![]() |
| Incondicionais. Ana Teixeira/Stephane Brodt / Dramaturgia e Direção Concepcional. Julho/2026. Renato Mangolin/Fotos. |
As quase três décadas de surgimento do Amok, em 1998, pelo
ideário dramatúrgico do casal Ana
Teixeira e Stephane Brodt, com assumida prevalência de um teatro documentário inserido
pelo forte apelo da denúncia social, fizeram desta Cia uma das mais conceituais no universo teatral brasileiro, com
repercussão além fronteiras.
Na preservação de seu legado estético ancorado por uma dramaturgia
dialética, reveladora dos estigmas de uma violência social e política que
macula o próprio sentido da condição humana. Desde o iniciante Cartas de
Rodez, sequenciado em projetos corajosos, como a Trilogia da Guerra e “África”,
além de outros mais recentes – do tão oportuno Bordados ao impactante Furacão.
Imerso na incompreensão do abandono a que é relegada a condição
feminina prisional por uma sociedade que veda, no sentido inverso, os olhos da justiça, o Amok traz agora aos
palcos a instigante peça Incondicionais em mais uma das parcerias
autorais de Ana Teixeira e Stephane Brodt.
Que além de uma temática singular e bastante rara nesta forma
de abordagens dramatúrgicas, em sua grande maioria, privilegia o prisioneiro
masculino, e aqui, como de hábito na Cia, resultante de um longo processo de
criação tanto do roteiro, como de seu dimensionamento analítico para um afinado quarteto atoral feminino.
![]() |
| Incondicionais. Ana Teixeira/Stephane Brodt / Dramaturgia e Direção Concepcional. Julho/2026. Renato Mangolin/Fotos. |
Desde a pesquisa de algumas publicações fundamentais sobre
esta realidade em nosso país, tais como obras da lavra de mulheres escritoras (Débora
Diniz, Nana Queiroz, Barbara Musumeci Soares e Iara Ilgtenfritz), completando-se
com o livro “Prisioneiras”, de Drauzio Varella, paralelo ao eco coletivo de
outras vozes, pró-compreensão mais digna do sofrido drama que afeta as
encarceradas.
A entrega sensorial das cinco atrizes aos personagens, nos
métodos de treinamento dramatúrgico psicofísico adotados pela dúplice direção
concepcional da peça faz com que cada uma delas (Daí Ramos, Luciana Lopes, Sirlea
Aleixo e as filhas Taty e Thay Aleixo), com sangue e alma, incorpore aos papeis
assumidos a experiência de suas próprias vivências.
Como mulheres-atrizes negras, acostumadas ao desafio
enfrentado num cotidiano preconceituoso quanto à cor e ao seu status social
originário, referenciado especialmente na afirmativa resistência da trajetória
de Sirlea Aleixo, cujo vigoroso empenho vocacional transcendeu seu talento,
tornando-a vencedora na categoria Melhor Atriz pelo júri paulista do Prêmio
Shell de Teatro 2025.
O preenchimento cenográfico (Ana Teixeira) de um espaço arena
acontece com bancos e mesas que em sua mobilização alcançam outros significados,
nas alternativas funções das cinco atrizes, ora como prisioneiras ora como psicólogas
e assistentes sociais, incluídas aí cenas mais intimistas no refeitório, em passagens
confessionais que propiciam um sotaque mais leve.
Permeado por conversas risíveis entre elas e o improviso vocal de canções em compasso de um
rap, trajando uniformes de padrões
carcerários ou os chamados jalecos brancos, no contraponto do testemunho de
dolorosos depoimentos e questionamentos psicológicos profissionais, em figurinos
devidamente idealizados por Stephane Brodt.
Onde a unicidade gestual da direção de movimentos tem um
consistente referencial de teatro coreográfico, sendo tudo ressaltado pelos
efeitos luminares (Renato Machado) mais naturalistas, entre claridades vazadas
longe de qualquer sotaque sombrio, apesar de ser frontalizado por uma grade que
remete à claustrofobia das celas.
A autoridade cênica das concepções dramatúrgico-direcionais
que o Amok teatro realiza, através de sua aprimorada dupla de
artífices (Ana Teixeira e Stephane Brodt) enaltecendo, sempre, a tomada de posição
através da denúncia que conduz à reflexão, mais uma vez se materializa na peça Incondicionais.
Pela força arrasadora de um espetáculo sólido concebido, antes
de tudo, para esclarecer pelo alcance da cumplicidade da plateia, materializando,
sobretudo, o pensar de Peter Weiss na grande lição do teatro documentário:
“A realidade, seja qual
o for o absurdo com o qual ela se mascara, pode ser explicada em seus mínimos
detalhes”...
Wagner Corrêa de Araújo
Incondicionais/Amok Teatro está em cartaz no Sesc/Espaço Arena/Copacabana, quintas e sextas, às 20h; sábados e domingos, às 18h; até o dia 19 de julho






.jpg)















.jpeg)