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| Romeu e Julieta. Balé do TM/RJ. Luiz Fernando Bongiovanni / Concepção Coreográfica. Outubro/2026. Daniel Ebendinger / Fotos. |
A célebre história do despertar do amor primeiro,
entre a Julieta Capuleto e o Romeu
Montechio, numa paixão juvenil de proibição transmutada em tragédia, inspirada
a Shakespeare por muitas narrativas literárias ancestrais, continua desafiante na
multiplicidade de suas concepções. Na ópera, no balé, no cinema, no musical, da
tradição à vanguarda, da historicidade à atemporalidade na “mortal loucura” de
um amor sem medidas.
Da fidelidade textual às transgressões, capaz
sempre com sua força imanente de contagiar e sintonizar sem cronologia, entre o
lirismo e o caos, a ordem e o êxtase, quaisquer corações e mentes. Romeu e
Julieta na sua linguagem de poética perenidade, entre nuances de delicadeza e
tensão, tem tal densidade dramática que arrasta o público ao compartilhamento
sensorial da cruel predestinação de seus personagens.
Na diversidade das linguagens artísticas
contemporâneas, as releituras coreográficas
no terceiro milênio da mais adaptada das criações shakespearianas, seguem os
mesmos passos provocadores e polêmicos das concepções de Matthew Bourne, Mats Ek ou de Angelin Preljocaj, sem nenhum
lastro de fidelidade absoluta à clássica trama original, como as de Kenneth
MacMillan para o Royal Ballet ou de John Cranko no Sttutgart Ballet.
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| Romeu e Julieta. Balé do TM/RJ. Luiz Fernando Bongiovanni / Concepção Coreográfica. Outubro/2026. Márcia Jaqueline e Cícero Gomes. Daniel Ebendinger / Fotos. |
Por sua ambientação nos esteios marginais das
urbanidades periféricas contemporâneas e da problemática social, refletidas nas
transposições fílmicas de Robert Wise (a partir da West Side Story, de
L.Bernstein) ou na de data mais recente, por Baz Luhrmann.
E na dança sob moldes brasileiros em criações idealizadas para cias oficiais, como o Balé Teatro Guaíra, onde em 2008 surgiu a primeira das versões do coreógrafo Luiz Fernando Bongiovanni para um Romeu e Julieta com um conceitual conectado a uma abordagem, entre a tradição e a modernidade, onde a temática procura ecoar o preconceito racial e de classes que induz, entre o ódio e o amor, à criminalidade.
E agora, depois de longa ausência nos palcos
cariocas, o espetáculo é aqui retomado, especialmente para o Balé do Teatro
Municipal, desta vez sob a regência de Tobias Volkmann diante da OSTM/RJ,
mantendo na integra a proposta original, desde a coreografia de Luiz Fernando Bongiovanni
à concepção cenográfica de Cleverson Cavalheiro .
Esta não se atendo a um realismo fidedigno para ambientar, em traços atemporais, uma Verona renascentista, mas fazendo um funcional e minimalista design de grandes blocos móveis, sob vários planos capazes de visualizar as diversas ambiências internas e externas da narrativa.
E que alcançam imagéticos efeitos luminares (Carlos Kur) em projeções led que imobilizam mimeticamente os personagens, com sugestionamento frontal de brilhos espaciais nas cenas noturnas de paixão em encontros às ocultas do casal titular, luzes mais vazadas nas cenas coletivas de rua e mais sombrias no epílogo tumular. Destacando ainda os belos figurinos e adereços (Paulinho Maia) longe de um absoluto rigorismo à época da trama.
A artesanal direção musical de Tobias Volkmann mais
uma vez sabendo decifrar uma partitura
(Prokofief) plena de variações sonoras entre nuances de delicadeza e tensão, no
entremeio de acordes, ora energizados e quase dissonantes do compositor, no
contratempo mais lírico das cenas
amorosas.
O elenco mostrando fluidez de movimento tanto nas passagens coletivas como nos solos e encontros grupais, não perdendo coesiva correspondência a coadjuvante representação de cidadãos e da Corte saindo-se bem, tanto no baile de máscaras e nas cenas de lutas ou de atuações mais humorizadas como a da Ama confrontada ou as posturas dramáticas das três Parcas do Destino, introduzidas como reveladora inovação pelo ideário de Bongiovanni.
Com um destaque mais que especial para a performance de força carismática do casal protagonista, na coesiva quimica emotiva e no timing gestual de Cícero Gomes e Marcia Jaqueline nos papéis titulares, com uma adequada e elegante fisicalidade gestual/coreografica, fazendo dançar tanto as palavras de declaração amorosa do encontro furtivo na cena do balcão, como a expressão da dor e da tragédia que os une no epílogo.
Tudo confluindo em descobertas coreográficas expressivas, numa peculiar linguagem estética psicofísica, desde espontâneas intervenções vocais a instantâneo transitar de bailarinos pela plateia, como um jogo cênico descontraído, mas sem nunca avançar demais desqualificando o esteio clássico da obra,sabendo dosar os recursos histriônicos, com sutis avanços de comicidade, paralelos a elegante postural dramático...
Wagner Corrêa de Araújo
Romeu e Julieta / Corpo de Baile e Solistas/ OSTM, em instantânea temporada, entre 07 e 11 de outubro, em horários diversos, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.














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