CIA PEQUOD / DESEJO: SEDUTORA E SENSUAL PERFORMANCE CÊNICA-COREOGRÁFICA CONECTA A DANÇA AO TEATRO DE ANIMAÇÃO



Desejo / Cia Pequod. Bruno Cezario e Miguel Veliinho / Concepção Coreográfica/Direcional. Abril/2026. Renato Mangolin/Fotos.


Na passagem dos seus 26 anos de criação a referencial Cia Pequod retoma sua fascinante pesquisa estética no entorno das relações entre a linguagem coreográfica e a dramaturgia de animação, já explorada em 2014, com raro brilho e repercussão internacional, pela original proposta de Peh Quo Deux.

Desta vez indo mais longe, num processo de criação alegórica, para decifrar uma temática provocadora de representação da sexualidade em híbrida manifestação cênica, longe de quaisquer limitações conservadoras, sob recíproco e assumido jogo lúdico sensual.

Tornado mais libertador na figuração simultânea destas aventuras sexuais através da corporeidade humana em pictórica ação paralela diante de objetos inanimados. Com marionetes e atores-bailarinos que, sob mecânicos reflexos especulares, recebem um sopro instantâneo de vida erótica na pulsão de um movimento cenográfico imune a  atitudes censórias.

O que remete não só à ancestralidade em celebrações ritualísticas usando bonecos em atos fálicos de iniciação religiosa sob erotizada sacralização. Tendência que foi retomada no século XX, desde os experimentos do cenógrafo inglês Gordon Craig priorizando a utilização de marionetes na livre representação dos desejos humanos.

E nesta diferencial proposta de Miguel Vellinho, contando com a valiosa parceria do bailarino Bruno Cezario, conferindo uma singular estrutura cênica e coreográfica aos três quadros sequenciais que integram o ideário do espetáculo Desejo inserido no conceitual estético da Cia Pequod.


Desejo / Cia Pequod. Bruno Cezario e Miguel Veliinho / Concepção Coreográfica/Direcional. Abril/2026. Renato Mangolin/Fotos.


No primeiro deles, retomando dois personagens-marionetes de performances anteriores da Cia. Enquanto repousa, a voluptuosa cantora Veronica de Vitta tem seu quarto invadido por um vampiro, com quem combinara um lascivo encontro, potencializado por diversas poses eróticas.

No seguinte, em dois tablados que se juntam, duas clássicas figurações do balé “L’aprés-midi d”un faune”, uma das obras que imortalizaram o coreógrafo e bailarino Vaslav Nijinski no apogeu dos Ballets Russes de Sergei Diaghilev. A Ninfa e o Fauno no formato de bonecos caracterizando, com plástico apuro, os personagens originais.

Enquanto o bailarino Bruno Cezario revive a coreografia original dialogando passionalmente com a Ninfa, na peculiaridade de um gestual purista que o tornou exemplar intérprete do Fauno, desde sua  apoteótica estreia neste papel, em irrepreensível leitura coreográfica de Jean Yves Lormeau, para o Balé do Theatro Municipal/RJ.

Contando, no seguimento final, com o presencial performático dos seis esmerados atores-manipuladores (Bruno Cezario, Caio Cesar Passos, Diego Diener, Liliane Xavier, Márcio Nascimento e Mariana Fausto) precedidos por uma simbólica vocalização do soneto de Olavo Bilac Ora direis ouvir estrelas.   

Desdobrando-se na formatação de duplas amorosas, sem preconceitos de identidade sexual, em ousado gestual de corpos transando numa subliminar conexão metafórica do híbrido encontro de figuras mecanizadas e atores-bailarinos, dimensionados por um teatro coreográfico.

A funcional trilha sonora reúne o experimentalismo das harmonias do clássico e do pop/eletrônico pelo britânico Mica Levi, o impressionismo musical de Claude Debussy  e os energizados acordes autorais de Federico Puppi, em ordenamento sequencial.

Onde um intimista preenchimento da caixa cênica (Doris Rollemberg) é completado pelo acerto de um figurino (Kika de Medina), alternando-se entre o black e tonalidades cotidianas, tudo sendo ressaltado pelas sombras e claridades de uma discricionária iluminação (Renato Machado).

O dúplice e consistente ideário coreográfico-direcional (Bruno Cezario e Miguel Valiinho), sobretudo, imprimindo, com a criação de Desejo, novas perspectivas para a Cia Pequod, tornada, assim, cada vez mais exemplar em sua busca investigativa, por um desbravador teatro de animação sintonizado com os avanços das artes cênicas em nosso tempo...

                                              

                                                     Wagner Corrêa de Araújo

 

Desejo/Cia Pequod está em cartaz no Espaço Mezanino/Sesc Copacabana, de quinta a domingo, às 20h30, até 05 de Maio.

BALLET DALAL ACHCAR 5 ANOS: RETROSPECTIVA PRIORIZA UMA ESTÉTICA COREOGRÁFICA ENTRE O NEOCLÁSSICO E O CONTEMPORÂNEO


Cia Ballet Dalal Achcar. Paradise Garden/Vassili Sulich. Abril/2026. Fotos/Divulgação.


Dalal Achcar é um dos nomes mais simbólicos  que vem marcando a história da dança sob formas brasileiras, da segunda metade do século XX ao terceiro milênio, sempre com irreprimível trajetória. Tendo passado por importantes Cias ora como bailarina, coreógrafa ou diretora, além de seu destaque na área didática influindo no incentivo a inúmeras vocações aqui e além fronteiras.

A mais recente formação da Companhia Ballet Dalal Achcar revela uma nova geração que tem brilhado por sua sólida base técnica mostrando talento e aptidões, tanto nas releituras do repertório de maior proximidade ao clássico como nas criações de linguagem mais contemporânea.

Contando além da própria Dalal na direção artística, com um aprimorado staff integrado pela competência de nomes fundamentais ao desenvolvimento de seus projetos, entre outros, da diretora técnica Mariza Estrela e do maitre de Ballet e coreógrafo convidado Eric Frederic, além de um elenco com cerca de vinte bailarinos.

Que aparecem numa performance com nove obras de seu repertório, a começar daquelas assinadas especialmente por Dalal Achcar como Don Quixote e Cardinal, onde um dos Concertos para cravo e orquestra de J. S. Bach serve de inspiração a uma composição em que os acordes barrocos dão vazão a uma corporeidade gestual impulsionada por movimentos dançantes com um sotaque de pura brasilidade.


Cia Ballet Dalal Achcar. Fuga Technic@/Eric Frederic. Abril/2026. Fotos/Divulgação.


No caso da versão do balé Don Quixote em dimensionamento de Suíte, há outra releitura de uma das mais reconhecidas criações de Dalal Achcar, a partir do original de Marius Petipa. Mas que perde cenicamente o impacto de sua referencial montagem completa em 1982, para o Balé do TMRJ, ao tornar-se fragmentária.

Embora não deixe de revelar o excelente preparo técnico de um elenco jovem, especialmente de seus solistas Gabriela Sisto e Fernando Mendonça nas passagens do Grand Pas de Deux e suas variações. E é extamente um outro Pas de Deux, através dos bailarinos Luana Gali e Matheus Benevides, que vai ter um alcance de luminosa sensitividade expressiva na convicta entrega passional de seus dois intérpretes

Desta vez recorrendo ao celebrado intermezzo do inglês F. Delius – O Caminho para o Jardim do Paraíso, de sua ópera A Village Romeo and Juliet, de 1907, transmutando seus dois protagonistas em rústicos camponeses. Funcionando dramaticamente como um leitmotiv de sotaque wagneriano, com sua melancolizada melodia, retratando um amor impossível.

Mas que por intermédio de sua coreografia idílica, foi uma das duas obras que trouxeram uma instantânea fama ao croata Vassili Sulich, ao lado de La Barre, esta com largo uso em academias de dança no Brasil para as suas formaturas (caso inclusive, da que leva o nome de Dalal Achcar, e da Escola Maria Olenewa do TMRJ).

Sob uma mesma linhagem musical capaz de despertar lembranças sobre o passar do tempo, As Horas, trilha minimalista por Philip Glass para um filme de Stephen Daldry, 2002, de similar titulação, torna-se tema para o coreógrafo Eric Frederic, pensada para três bailarinas (Camila Lino, Gabriela Sisto e Thaís Cabral), como personagens de um romance de Virginia Woolf (The Hours)

Tanto a trilha como a sua releitura coreográfica, provocando emoções afetivas e nostálgicas diante de uma projeção cênica abstrata (ideário cenográfico de Marcos Duprat) ampliada nas tonalidades luminares entre sombras, na representação da palavra pela corporeidade fluida das três bailarinas.

E é através de outra criação de Eric Frederic – Fuga Technic@ - que de forma carismática se estabelecem pontes energizadas de ressignificação da corporeidade gestual com um olhar armado na contemporaneidade coreográfica, através da vigorosa exibição performática de corpos em conexão de um coesivo núcleo de 19 jovens bailarinos.  

Ecoando aqui, afinal, a lição de Martha Graham no seu tríptico princípio - respiração, tensão e relaxamento - com a sequencial perspectiva da valoração inventiva de uma dança comunicativa a ser compartilhada entre os bailarinos e todos aqueles que se entregam a este lúdico jogo ...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo



Cia Ballet Dalal Achcar. Cardinal/Dalal Achcar. Abril/2026. Fotos/Divulgação.


Cia Ballet Dalal Achcar – 5 Anos estreou na sexta-feira 10/04, seguido do sábado, 11/04, às 20hs; com encerramento às 17hs, domingo, 12/04.

MULHER EM FUGA : INSTIGANTE DENÚNCIA DRAMATÚRGICA DA VERGONHA SOCIAL PELA HOMOFOBIA E PELA MISOGINIA NA OBRA DE ÉDOUARD LOUIS


Mulher em Fuga. Inspirada na obra de Édouard Louis. Pedro Kosovski/Dramaturgia. Inez Viana/Direção Concepcional. Abril/2026. Nana Moraes/Fotos.


Depois de consistente versão teatral, por Luís Felipe Reis e Julia Lund, partindo de três livros de autoficção do midiático escritor francês Édouard Louis, através da peça  Eddy e A Violência,  é a hora e a vez de Mulher em Fuga, através de um incisiva releitura dramatúrgica de Pedro Kosovski, inspirada em duas obras sobre a mãe do escritor (Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher e Monique Se Liberta).

Continuada pelo inventivo alcance da direção concepcional de Inez Viana para dois convictos atores - Malu Galli no papel titular da mãe Monique e o filho-escritor Édouard interpretado por Tiago Martelli, sendo este, ainda, o responsável pelo ideário do projeto que se tornou, desde a temporada paulista, uma das grandes surpresas do público e de aplauso crítico na atual temporada.

Para quem já teve o privilégio de ler os sete livros de Édouard Louis, reveladora presença da mais recente literatura francesa, torna-se perceptível, numa primeira análise, um signo estético de episódica saga familiar. Onde as narrativas conectam os seus personagens e seus dramas, a começar da infância opressiva do próprio autor, submissa a um pai desajustado pelo alcoolismo e pelas precárias condições sociais, tornado agressivo, homofóbico, misógino, preconceituoso e inútil à causa operária.


Mulher em Fuga. Pedro Kosovski/Dramaturgia. Inez Viana/Direção Concepcional. Tiago Martelli e Malu Galli / Elenco. Abril/2026. Nana Moraes/Fotos.


E é só quando Édouard Louis alcança sua autonomia, reconhecido como escritor já morando em Paris, que acontece uma transmutação absoluta em sua condição existencial e no seu desafio afirmativo como gay. Acontecendo isto a partir da publicação e do sucesso de seus livros com prevalência de escritas de teor confessional, sob denúncia sociopolítica.

Em que todos os familiares se cruzam, com maior ou menor destaque, dois deles enfocando precisamente a sua mãe em fases diversas diante das violências sofridas no ambiente doméstico e diante da não compreensão afetiva da sexualidade gay de seu filho. Sintetizada nas palavras de Édouard Louis : “Queria usar minha nova vida como vingança contra a minha infância, contra todas as vezes em que você e o meu pai fizeram entender que eu não era o filho que desejavam”, em  Lutas e Metamorfoses de uma Mulher.

Enquanto o outro (Monique se Liberta) mostra o resgate de uma trajetória perdida nas turbulências domésticas, quando ela chega ao apartamento parisiense do filho com perspectivas de recomeçar a viver aos 50 anos  - ali “Nada nela lembrava a mulher que fora minha mãe", assim a define o escritor.

E é então que se inicia a jornada cênica de Mulher em Fuga, um diante do outro, dando voz e corporeidade diferencial à personagem, a começar de uma caixa cenográfica (Dina Salem Levy) preenchida pela simbologia de uma extensa mesa retangular.  Que, ao mesmo tempo, traduz tanto a distância como a proximidade entre Monique e Louis, entre o passado e a remissão através de um acerto de contas, cara a cara, longe da vergonha dos tempos idos.

Sob os efeitos luminares (Aline Santini) ora vazados ora sombrios lembrando passagens melancólicas e instantes de superação, pelo relato das conflituosas passagens experimentadas, com intencionalidade redentora, pela recíproca aceitação. Ela portando um moletom cotidiano com tonalidades aquareladas e ele em tons mais sóbrios, o uso indumentário (Ticiane Passos) sugestionando duas situações sociais.

Destacando a atuação conflitante e conciliadora de dois personagens que encontram interpretações idealizadas por intermédio de dois iluminados atores, sinalizados pelo sotaque da revigorante dramaturgia de Pedro Kosovski ecoando nas texturas sempre investigativas da direção concepcional de Inez Viana.

De um lado, pela palavra dramatizada em narrativa de subliminares tonalidades literárias, por um mais discricionário Tiago Martelli no papel do escritor. No contraponto da provocativa performance de Malu Galli como uma mulher reprimida em busca de sua tão ansiada e tardia sobrevivência pela libertação.

Em dúplice envolvência palco/plateia  exprimindo reflexivos apelos de culpa e revolta, derrota e vitória que encontram culminância na emblemática cena sensorial da atriz diante de uma bateria ressoando os acordes tonitruantes da significativa mensagem tema de Wind of Change, dos Scorpions...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo


 

Mulher em Fuga está em cartaz no Teatro Firjan/Sesi /Centro/RJ, quinta e sexta, às 20h; sábado e domingo às 17h; até 29 de março.
          



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