| Elogio da Loucura. De Erasmo de Rotterdam. Eduardo Figueiredo/Leona Cavalli/ Versão Dramatúrgica. Eduardo Figueiredo/Direção. Junho/2026. Annelize Tozetto/Fotos. |
Elogio da Loucura, original de 1509, é um dos mais
viscerais textos literários já escritos entre o final da Idade Média e o início
da Renascença. Sua composição se deve ao teólogo e filósofo Erasmo de Rotterdam, durante apenas
quatro dias passados numa visita ao seu amigo Sir Thomas More, em Londres.
Onde ele transmuta todo rigorismo da fé cristã numa
precursora visão humanista, indo além de seu dimensionamento meramente
religioso, para o alcance de um ideário político de valorização do pensamento e
da própria condição humana. Propugnando o livre arbítrio em época dominada por
um Teocentrismo absoluto.
Numa pulsão de avanços político-ideológicos que fizeram com
que O Elogio da Loucura se tornasse
portador de mensagem mais que oportuna aos tempos da contemporaneidade, incluindo os avanços, em
sua ideia original, a favor de uma
futura comunidade europeia.
Mas a loucura titular da obra não significa a doença mental
que pode acometer qualquer um de nós, mas vem do latim e do grego pela
denominação original do livro - Morias
Encomium - sendo utilizado o vocábulo por uma aliteração verbal do
sobrenome de Thomas More como um tributo de Erasmo ao grande pensador.
| Elogio da Loucura. De Erasmo de Rotterdam. Eduardo Figueiredo/Leona Cavalli/ Versão Dramatúrgica. Eduardo Figueiredo/Direção. Junho/2026. Annelize Tozetto/Fotos. |
Simbolizando ali, sob um teor crítico, a falsa sabedoria, a vaidade, a hipocrisia
comportamental, seja esta religiosa quanto político-social, em sua
época e no reflexo especular para o hoje. Em caráter especial, do expansionismo enganador
dos regimes teocráticos à recessão de grande parte das comunidades
auto tituladas como fiéis propagadoras do Evangelho.
Sem deixar de lembrar que este avassalador domínio ideológico
corrompe, com seus mecanismos de insensato convencimento, sempre sob uma
sombria catarse, por intermédio de ilusórias vantagens materiais e espirituais
sobre mentes e corações, inclusive apregoadas pela incontrolável hipnose das
plataformas digitais.
Com o justo propósito de desafiar este estado de coisas,
levar ao palco as instigantes ideias de Erasmo de Rotterdam, é sem dúvida
necessário como elemento conscientizador de uma tomada de posição, pelo
sarcasmo irônico de um humor inteligente pensado para provocar atitudes.
Aí entram em cena elementos catalizadores da encenação,
idealizada em processo criador e dramatúrgico dúplice reunindo a atriz Leona
Cavalli, um dos nomes mais referenciais do atual teatro paulista, e o conhecido produtor/diretor Eduardo Figueiredo para
uma primeira versão brasileira de O Elogio da Loucura.
Onde todo o processo de criação é direcionado a uma montagem
que torne acessível sua clássica linguagem textual em contagiante fluidez
palco-plateia. Concorrendo para isto também, os vistosos elementos cenográficos
e indumentários (Paula Mares, Kelly Siqueira, Mariana Baffa), os vazados
efeitos luminares (Gabriele Souza), mais a envolvência de sua movimentação
gestual (Roberto Alencar) sob acordes
diferenciais de uma trilha instrumental
ao vivo (violoncelo e percussão) .
Tudo, enfim, convergindo para favorecer uma completa representação
a começar da espontaneidade de uma performance, outra vez com a força presencial irradiante de Leona Cavalli, metaforicamente no papel da
Loucura, sabendo conduzir seu personagem
com convicta autenticidade .
Numa releitura tragicômica que acaba, vez por outra,
mostrando desacertos em sua direção concepcional, decorrentes dos confrontos de
marcações dramáticas com subliminar sotaque de exageros e improvisos, para uma criação teatral que se propõe ser fiel
ao texto. Idealizada, bem a propósito, não apenas para divertir mas, antes de tudo, para fazer refletir ...
Wagner Corrêa de Araújo
Elogio da Loucura, depois de varias turnês nacionais, chegou finalmente aos palcos cariocas, em temporada, maio/junho, quinta a sábado, 19h; domingo ás 18, no Teatro II, do CCBB/RJ.














.jpeg)


.png)




