HAMLET: MONTAGEM DESAFIADORA, ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIDADE, REAFIRMA O PERMANENTE SIGNO INVENTIVO DA CIA TEATRO ESPLENDOR

 

Hamlet. Cia Teatro Esplendor. Bruce Gomlevsky / Direção Concepcional. Fevereiro/2026. Dalton Valério/Fotos.


Enquanto na última década algumas das incursões, direcionadas especificamente ao mítico personagem shakespeariano, se destacaram nos palcos cariocas e brasileiros, pela sua ousadia estética-conceitual, Bruce Gomlevsky à frente de sua Cia Teatro Esplendor dá sequencia a esta trajetória com seu Hamlet situado entre a tradição e a inovação.

Desta vez indo ainda mais longe na releitura da tradução de Geraldo Carneiro, embora basicamente se orientando por uma subliminar fidelidade à sua narrativa original, fazendo prevalecer a solidez e a mensagem de sua secular textualidade dramatúrgica, mas inserindo ali diversos elementos que fazem deste Hamlet um significativo tributo comemorativo aos 15 anos da Cia Teatro Esplendor.

Não só por sua inserção na realidade contemporânea, reconfigurando cenicamente alguns personagens, através de conceituais bem aproximativos desta sua redefinição com um olhar que os atualiza,  por enfoques da linguagem cibernética e da inteligência artificial.

Mas sem deixar, também, de ousar nas citações do legado das crenças espiritualistas afro-brasileiras nas passagens de espectros fantasmagóricos. Quando o personagem titular é desafiado e derrubado pelos conflitos de sua própria subjetividade e de sua dúvida anti-heroica, sob a influência da pulsão de um destino submetido às forças metafóricas de divindades superiores.


Hamlet. Cia Teatro Esplendor. Bruce Gomlevsky / Direção Concepcional. Fevereiro/2026. Dalton Valério/Fotos.


Onde o espaço cênico (Nello Marrese) com poucos elementos materiais, acaba deixando praticamente livre, no seu dimensionamento de uma arena circundada por cadeiras dos quatro lados, a mobilidade dos espectadores não só na troca de suas posições e lugares, incidindo sua participação dançante em partes como um baile de corte real.

Sempre impulsionados, tanto atores como espectadores sob os acordes da envolvente trilha de Sacha Amback, entre uma fusão de harmonias que tanto podem remeter à época ancestral de sua trama como aos ritmos  dos dias de hoje, com efeitos luminares (Elisa Tandeta) sugestionando ambiências ora cotidianas ora fantásticas, moduladas numa plasticidade quase cinética.

O que é ampliado nas diferenciais nuances de uma indumentária (Maria Callou) definitivamente distanciada do design de época, em afirmativa atemporalidade que chega a incluir o uso ocasional da tipicidade pictórica de objetos inusitados como microfones e celulares.

Todas estas perspectivas transformadoras podendo, às vezes, causar certo incômodo naqueles extremados adeptos de uma tendência conservadora, nunca aceitando qualquer interferência desestabilizadora de sua academicista visão de um clássico teatral como este. Capazes até de se recusarem, pelo menos, a conferir estas transmutações cênicas na era elisabetana.

Bruce Gomlevsky como o protagonista titular assumindo com plena convicção os meandros psicofísicos a que conduz esta sua particularizada representação de Hamlet, apurando a sua atuação performática e verbal, com uma espontaneidade fluente e irradiante.

O que se estende a um elenco com traços seguros na construção de seus papeis, ora sob tons sarcásticos, ora dramáticos ou até risíveis, mas sempre pontuados por uma unicidade interpretativa indo da progressão dramática a tons farsescos, estabelecidos através do empenho inventor da gramática cênica/direcional de Bruce Gomlevsky.

Brilhando cada um deles pelo característico dimensionamento expressivo, entre a emoção e a reflexão, sendo imprimido aos seus personagens, especialmente no núcleo dramatúrgico central, decorrente do contundente e decisivo acerto de contas por Hamlet (Bruce Gomlevsky).

Paralelo, à indignação contra a infidelidade de Gertrudes (Sirlea Aleixo) e seu consorte vilão Claudius (Gustavo Damasceno), à transição multifacetária  entre Horácio e o coveiro (na dúplice consistência atoral de Jaime Leibovich), além da singularizada personificação de Horácio (Ricardo Lopes) como um fantasma capoeirista.

Num jogo teatral vivo com primado do sensorial que nunca banaliza as diretrizes inerentes a uma obra clássica. Mas, sobretudo, não deixa de manter um contraponto crítico, por vezes irreverente e provocador, de uma montagem com o olhar sintonizado em seu tempo e com os avanços de um meta teatro fazendo do palco um articulador de ideias...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo


Hamlet/Cia Teatro Esplendor está em cartaz no Teatro Gláucio Gil/Copacabana de sábado a segunda feira, às 20hs; até o dia 09 de fevereiro.

SOZINHO COM ROMEU E JULIETA : CLÁSSICO SHAKESPEARIANO EM MÁGICA VERSÃO COM EXUBERANTE PERFORMANCE SOLO



Sozinho com Romeu e Julieta. Trupe Ave Lola. Ana Rosa Genari Tezza/Direção Concepcional. Evandro Santiago/Ator. Janeiro/2026. Gus Benke/Fotos.


A Trupe Ave Lola é uma das mais significativas cias teatrais curitibanas destacando-se, há cerca de quinze anos, pelo sotaque original e pela estética diferencial que imprime às suas sempre inventivas criações sob o atuante ideário concepcional de sua diretora Ana Rosa Genari Tezza.

Esta não é a primeira incursão da incrível trupe no teatro de William Shakespeare tendo estreado, em 2024, outra montagem inspirada no clássico do bardo inglês - Sonho de Uma Noite de Verão - usando todo o seu staff tecno/artístico e, como de hábito, sinalizada por um potencial processo criador.

Mas, agora, ousando mais em sua proposta cênica com a adaptação para um só intérprete de todos os principais personagens da mais popular das suas peças, sob singular titularidade e intimismo introspectivo em  Sozinho Com Romeu e Julieta, com luminosa participação de um dos mais reveladores atores da Cia desde sua formação - Evandro Santiago. 

A partir das diretrizes fundamentais da tradução de Bárbara Heliodora mantendo absoluta fidelidade, especialmente nas partes em que o intérprete recorre, através de uma quase leitura dramatúrgica, a passagens versificadas de sua textualidade. Apresentadas paralelamente à subliminar espontaneidade performática conferida por um convicto e carismático ator.


Sozinho com Romeu e Julieta. Trupe Ave Lola. Ana Rosa Genari Tezza/Direção Concepcional. Evandro Santiago/Ator. Janeiro/2026. Gus Benke/Fotos.



Onde a narrativa sintetiza o enredo da tragédia, em muito menos que três horas, através da súbita volta de um jovem ator ao atelier de costura de um antigo teatro em precário abandono, pós sua interdição por questões políticas. E que, imerso num clima de delírio e fantasia, decide retomar o sonho pontuado pela magia teatral, no entorno da pretendida montagem da peça de Shakespeare, sob o ativismo de assumida resistência artística.  

Na plasticidade de uma pictórica ambiência (Daniel Pinha) vai sendo descortinado o mistério daquele espaço em dois planos, com manequins portando figurinos interrompidos (Eduardo Giacomini), não faltando ali uma mesa-armário e uma velha máquina de costura, além de máscaras faciais e bonecos manipuláveis (Eduardo Santos). 

Diante de tudo isto, efeitos de luzes cinéticas (Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski) entre sombras, sugestionam relâmpagos e trovões, enquanto acordes instrumentais melodiosos ecoam dos bastidores. Até serem compartilhados presencialmente entre os dois músicos-autorais (Arthur Jaime e Breno Monte Serrat) e o ator Evandro Santiago que mostra, ali, suas aptidões como afinado cantor, vocalizando o popular  leitmotiv de Nino Rota para o filme Romeu e Julieta, de Franco Zefirelli.

Capaz, assim, de instaurar um consistente clima de encantamento e magia ator/espectador, com as variações de suas tessituras vocais, além das sensoriais modulações de sua psicofisicalidade conferindo caracteres à sua corporeidade gestual que remetem à especificidade conceitual de um teatro coreográfico.

O que denota claramente a sólida base de sua formação como ator, também expert no dimensionamento de uma dramaturgia corporal, valioso resultado de sua passagem pela Escola Angel Vianna e no acompanhamento do valioso legado coreográfico do Balé Teatro Guaíra.

A gramática cênica de Ana Rosa Genari Tezza sabendo fazer transitar a palavra dramatúrgica e a ação corporal em coesivo diálogo com o espaço cênico, na intenção de ressignificar o uso de objetos como réguas, tesoura, máscaras e peças indumentárias na sequencialidade da narrativa, como esclarecedores signos da representação.

As nuances vocais e gestuais na vigorosa fluência da diversidade emotiva de cada personagem interpretado, com entrega de sangue e alma, por Evandro Santiago vai conquistando a cumplicidade e a expectativa de cada espectador. Mesmo já conhecendo bem o trágico epílogo a que conduz aquele proibido amor de dois adolescentes à causa do ancestral enfrentamento de famílias rivais.

O irrepreensível desempenho do ator e a empatia da direção concepcional para uma cativante transposição cênica da Trupe Ave Lola fazem, enfim, de Sozinho Com Romeu e Julieta uma das primeiras grandes surpresas da Temporada Teatral 2026 em palcos cariocas...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo

 

Sozinho com Romeu e Julieta /Trupe Ave Lola/Curitiba  está em cartaz no Mezanino do Sesc Copacabana, de quinta a domingo, sempre às 20h30m, até  01 de fevereiro.

O CÉU DE BIBI FERREIRA : BELO TRIBUTO MUSICAL A UMA ATRIZ EMBLEMÁTICA SOB O FORMATO DE UM SHOW CÊNICO

 

O Céu de Bibi Ferreira. Gabriel Chalita/Dramaturgia. Gustavo Barchilon/Direção Concepcional. Janeiro/2026.Erbs Jr e Guilherme Logullo/Fotos.


Celebrar através dos grandes temas musicais que imortalizaram personagens e canções de uma das mais simbólicas estrelas na história do teatro brasileiro é o propósito do espetáculo O Céu de Bibi Ferreira, pelo sempre revelador ideário direcional de Gustavo Barchilon.   

Através das vozes e das performances de quatro reconhecidas intérpretes do teatro musical em moldes brasileiros a saber – Giulia Nadruz, Barbara Sut, Luísa Vianna e Fernanda Biancamano, sob uma inspirada narrativa dramatúrgica de teor literário-poético-documental por Gabriel Chalita.

Com um artesanal comando musical por Carlos Bauzys, destacando  em seus arranjos camerísticos para um afinado grupo instrumental, desde os leitmotivs de musicais da Broadway como My Fair Lady a um clássico do repertório de Chico Buarque - Gota d’Água, incursionando ainda pelas melodias de Piaf e também pelos fados de Amália Rodrigues.

Preenchendo a caixa cênica uma minimalista ambientação concepcional (Natalia Lana) referenciada através de diversos planos de um tablado e reflexos especulares, como pelo uso de manequins portadores de um similar mas, sobretudo, elegante figurino (Karen Brustolin). Com certa autenticidade mais aproximativa de um show cênico e tudo sempre ressaltado pelo bom gosto dos efeitos luminares (Ana Luiza de Simoni).


O Céu de Bibi Ferreira. Gabriel Chalita/Dramaturgia. Gustavo Barchilon/Direção Concepcional. Janeiro/2026.Erbs Jr e Guilherme Logullo/Fotos.


O espetáculo funciona realmente como uma espécie de show cênico, classificação sugerida pelo próprio diretor Gustavo Barchilon, um dos experts no gênero musical da última geração, desde as criações originais do circuito Broadway ao West End, sem nunca deixar de lado incursões no musical com um sotaque de brasilidade.

Sendo a maior parte de sua textualidade (Gabriel Chalita) pré-gravada com exposição das posturas e dos pensares de Bibi Ferreira sobre a vida, sobre a arte teatral, além de seu comportamento existencial como mulher e como cidadã consciente de seu ofício criador.

O que é continuado também na verbalização de seus conceitos artísticos-comportamentais por excepcionais atrizes-cantoras cada uma delas imprimindo matizes singulares no empenho de tornar vivo, com seu presencial cênico-musical, o testemunho da emblemática Bibi em sua longa trajetória artístico-existencial.

Capaz de ser tragicômica, melodramática, romântica e até mesmo brejeira, sabendo a hora e a vez de assumir o compromisso político e a pulsão social de uma artista plenamente engajada com seu tempo. Reafirmando seu múltiplo talento de atriz e cantora, dotada de uma corporeidade gestual a serviço de sua missão artística.

Por intermédio da representação vocal-musical de cada uma das quatro atrizes em personagens de vivências cênicas tão diversificadas, desde a entrega ao sonho romantizado da florista Elisa de My Fair Lady ou à potencial afirmação do feminino como a Joana de Gota d’Água.

Onde, por outro lado, a reverência assume tonalidades confessionais na trajetória pontuada de alegria ou desafetos da cantora Edith Piaf ou da espontaneidade afetiva nos fados de Amália Rodrigues, este show cênico prioriza uma sensorial força imersiva nos contornos de cada personagem interpretado, seja este ficcional ou realista.

Técnica e talento de sobra na unicidade performática deste convincente quarteto feminino (Giulia Nadruz, Barbara Sut, Luísa Vianna, Fernanda Biancamano) capaz de transmitir, na fluência de suas vozes e de suas movimentações no palco, o acerto direcional de Gustavo Barchilon fazendo da despretensão deste show cênico um envolvente  momento da arte de representar.

Valendo lembrar  aqui, oportunamente, uma das mais apropriadas reflexões do sociólogo e filósofo francês Edgar Morin sobre a magia do teatro podendo, quem sabe, fazer de sua palavra tão certa na  hora certa, uma definição para O Céu de Bibi Ferreira : “A estrela é mais que um ator encarnando personagens : ela se encarna nelas e elas se encarnam nela”...

 

                                        Wagner Corrêa de Araújo



O Céu de Bibi Ferreira está em cartaz no Teatro Sesc/Ginástico/Centro/RJ, quintas e sextas, às 19h; sábados e domingos, às 17h; até 08 de fevereiro.

JOB : UM MERGULHO ABISSAL NO INFERNO CIBERNÉTICO SOB O COMPASSO DE UM THRILLER PSICOLÓGICO


Job. Max Wolf Friedlich/Dramaturgia. Fernando Philbert/Direção Concepcional. Com Bianca Bin e Edson Fieschi. Janeiro/2026. Annelise Tozzeto/Fotos.



Uma das revelações da geração mais recente do teatro norte-americano é o dramaturgo Max Wolf Friedlich cujas peças se caracterizam pela abordagem incisiva dos conflitos psicológicos e questionamentos sem resposta que afligem a condição humana na contemporaneidade.

Desde sua estreia nos palcos experimentais novaiorquinos em 2012, ao absoluto reconhecimento do público e da crítica com sua peça Job, em 2023, a partir do seu cínico e provocador enfoque dos abismos mentais à causa da dependência avassaladora das mídias sociais. Inicialmente num teatro do Soho, dali chegando à Broadway no ano seguinte.

Tornando-se, então, um fenômeno midiático e, agora, pela primeira vez nos palcos brasileiros, a partir da apurada tradução de Alexandre Tenório, com o alcance de mais uma das destacáveis direções concepcionais de Fernando Philbert, tendo como protagonistas os atores Bianca Bin e Edson Fieschi.

A narrativa se desenvolvendo no entorno de uma funcionária de uma multi e influente empresa de tecnologia, voltada prioritariamente para os meios digitais, na qual Jane (Bianca Bin) atua como uma especialista no atendimento ao usuário, com a função de moderadora de conteúdos.



Job. Max Wolf Friedlich/Dramaturgia. Fernando Philbert/Direção Concepcional. Com Bianca Bin e Edson Fieschi. Janeiro/2026. Annelise Tozzeto/Fotos.


Onde o enfrentamento dos abusos cotidianos em todos os níveis, morais e políticos, representados pela internet, acabam provocando em Jane um surto mental, no desespero de um pânico no trabalho que viraliza como um meme, obrigando-a a se afastar enquanto aguarda o diagnóstico terapêutico de Loyd (Edson Fieschi) que ela busca em seu consultório.

O preenchimento da caixa cênica (Natalia Lana) reproduz a elegante e, ao mesmo tempo, acolhedora sala de atendimento do terapeuta, completada pelo design de uma estante com plantas, esculturas e enfeites de uma plasticidade que evoca as vivências hippies de Loyd (Edson Fieschi) em Berkeley, além das tradicionais cadeira do médico e do sofá dos pacientes.

Os dois personagens com indumentárias (Ronald  Teixeira) costumeiras devidamente apropriadas ao exercício cotidiano, tanto do ofício do terapeuta como o de uma profissional na tipicidade da Geração Z, trazendo  uma bolsa que esconde uma arma, segredo sinalizador no desenrolar da trama dramatúrgica.

Exemplificada no funcional dimensionamento dos efeitos luminares (Vilmar Olos), ora prevalentemente vazados, ora subitamente faiscantes, em flashs instantâneos que se conectam com intrigantes sonoridades, quase explosões, de uma trilha ruidosa capaz de assustar (Marcelo Alonso Neves).

E que  faz ascender a climatização de mistério, suspense e colapso, decorrente dos confrontos dialogais, sob calmaria ou surtos nervosos dos dois personagens que, sequencialmente, se transmitem dos atores aos espectadores provocando angústia e indagação sobre como decifrar o sentido de tudo aquilo.

Havendo ainda uma conturbada ambiguidade imprimida pelo dramaturgo à sua textualidade, a começar pelo dúplice significado que pode ter a titulação da obra. De um lado referenciando um personagem bíblico, nos ascendentes sacrifícios e sofrimentos enfrentados pela funcionária em nome de uma causa e, por outro, a tradução literal do vocábulo inglês com seu sentido de trabalho,  tarefa, função.

Sendo seguida, ainda, pelas mudanças de personalidade do terapeuta sob o stress ameaçador da paciente, atormentados ambos, mental e fisicamente, sob as incomodas circunstâncias de um enredo pleno de reviravoltas e que tanto pode soar como surpreendente ou, sobretudo, previsível, de acordo com a visão personalista de cada espectador.  

Destacando-se pela empatia performática de dois atores (Bianca Bin e Edson Fieschi), através da coesiva psicofisicalidade carregada de técnica e de indisfarçável apelo emocional no limiar de suas tensas contundências que se irradiam no gestual e nas falas de cada um deles.

Tudo sendo correspondido, com plena densidade, pela vigorosa direção de Fernando Philbert sabendo sempre como manter uma atmosfera sensorialmente impactante, sob permanente progressão dramática de pesadelo e de suspense.

Em espetáculo que, afinal, dá um necessário e urgente recado sobre o risco da conectividade desenfreada das relações humanas ao domínio de uma coercitiva e submissa adesão ao universo cibernético...

                         

                                               Wagner Corrêa de Araújo

 

Job está em cartaz no Teatro TotalEnergies (Sala Adolpho Bloch)/Glória, sextas e sábados, às 20h; domingos às 18h; até 22 de fevereiro.

PIQUENIQUE, VARIAÇÕES AMOROSAS : MÁRCIA MILHAZES CIA DE DANÇA ABRE A TEMPORADA 2026, COM IRRADIANTE E IMERSIVO POEMA COREOGRÁFICO



Marcia Milhazes Cia de Dança - Piquenique, Variações Amorosas. Marcia Milhazes/Concepção Coreográfica-Direcional. Janeiro/2026. Denise Mendes/Fotos.


Próxima de completar sua terceira década, como uma das mais destacáveis e inventivas companhias da dança contemporânea em moldes brasileiros, a Marcia Milhazes Cia de Dança apresenta o conclusivo segmento titulado Piquenique, ⁶Variações Amorosas, de uma diferencial trilogia iniciada por Sempre Seu (2015) e Guarde-me (2017).

Sempre sob a direção concepcional de sua idealizadora e coreógrafa Marcia Milhazes, aprimorando seu vocabulário do movimento dimensionado por uma intimista estética de apelo camerístico onde são privilegiadas desbravadoras criações formatadas para solos e duos, ou por vezes, pequenas formações grupais em trio ou quarteto.

Por outro lado, conectando-se ao legado da pulsante plasticidade apresentada pela linguagem do barroco brasileiro, sob suas formas pictóricas e esculturais que sugestionam um contínuo desdobramento imagético, ela vem transmutando isto em seu processo de criação coreográfica.

O que é ampliado no uso habitual de um acompanhamento musical pelas releituras presenciais de um trio barroco, entre a tradição e a modernidade. Ou por intermédio de uma criteriosa e lúdica colagem de temas melódicos pré-gravados, como na recorrência a registros sonoros antológicos da música popular brasileira, pelo sotaque romântico-melodramático das canções de Orlando Dias e Francisco Alves à brasilidade rítmica de Carmen Miranda ou Pixinguinha.


Marcia Milhazes Cia de Dança - Piquenique, Variações Amorosas. Marcia Milhazes/Concepção Coreográfica-Direcional. Em cena/ Ana Amelia Vianna e Domenico Salvatore. Janeiro/2026. Denise Mendes/Fotos.

Caso deste espetáculo, fazendo ascender a nostalgia afetiva da sua narrativa dramatúrgica, numa subliminar formatação de teatro coreográfico, no entorno do percurso amoroso de um casal, indo da alegria prazerosa aos descompassos dos relacionamentos humanos, interpretados com absoluta identidade coesiva pelos bailarinos Ana Amélia Vianna e Domenico Salvatore.

Enquanto a participação da conceituada artista e irmã Beatriz Milhazes no projeto cenográfico, contribui de forma emblemática para a trajetória de ressignificação visual da corporeidade em movimento. Afinal, é como se aqui a obra encontrasse um referencial no preciso pensar de Kazuo Ohno “Dançar é como desenhar uma linha na tela”.

Mas, também, com outro detalhe relevante no capricho dos figurinos desenhados por Márcia Milhazes, ao sobrepor peças da indumentária que vão sendo retiradas  em cena pelos intérpretes, desde tules e sedas a tecidos com detalhes cintilantes ou dourados, que incitam as lembranças vividas pelos dois amantes nas memoriais passagens do tempo.

Os dois tão afirmativos intérpretes bailarinos - Ana Amélia Viana e Domenico Salvatore - imprimindo aos seus personagens expressiva técnica física conectada a uma sincronicidade sensorial de seus embates passionais interiores, capazes de provocar espontâneo reflexo especular palco-plateia, pelo empenho inventivo do direcionamento concepcional e coreográfico assumido por Marcia Milhazes.

Que se materializa nas afetivas trocas de texturas gestuais e na circularidade de um corpo-linguagem dialogando com o espaço-tempo, sob a envolvência de efeitos luminares (em dúplice realização, Márcia e Glauce Milhazes). Propiciando matizações ambientais diversificadas nas tonalidades mais neutras das cores originais do painel cenográfico, extensivas à representação performática.

Piquenique, Variações Amorosas mostrando, mais uma vez, o pleno domínio da Marcia Milhazes Cia de Dança imersa numa gramática coreográfica que, ao lado de uma acertada precisão do ideário estético assumido por sua mentora artística (Marcia Milhazes), alcança seu complemento integral no contraponto sólido de seus dois convictos intérpretes-bailarinos (Ana Amélia Vianna e Domenico Salvatore).

Inteiramente entregues a uma extasiante  tradução física-afetiva da circularidade de um inventário amoroso, emoldurado pela magia dos traços pictóricos de Beatriz Milhazes, sob o irreprimível conceitual coreográfico de Marcia Milhazes. O que, com certeza, haverá de trazer novas perspectivas em 2026 para a dança contemporânea daqui e de além-mares...

 

                                               Wagner Corrêa de Araújo


Piquenique, Variações Amorosas/ Marcia Milhazes Cia de Dança está em cartaz no Mezanino do Sesc/Copacabana, de quinta a domingo, às 20h30m; até domingo, 18 de janeiro.

OS CREDORES / STRINDBERG : IMPLACÁVEL ANÁLISE CIRÚRGICA DAS RELAÇÕES CONJUGAIS NUMA DAS MAIS VIGOROSAS MONTAGENS DO GRUPO TAPA


Os Credores/Grupo Tapa. August Strindberg/Dramaturgia. Eduardo Tolentino de Araújo/Direção Concepcional. Em cena/Sandra Corveloni e Bruno Barchesi. Janeiro/2026. Ronaldo Gutierrez/Fotos.


A trilogia das Tragédias Naturalistas (Pai, Senhorita Júlia e Os Credores) foi elaborada pelo escritor, ensaísta e dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912), entre 1887 e 1889, tornando-se um emblemático signo de sua escritura cênica, ora voltada para o naturalismo ora para o expressionismo.

Entre outras peças deste autor, Os Credores entrou no repertório permanente do Grupo Tapa, sendo uma das mais reapresentadas desde sua primeira versão em 2012, sob a ousada marca da inventividade concepcional de seu diretor Eduardo Tolentino de Araújo. Repercutindo, ali, o legado da influência transformadora de A.Strindberg no processo criador da contemporaneidade teatral.

Do cast original à reestreia de 2023, aqui com base numa tradução direta do sueco pelo próprio encenador, trazendo desta vez, no elenco, os atores André Garolli, Bruno Barchesi e Sandra Corveloni. Além da inclusão inédita de um terceiro personagem apenas como um singular figurante e ao mesmo tempo atuando como contra regra - Felipe Souza.

A narrativa ambientada num hotel balneário, é configurada numa proposta mais concisa, mostrando sequencialmente três cenas em espaços diferenciais, sempre com as interferências do Encarregado (Felipe Souza) nas mobilizações dos poucos elementos cênicos. Em uma minimalista mas significativa cenografia (criação coletiva) no dimensionamento da trama dramática, completada pelos figurinos contemporâneos com sutis tonalidades atemporais.


Os Credores/Grupo Tapa. August Strindberg/Dramaturgia. Eduardo Tolentino de Araújo/Direção Concepcional. Em cena, Bruno Barchesi e André Garolli. Janeiro/2026. Ronaldo Gutierrez/Fotos.


Ampliada no intimismo de um espaço que faz com que a plateia participe mais imersivamente através do reflexo especular em plano frontal e lateral, produzindo um efeito de aproximação sensorial entre atores e espectadores. Sob um subliminar sotaque cinematográfico e virtual, referenciando uma antecipação quase secular do teatro de Strindberg  para  o cinema de Bergman.

Inicialmente em uma sauna masculina, onde o jovem escultor Adolf (Bruno Barchesi) é incitado a crer na volatilidade das esposas consideradas fiéis, por seu recente e supostamente amigo Gustavo (André Garolli), um convicto adepto de um machismo tóxico.

Na cena seguinte, diante de sua mulher Tekla (Sandra Corveloni), Adolf aparece como um marido fragilizado, não só por sua própria condição física, mas indefeso e manipulado como uma criança diante do domínio feminino exercido por sua consorte.

E na sequência, a força possessiva de Tekla sendo friamente confrontada por Gustavo que, na verdade, pela intuição quase previsível do enredo, apreendida ou não por alguns espectadores, revela-se como seu primeiro marido, demonstrando sua mágoa ferina por ter sido sugestionado como um personagem “idiota” no romance que ela publicou.

Os três protagonistas se destacando na unicidade do empenho e da entrega de seus personagens ao complexo conflito de vontades permeado por um niilismo cáustico e perturbador. A começar pelo jogo cruel estabelecido por Gustavo, agindo como vingativo credor de dívidas matrimoniais, que, no seu linguajar irônico e no gestual desintegrador, encontra um intérprete qualitativo em André Birolli.

Em contraponto a convincente personificação de André Garolli cintila, entre a melancolia e o ceticismo existencial de Adolf, não só por sua deficiência física e mais ainda por sua incapacidade de escapar à submissão feminina de Tekla, mesmo com sua pulsante busca afirmativa como artista plástico.

Enquanto Tekla, razão principal do tríplice embate psicológico perceptível na estruturação dos três papéis, imprime uma sedutora conotação sensitiva, entre a arrogância e a afetividade, no provocador exercicio de sua obsessiva feminilidade, num destaque absoluto como personagem, atriz e mulher para Sandra Corveloni.

O acerto da gramática cênica, assumida por Eduardo Tolentino de Araújo na peça Os Credores, um clássico de Strindberg, reafirma sua maturidade artística pelo reconhecido alcance de seu ideário direcional frente ao Grupo Tapa. Sempre voltado para um inventário dramático irradiante e esclarecedor, sintonizado com os avanços estéticos do teatro e com a problemática de nosso tempo...  

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo


Os Credores, com o Grupo Tapa, está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h; até 08/03.

TEMPORADA TEATRAL 2025 : PRIORIZANDO A INSPIRAÇÃO DA PALAVRA LITERÁRIA EM INSTIGANTES TRANSMUTAÇÕES DRAMATÚRGICAS

Eddy Violência & Metamorfose. A partir da obra de Edouard Louis. Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky /Direção Concepcional. Julho/2025. Renato Pagliacci/Fotos.


Entre os momentos mais especiais da temporada teatral 2025, nos palcos cariocas, bem sucedidas versões dramatúrgicas de obras literárias de prevalência ficcional, entre autores brasileiros e além-fronteiras, tornaram-se habituais no aplauso do público e na opinião da crítica.

Algumas delas sob um dimensionamento estético de uma quase literal fidelidade ao texto original, enquanto outras optaram por avançar numa proposta inventiva de releituras cênicas, priorizando sempre um olhar voltado para a problemática da contemporaneidade e dos novos caminhos do ofício teatral.

Uma das conceituadas escritoras americanas de realismo fantástico - Ursula K. Le Guin (1929-2018), é a autora do enigmático conto Aqueles Que Deixam Omelas, de 1973, sob o significado fabular, moral e filosófico, de uma cidade idílica. Originando o monólogo de similar denominação, numa envolvência intimista da proposta dramatúrgica de leitura do texto original (direção de João Maia, com performance solo de João Pedro Zappa).

No mesmo seguimento, outro monólogo procura se ater à textualidade ficcional do romance Sidarta, de Herman Hesse, onde a nudez do intérprete Angel Ferreira, na direção concepcional por Walter Daguerre, explicita o significativo metafórico do despojamento de qualquer elemento que esconda ou disfarce a natural fisicalidade humana, pelo ato de entrega total à busca de nossa interioridade espiritual e “de como conviver com o seu eu”.

No caso de O Som Que Vem de Dentro, do escritor americano Adam Rapp, sintonizado com uma dramaturgia reflexiva, ao mesmo tempo, plena do compasso psicofísico de um thriller, fluindo do imaginário das páginas ficcionais aos seus desdobramentos cênicos. Na corporeidade e na vocalização de dois convictos atores de gerações diversas (Gláucia Rodrigues e André Celant), sob perceptível empenho artesanal no comando de João Fonseca.


O Som Que Vem de Dentro. Adam Rapp/Dramaturgia. João Fonseca/Direção Concepcional. Maio/2025. Cláudia Ribeiro/Fotos.


Considerado um fenômeno midiático da mais recente  literatura francesa, Edouard Louis e seus romances autobiográficos, tem fascinado dos palcos às telas. Dando voz ao que ele classifica como “morte social”, à causa do preconceito e da exclusão por sua origem humilde e o corajoso enfrentamento da identificação de sua sexualidade, numa conturbada trajetória familiar e social pontuada pela pulsão da homofobia.

E por um episódio de violência por estrupo dando vazão a uma corajosa metamorfose em seu conceitual de vida, na assumida remissão pelo ofício da palavra literária e teatral. Resultando, com base em três de seus livros, na peça Eddy Violência & Metamorfose, uma das mais impactantes montagens do ano (Luís Felipe Reis e Marcelo Grabowsky na direção) com interpretação titular de João Côrtes, como o alter ego do escritor.

A escritora norte-americana Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), é reconhecida como icônica precursora das lutas emancipatórias feministas. Chegando até nós seu pensamento libertário, pelo alcance cênico-direcional de duas representantes de um teatro brasileiro de pulsão performática/ideológica - Alessandra Maestrini e Denise Stoklos. No espetáculo O Papel de Parede Amarelo e Eu, a partir de seu mais polêmico conto, tendo como protagonista Gabriela Duarte no primeiro monólogo de sua trajetória como atriz.


Veias Abertas 60 30 15 seg. Pedro Kosovski e Carolina Lavigne/Dramaturgia. Marco André Nunes/ Direção. Julho/2025. Lígia Jardim/Fotos.


Em plenos anos 70, no entremeio de regimes ditatoriais que se estendiam em processo ascendente na América Latina, incluído o Brasil, o escritor uruguaio Eduardo Galeano publicava um livro fundamental Veias Abertas sobre esta controvertida realidade política do continente.

Que, através da parceria autoral - Pedro Kosovski e Carolina Lavigne - revela desbravadora direção de Marco André Nunes próxima de um teatro coreográfico. Sob a proposta performática de um corpo-linguagem  caleidoscópico, presencial em Veias Abertas 60 30 15 Seg., em provocante dramaturgia de alcance latino-americano.

Sob o ângulo da literatura brasileira recente adaptada aos palcos, Torto Arado um dos maiores sucessos do mercado editorial, teve sua palavra literária (por Itamar Vieira Júnior) transposta ao formato de teatro musical. Mas não alcançando ali o mesmo impacto temático no entorno de um resistente preconceito racial, marcante no ideário do romance. Mas que, em sua adaptação cênica, teve certa limitação na autenticidade dramatúrgica, à causa de excessivas recorrências elucidativas da narrativa ficcional.

Rodrigo Portella assumiu o comado diretor do Grupo Galpão para transmutar o livro do escritor português José Saramago numa releitura dramatúrgica titulada (Um) Ensaio Sobre a Cegueira. Numa proposta diferencial em que sua temática é exposta sob um tratamento estético de prevalente experimentalismo teatral configurando um teatro de linhagem reflexiva que une, em ato de coesão coletiva, atores e espectadores.

O contraponto entre o visto e o imaginado, pela rompante ousadia criativa da concepção de Rodrigo Portella, a partir de uma textualidade literária situada entre a irracionalidade e o pesadelo, nunca deixando de ser um teatro consistente e questionador, solidificado por sua pulsão de denúncia e pela potencialidade nas suas intenções críticas...

 

                                               Wagner Corrêa de Araújo

 

(Um) Ensaio Sobre a Cegueira. A partir da obra de Saramago. Grupo Galpão/Rodrigo Portella/Direção Concepcional. Setembro/2025. Guto Muniz e Tati Motta/Fotos.

RETROSPECTIVA DE DANÇA 2025 : UM ANO COREOGRÁFICO AINDA LIMITADO MAS COM ALGUMAS BOAS SURPRESAS

 

Frida/Balé doTheatro Municipal/RJ. Reginaldo Oliveira/Concepção Coreográfica. Outubro/2025. Daniel Ebendinger.


Com um significativo propósito de evocar a necessária preservação do meio ambiente através de seu maior patrimônio, a Cia de Ballet Dalal Achcar abriu a programação carioca de dança com a reestreia no palco do Municipal de “A Floresta Amazônica”. Obra marcante na trajetória da bailarina, diretora e coreógrafa Dalal Achcar conectando o gestualismo clássico a um sutil sotaque contemporâneo e que deveria integrar, vez ou outra, o repertório do Balé do TM/RJ pela força de sua brasilidade, não só coreográfica, mas musical e temática.

A primeira surpresa entre os grupos de dança contemporânea foi trazida pela Cia Híbrida, através de mais uma criação de seu coreógrafo-diretor Renato Cruz, em outra de suas bem sucedidas propostas-performances de dança urbana, no circuito Rio/Paris.  Novo Pulso dando um pleno recado estético-social, como bem define seu inventivo signo autoral de desdobramento coreográfico - “Novo é o fluxo que des-agua na cena que constrói o porvir”...

Ainda a Cia Hibrida, agora com Nouveau Monde inédita em palcos brasileiros, em que prevalece um processo de estrutura próximo da dança-teatro na intermediação de textos falados questionando o risco da dança robotizada diante da realidade virtual. Numa aproximação quase paralela a Esther Companhia de Dança, desta vez recorrendo aos princípios da Física, na singularidade virtual de uma dança temporal-espacial com o espetáculo Matéria. Incentivando a contribuição personalista de seus cinco bailarinos-criadores sempre direcionados às perspectivas desbravadoras de uma catártica dança cósmica.

Em sua turnê nacional começada no RJ, o Corpo de Dança do Amazonas, apresentou diversos trabalhos, destacando-se, entre eles, TA - Sobre Ser Grande em que a CDA encontra seu momento de maior e mais surpreendente potencialidade criativa e sensorial ao mesmo tempo. Onde a criação de seu diretor-coreógrafo Mário Nascimento estabelece exemplar ressonância do ideário estético/coreográfico de um corpo-linguagem ecoando uma mensagem de esperança, entre reflexos especulares da luta pela sobrevivência de um povo originário e de uma raça indígena.


Corpo de Dança do Amazonas. TA-Como Ser Grande. Mário Nascimento/Concepção Coreográfica-Direcional. Junho/2025. Michael Dantas/Fotos.


Outra Cia, plena de brasilidade, é o Balé Folclórico da Bahia que celebrou seus 37 anos com o espetáculo O Balé Que Você Não Vê, na peculiaridade de suas temáticas no entorno da cultura popular baiana, como pelo tratamento diferencial que assume em sua dramaturgia da corporeidade. Alcançando o grande momento do espetáculo na peculiar versão do Bolero, mantendo as linhas básicas da composição de Ravel, em que todos os elementos estéticos alcançam sua culminância na coreografia original de Carlos dos Santos, pela releitura por Vavá Botelho e Zebrinha.

O espetáculo comemorativo dos 50 anos do Grupo Corpo estabelece um liame entre o passado, o presente e o futuro, ao colocar lado a lado, uma das clássicas obras da Cia - Parabelo, de 1997, e a inédita Piracema. A primeira como uma exclusiva composição coreográfica de Rodrigo Pederneiras, seguida da outra numa simultânea leitura deste com Cassi Abranches. Com uma dramaturgia corporal de movimentos híbridos, entre as energizadas contrações da fisicalidade no início e no final da obra, entremeadas pela suavidade romantizada de gestualidades que se fundem numa pulsão envolvente.

Abrindo a temporada internacional, a Compagnie Käfig, num simbólico processo de criação do coreógrafo franco-argelino Mourad Merzouki reinventa, sob similar titularidade, o filme La Couleur de La Grenade, do armênio Sergei Parajanov, numa retomada de suas múltiplas linguagens artísticas. O que Merzouki transmuta para um palco coreográfico de realidade imagética-onírica, adornado com vistosas tapeçarias antigas, onde seus sete excepcionais bailarinos transitam entre imagens virtuais, imersos em delirante magia gestual.


Cia Híbrida. Novo Pulso. Renato Cruz/Direção Coreográfica/Direcional. Maio/2025. Renato Mangolin/Fotos.



O Balé do Theatro Municipal, além de seu ofício habitual de priorização do repertório clássico, reapresentando o Lago dos Cisnes e o Quebra Nozes, alcançou um inédito dimensionamento coreográfico na performance do balé Frida, criação exclusiva de Reginaldo Oliveira para a companhia Salzburger Landestheater, onde atua há cerca de uma década.

Obra com um toque de teatro coreográfico sobre os dramas psicofísicos da pintora mexicana, materializando seu processo criador no uso da corporeidade dos bailarinos, com um surpreendente resultado, tanto nos solos e duos, como nas prevalentes atuações grupais, em irradiante expressionismo da corporeidade de um afinado elenco de intérpretes. 

Complementando esta essencialista retrospectiva da Dança 2025 pela bem-vinda retomada do ofício coreográfico de Dalal Achcar, na viabilização de uma inédita proposta de 60 anos atrás, com Água de Meninos para a sua Cia, incluindo temas de Tom Jobim, exclusivamente compostos para o balé. O que, junto à recente formação de uma nova companhia carioca, a de Thiago Soares na instantânea temporada de Brusco, há de abrir, certamente, novos horizontes no panorama da dança 2026, tanto em nível carioca como nacional...


                                             Wagner Corrêa de Araújo


Grupo Corpo / 50 Anos. Piracema/Cassi Abranches e Rodrigo Pederneiras. Julho/2025. José Luiz Pederneiras/Fotos.

TITANIQUE - O MUSICAL : A TRÁGICA TRAVESSIA MARÍTIMA TRANSMUTADA EM PARÓDIA BESTEIROL, SOB UM SOTAQUE QUEER E CONTAGIANTE TRILHA JUKEBOX

 

Titanique. Blue, Rousoli e Mindelle/Dramaturgia Original. Gustavo Barchilon/Direção Concepcional. Dezembro/2025. Caio Gallucci/Fotos.


Assim como Mamma Mia (2001) se transformou num clássico do musical jukebox, do West End à Broadway, dimensionado exclusivamente no entorno dos maiores sucessos de uma banda e de um cantor, Titanique tornou-se outro incrível fenômeno do gênero.

Paralelo à versão cinematográfica de James Cameron (1997) onde a trilha privilegiava a canção tema My Heart Will Go On, da compositora e cantora canadense Céline Dion, sequenciada por uma versão para teatro musical, ainda no mesmo ano, e uma posterior releitura-paródia, no circuito off Broadway.

Mas para que o conceitual burlesco, na extravagância hilária das referências eróticas em compasso queer, nas situações nonsense insinuadas por um tratamento entre o absurdo e o besteirol, a partir de uma narrativa inspirada por uma tragédia real, não perturbe muito o conservadorismo acomodado de muitos espectadores, alguns requisitos dramatúrgicos foram essenciais.

E foram estes, com certeza, a razão do grande êxito deste musical-paródia a partir do ideário original de seus realizadores e reproduzido com artesania pelos responsáveis do musical, abaixo dos limites da linha equatorial, sob a ressonante direção artística/concepcional de Gustavo Barchilon.


Titanique. Blue, Rousoli e Mindelle/Dramaturgia Original. Gustavo Barchilon/Direção Concepcional. Dezembro/2025. Caio Gallucci/Fotos.


A começar pelo acerto de sua versão dramatúrgica, realizada em dúplice parceria com o roteirista Rafael Oliveira. Mais a direção musical de Thiago Gimenes e a de movimento por Alonso Barros, tudo a partir de outro dos projetos de Gustavo Barchilon, resultado de sua vasta expertise em musicais da Broadway e do West End londrino.

Numa bem cuidada produção contando com um elenco de craques, entre atores/cantores do teatro musical, ao lado de intérpretes mais voltados para uma linha do humor tanto nos palcos como nos programas e séries de televisão. Reunindo entre os principais protagonistas Alessandra Maestrini, Giulia Nadruz e Marcos Veras, além de George Sauma, Luís Lobianco, Mateus Ribeiro, Talita Real, Wendel Bendelack e uma atuação singular da atriz trans Valéria Barcelos.

O preenchimento realista da caixa cênica (Natália Lana) tem assumida proximidade com a visão pictórica do convés de um antigo transatlântico em dois planos, desde os funis de vapores da parte superior do navio até a plataforma de baixo, através de porta que sugestiona o acesso a outras ambiências como cabines e salão cerimonial de festas e refeições .

Onde uma plasticidade funcional é ressaltada pelos efeitos luminares (Maneco Quinderé), na mutação focal de espaço-tempo por onde transita o elenco de 12 atores, na diversidade de suas indumentárias (Theo Cochrane).  Ora formalistas sob um toque atemporal, ou conectadas a anárquicos e irreverentes detalhes, trazidos por certos personagens, desde o vermelhão brega do coração do oceano à louca cafonice de um décor de pomba para cabelos.

Numa sempre expressiva corporeidade imprimida por Alonso de Barros, equilibrada entre as passagens de um romantismo novelesco, ampliada pelas canções do repertório sentimentalóide de Céline Dion, e um gestual risível, espontaneamente afetado ou atrevido.  

Alessandra Maestrini a delirante narradora como um ícone gay, faz a luxuriante diva (Céline Dion), arrasando por seu proposital sotaque gringo, além de uma potencialidade vocal cuja extensão só é superada pela luminosa tessitura de soprano de Giulia Nadruz (Rose). Caindo de amores por Rose, o deslumbrado e não menos simplório tripulante Jack (Marcos Veras), completa, convicto, o alcance do timing cômico/amoroso do musical.

Estendendo-se o brilho do naipe feminino na peculiar performance da sobrevivente Molly Brown (Talita Real). Sem deixar de destacar os arroubos histéricos de Luís Lobianco no excêntrico personagem drag de Ruth, a mãe de Rose, além do humor camp explodindo ainda com Carl (George Sauma) o noivo frustrado, e Victor (Wendel Bendelack), o capitão do navio.

Gustavo Barchilon mais uma vez, num surpreendente gol de placa no campo conceitual do teatro musical, sabendo destilar bem seu mordaz contraponto crítico no desafio à grande tradição, com ironizado humor e inventivo olhar estético-direcional armado na contemporaneidade...

 

                                        Wagner Corrêa de Araújo

 

Titanique – O Musical está em cartaz no Teatro Sabesp/Frei Caneca/SP,  sábado, às 17 e às 20h; domingo, às 15h e às 18h, até o próximo dia 14 de dezembro.

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