovem seus estudos para estrear como integrante dos Originais Balés Russos, já na década seguinte.

E foi durante os duros anos da Segunda Grande Guerra que vê seu destino ser transmutado, no entremeio de uma temporada na América do Sul, à causa da grande paixão de um brasileiro. Que a convence a ficar de vez no Rio de Janeiro, abdicando da continuidade de uma carreira de turnês internacionais mas sendo recompensada por ascendente crescimento artístico em terras brasileiras.

Participando, inicialmente, de algumas Cias independentes e, a seguir, por quase meio século sendo a responsável pelo estabelecimento, como bailarina, coreógrafa e diretora, de um novo e memorável tempo, histórico, estético e, sobretudo, como um signo qualificativo para  o Balé do Theatro Municipal carioca.


Tatiana Leskova ensaiando Les Sylphides com o Corpo de Baile do TMRJ, em 2015. Foto/Vania Laranjeira.


Onde, além da sua convicta dedicação ao repertório clássico tradicional, incentivou a carreira de alguns dos grandes bailarinos brasileiros de todos os tempos. Além de ser a depositária mágica da artesanal remontagem coreográfica de obras históricas, com o sortilégio de haver dançado sob o comando de ícones da dança do século XX, entre estes Michel Fokine e Serge Lifar.

Logo que troquei BH pelo Rio, tive o raro privilégio de conhecê-la pessoalmente no júri de algumas das Mostras de Novos Coreógrafos nos anos 90, em que integrava também a comissão julgadora. Daí em diante estabeleceu-se um clima de fascínio por sua personalidade carismática, sendo marcantes as coberturas documentárias e culturais  que dirigimos, via TVE, sobre os habituais encontros nos Festivais de Dança de Joinville, Bento Gonçalves, Pantanal, mais o Balé Teatro Guaíra, sob o crivo estimulante da inesquecível Suzana Braga e sempre contando com esta ilustre convidada.

Sem deixar de lembrar o testemunho residencial das vesperais de domingo com vídeos de dança, entremeadas por emotivos relatos de sua vida, não disfarçando os olhos lacrimosos ao assistir, pela primeira vez, o documentário americano (Balé Russo) sobre as arriscadas viagens marítimas de bailarinos solitários, apátridas e soltos (ela inclusive) pelo mundo afora em tempos de guerra.

E não posso me esquecer jamais de um outro centenário (em Janeiro de 2010) que cruza, como um precioso legado, seu destino artístico/existencial  - o de Sergei Diaghilev e os Balés Russos. E que, diante do desencanto dela pela possível passagem em branco na imprensa brasileira, falei a respeito com o Mauro Ventura, o que rendeu uma bela capa do Segundo Caderno em entrevista exclusiva com Leskova sobre aquele épico momento da história mundial da dança.  

Essa é a Dona Tania, seguida e amada por uma legião de admiradores. Leiam sua envolvente biografia, escrita amorosamente por Suzana Braga, e vejam o documentário produzido pela Secretaria Municipal de Cultura sobre sua vida e obra, aí entenderão bem quão emblemático é este centenário presencial. E tão afetiva como deve ser esta celebração de uma insigne personalidade da dança e da arte, no atravessamento de um século biográfico e de processo criador que já está inscrito nas páginas da história.   

Em justo tributo a Tatiana Leskova por este dia especial, o pensar poético de um de seus contemporâneos ilustres dos tempos europeus e, como ela, um eterno amante da dança - Paul Valéry :

"Que a dança faça nascer, pela sutileza dos traços, pela divindade dos ímpetos, pela delicadeza das pontas paradas, essa criatura universal que não tem corpo nem rosto, mas que tem dons, e dias, e destinos"...


                                        Wagner Corrêa de Araújo

 

Tatiana Leskova em Bodas de Aurora. Nova York, 1960. Foto/Maurice Seymour.

SIDNEY MAGAL: EM COMPASSO BREGA, A TRAJETÓRIA NOVELESCA DE UM ÍDOLO MUSICAL

Sidney Magal, Muito Mais Que Um Amante Latino. Débora Dubois /Direção. Novembro/2022. Fotos/João Caldas.

Na passagem dos seus cinquenta anos de inicio da carreira, o cantor Sidney Magal ganhou dois musicais com dúplice inspiração na biografia escrita por Bruna Ramos da Fonte – no primeiro semestre de 2022 a versão carioca titulada “Quero Vê-la Sorrir” e a partir de outubro, a produção paulista Sidney Magal - Muito Mais Que Um Amante Latino.

Tornando-se perceptível, em termos comparativos, uma maior ousadia e um melhor acerto na segunda montagem, esta ainda em cartaz nos palcos paulistas, sob a direção concepcional de Débora Dubois.

Marcada por sua temporada, em tempos de acirrado retrocesso cultural e comportamental em relação aos conflitos entre uma postura machista e os signos gays, paradoxalmente icônicos tanto na carreira do cantor de origem carioca como por sua enfatização no dimensionamento estético dos dois musicais biográficos.

De um lado, o melodramático e possessivo amante latino caracterizado nas letras de seu repertório, enquanto sua performance, em abusadas  roupas aquareladas e sem qualquer censura gestual, quebrava todos os preconceitos relativos à comunidade LGBT.

Onde sua própria vida artística, entre altos e baixos, sucessos e fracassos, no entremeio de atuações em churrascarias, circo e televisão, depois de quase quatro décadas, acaba sendo trocada pela tranquilidade interiorana, através do casamento e filhos que lhe deu a baiana Magali, levando-o a se radicar, definitivamente, naquelas plagas.

O roteiro dramatúrgico é da própria autora de sua alentada biografia de 400 páginas, da qual Bruna Ramos traça um itinerário familiar que começa pelo sonho frustrado da mãe Sônia (prima de Vinicius de Moraes) em se tornar cantora de sucesso. E que ela projeta, especularmente, no entorno da ascensão artística do filho Sidney Magal, do seu despontar até os seus últimos arroubos artísticos quando uma de suas canções torna-se tema da abertura de novela global.

Luis Vasconcelos em Sidney Magal, Muito Mais Que Um Amante Latino. Bruna Ramos da Fonte/Dramaturgia.Novembro/2022. Fotos/João Caldas.

Com um  envolvente comando cênico de Debora Dubois, energizado pela direção musical de Caíque Vandera, o espetáculo tem seus melhores momentos no presencial revelador dos atributos de um ator estreante de 19 anos - Luis Vasconcelos. Cantando e dançando mimeticamente convincente, no visual e no gestual, de que ali estaria de volta o próprio Magal.

Dividindo o palco com o protagonismo também titular de Juan Alba que, aqui, assume os anos de maturidade e afastamento dos refletores de um dos mais idolatrados nomes do cancioneiro brega/romântico brasileiro, mentor de certos hits simbólicos (caso de Meu Sangue Ferve Por Você ou Amante Latino). Mesmo assim, com o seu reconhecido talento interpretativo de décadas, ele não consegue superar o potencial alcance interativo da jovialidade física e musical de Luís Vasconcelos com a plateia.

O que se torna mais flagrante no apelo mais reiterativo da narração sequencial do processo de decadência de Magal, desviando de certa maneira o acompanhamento do espectador pelo clima mais frenético a partir do prólogo, fissurando o andamento rítmico e o timing de sua representação.

Apesar de acertar na seleção das canções, na coreografia (Patricia Kfouri) mais contagiante sob um sotaque de deboche, no frenesi de texturas tonais e no assumido exagero da indumentária (Fábio Namatame), junto ao jogo lúdico e psicodélico de luzes (Wagner Freire), que preenchem um quadro cenográfico kitsch (sob dúplice ideário de Debora Dubois) sugestionando uma boite/cabaret das antigas.

Além dos dois atores protagonistas/titulares, integrando um elenco de 12 atores/ bailarinos e quatro músicos, destacam-se as representações da atriz chilena Yael Pecarovich como a mãe dona Sônia, abrindo o roteiro musical com luminosa atuação cênico/vocal. Valendo citar ainda a convicta atuação de Fernando Vieira, alternando papeis de Vinicius de Moraes a apresentadores televisivos, como Chacrinha.

Se há meio século o cancioneiro de Sidney Magal assustava os puristas musicais, a classe A da MPB como uma síndrome da cafonice com  suas letras postulando que “o amor tem de ser piegas, tem de ser brega”, assistir, hoje, um musical praticamente inspirado neste ideário faz do pejorativo um manifesto chique de exaltação ao kitsch.

Para o que der e vier do preconceito à aceitação, que importa o metafórico conceitual estético quando, emblematicamente, o recado a ser dado é outro. Afinal, para este Muito mais Que Um Amante Latino, não é atoa que “somos um país, graças a Deus, muito brega"...



                                               Wagner Corrêa de Araújo

 


Sidney Magal, Muito Mais Que Um Amante Latino está em cartaz no Teatro Porto /SP, sexta e sábado, às 20h; domingo, às 17hs, até 11 de dezembro.

ARIADNE EM NAXOS : SOB O CONFRONTO ESTÉTICO ENTRE O TEATRO BURLESCO E A ÓPERA SÉRIA


Ariadne em Naxos, de Richard Strauss. Temporada de Ópera do Theatro São Pedro. Novembro/2022. Fotos/Heloisa Bortz.


A parceria artística entre Richard Strauss e o dramaturgo Hugo von Hofmannsthal foi um trunfo na trajetória do compositor, rendendo algumas de suas obras primas como Electra (1909), O Cavaleiro da Rosa (1911) e Ariadne em Naxos, nas suas duas versões  (1912/1916), seguindo sempre um processo estético de incisiva conexão cênica entre as linguagens do teatro e da ópera.

O que transmutou a concepção desta última obra num inovador experimento, à sua época, de teatro dentro do teatro, ópera dentro da ópera, ao mostrar os bastidores do projeto na montagem simultânea de uma encenação que traria elementos da commedia dell’arte ao lado da faceta mais melodramática da grande ópera.

Pelo libreto, através do desejo de um burguês vienense de realizar uma comemoração cênica durante um jantar, a ser acompanhada por apoteótico lance de fogos de artificio em sua residência senhorial.  Numa espécie de jogo híbrido, lúdico e irônico, onde o prólogo mostraria os preparativos do espetáculo através do exibicionismo vaidoso de seus integrantes, incluindo desde a postura impositiva de seu mordomo ao clima de intrigas entre ensaiadores e atores/cantores.

E que seria continuado pela representação propriamente da ópera, embora esta acabasse sendo intermediada pelas intervenções paralelas da trupe burlesca. Possibilitando, assim, especialmente nas versões contemporâneas, uma abertura a diversas releituras, com um certo sotaque pop convivendo com a tradição operística. Caso desta instigante inventividade concepcional e diretorial do argentino  Pablo Maritano para a Ariadne em Naxos, na temporada 2022 do Theatro São Pedro/SP.


Ariadne em Naxos, de Richard Strauss. Direção concepcional Pablo Maritano. Novembro/2022. Fotos/Heloisa Bortz.

Acompanhada, sob uma mesma linhagem criativa, pela cenografia com traços tropicais e uma indumentária de tons aquarelados, em realização dúplice de Desirée Bastos, ampliada sob efeitos visagistas (Tiça Camargo) e ambiências luminares (Aline Santine). E indo mais longe ao substituir a imaginária ilha de Naxos por uma piscina, em mármore, integrante da mansão.

Além da maleabilidade funcional de uma prévia sala/espaço com lustres brancos no formato de bolas festivas, ladeada por entradas e um corredor frontal por onde entram e saem os membros do elenco caracterizando-se, "entre tapas e beijos", para a ação performática.

A composição musical representando certos avanços na escrita operística de Richard Strauss, ao revelar uma sutil influência de estilos prevalentes nas primeiras décadas do século, no seu progressivo distanciamento do romantismo. Por intermédio de uma mais contida estrutura orquestral, em assumida proximidade de modulações mais camerísticas, via solos instrumentais, sinalizando as passagens cênicas entre árias breves e recitativos, no Prólogo. 

E em leitmotivs de potencial envolvência melódica com um subliminar referencial wagneriano, uma espécie de identificação a la "Liebestod" na ária lamentosa e no dueto de amor da segunda parte, sequenciando solos e cenas mais leves do Ato I. Sempre, sob um permanente cuidado artesanal na competente regência do alemão Felix Krieger, frente à Orquestra Sinfônica do Theatro São Pedro.

No elenco, entre papeis protagonistas, há um favorecimento dos personagens femininos, já se destacando a partir do início, a convicta personificação feminina como o Compositor, pela mezzo-soprano Luisa Francesconi. Seguindo-se no papel de Zerbinetta  a soprano Carla Domingues, segura na ária de maior exigência vocal entre o Prólogo e o Ato I. Completando-se o tríduo com a absoluta entrega e a envergadura do apelo dramático/musical da soprano Eiko Senda no papel titular.

Das interpretações do naipe masculino, há que se sublinhar o belo empenho do tenor Eric Herrero diante do desafiante alcance da extensa e ideal tessitura para Baco, além da expressiva exclusividade na performance de um ator que fala sem qualquer notação musical, por Luiz Päetow como o Mordomo, revelando uma perceptível maturidade cênica a partir de seus trabalhos com o diretor Antunes Filho.

O Theatro São Pedro encerra, assim com raro brilho, através desta Ariadne em Naxos, a Temporada 2022, sendo o único palco brasileiro, no enfrentamento de tempos culturais tão difíceis, capaz de vir sustentando uma maior e regular seleção de variadas óperas em acuradas montagens. E que este, enfim, continue a sua resistência por um ideário operístico, na constância qualitativa de sua tão necessária programação lírica...

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo

 


Ariadne em Naxos está em cartaz no Theatro São Pedro/SP,  de 23 de novembro a 3 de dezembro, quartas e sábados, às 20h; domingos, às 17h.

O BARBEIRO DE SEVILHA: MONTAGEM DESPRETENSIOSA ENCERRA A FRUGAL TEMPORADA LÍRICA CARIOCA

 

O Barbeiro de Sevilha/Rossini. Julianna Santos/Concepção Direcional.TMRJ. Novembro/2022. Fotos/Daniel A. Rodrigues.



“Esta ópera traz as marcas da pressa e ainda mais da extravagância; mas estamos convencidos de que todas as pessoas que levaram o estudo da música ao mínimo grau de refinamento devem ter ficado encantadas e surpresas com os toques ocasionais de gênio, a variedade e a originalidade de seu estilo”(TheTimes, março de 1818, na estreia londrina de O Barbeiro de Sevilha).

Desde então, há cerca de dois séculos, vem se tornando não só a campeã em popularidade das 38 óperas compostas por Gioacchino Rossini e, mais ainda, se transmutando no modelo histórico exemplar do gênero musical cômico titulado como opera buffa. Não tendo ido bem na sua première em Roma, dezembro de 1816, mas já nas outras récitas aplaudida calorosamente pelo público, fenômeno sequencial ininterrupto até os dias de hoje.

Adaptada como um libreto de Cesare Sterbini, fruto da fusão de peças do múltiplo oficio inventor de Beaumarchais, sua temática é sustentada em irônica crítica e burlesco entrecho sobre conservadores comportamentos morais no entorno das relações amorosas. Dando espaço a um conceitual de atemporalidade que permite sua funcionalidade em qualquer época, independente de seu contexto original ser do século XVIII.


O Barbeiro de Sevilha. Em cena, Rose Provenzano-Páscoa e Lara Cavalcanti. Novembro/2022. Fotos/Daniel A. Rodrigues.

Nesta retomada pós-pandêmica, em montagens americanas recentes houve a inserção radical de temáticas da contemporaneidade na ópera de Rossini, como numa delas a ambiência da juventude roqueira, em outra referenciais da Covid-19 e da invasão da Ucrânia. E a montagem que encerra a Temporada Lírica 2022 do Theatro Municipal carioca não fica longe deste espírito inovador pelo engajamento sócio-político da concepção cênica-direcional de Julianna Santos. Sabendo apurar o investimento numa teatralidade de humor que se expande em cena e é capaz de desentorpecer o mais acomodado dos espectadores.

Desdobrando sua cena para os anos libertários que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial, enfatizando os movimentos feministas através da indumentária (Olintho Malaquias), sob traços satíricos de um célebre pôster de J. Howard Miller. Funcional em sua aquarelada jovialidade, mas sujeita a ocasionais destemperos cênicos. Tais como um equivocado e quase simplório aparato cenográfico (Giorgia Massetani) sem alcance de brilho plástico/estético, além de gerar instabilidades no seu uso e nos seus deslocamentos (com recorrência constante a contra regras), mesmo sob o disfarce de transparências e cuidadosos efeitos luminares (Fabio Retti/Paulo Ornellas).

A tipicidade desta trama novelesca, apresenta dúplice alteridade entre o melodrama e a comédia, no intermédio de muitas situações farsescas e um quase absurdo clima de intrigas, para contar a história de um casal de apaixonados (Rosina e o Conde de Almaviva) instigados por um barbeiro (Figaro) que desafia o velho tutor (Bartolo) da jovem em favor do  amor desta pelo Conde.

Num elenco integrado por nomes conhecidos e aspirantes a uma trajetória lírica, destacam-se, em primeiro plano, a irradiante espontaneidade físico/musical do baritono Vinicius Atique (Figaro), a empatia juvenil e o fraseado lírico da mezzo-soprano Lara Cavalcanti (Rosina) e a segura presença cênica conectada à bela tessitura de voz pelo tenor Aníbal Mancini (Conde de Almaviva).

Além da convicta atuação do baixo Saulo Javan (Dom Bartolo) e uma surpreendente revelação como comediante/cantora de um nome em ascensão, a soprano Rose Provenzano-Páscoa (Berta). Embora brilhe na linha dramatúrgica assumida por seu personagem, sob sensorial sotaque de comicidade, o baixo Murilo Neves (Dom Basílio) deixou a desejar com uma excessiva sobriedade em seu timbre vocal, especialmente nas passagens da desafiante ária La Calunnia.

A OSTM na primeira apresentação operística/encenada de seu novo regente titular (Felipe Prazeres) foi consistente na modulação ágil das pulsantes variações melódicas da partitura, saindo-se bem da sutileza das passagens líricas aos andamentos mais dramáticos. O Coro do TMRJ, sob um luminoso comando artesanal de Priscila Bomfim, conecta com equilibrada ornamentação os diferentes timbres vocais.

Imprimindo credibilidade a esta montagem pelo empenho musical de seus corpos artísticos, por convincentes protagonistas vocais e pela lúdica envolvência atoral de sua performance cênica. O que, se por um lado ainda não retoma in totum a tradição histórica de nosso mais famoso palco de ópera e de Barbeiros memoráveis, como o de Gianni Ratto nos anos 80, é um feliz augúrio de que a atual direção artística (Eric Herrero) do TM está, enfim, depois de tantas incertezas, trilhando o caminho certo...


                                                Wagner Corrêa de Araújo

 

O Barbeiro de Sevilha, está em cartaz no TMRJ, do dia 18  até o próximo sábado, 26 de novembro, às 19h, em sua récita final.

OLHOS DA PELE/REGINA MIRANDA : SOB UM LIBERTÁRIO DISCURSO CORPORAL DECIFRADOR DE SIGNOS

Olhos da Pele. Regina Miranda/Concepção direcional inspirada na obra de Hélio Oiticica. Em cena, Fabiano Nunes sob um traje Parangolé. Novembro/2022.Fotos/Carol Pires. 

 

Desde os anos 90, o discurso corporal de Regina Miranda vem se sustentando num múltiplo processo artístico, desde suas atuações como bailarina-coreógrafa-diretora a uma permanente busca investigativa pela ressignificação da linguagem no seu transito gestual.

Além de ter se tornado um das mais lídimas representantes do ideário e das práticas corporais de Rudolf Laban, na associação da dançaterapia a um comportamental onde “o movimento é a manifestação exterior dos sentimentos interiores cotidianos”.

Ela vem, também, transmutando para suas criações coreográficas/teatrais seu conceitual descortinador de uma nova realidade cênica que titula, em acertado propósito, como teatro coreográfico, com potenciais trabalhos criados na ultima década como Naitsu (2018) e Romola&Nijinska(2019).

Ao lado de realizações fílmicas e escritos teóricos/dramatúrgicos ancorados num jogo “mallarmaico” de dados pela redefinição inventiva do sentido de mobilização das palavras que dançam, marcadas  por uma permanente troca entre o intérprete-criador e o espectador num impulso interativo de celebração ritual da vida.

Como acontece nesta sua última obra – Olhos da Pele, inspirada no entremeio do legado provocador de Hélio Oiticica e que Regina Miranda acompanha desde os anos setenta. Sob os impactos transformadores das realizações do artista, ora na ambiência nova-iorquina ora nas plagas cariocas. Desde a análise de suas obras plásticas e de seus escritos, à priorização nas incursões performáticas do artista  com seus Penetráveis, Bólides e Parangolés.


Olhos da Pele, de Regina Miranda. Em cena, Marina Salomon, Fabiano Nunes e Lucas Popeta. Novembro/2022. Fotos/Carol Pires.

E que ela sinaliza, agora e fisicamente, em Olhos da Pele, nesta sua tão bem vinda volta presencial ao espaço cênico. Compartilhando uma incisiva representação coreográfica/teatral com artistas conceituados do corpo e da palavra (Marina Salomon, Fabiano Nunes, Lucas Popeta) em irrestrita entrega personalista ao play deste jogo pleno de um verista vivenciar psicofísico. E contando com a não menos valiosa parceria documental de Cesar Oiticica (sobrinho do artista).

Onde a caixa cênica (por Regina Miranda dividindo-se na proposta indumentária de trajes cotidianos) é preenchida apenas por elementos móveis (mesas/tablados) que podem ao mesmo tempo sugestionar móbiles e penetráveis, num referencial aos Metaesquemas de Oiticica. O que possibilita a circularidade labiríntica dos atores/bailarinos e a sua interlocução numa corporeidade verbal em aproximativo contato litúrgico com livre participação do público.  

Sob um desenho climático de luzes mais vazadas que focais (Luiz Paulo Nenen) e de pontuações  incidentais de sonoridades eletroacústicas (Sergio Krakovski) alterativas com autorais ritmos de pandeiro ao vivo do músico, no energizado solo em que o ator/bailarino Fabiano Nunes se apresenta com um fluido figurino derivativo das vestes dos Parangolés. Em cenas intermediadas por vídeos, exibidos em tela frontal, enunciativos de temas de substrato literário que remetem simultaneamente às reflexivas anotações em cadernos, ora de Oiticica ora de Regina Miranda (com interpretação cinética, além dela, por Marina Salomon).

Que trabalho consistente é este Olhos da Pelesensorial, sensual e contemplativo, rigoroso esteticamente e lúdico em sua fruição catártica, transgressivo ao propor rupturas no conceitual mimético de um espetáculo coreográfico e no seu direcionamento a uma obra aberta, desdobrando o significado a ele imprimido por seus criadores/intérpretes na fruição metafórica da releitura de cada um de seus espectadores.

Ecoando simbolicamente, no comprometimento da sua espontânea e contínua invenção, na transmutação do corpo como veiculador de mensagens e em seu propósito questionador por novos signos artísticos comportamentais, o emblemático lema que norteou a vida e a arte de Hélio Oiticica :

O exercício da liberdade não consiste na criação de obras, mas em experimentar o experimental”...

                                                    Wagner Corrêa de Araújo


Olhos da Pele está em cartaz no Teatro Cacilda Becker/Catete, de sexta a sábado, às 20h; domingo às 19h. Até 04 de dezembro.

Recente

EU NÃO ME ENTREGO NÃO : INCURSÃO MEMORIALISTA NA TRAJETÓRIA DE UM ATOR-ÍCONE DO TEATRO E DO CINEMA BRASILEIRO

  Eu Não Me Entrego Não. Flávio Marinho/Dramaturgia Direcional. Othon Bastos/Ator. Junho/2024. Fotos/Beti Niemeyer. Ser ator significa ser...