| O Som da Chuva. São Paulo Companhia de Dança. Joëlle Bouvier/Coreógrafa. Junho/2026. Iari Davies/Fotos. |
Cada uma das temporadas anuais da São Paulo Companhia de
Dança é titulada a partir de reflexivos conceituais inspirados por temas filosóficos
e literários, em ideário estético de sua criadora e diretora artística Inês
Bogéa, numa trajetória que envolve a base clássica e os avanços da contemporaneidade
coreográfica.
E assim, para o ano de 2026, a denominação Como Quem Sonha
partiu de um belo pensamento poético da escritora Hilda Hilst - “Fazei com que eu
me mova como quem sonha”. Sob dois referenciais programas elucidativos de duas épocas
na história da dança.
O primeiro deles com uma releitura do argentino Mario Galizzi
do clássico dos clássicos O Lago dos Cisnes, a partir de Petipa/Ivanov, direcionada em caráter
exclusivo para a SPCD. E o segundo reunindo três obras coreográficas, começando
por uma das mais celebradas criações de Jirí Kylian -Indigo Rose, tornada assim a terceira do mesmo autor apresentada
na SPCD.
Completando-se a representação com uma das concepções autorais
de um revelador nome da última geração da dança brasileira - Cassi Abranches - reapresentando o seu balé Agora,
o terceiro dedicado à SPCD. Ex integrante-bailarina do Grupo Corpo que,
após uma bem sucedida passagem por outras Cias neste oficio inventor, tornou-se
novamente parte da Cia mineira, atuando ali como assistente coreográfica de Rodrigo
Pederneiras.
E, como de hábito, a SPCD traz outra criação pensada para a Cia, a inédita O Som da Chuva, segunda
das incursões, ali, da coreógrafa francesa de ascendência belga - Joëlle Bouvier,
depois de Odisseia, 2018, destacando-se, em parceria artística com Régie
Obadia, no panorama da Nouvelle Danse
francesa.
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| Indigo Rose/ São Paulo Companhia de Dança. Jiri Kylián/Coreógrafo. Junho/2026. Willian Aguiar/Fotos. |
O tcheco Jiri Kylián é um dos mais brilhantes nomes da dança
contemporânea entre o final da segunda metade do século XX e as duas décadas iniciais
do terceiro milênio, sempre com obras marcadas tanto pelo rigor técnico como
pela ousadia de seu vocabulário coreográfico.
Indigo Rose, de 1991, é uma de suas composições mais diferenciais, não
só pela conexão de linguagens coreográficas como por seu teor de simbólico expressionismo
ao abordar a instantaneidade das transições existenciais a partir dos anos da
juventude.
Conceitualizada com um olhar focado na jovial fisicalidade de bailarinos entregues a jogos energizados por uma corporeidade imersa numa ambiência de fantasia no entremeio de um clima
cinético. Impressionando pela força que é imprimida especialmente pela nova geração
de bailarinos no atual elenco da SPCD.
Onde a caixa cênica é atravessada por raios luminares incidindo
sobre uma faixa central de seda, enquanto provocam pictórico efeito de um
teatro coreográfico de sombras, ampliado por uma trilha que vai de efeitos eletrônicos
a John Cage, passando por Bach e Couperin.
Recorrendo à temporalidade memorial, o segmento Agora, de Cassis Abranches, propõe um inventário, mais abstrato que
propriamente narrativo, sobre as incursões físico/emotivas de uma personagem
feminina secular que vê desfilar diante de seus olhos a completude de sua trajetória existencial. Numa fisicalidade em
movimento pelo espaço cênico, como se a exposição dos corpos dos bailarinos
fosse direcionada por inventivos efeitos video-gráficos de uma ilha de edição.
O que é refletido especularmente como um dos sotaques
cinéticos/cênicos da criação coreográfica de Joelle Bouvier estabelecendo liames
entre suas duas obras na SPCD - Odisséia,
de 2018, e esta última - O Som da Chuva - sinalizada, metaforicamente,
sobre o sentido prevalente do universo do amor em ângulo feminino.
Paralelo à circularidade de uma temática que envolve as
forças da natureza simbolizando as mutações dos relacionamentos através de uma
trilha (Lucas Varin) de acordes sonoros que remetem a ventos e tempestades ao
lado de temas melódicos amorosos, incluída a brasilidade musical de Manhã de
Carnaval.
Ressaltando a magia de elementos cenográficos, como os
figurinos (Fabio Namatame), balões e um ancestral gramofone, a concepção de O Som da Chuva, por suas nuances
estéticas de uma surpreendente performance coreográfica, plena de fluência técnica-emotiva, transmutando-se em valioso legado da SPCD para o acervo antológico
da dança contemporânea em âmbito mundial...
Wagner Corrêa de Araújo
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| Agora/São Paulo Cia de Dança. Cassis Abranches/ Coreografia. Junho/2026. Charles Lima/Fotos. |
Abertura da Temporada 2026 da São Paulo Companhia de Dança, de 04 a 14 de Junho, no Teatro Sérgio Cardoso, seguindo em turnês nacionais e internacionais.










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