AS CENTENÁRIAS : SOB CONTAGIANTE COMPASSO DRAMATÚRGICO/MUSICAL, UMA IRÔNICA E BEM HUMORADA ELEGIA ÀS PROFISIONAIS DO LUTO


As Centenárias. Newton Moreno/Dramaturgia. Luiz Carlos Vasconcelos/Direção Concepcional. Abril/2026. Andrea Nestrea/Fotos.


A ancestral tradição das carpideiras, mulheres contratadas para o ofício dos lamentos fúnebres, inspirou uma peça do pernambucano Newton Moreno tornada um verdadeiro clássico na trajetória do teatro brasileiro de nosso tempo, por sua cativante abordagem de temática bastante cara às tradições populares nordestinas.

E que, por outro lado, nos anos 2007/2009, alcançou através da direção de Aderbal Freire-Filho, com a dupla Marieta Severo e Andrea Beltrão, um dos mais memoráveis sucessos de público e de crítica nos palcos do país, a partir da primeira década deste terceiro milênio.

Enquanto a leitura daquela montagem priorizava menos o score musical, a direção de Luiz Carlos Vasconcelos acentua uma perspectiva estética mais próxima de uma comédia musical, através de uma trilha especialmente composta por Chico Cézar com os instrumentistas, atuando ao vivo, em cena.

Acentuada pela participação de duas atrizes-cantoras com nítidas raízes nordestinas, a baiana Laila Garin e a nortista de Natal, Juliana Linhares. O que confere ao espetáculo uma completa autenticidade regionalista, integrando também dois ilustres paraibanos - o músico Chico Cézar e o ator-diretor Luiz Carlos Vasconcelos, sem deixar de referenciar seu dramaturgo o pernambucano Newton Moreno.


As Centenárias. Newton Moreno/Dramaturgia. Luiz Carlos Vasconcelos/Direção Concepcional. Abril/2026. Andrea Nestrea/Fotos.


A narrativa se estabelece através de duas personagens básicas - as carpideiras centenárias Socorro (Laila Garin) e Zaninha (Juliana Linhares), com intervenções em outros e diversos papéis do ator Leandro Castilho, incluindo a representação da própria Morte.

Preenchendo, sob original plasticidade, a caixa cênica (Aurora dos Campos) com uma armação em madeira capaz de sugerir frontalmente, em posição verticalizada,  tanto o portal de uma igreja como um ataúde, ladeado por tecidos em cores sóbrias com a tipicidade do décor interior de um caixão.

Enquanto o assumido sotaque de brasilidade dos figurinos, por Heloísa Stockler e Kika Lopes, se viabiliza em detalhes artesanais que remetem à arte popular nordestina, vista aqui na plasticidade pictórica de suas texturas e simbolismos, como se estes personagens viessem de um destes tradicionais folguedos folclóricos.

Ressaltados sempre no detalhamento de seus adereços e de um expressivo visagismo (Mona Magalhães) com potenciais efeitos luminares (Elisa Tandeta) sabendo equilibrar tonalidades entre prevalentes tons sombrios, intermediados  por sutis claridades.

Conectados ora a energizados acordes de ritmos populares ora a instantâneos cantos de cordel e incelenças, das ladainhas às rezas lamentosas no entorno do pranteamento da partida definitiva de corpos defuntos, sob uma inédita e cativante trilha autoral de Chico Cézar, dirigida por Elísio Freitas.

Outro destaque desta montagem é o primoroso jogo gestual imprimido por Vanessa Garcia, capaz de repercutir mais ainda o simbiótico encontro de duas atrizes que se expressam na veracidade de uma verbalização regionalista, correspondida por uma corporeidade e por uma vocalização que explora todos os contornos psicofísicos de seus personagens.

E que se estende à diferencial performance, fruto da reconhecida maturidade de Leandro Castilho transitando aqui, com força espontânea, entre o masculino e o feminino de alguns de seus papéis, até a  rompante figuração burlesca da indesejada das gentes, no verso manuelino do poeta Bandeira.

A reconhecida competência de Luiz Carlos Vasconcelos na transposição cênica da peça tragicômica em divertido teatro musical, desafia com o riso, as lágrimas do fingido desalento de duas personagens diante da finitude humana.

Mas, ao mesmo tempo, faz ecoar, em processo memorial, a classificação conferida por Barbara Heliodora, à estreia da montagem primeira e original do espetáculo As Centenárias, então para ela, sem qualquer hesitação crítica, “como o mais alegre do ano”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo


As Centenárias está em cartaz no Teatro Carlos Gomes/Praça Tiradentes, às quintas e sextas, às 19h; sábados e domingos, às 17h; até o dia 10 de maio.

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