A escritora e dramaturga americana Marsha Norman foi vencedora do Prêmio Pulitzer, em 1983, com sua peça
Boa
Noite, Mãe (‘Night, Mother) que
chegou aos palcos britânicos, estreando em 1985. Sendo representada desde então
em diferenciais versões sem nunca perder o seu ideário dramatúrgico original,
quatro décadas depois.
Que é preservado em mais uma das artesanais traduções de José
Pedro Peter, agora, para os palcos cariocas sob a direção concepcional de
Leonardo Netto, contando, aqui, com a assistência de Patrícia Regina de Faria. E
promovendo o encontro de dois representativos nomes femininos do atual teatro
brasileiro - Beatriz Nogueira e Andréia Horta.
Para a própria Marsha,
‘Night, Mother” pode ser dimensionada pela proximidade de uma “história de terror” ao possibilitar o confronto psicofísico entre duas mentes
conturbadas diante da iminência do obsessivo propósito suicida de uma delas. Valendo
ressaltar que a dramaturga acabou se destacando mais, em sua trajetória teatral,
com uma sequencia de premiados musicais do circuito Broadway.
Na transcorrência de uma noite decisiva de questionamentos e
acerto de contas, do pânico de uma mãe, entre a culpa e o dever, à
intransigência da filha, ciente de nunca ter sido compreendida. Thelma
e Jessie, respectivamente personificadas
pelo empenho da potencial maturidade geracional de Beatriz Nogueira para o
personagem assumido e da reveladora convicção de Andréia Horta na entrega performática
ao sotaque mais insubmisso de seu papel.
Onde a narrativa se estabelece no confronto dialogal das duas
personagens, marcado por momentos discursivos de uma expectativa, ora nervosa,
ora depressiva, no entremeio de instantâneas demonstrações de afeto ou de susto
quando Jessie revela o conteúdo de uma caixa escondida, trazida de uma espécie
de sótão, exibindo a arma que pertencera ao seu pai.
O aparato cênico (Ronald Teixeira) reproduz, em tonalidades
mais realistas, uma copa-cozinha, com mesa e armário, completada por uma porta
frontal, um corredor e uma escada lateral, esta conduzindo a um plano superior
que sugestiona um sótão empoeirado ocupado por caixas.
Em dúplice realização de Ronald Teixeira, sob sua direção de
arte, são também dele os figurinos cotidianos, sob contribuição criativa por
Flávio Graff, delineando, assim, as duas atrizes com seu presencial constante,
salvo pequenas idas e voltas de Andreia Horta, dirigindo-se ao que sugere ser
uma cozinha não visível ao público.
Efeitos luminares (Ana Luiza Molinari de Simoni) mais vazados
contribuem para propiciar o clima sensorial doméstico de um cômodo residencial
do dia-a-dia, sem perspectivas para personagens confinadas. Ampliado pela
percepção de um silencio cênico preenchido apenas pelas falas, sem recorrência
a quaisquer interveniências sonoras/musicais para amenizar um constante clima
tenso.
Outro dos acertos de uma sempre segura concepção cênico-direcional
de Leonardo Netto é transmutar ao palco a mesma coloquialidade, alcançada em
sentido pleno pela escolha das palavras e das frases espontâneas, utilizadas pela
versão em português por José Pedro Peter.
Imprimindo, ao mesmo tempo, uma autenticidade naturalista no
confronto de irônicas passagens no entremeio das duas personagens tornadas, ao
mesmo tempo, motivo de um inquietante senso de humor, carregado de dúvida sobre
o que pode decorrer daí.
Enquanto avassaladoras lembranças de segredos e mentiras de
uma família disfuncional são exploradas, em paralelo tanto por uma mãe
ressentida com o frio distanciamento do marido falecido, como por uma filha isolada desde a infância com surtos
epiléticos e que replica amargamente - “Eu
sou é o que esta criança se tornou”.














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