SÓ VENDO COMO DÓI SER MULHER DO TOLSTÓI : A DÚPLICE FACE DE UM ICÔNICO ESCRITOR EM SURPREENDENTE MONÓLOGO

Só Vendo Como Dói Ser Mulher do Tolstói. Ivan Jaf/Dramaturgia. Johayne Hildefonso/Direção. Novembro/2023. Fotos/Alberto Maurício.


Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”... Esta é a simbólica frase no prólogo de Anna Karenina,  tocante tributo ficcional a uma protagonista titular emblematizada em sua resistência pela afirmação do feminino. E que, certamente, foi mais um dos manuscritos copiados com toda dedicação pela mulher de Leon Tolstói no seus quase cinquenta anos de conturbada união (1862-1910).

Estamos falando de Sophia Tolstói que em seus Diários, de um desalentador desabafo confessional, revela como um conceituado escritor tinha uma vida privada contraditória frente ao seu ideário de escritor, de místico e de defensor de causas humanitárias e sociais: “Todas as coisas que ele prega para a felicidade da humanidade apenas complicam a vida, a tal ponto que se torna cada vez mais difícil para mim viver”.

Embora fosse uma mulher culta para o padrão conservador da sociedade patriarcal russa, sob o domínio das rédeas da igreja ortodoxa, Sophia aliava seu carinho à admiração pelo ofício de escritor do marido. Ao transcrever a mão todos os seus longos romances, às vezes em cópias que se repetiam, tornou-se assim uma conhecedora profunda desta contradição nos desafetos  da prática comportamental do dia a dia.

E mesmo sendo tratada quase como uma serva submissa  aos caprichos machistas dele seguindo as regras abusivas  do Domostroi (“ordem na casa”), era ela quem ainda cuidava absolutamente de tudo referente aos seus negócios de proprietário rural. O que lhe causou enormes dissabores quando ele caiu na maléfica influência dos tolstoianos radicais como Chertkov, o que quase o levou à falência não fosse o corajoso empenho de Sophia.


Só Vendo Como Dói Ser Mulher do Tolstói. Ivan Jaf/Dramaturgia. Johayne Hildefonso/Direção. Rose Abdallah/Atriz. Fotos/Alberto Maurício.


Depois de duas versões fílmicas do cineasta americano Frederick Wiseman - um documentário e uma série da Netflix, a bela e guerreira trajetória de Sophia Tolstói perpetuada em seu sofrido relato cotidiano, inspira a mais que oportuna peça “Só Vendo Como Dói Ser Mulher do Tolstói”, com acurada dramaturgia de Ivan Jaf, sob energizada direção de Johayne Hildefonso para um monólogo diferencial, idealizado e interpretado por Rose Abdallah.

Onde tudo é pautado com prevalente capricho estético que se estende do inventivo dimensionamento cenográfico e indumentário, na realização conjunta de Giovanni Targa, Alessandra Miranda, Miguel Sasse e Ricardo Ferreira, aos ambientais efeitos luminares (Evelyn Silva) e às expressivas interveniências musicais da trilha autoral de André Abujamra.

A começar do singular boudoir à antiga, configurando um aposento intimista, dúplice de camarim onde a atriz vai ora colocando, ora despojando-se, as várias camadas de uma invernal e pesada veste russa. O que por si só já configura metaforicamente a opressiva situação da condição feminina na época.

Numa conexão da dor e da revolta de uma personagem na sua melancólica lembrança de quase mera reprodutora de seus 13 filhos com o escritor, enquanto o via em descaradas posturas sexuais com as criadas, carregando em si a amargura do suporte de um homem ao mesmo tempo santo e demônio.

Sem deixar de contextualizar seu olhar na contemporaneidade, tanto nos apelos verbais de uma atenta dramaturgia (Ivan Jaf) quanto em seu visionário comando direcional (Johayne Hildefonso). Em espetáculo revelador no descortino das extasiantes transmutações performáticas de Rose Abdallah, refletidas do transe de suas variações faciais aos nervosos impulsos psicofísicos que a atiram ao solo, no grito potencial de uma atriz para a representação da personagem.

Como se, aqui,  estivessem ecoando, num processo de reflexo especular, as considerações da escritora inglesa Dóris Lessing em prefácio da edição atualizada do livro : “Sonhando com Sofia, falando pessoalmente com ela, querendo desesperadamente alcançá-la e oferecer-lhe palavras de conforto para a sua dor. Que este registro das suas lutas seja um conforto para as gerações futuras e presentes”...

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo


Só Vendo Como Dói Ser Mulher do Tolstói está em cartaz no Teatro Dulcina /  Cinelândia, quartas e quintas, às 19h. Até 7 de dezembro de 2023.

Um comentário:

Anônimo disse...

Um espetáculo necessário e imperdível! Parabéns para todos da equipe! Rose Abdallah, você arrasa! Evoé!

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