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| Grupo Corpo / Lecuona. Rodrigo Pederneiras / Concepção Coreográfica. Setembro/2026. José Luiz Pederneiras/ Fotos. |
Na continuidade de um signo estético que se tornou característico
na trajetória do Grupo Corpo, depois de sua mais recente criação coreográfica Piracema,
comemorativa dos cinquenta anos da mais celebrada companhia mineira de dança,
está de volta uma das obras mais diferenciais de seu repertório – Lecuona,
original de 2004.
A começar pela sua própria trilha que, além de não ser
especialmente criada para a Cia, faz uso de gravações originais do pianista e compositor cubano Ernesto Lecuona (1895-1963) um nome
referencial da música naquele país, ao selecionar alguns de seus clássicos
conectados à tipicidade melódica romântica anos 30 aos 50.
Reverenciada por Caetano Veloso em Fina Estampa, a obra de Lecuona
tem um alcance com cerca de quase quinhentas obras, lembrando que este acervo
se estende da música latina a trilhas para o cinema americano, o que lhe proporcionou
até um Oscar. E que em seu período de
formação, passando por Nova York, chegou a estudar com Maurice Ravel na França,
tendo escrito também peças de caráter mais sinfônico.
Onde o seu lado popular, estruturado a partir de acordes com temática melodramática, sinalizada por paixão e sensualidade, domínio e submissão, amor e abandono, lembrança e melancolia, direcionando um encontro de casais no dimensionamento de formas dançantes, sob a prevalência de boleros, tangos e valsas, é representado pelo Grupo Corpo
Gêneros que após o seu apogeu noturno nos clubes, bares e
cabarés da época, passaram a ser cultuados, sob a denominação generalizada de
danças de salão, em estúdios e academias, com
a sequencial eclosão de novos e mais energéticos ritmos dançantes
surgidos após a eclosão do rock.
E na releitura coreográfica imprimida por Rodrigo Pederneiras,
a inspiração em melodramáticos acordes para expressar temas quase novelescos
sobre impulsos amorosos, ao mesmo tempo, traduz o contraponto afetivo de uma
corporeidade gestual de forte apelo psicofísico.
Destacando-se ainda os figurinos idealizados então por Freusa
Zechmeister no entremeio de um tratamento
aquarelado acentuando-se na prevalência de tonalidades rubras e negras, equilibradas entre
o verde escuro e o azul. Indo ora de trajes esportivos ora mais formais, aos
quais não faltam sapatos masculinos em verniz e saias femininas esvoaçantes, ate o o despontar sequencial de cada um dos pares, na valsa do epílogo, em trajes
brancos dos vinte bailarinos refletidos num fundo sugerindo espelhos.
Que, então, substitui a anterior ambiência pictórica entre
sombras por luzes resplandecentes, numa proposta cenográfica de Paulo Pederneiras
que aumenta o envolvimento imersivo de todo elenco como se fosse um só corpo e
um só casal.
Enquanto a coreografia que abre o programa – Piracema,
de 2025, como primeira parceria criativa de Rodrigo Pederneiras e a ex-
bailarina do Grupo Corpo - Cassi Abranches, agora no oficio de coreógrafa
assistente da Cia, vai mais longe em sua proposição inventiva com o olhar
armado na dança contemporânea.
Abrindo novas perspectivas ao quebrar não só o hábito da
apresentar obras com similar origem autoral. Incluindo-se aí, mais uma vez, um sotaque
de brasilidade não só por sua titulação temática-ecológica como pela sua inédita
trilha sinfônica/eletrônica por Clarice Assad.
Por outro lado, dramaturgicamente a coreografia Lecuona,
por vezes, ressalta com despretensiosa ironia subliminar as variações emotivas
neste corpo a corpo de casais apaixonados. Remetendo a um dos versos
melodramáticos de Ernesto Lecuona : No vivo desde aquel dia em que te vi/Porque nunca
he dejado de pensar em ti.
Das mutações faciais aos gestos impulsivos de recusa ou de
entrega absoluta, sempre pontuados com
leveza, bom humor e o lirismo de uma assumida simplicidade resgatada pela envolvência
de outro exemplar legado do Grupo Corpo...
Wagner Corrêa de Araújo
O Grupo Corpo está apresentando Piracema e Lecuona, no TMRJ,
de quarta a sábado, às 20h; domingo, às 17h; até o dia 06 de setembro.

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