LA TRAVIATA : BELA CONCEPÇÃO CÊNICA/MUSICAL ENCERRA A TEMPORADA LÍRICA DO MUNICIPAL CARIOCA

La Traviata. André Heller/Direção Concepcional. Luís Fernando Malheiro/Regente. Novembro/2023. Foto/Daniel Ebendinger.


Se existe uma ópera com tanta simbologia é sem dúvida La Traviata, de Giuseppe Verdi, desde a sua malograda estreia (1853) veneziana no La Fenice, a um permanente êxito nos palcos mundiais. Emblematizada em sua trajetória de mais de século e meio, sendo capaz de manter intocável seu fascínio, entre os aficionados do gênero ao mais diversificado gosto popular.

Em 1982, esta magia se ampliando com o sucesso comercial, de público e de crítica, através da primorosa versão cinematográfica de Franco Zeffirelli, incentivando a atração pela saga de outras óperas fílmicas nas adaptações marcantes de mestres da sétima arte, como Ingmar Bergman (A Flauta Mágica), Francesco Rossi (Carmen), Joseph Losey (Don Giovanni).

E para quem teve o privilégio de assistir, ao vivo, no palco do Municipal carioca, final dos anos 70,  La Traviata sob o extasiante comando concepcional de Zeffirelli, fica difícil conseguir escapar do desafio estético comparativo daquela com outras montagens. Mas de lá para cá, vez por outra, acontecem surpresas em relação a esta ópera, como a direção de Jorge Takla no Municipal paulista, em 2018 ou, agora, em outra volta por cima, através da versão cênica de André Heller-Lopes.

Onde o primeiro grande destaque é a diferencial arquitetura cenográfica de Renato Theoblado à base de ferro fundido que remete a alguns espaços icônicos da capital francesa como a Gare d’Orsay e a Torre Eiffel ou o Palacio de Cristal em Petropolis, lembrando que há outro exemplar de sua potencial criatividade no musical Beetlejuice, atual cartaz na Cidade das Artes. Tendo ao seu lado o requinte habitual dos figurinos de época concebidos por Marcelo Marques, tudo ressaltado comme il faut sob os efeitos luminares entre sombras de Gonzalo Córdova.

Destacando-se, ainda, um grupo de bailarinos especialmente selecionados por Bruno Fernandes e Matheus Dutra que imprimiram à corporeidade dançante um subliminar sotaque entre o neoclássico e o contemporâneo. Sabendo como fugir à tradição mimética, numa alternativa performance masculina e feminina, longe de qualquer preconceito na personificação identitária seja de ciganas ou de toureiros no Ato III.


La Traviata. André Heller-Lopes/Direção Cênica. Ludmilla Bauerfeldt e Lício Bruno. Fotos/Daniel Ebendinger


A Orquestra Sinfônica do TMRJ, conduzida sempre com artesanal empenho pelo maestro Luiz Fernando Malheiro, um expert de longa data nas leituras operísticas. E que procurou evitar os habituais cortes na retomada da integralidade de partes da partitura original, principalmente no encontro da Provence/Ato II (Violeta, Giorgio e Alfredo), com certo prejuízo rítmico no andamento destas cenas.

Num momento em que a ópera cada vez mais vem experimentando um processo de renovação, com um olhar armado na contemporaneidade, não se pode assumir uma postura conectada apenas à rigorosa tradição. Estes ares novos alcançam diversos patamares da representação hoje de clássicos do repertório operístico, desde que se saiba como manter  a essência básica da obra no seu dimensionamento temático/musical.

No caso especifico desta montagem, pode soar como desnecessário o arroubo de violência que não condiz com o lado conciliador do personagem Giorgio Germont. Ou a transmutação da última cena numa imagética visão de uma Violeta Valéry post-mortem, incomodar aos que não aceitam qualquer quebra da narrativa consagrada. Mas, neste caso, realizada com tal esmero direcional por André Heller que o flashback da mente delirante de Violeta, não consegue impactar a prevalente continuidade de brilho cênico/musical alcançado por esta montagem.

A começar da precisa escolha de  um cast protagonista de primeiro nível. Do bonito e revelador timbre de um convicto tenor lírico (Matheus Pompeu), cativante mesmo com um toque discricionario em sua atuação atoral como Alfredo Germont, desde a envolvência da cena do brinde, ao apelo comovente do epílogo. Seguindo-se, o convincente presencial e o irresistível apuro vocal do Giorgio Germont de Lício Bruno, em sua reconhecida maturidade qualitativa como um dos nossos melhores expoentes na tessitura de baixo barítono.

De corpo, sangue e alma, sem dúvida é com o mais completo domínio vocal e cênico que a Violeta de Ludmilla Bauerfeldt é transmutada  na presença mais estelar desta Traviata, prima donna absoluta como soprano coloratura e esplendorosa em sua performance dramática de atriz. Capaz, assim, de provocar paixão enquanto cortesã, entre a elegância aristocrática e a sordidez da vida mundana, e lágrimas pela força emotiva com que assume seu trágico destino final.

Tudo, enfim, concorrendo para absorver desta La Traviata uma carismática manifestação interativa palco/plateia, fazendo com que seus calorosos aplausos sejam merecidamente extensivos à tão acertada iniciativa da atual direção artística do TMRJ...

 

                                           Wagner Corrêa de Araújo


La Traviata está em cartaz no Theatro Municipal/RJ desde o dia 17 de novembro, com dois elencos e com as últimas récitas nesta quinta, sexta-feira e sábado, às 19h; até domingo, às 17h.

SÓ VENDO COMO DÓI SER MULHER DO TOLSTÓI : A DÚPLICE FACE DE UM ICÔNICO ESCRITOR EM SURPREENDENTE MONÓLOGO

Só Vendo Como Dói Ser Mulher do Tolstói. Ivan Jaf/Dramaturgia. Johayne Hildefonso/Direção. Novembro/2023. Fotos/Alberto Maurício.


Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”... Esta é a simbólica frase no prólogo de Anna Karenina,  tocante tributo ficcional a uma protagonista titular emblematizada em sua resistência pela afirmação do feminino. E que, certamente, foi mais um dos manuscritos copiados com toda dedicação pela mulher de Leon Tolstói no seus quase cinquenta anos de conturbada união (1862-1910).

Estamos falando de Sophia Tolstói que em seus Diários, de um desalentador desabafo confessional, revela como um conceituado escritor tinha uma vida privada contraditória frente ao seu ideário de escritor, de místico e de defensor de causas humanitárias e sociais: “Todas as coisas que ele prega para a felicidade da humanidade apenas complicam a vida, a tal ponto que se torna cada vez mais difícil para mim viver”.

Embora fosse uma mulher culta para o padrão conservador da sociedade patriarcal russa, sob o domínio das rédeas da igreja ortodoxa, Sophia aliava seu carinho à admiração pelo ofício de escritor do marido. Ao transcrever a mão todos os seus longos romances, às vezes em cópias que se repetiam, tornou-se assim uma conhecedora profunda desta contradição nos desafetos  da prática comportamental do dia a dia.

E mesmo sendo tratada quase como uma serva submissa  aos caprichos machistas dele seguindo as regras abusivas  do Domostroi (“ordem na casa”), era ela quem ainda cuidava absolutamente de tudo referente aos seus negócios de proprietário rural. O que lhe causou enormes dissabores quando ele caiu na maléfica influência dos tolstoianos radicais como Chertkov, o que quase o levou à falência não fosse o corajoso empenho de Sophia.


Só Vendo Como Dói Ser Mulher do Tolstói. Ivan Jaf/Dramaturgia. Johayne Hildefonso/Direção. Rose Abdallah/Atriz. Fotos/Alberto Maurício.


Depois de duas versões fílmicas do cineasta americano Frederick Wiseman - um documentário e uma série da Netflix, a bela e guerreira trajetória de Sophia Tolstói perpetuada em seu sofrido relato cotidiano, inspira a mais que oportuna peça “Só Vendo Como Dói Ser Mulher do Tolstói”, com acurada dramaturgia de Ivan Jaf, sob energizada direção de Johayne Hildefonso para um monólogo diferencial, idealizado e interpretado por Rose Abdallah.

Onde tudo é pautado com prevalente capricho estético que se estende do inventivo dimensionamento cenográfico e indumentário, na realização conjunta de Giovanni Targa, Alessandra Miranda, Miguel Sasse e Ricardo Ferreira, aos ambientais efeitos luminares (Evelyn Silva) e às expressivas interveniências musicais da trilha autoral de André Abujamra.

A começar do singular boudoir à antiga, configurando um aposento intimista, dúplice de camarim onde a atriz vai ora colocando, ora despojando-se, as várias camadas de uma invernal e pesada veste russa. O que por si só já configura metaforicamente a opressiva situação da condição feminina na época.

Numa conexão da dor e da revolta de uma personagem na sua melancólica lembrança de quase mera reprodutora de seus 13 filhos com o escritor, enquanto o via em descaradas posturas sexuais com as criadas, carregando em si a amargura do suporte de um homem ao mesmo tempo santo e demônio.

Sem deixar de contextualizar seu olhar na contemporaneidade, tanto nos apelos verbais de uma atenta dramaturgia (Ivan Jaf) quanto em seu visionário comando direcional (Johayne Hildefonso). Em espetáculo revelador no descortino das extasiantes transmutações performáticas de Rose Abdallah, refletidas do transe de suas variações faciais aos nervosos impulsos psicofísicos que a atiram ao solo, no grito potencial de uma atriz para a representação da personagem.

Como se, aqui,  estivessem ecoando, num processo de reflexo especular, as considerações da escritora inglesa Dóris Lessing em prefácio da edição atualizada do livro : “Sonhando com Sofia, falando pessoalmente com ela, querendo desesperadamente alcançá-la e oferecer-lhe palavras de conforto para a sua dor. Que este registro das suas lutas seja um conforto para as gerações futuras e presentes”...

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo


Só Vendo Como Dói Ser Mulher do Tolstói está em cartaz no Teatro Dulcina /  Cinelândia, quartas e quintas, às 19h. Até 7 de dezembro de 2023.

BEETLEJUICE : IRREVERENTE EXCURSÃO MUSICAL AO REINO DOS MORTOS E DAS SOMBRAS

 

Beetlejuice, O musical. Tadeu Aguiar/Direção Concepcional. Novembro/2023. Fotos/Leo Aversa.


Um filme de Tim Burton, que se tornou um cult do terrir gótico, além de grande sucesso comercial, desde seus lançamento em 1988 – Beetlejuice  (aqui subtitulado como Os Fantasmas se Divertem) - servindo de mote inspirador para o musical do circuito Broadway, em 2018/2019.

E que está chegando agora aos palcos brasileiros como Beetlejuice, O Musical, em mais uma das artesanais direções concepcionais de Tadeu Aguiar, sob um ideário de ousada criação cenográfica, para um grande elenco com luminosa protagonização titular de Eduardo Sterblitch.

Onde o sobrenatural no afrontamento do desconhecido, por trás do post-mortem, é tratado com instigante humor, subliminarmente ácido e burlesco, muito longe do sombrio e do mórbido no entorno do que habitualmente cerca a terminalidade fatalista da condição humana.

Abordado tematicamente, desde a grandiloquente cena de abertura do musical, com um suporte estético operístico na representação de um velório transmutado num show performático de teatro coreográfico entre a vida e a morte e onde já fica perceptível o apuro tecno-artístico que norteia esta produção.


Beetlejuice, O Musical. Tadeu Aguiar/Direção Concepcional. Em cena, Eduardo Sterblitch e Ana Luiza Ferreira. Novembro/2023. Fotos/Léo Aversa.

Inicializada a partir dos acordes melancólicos de um cântico de tonalidade gospel metamorfoseado em apoteótica aparição sobre um funéreo catafalco, com provocadora postura interativa de questionamento palco/plateia, e que vai se tornar sequencial nas quebras da quarta parede pelo personagem Beetlejuice (Eduardo Sterblitch).

Ao lado dele, se delineando as representações de um afinado elenco personificador de fantasmas ou mortos vivos, presencial da ambiência da ex-residencia de um jovem casal falecido - Adam (Marcelo Laham) e Barbara (Helga Nemetik) às cenas do submundo infernal, onde recorrem ao espírito malévolo de Beetlejuice para expulsar os invasores.

A tal casa, agora, ocupada por outra dupla amorosa – Delia (Flavia Santana) e Charles Deetz (Joaquim Lopes), mais a filha paterna – a adolescente Lydia Deetz (Ana Luiza Ferreira) incapaz de aceitar a substituta de sua mãe morta. Sucedendo-se, aos poucos, outros convictos atores em papéis básicos tais como Gabi Camissoti, Sylvia Massari, Pamella Machado, Jorge Maya, Erika Affonso e Tauã Delmiro, integrando um cast de 26 nomes.

Onde o palco é ocupado por uma das mais exponenciais arquiteturas cenográficas (Renato Theobaldo) dos últimos tempos capaz de lembrar, na sua conexão de elementos macabros com cores aquareladas, do universo fílmico da ficção cientifica à fantasia dos desenhos animados.

Sob uma sutil referência à plasticidade das pinturas de Beatriz Milhazes que se estende aos sugestivos figurinos da dupla Dani Vidal e Ney Madeira, aliada ao visagismo espectral de Anderson Bueno, entre as claridades psicodélicas e as sombras fantasmagóricas dos efeitos luminares (Daniela Sanchez).

Tudo complementado pelos acordes nada bucólicos ou românticos de uma trilha (Laura Visconti) que privilegia a agitação pop roqueira entremeada por recortes de ritmos latinos como o calypso, em citações composicionais de Harry Belafonte. Ampliada numa envolvente corporeidade gestual dançante através de Sueli Guerra, paralela ao brilho vocal dos atores/bailarinos.   

O sotaque atoral de Eduardo Sterblitch como Beetlejuice soando entre o humor negro e uma certa selvageria lúbrica com seu vocabulário obsceno pleno de sarcasmo mordaz, mas  sempre num timing irretocável, enquanto lamenta a sua dor de um ser espectral sonhando, mesmo assim, em ser abraçado e amado.  

Num musical irreverente que a alguns pode incomodar mas que ao ser caricato sobre a instantaneidade da trajetória existencial, não deixa de ser lúdico e reflexivo, pois afinal, segundo seu idealizador Tadeu Aguiar, no uso das palavras certas para horas incertas : “É um espetáculo que fala de morte, celebrando a vida. Tem coisa melhor?’’...

 

                                           Wagner Corrêa de Araújo


Beetlejuice, O Musical está em cartaz na Cidade das Artes/Barra, quinta e sexta, às 20:30; sábado, às 16 e 20:30; domingo, às 16:00. Até 10 de dezembro.

FUNNY GIRL : LUMINOSA RELEITURA ATUALIZADA DE UM MUSICAL EM TEMPO DE VAUDEVILLE

Funny Girl - o Musical. Gustavo Barchilon /direção concepcional. Novembro/2023. Fotos/Caio Galucci.


Desde sua estreia em 1964 nos palcos da Broadway, sequenciada por uma versão fílmica (1968), Funny Girl provoca controvertidas opiniões, acentuadas pelas suas duas mais recentes retomadas no formato de um musical.

A propósito é muito esclarecedora a análise que um dos maiores críticos da história do cinema – Roger Ebert – fez quando estreou o filme de William Wyler que, aliás,  rendeu um Oscar de Melhor Atriz para sua protagonista titular – Barbra Streisand.

Onde ele diz sobre a adaptação fílmica : “O problema com Funny Girl é quase tudo exceto Barbra Streisand...Todo mundo que não é Barbra Streisand é personagem coadjuvante. Como se todos estivessem esperando até que ela chegasse...”

Com sua longa duração e uma temática, de certa maneira, já por demais explorada na sua abordagem do processo de nascimento de uma estrela, a concepção direcional assumida por Gustavo Fiszman Barchilon tornando-se, a partir daí, um desafio para o experiente decifrador de mistérios no universo do grande musical.


Funny Girl. Gustavo Barchilon/Direção Geral. Novembro/2023. Fotos/Caio Galucci.

A começar da concisão desta sua proposta cênica, reduzindo-o a menos de duas horas, em ato único sem qualquer interrupção, mantendo suas características básicas com um olhar mais armado na contemporaneidade. Numa tradução que dá um recorte mais próximo do cotidiano a partir das lutas afirmativas de uma personagem feminina, no seu processo de empoderamento social e artístico em detrimento da habitual prevalência machista.

O que é revelado no sempre brilhante desempenho de Giulia Nadruz por intermédio de suas múltiplas facetas de uma atriz, capaz de ser estelar tanto no apuro vocal de seu canto como na diversidade performática de sua atuação psicofísica marcadas, aqui, por sua incrível verve entre a comicidade e o drama.

Remetendo, com especificidade absolutamente original, à lembrança das excentricidades da icônica judia Fanny Brice, nas suas representações do Ziegfeld Follies anos 20, com seus caracteres vaudevillianos marca registrada do primitivo show business.

Sabendo, também, referenciar Barbra Streisand ao assumir, sob traços próprios, a ingênua precocidade de uma corista desajeitada, irônica e bem humorada, na sua trajetória para o estrelato. Sendo, inclusive, capaz de dominar a respiração da plateia quando faz ecoar a sua envolvente tessitura vocal.

Mas ao contrário do filme no seu exclusivo entorno da personalidade efusiante da protagonista, o ideário cênico de Gustavo Barcillon deu um justo dimensionamento, numa similar pegada para os outros atores tornando-os, pela adequação nivelada da sua escolha, objetos do atento olhar de cada espectador.

Como, no caso completando o trio protagonista, do ator Eriberto Leão no seu convicto papel de um charmoso amante  - Nick Arnstein - sob o inveterado domínio do vicio das apostas, em promissora estreia sua no musical a la Broadway. Enquanto Stella Miranda destaca-se, em seu instintivo potencial de maturidade atoral, como a Sra. Rose, uma agitada mãe na busca obsessiva pelo sucesso artístico da sua pupila.

Ainda tornado obrigatório ressaltar o caráter de monumentalidade da arquitetura cenográfica no sugestionamento diferencial de ambiências, em mais outro destes acertos de Natalia Lana, paralela ao descortino cintilante dos figurinos (Fabio Namatame) de época sob um sutil toque de leveza e modernindade.

E o que dizer de uma efusiante direção musical (Carlos Bauzys) que só faz aumentar ambiência de magia dos efeitos luminares (Maneco Quinderé) e a invulgar surpresa de um identitário comando coreográfico (Alonso Barros), incluídos os sapateados com solos artesanais de Eddie Ryan (personificados pelo ator/bailarino André Luis Odin)?

Tudo direcionado a um mergulho imersivo num revival daqueles golden times, por intermédio de canções antológicas como People, tão aproximativas de nossas mais caras memórias, fazendo com que esta Funny Girl propicie a incursão num teatro musical transcendente que, afinal, só faz você ficar muito feliz por estar lá...


                                        Wagner Corrêa de Araújo

 


Funny Girl está em cartaz no Teatro Casa Grande/Leblon, sextas, às 20:30, sábados às 17h e 20:30,e aos domingos às 18:30, até 19 de novembro.

RICARDO AMARANTE / TRILOGIA : O BRILHO DE UM COREÓGRAFO BRASILEIRO NA COMPAÑIA COLOMBIANA DE BALLET


Compañia Colombiana de Ballet /Trilogia. Ricardo Amarante/Coreografia. Novembro/2023. Fotos/Juan Arias.


O Ballet del Teatro Colón, criado em 1925, foi a primeira cia clássica oficial da América Latina, seguido do Balé do Theatro Municipal/RJ em 1936, numa bela iniciativa de Maria Olenewa. Uma tradição coreográfica que se estendeu também ao Ballet de Santiago e que, durante dezesseis anos, foi dirigido pela brasileira Marcia Haydée.

Estas três companhias estatais são as únicas que mantiveram viva em seus repertórios, no hemisfério sul americano, a prevalência do balé clássico. Onde o protagonismo estético que as igualava num mesmo patamar hoje é, sem dúvida alguma, do Ballet Estable del Teatro Colón, com suas temporadas plenas de grandes produções clássicas, dando também espaço ao contemporâneo.

E, agora, chega aos nossos palcos pela primeira vez e numa rápida turnê, a Compañia Colombiana de Ballet, criada no início deste milênio, como a única daquele país que estabelece sua linhagem artística a partir da base clássica. Sendo dirigida, no momento, pela reconhecida competência do coreógrafo Jose Manuel Ghiso, ex solista do Balé de Santiago quando comandado por Márcia Haydée.

Num programa todo composto por obras de mais um destes brasileiros que já há algum tempo vem se destacando, além fronteiras, com suas criações coreográficas. Estamos falando da trajetória do paulista  Ricardo Amarante, do inicio como bailarino  em sua passagem por cias européias, desde o time de primeiros solistas do Royal Ballet of Flanders, onde estreou sua primeira coreografia autoral (A Fuego Lento), à apresentação de seus balés em teatros pelo mundo afora.  

Em data recente tivemos inclusive a chance de ver duas obras de Ricardo Amarante numa première com o Balé do Teatro Municipal/RJ, na sua versão do Bolero de Ravel e também com Love Fear Loss. A última delas, agora, fazendo parte do repertório apresentado pela Compañia Colombiana de Ballet.


Compañia Colombiana de Ballet /Trilogia. Ricardo Amarante/Coreografia. Novembro/2023. Fotos/Juan Arias.

Estruturada no formato de três pas-de-deux, Love Fear Loss tem como substrato inspirador a temática lírica e trágica de quatro canções que celebrizaram Edith Piaf. Em releituras pianísticas, de La Vie em Rose, com representação apenas sonora, no eclodir da paixão amorosa (Hymne a l’Amour) sequenciado pelos conflitos da separação (Ne Me Quitte Pas) à dor causada por uma terminalidade fatalista ( (Mon Dieu).

No entremeio dos acordes em compasso de prevalentes adágios, sucedendo-se os seis bailarinos em arabescos, giros, entrelaces e elevações numa luminosa performance com absoluta entrega amorosa dos três casais. Seguindo-se com Longing, a segunda peça da noite, uma sensorial linguagem gestual capaz de expressar os diferentes ciclos no surgimento das paixões.

Do mágico encantamento mútuo de corpos que se encontram ao descortino dos desejos sensuais quando se tocam, o que vai se revelando na intensidade de uma híbrida corporeidade entre o lirismo e a sexualidade desnudada. Em expressiva criação de Ricardo Amarante para onze bailarinos, desta vez sob os dúplices acordes musicais de Pablo Ziegler e Astor Piazolla.  

Para tudo se direcionar, em Fuego Lento, a uma apaixonante dramaturgia da fisicalidade, na espontânea incorporação dançante do tango de raiz (Carlos Gardel) ao livre compasso das composições de Lalo Schifrin, Astor Piazzola e Sayo Kosugi, numa energizada coreografia de estética neoclássica.

Convergindo para uma performance reveladora no seu compartilhamento emotivo palco/plateia enquanto traz, através das surpreendentes criações de Ricardo Amarante para um afinado elenco de bailarinos, a qualitativa marca estética da Compañia Colombiana de Ballet no universo coreográfico da América Latina.

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo

                   

Trilogia/ Compañia Colombiana de Ballet está em turnê por diversas cidades brasileiras, tendo passado por Belo Horizonte, Juiz de Fora e Rio de Janeiro (Teatro Riachuelo, dias 4 e 05/Novembro) seguindo para São Paulo e Brasília.  

VESTIDO DE NOIVA : A DIFERENCIAL INCURSÃO MINEIRA NUMA PEÇA EMBLEMÁTICA


Vestido de Noiva. Nélson Rodrigues/Dramaturgia. Ione de Medeiros/Direção concepcional. Outubro/2023. Fotos / Netun Lima.


Já no texto de apresentação da estreia de Vestido de Noiva, em 1943, dizia Carlos Drummond de Andrade: “Nélson realiza um teatro passado no fundo do ser humano, em vez de um teatro de superfície a que estamos habituados”.

E é dentro dessa assertiva que a diretora mineira Ione de Medeiros à frente de seu grupo Grupo Oficcina Multimédia, de longa e conceituada trajetória em BH, faz sua releitura da mais emblemática de todas as peças do dramaturgo.

Onde o projeto concepcional, começado no período pré pandêmico resultou, em primeiro momento, numa versão virtual. E que a mentora aproveita, por intermédio de projeção frontal, no processo de simultaneidade cênica desta sua presente montagem do Vestido de Noiva.

Numa transcrição fiel ao tríptico lema condutor da peça original de Nélson Rodrigues - alucinação, memória e realidade - no dimensionamento estético de uma textualidade onde prevalecem os delírios do inconsciente, desde a internação de Alaíde pós ser atropelada em acidente fatal.


Vestido de Noiva. Grupo Oficcina Multimédia. Ione Medeiros/Direção. Outubro/2023. Fotos/Netun Lima.

Nesta exposição dos espaços mentais interiores, conturbações intimistas e devassadoras dos desejos sexuais reprimidos da paciente, recorrendo imaginariamente às anotações do diário de Madame Clessy, prostituta assassinada por um jovem amante.  Que a direção concepcional de Ione Medeiros sugestiona via convicta duplicidade performática, inicializada já na primeira aparição da personagem Alaíde, através das atrizes Camila Felix e Priscila Natany.

Um desdobramento especular que se estende à quebra de limites interpretativos entre as representações feminina e masculina. Acentuada na similaridade indumentária dos atores sob ternos escuros e a branquitude  dos trajes com referenciais de design para noivas, numa criação tríplice da diretora, extensiva aos figurinos e aos elementos cenográficos.

Estabelecendo um provocador contraste tanto nos papeis de protagonismo identitário das irmãs Alaíde e Lúcia, como também no de Madame Clessy, assumida, aqui, pela corporeidade travestida do ator Jonnatha Horta Fortes. Ao lado dos outros integrantes (Henrique Torres Mourão, Júnio de Carvalho e Victor Velloso) de um afinado elenco.

A caixa cênica preenchida apenas por macas e mesas cirúrgicas que se transformam em outros elementos móveis, sendo cobertas pelas bonitas toalhas e mantos rendados que, enquanto expressam a alegre solenidade de uma cerimonia nupcial, remetem ao triste imaginário branco de uma ambiência hospitalar.

Sempre entre luzes vazadas (Bruno Cerezoli) ressaltando, com suas tonalidades frias, o melancólico desalento da repressão dos anseios sexuais femininos e que colocam o duplo protagonismo, em patético inferno astral, entre a vida e a morte.

No entremeio de ocasionais intervenções sonoras (em realização conjunta de Ione Medeiros e Francisco Medeiros) potencializando  a  psicofisicalidade imersiva desta dramaturgia corporal quase um teatro coreográfico, do palco às inserções de instantâneos recortes gestuais e performáticos na projeção virtual.

Mesmo que, às vezes, esta interveniência explicativa se torne desnecessária, na sua tentativa de decifrar os mistérios de um drama psicológico não linear, acabando por confundir mais aquele espectador de primeira viagem não conhecedor da proposta dramatúrgica original.

Mas nada que impeça a fruição estética de um envolvente e energizado espetáculo que coloca o estado sensorial meramente lúdico em  alerta, acionando reflexivamente o mais acomodado e desatento dos espectadores.

Fazendo ainda lembrar uma fala enunciativa de advertência do próprio Nélson Rodrigues, na sustentação de um ideário dramatúrgico entre o mal e o bem e que, afinal, o tornou um dos mais polêmicos autores no universo teatral brasileiro:

“Nos meus textos, o desejo é triste, a volúpia é trágica e o crime é o próprio inferno. O pobre espectador vai para casa apavorado com todos os seus pecados, presentes e futuros”...

                                          Wagner Corrêa de Araújo

 

Vestido de Noiva está em cartaz no CCBB/Teatro II, de quarta a domingo, às 19h. Até o dia 05 de novembro.

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