O DEUS DA CARNIFICINA : DESAFIANDO A CIVILIDADE HUMANA SOB O TRAGICOMICO SARCASMO DA DUPLA MORALIDADE

 

O Deus da Carnificina. Yasmina Reza/Dramaturgia. Rodrigo Portella / Direção Concepcional. Maio/2026. Fabrício Meliande / Fotos.


Desde a sua estreia experimental em Zurique, 2006, ao sucesso nos palcos da Broadway e nas telas (na versão de Roman Polanski, 2011) O Deus da Carnificina, peça da dramaturga francesa de origem argelina Yasmina Reza, vem despertando polêmicas similares à de sua criação anterior - Arte - na década de 90.

Aproximando-se do teatro do absurdo por seu enredo no sense, indo do humor sarcástico a uma referencial selvageria, para mostrar o que está por trás do comportamento dito civilizatório, especialmente da classe média alta, sempre fazendo questão de proclamar sua hipócrita superioridade no estrato social.

A própria Yasmina Reza assim os define : “Meus personagens são pessoas educadas que pretendem manter a compostura. Mas também são impulsivos, não conseguem manter as regras que impuseram a si mesmos. E é precisamente esta luta contra si mesmo que me interessa”.

Tanto Arte como O Deus da Carnificina tiveram montagens memoriais nos palcos brasileiros, sendo esta última a que volta ao cartaz, depois da premiada versão direcional de Emílio de Melo há dezesseis anos. E, agora,  é a vez  de Rodrigo Portella armar seu olhar diferencial numa representação que traz no elenco - Anna Sophia Folch, a idealizadora do projeto, Angelo Paes Leme, Karina Teles, e Thelmo Fernandes.


O Deus da Carnificina. Yasmina Reza/Dramaturgia. Rodrigo Portella / Direção Concepcional. Maio/2026. Fabrício Meliande / Fotos.



A narrativa aborda o encontro, sob intencionalidade amigável, entre dois casais, cujos filhos menores se envolveram em uma briga num parquinho, sofrendo um deles uma agressão maior.  Tudo, afinal, indo por outro caminho, através de desabafos pessoais e ressentimentos contraditórios, ampliados entre um drinque e outro, por descalabros verbais, vômitos, tensão e tumulto, cumulativos com ameaças de ataques físicos.

A caixa cênica despojada mostrando seus bastidores, pela proposta de Rodrigo Portella assumindo uma concepção minimalista em que a ambiência original, numa elegante  sala de visitas domiciliar, apresenta aqui poucos elementos materiais, enquanto sugere simultaneamente o gramado verde de um lúdico parque, tendo ao fundo um típico carrinho de picolés.

Onde os figurinos (Karen Brusttolin), mais cerimoniais em sua assumida opção por  despropositado referencial a outras épocas, fazem ampliar, sob um sotaque de crítico irrealismo, o ideário cenográfico, no entremeio de uma textualidade dramatúrgica que remete incisivamente à atualidade, com indisfarçáveis efeitos luminares vazados (Ana Luzia Molinari de Simoni). 

Configurando-se ainda o sensorial abstracionismo cênico pelas interveniências de vigorosas sonoridades musicais eletroacústicas entre ruídos e acordes pop-roqueiros, em outra das sempre acertadas criações autorais de Federico Puppi.

A absoluta entrega de um elenco afinado mantem permanentes os sotaques de humor e suspense que envolvem os quatro personagens, inicialmente com sorrisos e  aparente  calma, na defesa do filho agredido e do filho agressor, apontando as razões de um lado e do outro, até o alcance de radicais posicionamentos de defesa e ataque.

A começar por Michel (Thelmo Fernandes) que, sob o efeito ascendente de alguns goles alcoólicos, esquenta os ânimos e revela seu caráter frio ao relatar sobre o hamster do filho que ele jogou na rua, estabelecendo um conflito presencial refletido nas nervosas transmutações faciais de sua mulher Veronica (Karina Telles).

O outro casal mostra um advogado Alan (Angelo Paes Leme), que teima em acreditar em suas convicções pessoais, ao lado de sua mulher Ana (Anna Sophia Folch) cujos surtos melancólicos ocultam uma frustração com tudo e com todos. Integralizados, enfim, em performances exacerbadas estabelecendo um clima psicofísico, provocador de amargo riso e de visceral espanto palco/plateia, atores/espectadores.

Em tempos do politicamente correto usado como absurda justificação de extremadas manifestações de machismo e misoginia, sob a fachada de um patriarcalismo recessivo, a instigante direção/concepcional imprimida por Rodrigo Portella ao  espetáculo, acaba tornando O Deus da Carnificina um espetáculo divertido, reflexivo e, sem dúvida alguma, obrigatório...

 

                                         
                                            Wagner Corrêa de Araújo

 

O Deus da Carnificina está em cartaz no Teatro TotalEnergies/Espaço Adolpho Bloch, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 17h; até o dia 7 de junho.

GRUPO CORPO / 21 : A ESTÉTICA DIFERENCIAL DE UMA OBRA COREOGRÁFICA TORNADA EMBLEMÁTICA NA TRAJETÓRIA DA DANÇA CONTEMPORÂNEA EM MOLDES BRASILEIROS

 

Grupo Corpo / 21 e Piracema. Rodrigo Pederneiras/Concepção Coreográfica/Direcional. Maio/2026. José Luiz Pederneiras/Fotos.


A mais reconhecida das cias mineiras de dança – o Grupo Corpo - completou em 2025 seu meio século de criações, desde sua estreia com duas obras marcantes do coreógrafo argentino Oscar Araiz, a partir de temas do compositor Milton Nascimento e do letrista Fernando Brant. Maria Maria (1975) que, decisivamente, emblematizou o Grupo Corpo por seu incrível alcance criativo, sendo sequenciada por outra titulada O Último Trem (1980).

E simbolicamente a criação coreográfica que ligou, indissoluvelmente, a companhia à assinatura de Rodrigo Pederneiras em moldes absolutamente inventivos seria, exatamente, 21, numa inédita parceria do coreógrafo e do grupo instrumental UAKTI, pelo desbravador ideário composicional de outro mineiro - Marco Antônio Guimarães.

Que tinha sido iniciada por Cantares, do mesmo músico, tornando-se o primeiro experimento com personalista autenticidade de Rodrigo Pederneiras no ofício coreográfico, após uma fase em que transitou por obras de teor mais ligado à base clássica, tais como Noturno (1982), Sonata (1984), Prelúdios (1985), Canções (1987), Missa do Orfanato (1989).

Quando, então, o impacto revelador essencialmente provocado pela reveladora brasilidade de 21, em 1992, estabelece uma original conexão coreográfica-musical de Rodrigo Pederneiras / Grupo Corpo com a MPB, passando por diversos compositores - de Tom Zé, Zé Miguel Wisnik, João Bosco, Arnaldo Antunes, até Caetano e Gil, sem deixar de lado um histórico precursor Ernesto Nazareth, em tendência que é lembrada aqui, com a reapresentação de 21, ao lado da mais recente delas - Piracema.


Grupo Corpo / 21 e Piracema. Rodrigo Pederneiras/Concepção Coreográfica/Direcional. Maio/2026. José Luiz Pederneiras/Fotos.


Onde uma ex-integrante do Grupo Corpo simbolizou na passagem cinquentenária da Cia, a transmutação deste processo evolutivo pela busca de um futuro dimensionamento sucessório. E para isto o espetáculo estabelece um liame entre o passado, o presente e o futuro, ao colocar lado a lado, 21, de 1992, e a inédita Piracema, de 2025.

A primeira como uma exclusiva composição coreográfica de Rodrigo Pederneiras, seguida da outra numa simultânea leitura deste com Cassi Abranches, uma bailarina do Grupo Corpo que retorna, ali, como coreógrafa assistente.

Sob um conceitual estético de permanente transformação pela abertura de inusitados caminhos, tanto no seu dimensionamento coreográfico como musical, por intermédio da trilha inédita de Clarice Assad e de um dúplice traçado coreográfico (Cassi Abranches e Rodrigo Pederneiras) capaz de conceituar uma nova era para o Grupo Corpo.

No seu sugestionar, repercutido especularmente na força da concepção coreográfica, desde um tribalismo indígena percussionista paralelo às sonoridades da natureza, passando por expressivos acordes de sonoridades mais universalistas confluindo, enfim, na modernidade de ritmos eletro acústicos. 

Cujo encontro num mesmo programa remete à época visionária do processo criador de 21. Pela performance dos bailarinos em collants coloridos definindo em detalhes a fisicalidade de cada um deles (Freusa Zechmeister) e no cenário artesanal (Fernando Velloso) com a plasticidade pictórica de uma pintura naif afro-brasileira. Numa caixa cênica, inicializada em obscura ambiência entre sombras e, subitamente, resplandecendo entre efeitos quase psicodélicos.

Com estes contrapontos uma gramática gestual vai se desdobrando ao compasso da energizada partitura polifônica de compassos numéricos com prevalência percussiva, entre cordas, sopros, ecos instrumentais e efeitos acústicos que acentuam, geometricamente, a vigorosa dramaturgia corporal imprimida por Rodrigo Pederneiras a 21.  

Extensivos a uma contínua unicidade de proposta estética que aproxima 21 de Piracema, na perfeccionista e evolutiva coesão de hibrida técnica clássica e ritmos da cultura popular, sob o forte sotaque do gingado de um remelexo de quadris, na pulsão de fluida e contagiante corporeidade, ancorada nos avanços da contemporaneidade coreográfica brasileira...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo

  

21 e Piracema / Grupo Corpo, em instantânea temporada no Teatro Multiplan/Village Mal/Barra da Tijuca, dias 7, 8 e 9, às 20h; até o domingo, 10/05, às 17 h.

AS CENTENÁRIAS : SOB CONTAGIANTE COMPASSO DRAMATÚRGICO/MUSICAL, UMA IRÔNICA E BEM HUMORADA ELEGIA ÀS PROFISIONAIS DO LUTO


As Centenárias. Newton Moreno/Dramaturgia. Luiz Carlos Vasconcelos/Direção Concepcional. Abril/2026. Andrea Nestrea/Fotos.


A ancestral tradição das carpideiras, mulheres contratadas para o ofício dos lamentos fúnebres, inspirou uma peça do pernambucano Newton Moreno tornada um verdadeiro clássico na trajetória do teatro brasileiro de nosso tempo, por sua cativante abordagem de temática bastante cara às tradições populares nordestinas.

E que, por outro lado, nos anos 2007/2009, alcançou através da direção de Aderbal Freire-Filho, com a dupla Marieta Severo e Andrea Beltrão, um dos mais memoráveis sucessos de público e de crítica nos palcos do país, a partir da primeira década deste terceiro milênio.

Enquanto a leitura daquela montagem priorizava menos o score musical, a direção de Luiz Carlos Vasconcelos acentua uma perspectiva estética mais próxima de uma comédia musical, através de uma trilha especialmente composta por Chico Cézar com os instrumentistas, atuando ao vivo, em cena.

Acentuada pela participação de duas atrizes-cantoras com nítidas raízes nordestinas, a baiana Laila Garin e a nortista de Natal, Juliana Linhares. O que confere ao espetáculo uma completa autenticidade regionalista, integrando também dois ilustres paraibanos - o músico Chico Cézar e o ator-diretor Luiz Carlos Vasconcelos, sem deixar de referenciar seu dramaturgo o pernambucano Newton Moreno.


As Centenárias. Newton Moreno/Dramaturgia. Luiz Carlos Vasconcelos/Direção Concepcional. Abril/2026. Andrea Nestrea/Fotos.


A narrativa se estabelece através de duas personagens básicas - as carpideiras centenárias Socorro (Laila Garin) e Zaninha (Juliana Linhares), com intervenções em outros e diversos papéis do ator Leandro Castilho, incluindo a representação da própria Morte.

Preenchendo, sob original plasticidade, a caixa cênica (Aurora dos Campos) com uma armação em madeira capaz de sugerir frontalmente, em posição verticalizada,  tanto o portal de uma igreja como um ataúde, ladeado por tecidos em cores sóbrias com a tipicidade do décor interior de um caixão.

Enquanto o assumido sotaque de brasilidade dos figurinos, por Heloísa Stockler e Kika Lopes, se viabiliza em detalhes artesanais que remetem à arte popular nordestina, vista aqui na plasticidade pictórica de suas texturas e simbolismos, como se estes personagens viessem de um destes tradicionais folguedos folclóricos.

Ressaltados sempre no detalhamento de seus adereços e de um expressivo visagismo (Mona Magalhães) com potenciais efeitos luminares (Elisa Tandeta) sabendo equilibrar tonalidades entre prevalentes tons sombrios, intermediados  por sutis claridades.

Conectados ora a energizados acordes de ritmos populares ora a instantâneos cantos de cordel e incelenças, das ladainhas às rezas lamentosas no entorno do pranteamento da partida definitiva de corpos defuntos, sob uma inédita e cativante trilha autoral de Chico Cézar, dirigida por Elísio Freitas.

Outro destaque desta montagem é o primoroso jogo gestual imprimido por Vanessa Garcia, capaz de repercutir mais ainda o simbiótico encontro de duas atrizes que se expressam na veracidade de uma verbalização regionalista, correspondida por uma corporeidade e por uma vocalização que explora todos os contornos psicofísicos de seus personagens.

E que se estende à diferencial performance, fruto da reconhecida maturidade de Leandro Castilho transitando aqui, com força espontânea, entre o masculino e o feminino de alguns de seus papéis, até a  rompante figuração burlesca da indesejada das gentes, no verso manuelino do poeta Bandeira.

A reconhecida competência de Luiz Carlos Vasconcelos na transposição cênica da peça tragicômica em divertido teatro musical, desafia com o riso, as lágrimas do fingido desalento de duas personagens diante da finitude humana.

Mas, ao mesmo tempo, faz ecoar, em processo memorial, a classificação conferida por Barbara Heliodora, à estreia da montagem primeira e original do espetáculo As Centenárias, então para ela, sem qualquer hesitação crítica, “como o mais alegre do ano”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo


As Centenárias está em cartaz no Teatro Carlos Gomes/Praça Tiradentes, às quintas e sextas, às 19h; sábados e domingos, às 17h; até o dia 10 de maio.

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