CIA BOCA DO MUNDO / FILHO DA MARGEM : RITUAIS COREOGRÁFICOS SOB O LEGADO FÍSICO-ESPIRITUAL DA CULTURA YORUBÁ


Filho da Margem / Cia Boca do Mundo. Márcio Cunha/Direção Coreográfica /Concepcional. Outubro/2026. Carol Pires e Leonardo Miranda/ Fotos.


O artista plástico, ator, bailarino e coreógafo Márcio Cunha vem imprimindo às suas incursões plásticas, desdobradas em espetáculos coreográficos, desde o tríptico inicializado por Frida, Basquiat e Rosario, uma autoral pulsão integrativa de elementos da dança, da performance teatral e do processo das instalações. Com prevalência em energizada imersão psicofísica de seu idealizador e intérprete na trajetória de criação do outro artista focalizado.

Transmutando em outra trilogia, desta vez inspirada no  processo investigativo da corporeidade gestual com sua permanente e incisiva imersão no mágico universo dos Orixás. E, ao mesmo tempo, conceitualizando uma inédita denominação para a sua Cia, bem a propósito tornada Boca do Mundo.

Inicializada em sua nova fase pelas propostas de decifração da enigmática simbologia física, espiritual e religiosa dos terreiros, dos jogos de búzios e da capoeira, legado  de uma ancestralidade identificando-se com as crenças populares do sincretismo afro-brasileiro.

Dimensionando-se com o espetáculo Pipoca e sequenciada por Boca do Mundo, chegando, agora, à complementação integrativa do tríptico através do mais recente deles, Filho da Margem que, depois de um apurado e longo processo de elaboração, acaba de alcançar os palcos cariocas em sua definitiva temporada de estreia. 


Filho da Margem / Cia Boca do Mundo. Márcio Cunha/Direção Coreográfica /Concepcional. Outubro/2026. Carol Pires e Leonardo Miranda/ Fotos.


Com ideário original de Márcio Cunha para mais uma de suas criações que podem ser classificadas como um teatro coreográfico, provocador de expectativas tanto para seus mentores como para o devido compartilhamento do público e da opinião crítica,  pelas suas características de encontro diferencial entre linguagens artísticas, indo além de seu teor de priorização de uma obra meramente coreográfica.

Contando com a valiosa e sempre oportuna participação das artistas-bailarinas Carla Stank e Joana Carelli como intérpretes criadoras numa representação, simbológica e ritualistica, do encontro entre o elemento feminino  e masculino, aqui, por ele próprio - Márcio Cunha - integrando-se no exercício presencial do seu reconhecido ofício coreográfico, paralelo à artesania de sua direção geral.

Onde a ocupação do espaço cênico faz com que este se transforme numa instalação plástica, por um design de arte que converge ali elementos característicos dos terreiros de candomblé, com seus orixás conectados à condição humana dos três bailarinos-performers (Márcio Cunha, Carla Stank, Joana Carelli). Sendo ressignificados, coreograficamente, pelo atravessamento da matéria fisica da corporeidade em movimento, com a fluidez reflexiva da espiritualidade transmitida pelas crenças místicas/míticas  afro-brasileiras.

Sob precisos efeitos luminares (Juca Baracho) que potencializam em suas tonalidades a tipicidade ambiental de um paisagismo de sacralidade ritualística, ampliado por um imaginário plástico-escultórico e indumentárias brancas. Por vezes recobertas por traçados de saias e turbantes de palhas, penas de aves, fragmentos de galhos de árvores remetendo a elementos da natureza.  Florestas e rios que podem ser ouvidos por intermédio dos ruídos de águas no entremeio de cantos de pássaros, pela inventiva trilha sonora em dúplice realização  (Leonardo Miranda e Márcio Cunha), dando um necessário recado de preservação ecológica.

Toques percussivos alternam a energização de uma corporeidade brincante com passagens, ora rítmicas ora calmas, para um quase silencioso gestual de transe dos intérpretes-bailarinos, como se ali estivessem sendo possuídos por suas divindades, na acentuação de uma consciência interior visualizando-se em expressões faciais, adornadas com objetos de invocação, e na suavidade dos improvisos de movimentos de mãos, braços e pernas.

O espetáculo coreográfico Filho da Margem, através da Cia Boca do Mundo, com seus convictos intérpretes-criadores entregando-se de corpo e alma a uma proposta  que,  pelo seu direcionamento estético propicia uma dança física e espiritual de manifestação dos Orixás, certamente não deixando de referenciar uma emblemática reflexão da  coreógrafa Martha Graham: ""O palco é um lugar comum, mas todo solo onde o bailarino pisa é lugar sagrado"...


                                          Wagner Corrêa de Araújo




Filho da Margem / Cia Boca do Mundo está em cartaz no Espaço Mezanino/SESC/Copacabana, quinta e sexta, às 20:30h; sábado e domingo, às 19h; até 08 de novembro.

CRUISE, MINHA ÚLTIMA NOITE NA TERRA : PÂNICO E CATARSE NA TRAJETÓRIA DA COMUNIDADE LGBTQIAPN+


Cruise-Minha Última Noite na Terra. Jack Holden/Dramaturgia. Orlando Caldeira/Direção Concepcional. Em cena, Igor Cosso. Outubro/2026.Nico Rocha/Fotos.


"Não morremos de Aids. Morremos de preconceito. A discriminação mata mais rápido que o próprio vírus”. Sintomática expressão da intolerância social que remete a um reflexivo pensamento do escritor e ativista brasileiro Herbert Daniel, simbolicamente também uma das vítimas fatais da mordazmente classificada como “peste gay”.

Transmutando toda euforia da libertária revolução sexual, arduamente conquistada em anos de luta, num discriminatório veredito sobre a doença que já naquela época (anos 80/90) inspirou peças emblemáticas como Angels in America, de Tony Kushner, além da criação literária e cinematográfica com o mesmo tema.

O que continua em nossos dias pela última geração de dramaturgos como o inglês Jack Holden. Este último um jovem ator de 36 anos e que, depois de várias incursões nos palcos, telas e na tevê, estreou como autor, em 2022, com a peça Cruise-Minha Última Noite na Terra  indicada ao Laurence Olivier Awards, na categoria “Best New Play”.

E que, agora, chega aos palcos brasileiros através do ideário de um outro ator de aproximada faixa etária Igor Cosso, este um entusiasta mineiro de BH, partidário da causa gay e radicado no RJ, onde tem desenvolvido com empenho sua trajetória teatral, iniciada na segunda década do milênio.


Cruise-Minha Última Noite na Terra. Jack Holden/Dramaturgia. Orlando Caldeira/Direção Concepcional. Em cena, Igor Cosso. Outubro/2026.Nico Rocha/Fotos.



Em Cruise-Minha Última Noite na Terra, sob acurada tradução de Rodrigo Nogueira, ele protagoniza um monólogo onde  dá voz a mais de trinta personagens, em espetáculo que reúne uma qualitativa equipe, a começar por sua direção concepcional - Orlando Caldeira, tendo como assistente  Olívia Gold.

A peça tem um forte sotaque autobiográfico ao abordar o período em que Jack Holden, tendo completado 22 anos, atuava num trabalho voluntário de apoio LGBTQ+ na Switchboard. Quando recebeu um chamado telefônico de um homem mais idoso Michael, relatando a passagem de morte, exatamente naquela data, de seu parceiro vitimado pela Aids.

E foi, a partir daí, que ele desenvolveu uma temática de apelo melancólico que é superada pela vontade de viver, sob uma sensorial existência conectada a um trágico estigma. Sendo eclipsada pela euforia dos encontros, amorosos, no entremeio das agitadas noites de disco music no Soho londrino anos 90, completando-se em processo metafórico como alegres viagens pelos espaços siderais da mente.  

O espaço cênico por Vino Fragoso, completado pela irradiante iluminação (Pedro Carneiro), é preenchido com a funcional plasticidade de um gradeamento frontal que, sob psicodélicos efeitos visuais e sonoros, sugere uma pista de discoteca. Ampliada pela seleção de conhecidos hits musicais no design de som  (Fábio e Fael Mondego) evocando percussivos acordes da house music que se tornaram marcas registradas dos anseios da geração LGBTQ+ em compasso dançante.

Igor Cosso, com variações indumentárias (Tiago Ribeiro), em tonalidades ora reluzentes, remete à tipicidade comportamental gay, desde um inicio mais discricionário ao atender os apelos telefônicos, a uma vibrante e espontânea corporeidade gestual, orientada pela consultoria coreográfica de Heron Leal.

Sabendo transitar por mais de trinta caracterizações, sob diferenciais modulações vocais, atuando como um contador de histórias queer para propiciar um necessário tributo e um afirmativo memorial. No entorno de Michael e seu desdobramento atemporal, na tipicidade de personagens do universo gay, em convicto alcance para um carismático compartilhamento ator/espectador.

Tudo isto repercutido na envolvência que uma segura direção concepcional (Orlando Caldeira) acaba trazendo a um espetáculo, de dimensionamento minimalista, sob tratamento cênico cativante e, ao mesmo, carregado de reflexiva envolvência, numa jornada que conecta o legado universal gay de duas gerações.

Valendo lembrar aqui, como é fundamental esta lição para o desafio de enfrentar um cotidiano de conservadorismo  recessivo, na permanente ameaça de uma expansiva extrema direita, aqui e acolá, sempre capaz de atitudes de uma insensibilidade cruel, exposta com rara coragem, no epitáfio tumular de um ex integrante da Força Aérea americana, Leonard Matlovich, morto pela Aids em 1991:

“Um veterano gay do Vietnã - Quando eu era militar, eles me condecoraram por matar dois homens - e me expulsaram por amar um”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo


Cruise – Minha Última Noite na Terra está em cartaz no Teatro Gláucio Gil/Copacabana, de sexta, sábado e segunda, às 20h; domingo, às 19h; até 02 de novembro.

BOA NOITE, MÃE : ENTRE O PODER CEREBRAL DE UMA MENTE SUICIDA E O EMOCIONAL CONVENCIMENTO MATERNO




Boa Noite, Mãe. Marsha Norman / Dramaturgia. Leonardo Netto / Direção Concepcional. Outubro / 2026. Nil Caniné / Fotos.



A escritora e dramaturga americana Marsha Norman foi vencedora do Prêmio Pulitzer, em 1983, com sua peça Boa Noite, Mãe (‘Night, Mother) que chegou aos palcos britânicos, estreando em 1985. Sendo representada desde então em diferenciais versões sem nunca perder o seu ideário dramatúrgico original, quatro décadas depois.

Que é preservado em mais uma das artesanais traduções de José Pedro Peter, agora, para os palcos cariocas sob a direção concepcional de Leonardo Netto, contando, aqui, com a assistência de Patrícia Regina de Faria. E promovendo o encontro de dois representativos nomes femininos do atual teatro brasileiro - Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta.

Para a própria Marsha, ‘Night, Mother” pode ser dimensionada pela proximidade de uma “história de terror” ao possibilitar o confronto psicofísico entre duas mentes conturbadas diante da iminência do obsessivo propósito suicida de uma delas. Valendo ressaltar que a dramaturga acabou se destacando mais, em sua trajetória teatral, com uma sequencia de premiados musicais do circuito Broadway.

Na transcorrência de uma noite decisiva de questionamentos e acerto de contas, do pânico de uma mãe, entre a culpa e o dever, à intransigência da filha, ciente de nunca ter sido compreendida. Thelma e Jessie, respectivamente personificadas pelo empenho da potencial maturidade geracional de Ana Beatriz Nogueira para o personagem assumido e da reveladora convicção de Andréia Horta na entrega performática ao sotaque mais insubmisso de seu papel.



Boa Noite, Mãe. Marsha Norman/Dramaturgia. Leonardo Netto/Direção. Com Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta. Outubro/2026. Nil Caniné/Fotos.


Onde a narrativa se estabelece no confronto dialogal das duas personagens, marcado por momentos discursivos de uma expectativa, ora nervosa, ora depressiva, no entremeio de instantâneas demonstrações de afeto ou de susto quando Jessie revela o conteúdo de uma caixa escondida, trazida de uma espécie de sótão, exibindo a arma que pertencera ao seu pai.

O aparato cênico (Ronald Teixeira) reproduz, em tonalidades mais realistas, uma copa-cozinha, com mesa e armário, completada por uma porta frontal, um corredor e uma escada lateral, esta conduzindo a um plano superior que sugestiona um sótão empoeirado ocupado por caixas.

Em dúplice realização de Ronald Teixeira, sob sua direção de arte, são também dele os figurinos cotidianos, sob contribuição criativa por Flávio Graff, delineando, assim, as duas atrizes com seu presencial constante, salvo pequenas idas e voltas de Andreia Horta, dirigindo-se ao que sugere ser uma cozinha não visível ao público.

Efeitos luminares (Ana Luiza Molinari de Simoni) mais vazados contribuem para propiciar o clima sensorial doméstico de um cômodo residencial do dia-a-dia, sem perspectivas para personagens confinadas. Ampliado pela percepção de um silencio cênico preenchido apenas pelas falas, sem recorrência a quaisquer interveniências sonoras/musicais para amenizar um constante clima tenso.  

Outro dos acertos de uma sempre segura concepção cênico-direcional de Leonardo Netto é transmutar ao palco a mesma coloquialidade, alcançada em sentido pleno pela escolha das palavras e das frases espontâneas, utilizadas pela versão em português por José Pedro Peter.

Imprimindo, ao mesmo tempo, uma autenticidade naturalista no confronto de irônicas passagens no entremeio das duas personagens tornadas, ao mesmo tempo, motivo de um inquietante senso de humor, carregado de dúvida sobre o que pode decorrer daí.

Enquanto avassaladoras lembranças de segredos e mentiras de uma família disfuncional são exploradas, em paralelo tanto por uma mãe ressentida com o frio distanciamento do marido falecido, como por uma  filha isolada desde a infância com surtos epiléticos e que replica amargamente - “Eu sou é o que esta criança se tornou”.  

Além do exemplar dominio da representação  por Leonardo Netto, sob uma estética de prevalente testemunho confessional, na vigorosa interpretação de Ana Beatriz Nogueira e de Andréia Horta revelando um presencial dramático irradiante, o que, afinal, só poderia resultar mesmo neste  privilegiado instante do teatro como um catalisador de idéias...


                                                       Wagner Corrêa de Araújo



Boa Noite, Mãe, está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h; até 25 de outubro.

BALÉ DO THEATRO MUNICIPAL / ROMEU E JULIETA : SOB UMA DIFERENCIAL CONCEPÇÃO COREOGRÁFICA IDEALIZADA PARA O BALÉ TEATRO GUAÍRA

Romeu e Julieta. Balé do TM/RJ. Luiz Fernando Bongiovanni / Concepção Coreográfica. Outubro/2026. Daniel Ebendinger / Fotos.


A célebre história do despertar do amor primeiro, entre a Julieta Capuleto e o Romeu Montecchio, numa paixão juvenil de proibição transmutada em tragédia, inspirada a Shakespeare por muitas  narrativas  literárias ancestrais, continua desafiante pela multiplicidade de suas concepções. Na ópera, no balé, no cinema, no musical, da tradição à vanguarda, da historicidade à atemporalidade na “mortal loucura” de um amor sem medidas.

Da fidelidade textual às transgressões, capaz sempre com sua força imanente de contagiar e sintonizar sem cronologia, entre o lirismo e o caos, a ordem e o êxtase, quaisquer corações e mentes. Romeu e Julieta na sua linguagem de poética perenidade, entre nuances de delicadeza e tensão, tem tal densidade dramática que arrasta o público ao compartilhamento sensorial da cruel predestinação  de seus personagens.

Na diversidade das linguagens artísticas contemporâneas, as releituras  coreográficas no terceiro milênio da mais adaptada das criações shakespearianas, seguindo os mesmos passos provocadores e polêmicos das concepções de Matthew Bourne, Mats Ek ou de Angelin Preljocaj, sem nenhum lastro de fidelidade absoluta à clássica trama original, como as de Kenneth MacMillan para o Royal Ballet ou de John Cranko no Sttutgart Ballet.


Romeu e Julieta. Balé do TM/RJ. Luiz Fernando Bongiovanni / Concepção Coreográfica.  Outubro/2026. Márcia Jaqueline e Cícero Gomes. Daniel Ebendinger / Fotos.


Por sua ambientação nos esteios marginais das urbanidades periféricas contemporâneas e da problemática social, refletidas nas transposições fílmicas de Robert Wise (a partir da West Side Story, de L.Bernstein) ou na de data mais recente, por Baz Luhrmann.  

E na dança sob moldes brasileiros em criações idealizadas para cias oficiais,  como o Balé Teatro Guaíra, onde em 2008 surgiu a primeira das versões do coreógrafo Luiz Fernando Bongiovanni para um Romeu e Julieta com seu conceitual conectado a uma abordagem, entre a tradição e a modernidade, onde a temática procura ecoar o preconceito racial e de classes que induz, entre o ódio e o amor, à criminalidade.

E agora, depois de longa ausência nos palcos cariocas, o espetáculo é aqui retomado, especialmente para o Balé do Teatro Municipal, desta vez sob a regência de Tobias Volkmann diante da OSTM/RJ, mantendo na integra a proposta original, desde a coreografia de Luiz Fernando Bongiovanni à concepção cenográfica de Cleverson Cavalheiro .

Esta não se atendo  a um realismo fidedigno para ambientar, em traços atemporais, uma Verona renascentista, mas fazendo um funcional e minimalista design de grandes blocos móveis, sob vários planos capazes de visualizar as diversas ambiências internas e externas da narrativa.

E que alcançam imagéticos efeitos luminares (Carlos Kur) em projeções led que imobilizam mimeticamente os personagens, com sugestionamento frontal de brilhos espaciais nas cenas noturnas de paixão em encontros às ocultas do casal titular, luzes mais vazadas nas cenas coletivas de rua e mais sombrias no epílogo tumular. Destacando ainda os belos figurinos e adereços (Paulinho Maia) longe de um absoluto rigorismo à época da trama.

A artesanal direção musical de Tobias Volkmann mais uma vez  sabendo decifrar uma partitura (Prokofiev) plena de variações sonoras entre nuances de delicadeza e tensão, no entremeio de acordes, ora energizados e quase dissonantes do compositor, no contratempo  mais lírico das cenas amorosas.

O elenco mostrando fluidez de movimento tanto nas passagens coletivas como nos solos e encontros grupais, não perdendo coesiva correspondência a coadjuvante representação de cidadãos e da Corte saindo-se bem, tanto no baile de máscaras e nas cenas de lutas ou de atuações mais humorizadas como naquelas da Ama confrontada ou as posturas  dramáticas das três Parcas do Destino, introduzidas como reveladora inovação pelo ideário de Bongiovanni.

Com um destaque mais que especial para a performance de força carismática do casal protagonista, na coesiva quimica emotiva e no timing gestual de Cícero Gomes e Marcia Jaqueline nos papéis titulares, com uma adequada e elegante fisicalidade gestual/coreografica, fazendo dançar tanto as palavras de declaração amorosa do encontro furtivo na cena do balcão, como a expressão da dor e da tragédia que os une no epílogo.

Tudo confluindo em descobertas coreográficas expressivas, numa peculiar linguagem estética psicofísica, desde espontâneas intervenções vocais a instantâneo transitar de bailarinos pela plateia, como um jogo cênico descontraído, mas sem nunca avançar demais desqualificando o esteio clássico da obra,sabendo dosar os recursos histriônicos, com sutis avanços de comicidade, paralelos a elegante postural dramático...


                                          Wagner Corrêa de Araújo



Romeu e Julieta / Corpo de Baile e Solistas/ OSTM,  em instantânea temporada, entre 07 e 11 de outubro, em horários diversos, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

DOIS DE NÓS : ACERTO DE CONTAS DE UMA PARCERIA AMOROSA EM DOIS TEMPOS, SOB BEM HUMORADO COMPASSO DRAMATÚRGICO


Dois de Nós. Gustavo Pinheiro/Dramaturgia. José Possi Neto/Direção Concepcional. Setembro/2026. Renata Casagrande/Fotos.


O confronto entre um mesmo personagem em duas épocas é tema de vasta abrangência, da literatura aos palcos teatrais, passando ainda pelo cinema e, especialmente, pelo cancioneiro popular romântico. E é a este diálogo especular que recorre uma das recentes criações dramatúrgicas de Gustavo Pinheiro - Dois de Nós.

Este dimensionamento dramatúrgico encontra, entre outros, dois clássicos exemplares no teatro contemporâneo, através do americano Edward Albee com Três Mulheres Altas e, no Brasil, com A Dona da História, de João Falcão. Lembrando ainda que a mais recente montagem da peça do Albee teve esmerada tradução de Gustavo Pinheiro.

E, agora, é ele em ofício autoral que incursiona por esta trajetória de um olhar memorial focado no espelho do tempo, com sua comédia de costumes Dois de Nós, de forte apelo popular através de sucessivas temporadas. Há exatamente dois anos em cartaz, desde sua estreia paulista, setembro de 2024, antecipada por extensa turnê em Portugal, sob uma artesanal direção de José Possi Neto.

E contando com um elenco estelar, integrado por Antônio Fagundes, também atuando como o produtor da peça, mais Christiane Torloni, Alexandra Martins e Thiago Fragoso, em espetáculo que preenche todos os requisitos para um bem sucedido grande teatro de sotaque comercial.



Dois de Nós. Gustavo Pinheiro/Dramaturgia. José Possi Neto/Direção Concepcional. Setembro/2026. Renata Casagrande/Fotos.



Ampliado por caprichada encenação, na qual se destaca o preenchimento da caixa cênica, com luxuoso décor e elegantes figurinos, numa dúplice concepção de Fábio Namatame, além dos funcionais efeitos luminares  (Wagner Freire) que potencializam em tonalidades mais sutis uma ambiência sofisticada.

Gustavo Pinheiro é, sem dúvida, uma das mais gratificantes surpresas da última geração autoral do  teatro em moldes nacionais, responsável por alguns dos maiores êxitos de público e de crítica nestas primeiras décadas do milênio, tais como A Tropa e A Lista, a primeira delas batendo recordes de temporadas sucessivas.

Em Dois de Nós a narrativa se desenvolve no entorno de um casal, classe média alta, comemorando seus cinquenta anos de matrimônio, em hotel com um significado particular em seu longo relacionamento amoroso. Onde, na maturidade de sua vivência em comum, realizam uma viagem memorial sobre uma paixão amorosa recíproca, desde seu inicial encontro de afinidades afetivas aos questionamentos dos dissabores cotidianos.

Até que surgem no mesmo quarto dois personagens que tornam presenciais grande parte dos caracteres psicofísicos peculiares a cada um deles - de um lado na terceira idade como Pedro Paulo (Antônio Fagundes) e Maria Helena (Christiane Torloni), paralelo ao mesmo duplo de “dois de nós”, aqui refletido pelos tempos idos que os uniram jovens, daquela vez pelos apelidos carinhosos que os identificava como Pepê (Thiago Fragoso) e Leninha  (Alexandra Martins).

Numa troca alternativa de papéis e atitudes comportamentais há um perceptível alcance na convicta equivalência da interpretação mais conceitual de Antônio Fagundes e mais ironizada por Christiane Torloni, enquanto Thiago Fragoso e Alexandra Martins assumem uma performance mais empenhada com a jovialidade dos seus personagens.

Apesar de se defrontar, em processo subliminar, com a superficialidade de certas passagens mais comprometidas em provocar o riso fácil, a segura direção concepcional de José Possi consegue manter um ritmo contagiante, a partir da fluencia textual tragicomica, e instaurado pelo prevalente timing de um experiente quarteto de atores na diversidade de suas habituais linguagens artísticas, do teatro à televisão, passando pelo cinema.  

Capaz de estabelecer elos consistentes não só relativos  às atuações atorais,  mas criando conexões de identidade com espectadores, no entremeio de certas vivências matrimoniais que, certamente, podem fazer parte do cotidiano de cada um eles. Além de não deixar de provocar reflexivo riso ao divertir e, ao mesmo tempo, questionar sob uma problemática social sintonizada, afinal, com a contemporaneidade...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo


Dois de Nós está em cartaz no Teatro Axia/Casagrande/RJ, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 17h; até 01 de novembro.

BOTANICA / MOMIX : QUANDO EFEITOS VIDEOGRÁFICOS ILUSIONISTAS PREVALECEM SOBRE O PURO MOVIMENTO COREOGRÁFICO


Botanica/Momix. Moses Pendleton/Coreografia e Direção Concepcional. Setembro/2026.Pucciariello Max/ Fotos/Divulgação.


 

Desde que a invenção coreográfica passou a compartilhar dos avanços tecnológicos, incluídos os efeitos digitais eletrônicos, visuais e sonoros, estabeleceu-se uma polêmica, muito além do embate entre a tradição e a modernidade, sobre a capacidade de se manter na íntegra a relação corpo orgânico e corpo virtual evitando que a dança ficasse em segundo plano ao perder seu caráter fundamental de expressão artística pura.

Retomo aqui algumas considerações críticas já enunciadas em anteriores postagens autorais, no entorno da proposta estética de espetáculos internacionais como o Momix, na continuidade de sua perceptível frequência em nossos palcos.  Mas sempre enfrentando o desafio e o risco de transmutar a corporeidade dos bailarinos em silhuetas videográficas, deixando assim de privilegiar o puro gestual da dança pela dança.

Tudo começou na passagem dos anos 60/70 com o Alvim Nikolais Dance Theater que tivemos o privilégio de acompanhar no Palácio das Artes/BH, desde sua primeira turnê brasileira, fazendo um mix plástico/coreográfico de inserções luminares e cinéticas que antecipavam a tecnologia virtual do então futuro universo digital. Tendência que se expandiu através de outras cias como o Pilobolus e, em seguida, o Momix.


Botanica / Momix. Moses Pendleton/Coreografia e Direção Concepcional. Setembro/2026. Pucciariello Max/Fotos Divulgação.


O americano Moses Pendleton foi um destes criadores que procuraram estabelecer alguns conceituais parâmetros estéticos, assumidos inclusive já pela própria  titulação de sua Cia – Mo (Moses) + mix (miscigenação de linguagens). Conectando, em espontâneo processo de busca investigativa, elementos gestuais, acrobáticos e ilusionistas, com um prevalente referencial mimético direcionado a lúdicas e bem humoradas fantasias visuais.

O que, se de um lado possibilitou, a partir dali, uma empática comunicabilidade com públicos de todas as idades, por outro lado, não conseguiu evitar certo fastio de um dejá vu na insistente reiteração no uso destes recursos. Ficando muito claro este fator na instantaneidade de certas concepções cênicas, sob um referencial clima de  caleidoscópica videoclipagem, com a exacerbação de ambiências tecnovirtuais.

Estreado em 2009, Botanica foi um dos espetáculos do Momix que, por este aspecto, enfrentou restrições da crítica especializada, exatamente por acentuar a excessiva predominância dos elementos da cenotecnia, em detrimento do devido destaque à corporeidade gestual de seus “dançarinos-ilusionistas”, como passaram a ser denominados por Moses Pendleton.

Embora, no caso de Botânica, houvesse o encantamento da plasticidade da natureza através da figuração de suas plantas e animais, sob  subliminar  ideário  de uma necessária conscientização dos riscos ao planeta terra,  à causa do descaso quanto a preservação desta valiosa ambiência ecológica. O que, desde o prólogo, na profusão de imagens, dos efeitos multimídia na conexão das luzes e dos figurinos aquarelados, chega a ser compartilhado em seu dimensionamento sensorial para um público entre oito e oitenta.

No entremeio de algumas explorações investigativas de um lúdico jogo mecanicista de sons e imagens e que, hoje já não é nenhuma grande novidade quando transposto para um espaço cênico.  Utilizando-se do empenho de “dançarinos-ilusionistas” imersos na envolvência de uma trilha sustentada, sob um sotaque de reiterativos acordes e harmonias new age, tudo fluindo como  uma mera engrenagem a serviço desta obra.

Opções  físico-cenográficas que ora se aproximavam bastante do ideário fantástico-circense propugnado, por exemplo, pelo Cirque du Soleil, ou, então,  até lembrando o mix entre um teatro físico e coreográfico, inteiramente submisso às regras pictóricas de um especular e então inédito universo multimídia, com um alcance sequencial de quase duas décadas.

Rapidamente eclipsado por outras descobertas recentes tais como a ascendente IA, a inteligência artificial, capaz de ser cada vez mais manipulada pelos navegadores das plataformas digitais através dos próprios recursos disponibilizados pela internet, no seu sentido mais abrangente.

Onde o Momix, através de seu mistificador mor (Moses Pendleton), alheio e em caráter aleatório, procurava não deixar ser invalidado o ideário  de sua original contribuição artística, frente às possíveis rotulações de que isto pudesse simbolizar ou não um espetáculo voltado à busca inventiva de novas trajetórias coreográficas.  Com um questionador olhar armado numa independente criação estética capaz, sobretudo, de contribuir para o evolutivo legado seja da arte contemporânea em âmbito geral ou talvez de uma dança sem quaisquer limites classificatórios... 

  

                                          Wagner Corrêa de Araújo


Botanica/Momix, na temporada Dellarte 2026, está em cartaz no TMRJ, de terça 22 a quinta-feira, às 19h; e na sexta-feira às 15h e às 19h; seguindo em turnê por outras capitais brasileiras - Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre; até 08 de outubro.

FIM DE PARTIDA : COMO SOBREVIVER NUM UNIVERSO DISTÓPICO SOB A EMBLEMÁTICA DRAMATURGIA DE BECKETT


Fim de Partida. Samuel Beckett/Dramaturgia. Rodrigo Portella/Direção Concepcional. Setembro/2026. Annelize Tozetto/Fotos.



Em claustrofóbica atmosfera dimensionada por um sotaque pós-apocalíptico, figuras estranhas delineadas sob cáustico humor e soturna melancolia, representam quatro personagens imersas na implacabilidade da condição humana diante de seu destino terminal.

O absoluto no sense, imprimido por Samuel Beckett em Fim de Partida, tornou a peça um dos textos mais polêmicos alinhados à estética do absurdo no teatro, sucedendo-se a Esperando Godot num alcance, às vezes, até mais provocador diante de quaisquer tentativas  de decifração de seu enigmático ideário.

O isolacionismo existencial de um universo irremediável com seu direcionar-se, sem quaisquer perspectivas de saídas ou soluções, à insanidade do vazio, à inevitabilidade e ao fracasso derrotista de um “fim de jogo”. Eis, em breves palavras, a síntese e o substrato conceitual desta exemplar tipicidade sobre o próprio ser e o não ser do teatro do absurdo.

Surgido no pós-guerra, este avassalador, demolidor e desmisficador gênero dramatúrgico potencializou-se esteticamente com Eugène Ionesco, Fernando Arrabal e pela especial contundência de Samuel Beckett. Em cartaz há mais de meio século, suas urdiduras cênicas são propositalmente metafísicas e a sua nihilista perspectiva psicopolítica vem questionando visceralmente a acomodação do espectador teatral.

Estas reflexões podem ser conferidas na encenação de Beckett, agora, nos palcos do Rio depois da temporada paulista, com seu Fim de Partida, pelo inventivo olhar concepcional de Rodrigo Portella, direcionando os atores Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França. Outra vez com um surpreendente resultado, sinalizado sempre pelo visceral teor de um experimento que conecta a montagem aos avanços da contemporaneidade teatral.


Fim de Partida. Samuel Beckett/Dramaturgia. Rodrigo Portella/Direção Concepcional. Setembro/2026. Annelize Tozetto/Fotos.



Em insólito dimensionamento de um jogo fatalista, carregado de angústia, sordidez e humor negro, pelo alcance de incisiva representação dos quatro intérpretes, onde a postura reiterativamente atonal de uma cena quase despojada conduz, aqui, irremediavelmente, a uma instigante concentração nos paradoxos do texto beckettiano.

Privilegiando, através de uma assumida contenção do arcabouço cênico (Daniela Thomas) sob luzes (Beto Bruel) frias entre tonalidades que acentuam a ambiguidade de um quadro de teor catastrófico sugerindo um bunker nuclear, isolado e sem saída. Ampliando-se a desolação surreal dos quatro personagens por intermédio de acordes sensoriais cortantes, pelas afiadas incidências sonoras de Federico Puppi.

Marcado ainda pela assumida estranheza indumentária de Hamm (Marco Nanini), um cego portador de deficiência, condenado à imobilidade física, numa cadeira de rodas, completada pelo visagismo sujo de seu ordenança corcunda Clov (Guilherme Weber), e por dois corpos sem pernas em containers de lixo.  

Visualizados, aqui, apenas pelas cabeças, figurando os submissos Nag e Nell (Ary França e Helena Ignez), referenciando os pais de Hamm em atuações mais coadjuvantes por sua instantaneidade, mas sem nunca perder a convicta autenticidade dos papéis, na maturidade teatral de uma dupla de reverenciados atores.

Mas é no confronto destrutivo da fatalista inércia física e da cegueira de Hamm, tornando-o autoritário, e da revolta de um quase robótico Clov às suas ordens tirânicas, indo e vindo incessantemente, com um escada em que anseia certificar-se da insólita paisagem externa por duas altas janelas ou até pensando em exterminar seu controlador.

De um lado o domínio, do outro a submissão, o mestre tirânico e o escravo obrigado a calar-se, fazendo estes dois excepcionais atores Marco Nanini e Guilherme Weber, se destacarem por uma singular e vigorosa expressividade conferida aos caracteres psicofísicos e tragicômicos de seus respectivos e grotescos personagens Hamm e Clov.

Onde a impactante e obsessiva vertigem na releitura  deste Fim de Partida, pelo atento olhar de Rodrigo Portella, transmite, sobretudo, um recado de alerta sobre a iminente ameaça de caos climático, transmutando a metafórica mensagem dramatúrgica do absurdo cenário pós-apocalíptico, numa realidade cada vez mais próxima ...  

 

                                                Wagner Corrêa de Araújo

 

Fim de Partida está em cartaz no Teatro TotalEnergies, de quinta a sábado, às 20h; domingo às 19h; até o dia 27 de setembro.

O FILHO : DEPRESSÃO, CULPA E DESESPERO SOB A IMERSIVA ESCUTA DRAMATÚRGICA DE UM NÚCLEO FAMILIAR

O Filho. Florian Zeller/Dramaturgia. Léo Stefanini/Direção Concepcional. Setembro/2026. Ronaldo Gutierrez/Fotos.


O francês Florian Zeller ficou conhecido, como escritor e cineasta, especialmente  por sua trilogia dramática sobre a desestruturação de um núcleo familiar, sinalizada entre a literatura e o cinema, através de uma simbológica  titulação sequencial  : O Pai - A Mãe - O Filho.

E é depois do aplauso do público e do elogio da crítica para a montagem brasileira de O Pai, com o protagonismo de Fúlvio Stefanini, que seu filho Léo Stefanini está de novo no oficio diretor, desta vez com a terceira daquelas peças/filmes – O Filho – que de sua estreia original nos palcos europeus em 2018, chegou às telas em 2022.

Embora tenha recebido algumas restrições na versão cinematográfica, por uma certa previsibilidade, mesmo dirigida pelo próprio Florian  Zeller, este tendo obtido melhor  resultado fílmico com O Pai, de qualquer  maneira, a sua trilogia obteve expressivo alcance em suas encenações mundo afora.

A trajetória de sua narrativa  teatral, dentro de um mesmo contexto familiar, abordando os conflitos gerados por Nicolas, um adolescente de 16 anos, quando não consegue se adaptar à separação de seus pais Pedro e Ana passando, então, pelo desafio desta inesperada circunstância, a compartilhar da solidão materna.


O Filho. Florian Zeller/Dramaturgia. Léo Stefanini/Direção Concepcional. Setembro/2026. Ronaldo Gutierrez/Fotos.


Mas também sequenciada por outra tentativa de convívio, agora, na companhia de Pedro, o pai, ao lado da sua nova esposa Sofia e de um filho recém-nascido, onde apesar de todas as boas intenções de quem se considera um cumpridor dos deveres da paternidade, o diagnóstico  de uma crise mental do filho ausente se acentua.

Indo da descoberta de suas evasões escolares sob um falso relato de comparecimento no colégio, constrangendo sua mãe e obrigando-a a solicitar que ele se afaste dela, passando a viver com o pai, ainda que  interferindo na suposta convivência feliz do casal como novo hóspede residencial.

Autocentrado em seu silencio interior, recusando quaisquer aproximações dialetais, o jovem Nicolas radicaliza sua revolta com atitudes agressivas e até suicidas de automutilação, levando-o a um tratamento de internação psiquiátrica, gerando, em suas idas e voltas clínicas, uma conturbada e ininterrupta instabilidade familiar.   

Onde o espaço cenográfico (Daniel Distzer), pelo ideário da concepção direcional (Léo Stefanini), opta por um minimalismo essencialista ao mostrar uma sala de visitas que se transmuta em consultório clínico-hospitalar. Provocando através dos efeitos luminares (Cesar Pivetti) e de incidentais temas musicais (Sérvulo Augusto), um subliminar sotaque claustrofóbico.

Que é amenizado apenas por instantâneos movimentos coreográficos representados pelo pai procurando sustar o estado depressivo de Nicolas, em busca de sua adesão expressa, por um raro e contagiante sorriso. Não deixando de referenciar o adequado figurino (Yakini Rodrigues) com sua caracterização  cotidiana dos seis personagens.

Valendo destacar do elenco protagonista - Andreas Trotta (Nicolas), Gabriel Braga Nunes (o pai), Maria Ribeiro (a mãe), Bruna Miglioranza (a madrasta) - aos dois atores coadjuvantes Marcio Marinello  e  Luciano Schwab (equipe médica), atuando com convicta unicidade até o inesperado e surpreendente epílogo.

Em caráter mais que especial a espontaneidade das falas, ora compreensivas ora de nervosa impaciência, de Gabriel Braga Nunes no entorno  da impotência paterna frente à mente conturbada e niilista do filho lutando por sua verdade, através da talentosa revelação performática de Andreas Trotta, é também correspondida pela representação das duas atrizes (Maria Ribeiro e Bruna Miglioranza) demonstrando potencialidade emotiva na personificação do contraponto entre a afeição e a insegurança em meio a uma crise familiar. 

Convergindo tudo por  intermédio  de um espetáculo questionador, artesanalmente  tratado pela direção  de Léo Stefanini, que se configura muito além de uma proposta de decifração da enigmática confusão mental adolescente, hoje e cada vez mais, sob a  insensata  dominância da interconectividade digital, incapaz de  preencher sua carência familiar, sua solidão e seu vazio existencial ...


                                             Wagner Corrêa de Araújo


O Filho, de Florian Zeller, está em cartaz no Teatro do Copacabana Palace, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h; até o próximo dia 13 de setembro.

LECUONA / GRUPO CORPO : DE VOLTA AOS PALCOS UMA CRIAÇÃO SINGULAR REINVENTANDO O LEGADO DAS DANÇAS DE SALÃO


Grupo Corpo / Lecuona. Rodrigo Pederneiras / Concepção Coreográfica. Setembro/2026. José Luiz Pederneiras/ Fotos.


Na continuidade de um signo estético que se tornou característico na trajetória do Grupo Corpo, depois de sua mais recente criação coreográfica Piracema, comemorativa dos cinquenta anos da mais celebrada companhia mineira de dança, está de volta uma das obras mais diferenciais de seu repertório – Lecuona, original de 2004.

A começar pela sua própria trilha que, além de não ser especialmente criada para a Cia, faz uso  de gravações originais do pianista e compositor cubano Ernesto Lecuona (1895-1963) um nome referencial da música naquele país, ao selecionar alguns de seus clássicos conectados à tipicidade melódica romântica anos 30 aos 50.

Reverenciada por Caetano Veloso em Fina Estampa, a obra de Lecuona tem um alcance com cerca de quase quinhentas obras, lembrando que este acervo se estende da música latina a trilhas para o cinema americano, o que lhe proporcionou até um Oscar. E que em seu período de formação, passando por Nova York, chegou a estudar com Maurice Ravel na França, tendo escrito também peças de caráter mais sinfônico.

Onde o seu lado popular,  estruturado a partir de acordes com temática melodramática, sinalizada por paixão e sensualidade, domínio e submissão, amor e abandono, lembrança e melancolia, direcionando um encontro de casais no dimensionamento de formas dançantes, sob a prevalência de boleros, tangos e valsas, é aqui representado pelo Grupo Corpo


Grupo Corpo / Lecuona. Rodrigo Pederneiras / Concepção Coreográfica. Setembro/2026. José Luiz Pederneiras/ Fotos.


Gêneros que após o seu apogeu noturno nos clubes, bares e cabarés da época, passaram a ser cultuados, sob a denominação generalizada de danças de salão, em estúdios e academias, com  a sequencial eclosão de novos e mais energéticos ritmos dançantes surgidos após o despertar do rock. 

E na releitura coreográfica imprimida por Rodrigo Pederneiras, a inspiração em melodramáticos acordes para expressar temas quase novelescos sobre impulsos amorosos, ao mesmo tempo, traduz o contraponto afetivo de uma corporeidade gestual de forte apelo psicofísico.

Destacando-se ainda os figurinos idealizados então por Freusa Zechmeister, no entremeio de um tratamento aquarelado, acentuando-se na prevalência de tonalidades rubras e negras, equilibradas entre o verde escuro e o azul. Indo ora de trajes esportivos ora mais formais, aos quais não faltam sapatos masculinos em verniz e saias femininas esvoaçantes, até o despontar sequencial de cada um dos pares, na valsa do epílogo, em trajes brancos dos vinte bailarinos refletidos num fundo sugerindo espelhos.

Que, então, substitui a anterior ambiência pictórica entre sombras por luzes resplandecentes, numa proposta cenográfica de Paulo Pederneiras que aumenta o envolvimento imersivo de todo elenco, como se fosse um só corpo e um só casal.

Enquanto a coreografia que abre o programa – Piracema, de 2025, como primeira parceria criativa de Rodrigo Pederneiras e a ex-bailarina do Grupo Corpo - Cassi Abranches, agora no oficio de coreógrafa assistente da Cia, vai mais longe em sua proposição inventiva com o olhar armado na dança contemporânea.

Abrindo novas perspectivas ao quebrar não só o hábito da apresentar obras com similar origem autoral. Incluindo-se aí, mais uma vez, um sotaque de brasilidade não só por sua titulação temática-ecológica como pela sua inédita trilha sinfônica/eletrônica por Clarice Assad.

Por outro lado, dramaturgicamente a coreografia Lecuona, por vezes, ressalta com despretensiosa ironia subliminar as variações emotivas neste corpo a corpo de casais apaixonados. Remetendo a um dos versos melodramáticos de Ernesto Lecuona : "No vivo desde aquel dia em que te vi/Porque nunca he dejado de pensar em ti".  

Das mutações faciais aos gestos impulsivos de recusa ou de entrega absoluta,  sempre pontuados com leveza, bom humor e o lirismo de uma assumida simplicidade resgatada pela envolvência de outro exemplar legado do Grupo Corpo...  

 

                                                   Wagner Corrêa de Araújo

   

O Grupo Corpo está apresentando Piracema e Lecuona, no TMRJ, de quarta a sábado, às 20h; domingo, às 17h; até o dia 06 de setembro.

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