PIAF - EU NÃO ME ARREPENDO : VISCERAL CONEXÃO ENTRE O PAPEL DRAMÁTICO E A PERFOMANCE VOCAL


Piaf - Eu Não Me Arrependo. Newton Moreno e Alessandro Toller/Dramaturgia. SérgioMódena/ Direção Concepcional. Novembro/2026. Caio Gallucci/Fotos.


A emblemática interpretação conferida por Bibi Ferreira a Piaf - A Vida de uma Estrela da Canção, desde 1983 até os últimos anos de sua trajetória na segunda década do terceiro milênio, variando entre o formato teatral e o de um show itinerante, estabeleceu um desafio para qualquer atriz brasileira que se dispusesse a repetir tal feito.

O que acaba de acontecer através do luminoso protagonismo titular da atriz-cantora - Laila Garin - em Piaf - Eu Não Me Arrependo, sob uma inédita concepção dramatúrgica de Newton Moreno e Alessandro Toller, no lugar da peça original (1978), pela autora inglesa Pam Gems, tornada então um fenômeno nos palcos mundiais.

Desta vez, reunindo um grande elenco com nomes estelares do teatro musical da última geração, sob um sempre acurado comando concepcional do diretor Sérgio Módena, com assistência de Gustavo Wabner e Rafael Michalichen. Completando-se a ficha técnica com o roteiro musical de Cláudia Elizeu e a cenografia de André Cortez.

Por intermédio de uma caixa cênica (André Cortez) ocupada por um sugestivo gradeamento frontal fixo que, na plasticidade de sua transparência, torna-se um design propício para o dimensionamento da diversidade de ambientações parisienses, indo das cenas de rua e interiores, ao imaginário de circos e cabarés a espaços referenciais, como o Olympia. Sob luzes (Wagner Antônio), vazadas ou focais, com efeitos pictóricos, ampliando o clima emotivo-dramático do espetáculo.


Piaf - Eu Não Me Arrependo. Newton Moreno e Alessandro Toller/Dramaturgia. SérgioMódena/ Direção Concepcional. Novembro/2026. Caio Gallucci/Fotos.



Os figurinos, com o habitual bom gosto de Karen Brustollin, em suas diferenciais nuances referenciam, desde indumentárias cotidianas da época de Piaf como cantora de rua recorrendo a bordéis, a trajes com tonalidades de maior elegância nas passagens em que a cantora é transmutada numa celebridade.

Tudo sendo acentuado por um detalhado visagismo (Felician San Roman), entre perucas e maquiagem (Keila Santos) capazes de remeterem a fotos e imagens de Piaf, numa absoluta e mágica incorporação psicofísica de Laila Garin ao papel, com seu transcendente processo de entrega à representação.   

Potencializada pela carismática envolvência de sua tessitura vocal sustentada pela autenticidade de um timbre linguístico perfeccionista, legado de sua ascendência francesa paterna e de suas idas e vindas à França. Que no repertório de clássicos de Edith Piaf estabelece um processo sensorial palco-plateia, com imersiva identificação reflexiva-especular.

Onde o desenvolvimento narrativo da trama é estruturado com paralelo sequenciamento de canções não em rígida ordem cronológica, mas servindo como substancial apoio a uma maior captação sensitiva dos inúmeros personagens com os quais Piaf conviveu. No simbólico acompanhamento de uma orquestra feminina com prevalência de cordas, integrada por um afinado naipe de instrumentistas na regência de Cláudia Elizeu.

Em anos de dor, miséria e prostituição, no entremeio de trágicas acontecências como cantar nas esquinas para conseguir enterrar a filha única. Ou, mais tarde, quando Piaf perde numa fatalidade aérea um de seus mais ardorosos amantes – o pugilista Marcel Cerdan (Patrick Amstaldem). Para convergir do êxito artístico aos sórdidos episódios de domínio pelos vícios das drogas e da morfina, precipitando uma decadência física que apressaria seu fim.

Atravessando sua conturbada jornada artística-existencial, entre nomes significativos, aparecem em convictas atuações atorais, a dedicada amiga Marlene Dietrich (Bruna Pazinato), Ives Montand (Djavan Van de Fliert) um dos seus iniciais parceiros amorosos, e o último deles Theo Sarapo (Gabriel Vicente). Além destes, vale ressaltar que um de seus maiores admiradores foi o poeta Jean Cocteau (Claudio Lins), para quem idealizou sua peça O Belo Indiferente (1940).

E que por uma destas casualidades enigmáticas do destino, pouco depois de gravar um tributo radiofônico, exatamente no dia do funeral de Piaf no Père Lachaise, morre, subitamente, poucas horas depois : “Edith Piaf faleceu, consumida por um fogo que só faz aumentar sua glória(...)É o barco que acaba de soçobrar. É o meu derradeiro dia sobre esta terra”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo


Piaf – Eu Não Me Arrependo está em cartaz no Teatro Riachuelo/Cinelândia/RJ, de quinta a domingo, em horários alternativos; até o dia 29 de novembro.

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