HAMLET: MONTAGEM DESAFIADORA, ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE, REAFIRMA O PERMANENTE SIGNO INVENTIVO DA CIA TEATRO ESPLENDOR

 

Hamlet. Cia Teatro Esplendor. Bruce Gomlevsky / Direção Concepcional. Fevereiro/2026. Dalton Valério/Fotos.


Enquanto na última década algumas das incursões, direcionadas especificamente ao mítico personagem shakespeariano, se destacaram nos palcos cariocas e brasileiros, pela sua ousadia estética-conceitual, Bruce Gomlevsky à frente de sua Cia Teatro Esplendor dá sequencia a esta trajetória com seu Hamlet situado entre a tradição e a inovação.

Desta vez indo ainda mais longe na releitura da tradução de Geraldo Carneiro, embora basicamente se orientando por uma subliminar fidelidade à sua narrativa original, fazendo prevalecer a solidez e a mensagem de sua secular textualidade dramatúrgica, mas inserindo ali diversos elementos que fazem deste Hamlet um significativo tributo comemorativo aos 15 anos da Cia Teatro Esplendor.

Não só por sua inserção na realidade contemporânea, reconfigurando cenicamente alguns personagens, através de conceituais bem aproximativos desta sua redefinição com um olhar que os atualiza, inclusive por enfoques da linguagem cibernética e da inteligência artificial.

Mas sem deixar, também, de ousar nas citações do legado das crenças espiritualistas afro-brasileiras nas passagens de espectros fantasmagóricos. Quando o personagem titular é desafiado e derrubado pelos conflitos de sua própria subjetividade e de sua dúvida anti-heroica, sob a influência da pulsão de um destino submetido às forças metafóricas de divindades superiores.


Hamlet. Cia Teatro Esplendor. Bruce Gomlevsky / Direção Concepcional. Fevereiro/2026. Dalton Valério/Fotos.


Onde o espaço cênico (Nello Marrese) com poucos elementos materiais, acaba deixando praticamente livre, no seu dimensionamento de uma arena circundada por cadeiras dos quatro lados, a mobilidade dos espectadores não só na troca de suas posições e lugares, incidindo sua participação dançante em partes como um baile de corte real.

Sempre impulsionados, tanto atores como espectadores sob os acordes da envolvente trilha de Sacha Amback, entre uma fusão de harmonias que tanto podem remeter à época ancestral de sua trama como aos ritmos  dos dias de hoje, com efeitos luminares (Elisa Tandeta) sugestionando ambiências ora cotidianas ora fantásticas, moduladas numa plasticidade quase cinética.

O que é ampliado nas diferenciais nuances de uma indumentária (Maria Callou) definitivamente distanciada do design de época, em afirmativa atemporalidade que chega a incluir o uso ocasional da tipicidade pictórica de objetos inusitados como microfones e celulares.

Todas estas perspectivas transformadoras podendo, às vezes, causar certo incômodo naqueles extremados adeptos de uma tendência conservadora, nunca aceitando qualquer interferência desestabilizadora de sua academicista visão de um clássico teatral como este. Capazes até de se recusarem, pelo menos, a conferir estas transmutações cênicas na era elisabetana.

Bruce Gomlevsky como o protagonista titular assumindo com plena convicção os meandros psicofísicos a que conduz esta sua particularizada representação de Hamlet, apurando a sua atuação performática e verbal, com uma espontaneidade fluente e irradiante.

O que se estende a um elenco com traços seguros na construção de seus papeis, ora sob tons sarcásticos, ora dramáticos ou até risíveis, mas sempre pontuados por uma unicidade interpretativa indo da progressão dramática a tons farsescos, estabelecidos através do empenho inventor da gramática cênica/direcional de Bruce Gomlevsky.

Brilhando cada um deles pelo característico dimensionamento expressivo, entre a emoção e a reflexão, sendo imprimido aos seus personagens, especialmente no núcleo dramatúrgico central, decorrente do contundente e decisivo acerto de contas por Hamlet (Bruce Gomlevsky).

Paralelo, à indignação contra a infidelidade de Gertrudes (Sirlea Aleixo) e seu consorte vilão Claudius (Gustavo Damasceno), à transição multifacetária  entre Horácio e o coveiro (na dúplice consistência atoral de Jaime Leibovich), além da singularizada personificação de Horácio (Ricardo Lopes) como um fantasma capoeirista.

Num jogo teatral vivo com primado do sensorial que nunca banaliza as diretrizes inerentes a uma obra clássica. Mas, sobretudo, não deixa de manter um contraponto crítico, por vezes irreverente e provocador, de uma montagem com o olhar sintonizado em seu tempo e com os avanços de um meta teatro fazendo do palco um articulador de ideias...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo


Hamlet/Cia Teatro Esplendor está em cartaz no Teatro Gláucio Gil/Copacabana de sábado a segunda feira, às 20hs; até o dia 09 de fevereiro.

SOZINHO COM ROMEU E JULIETA : CLÁSSICO SHAKESPEARIANO EM MÁGICA VERSÃO COM EXUBERANTE PERFORMANCE SOLO



Sozinho com Romeu e Julieta. Trupe Ave Lola. Ana Rosa Genari Tezza/Direção Concepcional. Evandro Santiago/Ator. Janeiro/2026. Gus Benke/Fotos.


A Trupe Ave Lola é uma das mais significativas cias teatrais curitibanas destacando-se, há cerca de quinze anos, pelo sotaque original e pela estética diferencial que imprime às suas sempre inventivas criações sob o atuante ideário concepcional de sua diretora Ana Rosa Genari Tezza.

Esta não é a primeira incursão da incrível trupe no teatro de William Shakespeare tendo estreado, em 2024, outra montagem inspirada no clássico do bardo inglês - Sonho de Uma Noite de Verão - usando todo o seu staff tecno/artístico e, como de hábito, sinalizada por um potencial processo criador.

Mas, agora, ousando mais em sua proposta cênica com a adaptação para um só intérprete de todos os principais personagens da mais popular das suas peças, sob singular titularidade e intimismo introspectivo em  Sozinho Com Romeu e Julieta, com luminosa participação de um dos mais reveladores atores da Cia desde sua formação - Evandro Santiago. 

A partir das diretrizes fundamentais da tradução de Bárbara Heliodora mantendo absoluta fidelidade, especialmente nas partes em que o intérprete recorre, através de uma quase leitura dramatúrgica, a passagens versificadas de sua textualidade. Apresentadas paralelamente à subliminar espontaneidade performática conferida por um convicto e carismático ator.


Sozinho com Romeu e Julieta. Trupe Ave Lola. Ana Rosa Genari Tezza/Direção Concepcional. Evandro Santiago/Ator. Janeiro/2026. Gus Benke/Fotos.



Onde a narrativa sintetiza o enredo da tragédia, em muito menos que três horas, através da súbita volta de um jovem ator ao atelier de costura de um antigo teatro em precário abandono, pós sua interdição por questões políticas. E que, imerso num clima de delírio e fantasia, decide retomar o sonho pontuado pela magia teatral, no entorno da pretendida montagem da peça de Shakespeare, sob o ativismo de assumida resistência artística.  

Na plasticidade de uma pictórica ambiência (Daniel Pinha) vai sendo descortinado o mistério daquele espaço em dois planos, com manequins portando figurinos interrompidos (Eduardo Giacomini), não faltando ali uma mesa-armário e uma velha máquina de costura, além de máscaras faciais e bonecos manipuláveis (Eduardo Santos). 

Diante de tudo isto, efeitos de luzes cinéticas (Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski) entre sombras, sugestionam relâmpagos e trovões, enquanto acordes instrumentais melodiosos ecoam dos bastidores. Até serem compartilhados presencialmente entre os dois músicos-autorais (Arthur Jaime e Breno Monte Serrat) e o ator Evandro Santiago que mostra, ali, suas aptidões como afinado cantor, vocalizando o popular  leitmotiv de Nino Rota para o filme Romeu e Julieta, de Franco Zefirelli.

Capaz, assim, de instaurar um consistente clima de encantamento e magia ator/espectador, com as variações de suas tessituras vocais, além das sensoriais modulações de sua psicofisicalidade conferindo caracteres à sua corporeidade gestual que remetem à especificidade conceitual de um teatro coreográfico.

O que denota claramente a sólida base de sua formação como ator, também expert no dimensionamento de uma dramaturgia corporal, valioso resultado de sua passagem pela Escola Angel Vianna e no acompanhamento do valioso legado coreográfico do Balé Teatro Guaíra.

A gramática cênica de Ana Rosa Genari Tezza sabendo fazer transitar a palavra dramatúrgica e a ação corporal em coesivo diálogo com o espaço cênico, na intenção de ressignificar o uso de objetos como réguas, tesoura, máscaras e peças indumentárias na sequencialidade da narrativa, como esclarecedores signos da representação.

As nuances vocais e gestuais na vigorosa fluência da diversidade emotiva de cada personagem interpretado, com entrega de sangue e alma, por Evandro Santiago vai conquistando a cumplicidade e a expectativa de cada espectador. Mesmo já conhecendo bem o trágico epílogo a que conduz aquele proibido amor de dois adolescentes à causa do ancestral enfrentamento de famílias rivais.

O irrepreensível desempenho do ator e a empatia da direção concepcional para uma cativante transposição cênica da Trupe Ave Lola fazem, enfim, de Sozinho Com Romeu e Julieta uma das primeiras grandes surpresas da Temporada Teatral 2026 em palcos cariocas...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo

 

Sozinho com Romeu e Julieta /Trupe Ave Lola/Curitiba  está em cartaz no Mezanino do Sesc Copacabana, de quinta a domingo, sempre às 20h30m, até  01 de fevereiro.

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