COMUNICADO A UMA ACADEMIA : ALEGÓRICA REFLEXÃO PERFORMÁTICA ENTRE A DOMESTICAÇÃO DE UM PRIMATA E O OFÍCIO TRANSFORMADOR DE UMA ATRIZ

 

Comunicado a uma Academia. Dramaturgia inspirada em Kafka. Cavi Borges e Patrícia Niedermeier/Direção Concepcional. Maio/2026. Cavi Borges/Fotos.


O conto original de Franz Kafka, sob o título de Comunicado a uma Academia, foi publicado em 1917 e tem inspirado versões teatrais, do circuito off Broadway aos palcos brasileiros. Neste aspecto, algumas de suas montagens se tornaram memoriais como a de Moacyr Goés em 1993, tendo como destaque o protagonismo de Ítalo Rossi.

Dando continuidade ao diferencial projeto das peças/filme, Comunicado a uma Academia, com dúplice ideário concepcional do cineasta Cavi Borges e da atriz/bailarina/cineasta Patrícia Niedermeier, realiza uma simbólica temporada na passagem dos 40 anos da Intrépida Trupe, no espaço do conceituado grupo que reinventou a estética das artes circenses em moldes brasileiros.

Contando ainda com o apoio do produtor Marcos Arzua e da valiosa parceria de Beth Martins e Vanda Jacques, integrantes-responsáveis pela Intrépida Trupe, na direção de movimentos de uma corporeidade em estado de risco, através do uso de aparelhos acrobáticos suspensos no tradicional espaço cênico da Cia, em sua sede na Fundição Progresso.

Onde a ocupação cenográfica tem um dimensionamento mimimalista com um telão frontal onde são exibidas cenas fílmicas de obras de Stanley Kubrick a Alan Parker, em criteriosa seleção cinéfila de Cavi Borges, e uma pictórica reconstituição de uma gaiola/prisão do personagem primata que, ao escapar dali, vai se transformando num ser humano.


Comunicado a uma Academia. Dramaturgia inspirada em Kafka. Cavi Borges e Patrícia Niedermeier/Direção Concepcional. Maio/2026. Cavi Borges/Fotos.


Com progressiva substituição de uma indumentária (Márcia Pitanga) com referenciais à tipicidade de um animal da selva para vestes formalmente apropriadas ao relato acadêmico. Sempre com um sotaque discricionário, fugindo do mau gosto e da gratuidade, na figuração pictórica da burlesca metamorfose gestual de um corpo primata em corpo humano.

O personagem kafkiano, na híbrida metáfora autoral, é um ex-símio capturado e ferido por tiro deixando uma cicatriz facial que lhe confere o nome de Pedro Vermelho. Isolado numa jaula fica à mercê do adestrador se vai para o zoológico ou para o exibicionismo circense. Optando, assim, pelas sensações corpóreas do teatro de variedades, estaria mais próximo da condição humana e da sua própria libertação afirmativa como um ser civilizado.

Patrícia Niedermeier no seu papel-solo dá mais uma demonstração de seu talento múltiplo, amplificado numa ação performática como atriz-bailarina, e também como diretora ao lado de seu parceiro de vida e de arte, Cavi Borges, em tantas criações cinematográficas.

Aqui e agora, em outra das bem sucedidas peças-filme, com sua participação cênica, sem deixar de mencionar outros intérpretes em gênero que se aproxima bastante do teatro-coreográfico. Numa representação que revela, antes de tudo, um espontâneo fluxo das atitudes  criadoras à base de sólida carga inventiva.

Em que a própria trilha sonora e os efeitos luminares (na dúplice concepção de Diogo Perdigão) conecta o leitmotiv celebrado pelo filme 2001 Odisséia no Espaço,  nos acordes introdutórios de Assim Falava Zaratustra, de Richard Strauss, tornados emblemáticos na apreensão filosófica do processo evolutivo entre o homo sapiens até o que deveria ser a definitiva consciência de seu domínio superativo do comportamento regido pela bestialidade e selvageria.

Onde o equilíbrio do jogo das luzes jamais interfere em prejuízo das esclarecedoras projeções que completam tanto o significado da narrativa literária-dramatúrgica, como incentivam energizadas passagens dançantes com ritmos eletroacústicos de sotaque psicodélico, remetendo simultaneamente à tensão sensorial e a uma contagiante adesão palco-plateia.

O consistente e provocador encontro de diferentes linguagens artísticas - literatura-teatro-cinema-dança-música-circo - usa elementos oníricos e surrealistas para estabelecer um clima de ficção científica, em que o relato de um ex-primata faz dele um irônico conferencista, diante de uma plateia em que cada espectador representa os membros intelectuais desta imaginária Academia voltada às Ciências Humanas.

Numa dúplice gramática cênica plena de instintiva espontaneidade apesar de baseada num texto assumidamente retórico e reiterativo como um discurso acadêmico, as tonalidades farsescas prevalentes encontram seu contraponto crítico na fusão das cenas fílmicas com a convicta entrega de uma atriz tanto na sua vocalização teatral como no seu expressionismo gestual.

Ao mesmo tempo, Cavi Borges e Patricia Niedermeier expressam sua autoridade cênica-fílmica na transmutação de texto kafkiano sob o desafio da decifração do enigma da “metamorfose”. Podendo, pelo bravo resultado de seu ideário, compartilhar com Kafka a reflexão que serve de epílogo para o conto e a peça:

“Seja como for, no conjunto eu alcanço o que queria alcançar. Não se diga que o esforço não valeu a pena. No mais não quero nenhum julgamento dos homens, quero apenas difundir conhecimentos; faço tão somente um relatório; também aos senhores, eminentes membros da Academia, só apresentei um relatório”...

                   

                                           Wagner Corrêa de Araújo




Comunicado a uma Academia está em cartaz no Espaço Intrépida Trupe/Fundição Progresso/Lapa, aos sábados em sessão única, às 19h30; até o dia 06 de junho.

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