COMUNICADO A UMA ACADEMIA : ALEGÓRICA REFLEXÃO PERFORMÁTICA ENTRE A DOMESTICAÇÃO DE UM PRIMATA E O OFÍCIO TRANSFORMADOR DE UMA ATRIZ

 

Comunicado a uma Academia. Dramaturgia inspirada em Kafka. Cavi Borges e Patrícia Niedermeier/Direção Concepcional. Maio/2026. Cavi Borges/Fotos.


O conto original de Franz Kafka, sob o título de Comunicado a uma Academia, foi publicado em 1917 e tem inspirado versões teatrais, do circuito off Broadway aos palcos brasileiros. Neste aspecto, algumas de suas montagens se tornaram memoriais como a de Moacyr Goés em 1993, tendo como destaque o protagonismo de Ítalo Rossi.

Dando continuidade ao diferencial projeto das peças/filme, Comunicado a uma Academia, com dúplice ideário concepcional do cineasta Cavi Borges e da atriz/bailarina/cineasta Patrícia Niedermeier, realiza uma simbólica temporada na passagem dos 40 anos da Intrépida Trupe, no espaço do conceituado grupo que reinventou a estética das artes circenses em moldes brasileiros.

Contando ainda com o apoio do produtor Marcos Arzua e da valiosa parceria de Beth Martins e Vanda Jacques, integrantes-responsáveis pela Intrépida Trupe, na direção de movimentos de uma corporeidade em estado de risco, através do uso de aparelhos acrobáticos suspensos no tradicional espaço cênico da Cia, em sua sede na Fundição Progresso.

Onde a ocupação cenográfica tem um dimensionamento mimimalista com um telão frontal onde são exibidas cenas fílmicas de obras de Stanley Kubrick a Alan Parker, em criteriosa seleção cinéfila de Cavi Borges, e uma pictórica reconstituição de uma gaiola/prisão do personagem primata que, ao escapar dali, vai se transformando num ser humano.


Comunicado a uma Academia. Dramaturgia inspirada em Kafka. Cavi Borges e Patrícia Niedermeier/Direção Concepcional. Maio/2026. Cavi Borges/Fotos.


Com progressiva substituição de uma indumentária (Márcia Pitanga) com referenciais à tipicidade de um animal da selva para vestes formalmente apropriadas ao relato acadêmico. Sempre com um sotaque discricionário, fugindo do mau gosto e da gratuidade, na figuração pictórica da burlesca metamorfose gestual de um corpo primata em corpo humano.

O personagem kafkiano, na híbrida metáfora autoral, é um ex-símio capturado e ferido por tiro deixando uma cicatriz facial que lhe confere o nome de Pedro Vermelho. Isolado numa jaula fica à mercê do adestrador se vai para o zoológico ou para o exibicionismo circense. Optando, assim, pelas sensações corpóreas do teatro de variedades, estaria mais próximo da condição humana e da sua própria libertação afirmativa como um ser civilizado.

Patrícia Niedermeier no seu papel-solo dá mais uma demonstração de seu talento múltiplo, amplificado numa ação performática como atriz-bailarina, e também como diretora ao lado de seu parceiro de vida e de arte, Cavi Borges, em tantas criações cinematográficas.

Aqui e agora, em outra das bem sucedidas peças-filme, com sua participação cênica, sem deixar de mencionar outros intérpretes em gênero que se aproxima bastante do teatro-coreográfico. Numa representação que revela, antes de tudo, um espontâneo fluxo das atitudes  criadoras à base de sólida carga inventiva.

Em que a própria trilha sonora e os efeitos luminares (na dúplice concepção de Diogo Perdigão) conecta o leitmotiv celebrado pelo filme 2001 Odisséia no Espaço,  nos acordes introdutórios de Assim Falava Zaratustra, de Richard Strauss, tornados emblemáticos na apreensão filosófica do processo evolutivo entre o homo sapiens até o que deveria ser a definitiva consciência de seu domínio superativo do comportamento regido pela bestialidade e selvageria.

Onde o equilíbrio do jogo das luzes jamais interfere em prejuízo das esclarecedoras projeções que completam tanto o significado da narrativa literária-dramatúrgica, como incentivam energizadas passagens dançantes com ritmos eletroacústicos de sotaque psicodélico, remetendo simultaneamente à tensão sensorial e a uma contagiante adesão palco-plateia.

O consistente e provocador encontro de diferentes linguagens artísticas - literatura-teatro-cinema-dança-música-circo - usa elementos oníricos e surrealistas para estabelecer um clima de ficção científica, em que o relato de um ex-primata faz dele um irônico conferencista, diante de uma plateia em que cada espectador representa os membros intelectuais desta imaginária Academia voltada às Ciências Humanas.

Numa dúplice gramática cênica plena de instintiva espontaneidade apesar de baseada num texto assumidamente retórico e reiterativo como um discurso acadêmico, as tonalidades farsescas prevalentes encontram seu contraponto crítico na fusão das cenas fílmicas com a convicta entrega de uma atriz tanto na sua vocalização teatral como no seu expressionismo gestual.

Ao mesmo tempo, Cavi Borges e Patricia Niedermeier expressam sua autoridade cênica-fílmica na transmutação de texto kafkiano sob o desafio da decifração do enigma da “metamorfose”. Podendo, pelo bravo resultado de seu ideário, compartilhar com Kafka a reflexão que serve de epílogo para o conto e a peça:

“Seja como for, no conjunto eu alcanço o que queria alcançar. Não se diga que o esforço não valeu a pena. No mais não quero nenhum julgamento dos homens, quero apenas difundir conhecimentos; faço tão somente um relatório; também aos senhores, eminentes membros da Academia, só apresentei um relatório”...

                   

                                           Wagner Corrêa de Araújo




Comunicado a uma Academia está em cartaz no Espaço Intrépida Trupe/Fundição Progresso/Lapa, aos sábados em sessão única, às 19h30; até o dia 06 de junho.

O DEUS DA CARNIFICINA : DESAFIANDO A CIVILIDADE HUMANA SOB O TRAGICOMICO SARCASMO DA DUPLA MORALIDADE

O Deus da Carnificina. Yasmina Reza/Dramaturgia. Rodrigo Portella / Direção Concepcional. Maio/2026. Annelize Tozetto / Fotos.


Desde a sua estreia experimental em Zurique, 2006, ao sucesso nos palcos da Broadway e nas telas (na versão de Roman Polanski, 2011) O Deus da Carnificina, peça da dramaturga francesa de origem argelina Yasmina Reza, vem despertando polêmicas similares à de sua criação anterior - Arte - na década de 90.

Aproximando-se do teatro do absurdo por seu enredo no sense, indo do humor sarcástico a uma referencial selvageria, para mostrar o que está por trás do comportamento dito civilizatório, especialmente da classe média alta, sempre fazendo questão de proclamar sua hipócrita superioridade no estrato social.

A própria Yasmina Reza assim os define : “Meus personagens são pessoas educadas que pretendem manter a compostura. Mas também são impulsivos, não conseguem manter as regras que impuseram a si mesmos. E é precisamente esta luta contra si mesmo que me interessa”.

Tanto Arte como O Deus da Carnificina tiveram montagens memoriais nos palcos brasileiros, sendo esta última a que volta ao cartaz, depois da premiada versão direcional de Emílio de Melo há dezesseis anos. E, agora,  é a vez  de Rodrigo Portella armar seu olhar diferencial numa representação que traz no elenco - Anna Sophia Folch, a idealizadora do projeto, Angelo Paes Leme, Karina Teles, e Thelmo Fernandes.


O Deus da Carnificina. Yasmina Reza/Dramaturgia. Rodrigo Portella/Direção Concepcional. Annelize Tozetto/Fotos.


A narrativa aborda o encontro, sob intencionalidade amigável, entre dois casais, cujos filhos menores se envolveram em uma briga num parquinho, sofrendo um deles uma agressão maior.  Tudo, afinal, indo por outro caminho, através de desabafos pessoais e ressentimentos contraditórios, ampliados entre um drinque e outro, por descalabros verbais, vômitos, tensão e tumulto, cumulativos com ameaças de ataques físicos.

A caixa cênica despojada mostrando seus bastidores, pela proposta de Rodrigo Portella assumindo uma concepção minimalista em que a ambiência original, numa elegante  sala de visitas domiciliar, apresenta aqui poucos elementos materiais, enquanto sugere simultaneamente o gramado verde de um lúdico parque, tendo ao fundo um típico carrinho de picolés.

Onde os figurinos (Karen Brusttolin), mais cerimoniais em sua assumida opção por  despropositado referencial a outras épocas, fazem ampliar, sob um sotaque de crítico irrealismo, o ideário cenográfico, no entremeio de uma textualidade dramatúrgica que remete incisivamente à atualidade, com indisfarçáveis efeitos luminares vazados (Ana Luzia Molinari de Simoni). 

Configurando-se ainda o sensorial abstracionismo cênico pelas interveniências de vigorosas sonoridades musicais eletroacústicas entre ruídos e acordes pop-roqueiros, em outra das sempre acertadas criações autorais de Federico Puppi.

A absoluta entrega de um elenco afinado mantem permanentes os sotaques de humor e suspense que envolvem os quatro personagens, inicialmente com sorrisos e  aparente  calma, na defesa do filho agredido e do filho agressor, apontando as razões de um lado e do outro, até o alcance de radicais posicionamentos de defesa e ataque.

A começar por Michel (Thelmo Fernandes) que, sob o efeito ascendente de alguns goles alcoólicos, esquenta os ânimos e revela seu caráter frio ao relatar sobre o hamster do filho que ele jogou na rua, estabelecendo um conflito presencial refletido nas nervosas transmutações faciais de sua mulher Veronica (Karina Telles).

O outro casal mostra um advogado Alan (Angelo Paes Leme), que teima em acreditar em suas convicções pessoais, ao lado de sua mulher Ana (Anna Sophia Folch) cujos surtos melancólicos ocultam uma frustração com tudo e com todos. Integralizados, enfim, em performances exacerbadas estabelecendo um clima psicofísico, provocador de amargo riso e de visceral espanto palco/plateia, atores/espectadores.

Em tempos do politicamente correto usado como absurda justificação de extremadas manifestações de machismo e misoginia, sob a fachada de um patriarcalismo recessivo, a instigante direção/concepcional imprimida por Rodrigo Portella ao  espetáculo, acaba tornando O Deus da Carnificina um espetáculo divertido, reflexivo e, sem dúvida alguma, obrigatório...

 

                                         
                                            Wagner Corrêa de Araújo

 

O Deus da Carnificina está em cartaz no Teatro TotalEnergies/Espaço Adolpho Bloch, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 17h; até o dia 7 de junho.

GRUPO CORPO / 21 : A ESTÉTICA DIFERENCIAL DE UMA OBRA COREOGRÁFICA TORNADA EMBLEMÁTICA NA TRAJETÓRIA DA DANÇA CONTEMPORÂNEA EM MOLDES BRASILEIROS

 

Grupo Corpo / 21 e Piracema. Rodrigo Pederneiras/Concepção Coreográfica/Direcional. Maio/2026. José Luiz Pederneiras/Fotos.


A mais reconhecida das cias mineiras de dança – o Grupo Corpo - completou em 2025 seu meio século de criações, desde sua estreia com duas obras marcantes do coreógrafo argentino Oscar Araiz, a partir de temas do compositor Milton Nascimento e do letrista Fernando Brant. Maria Maria (1975) que, decisivamente, emblematizou o Grupo Corpo por seu incrível alcance criativo, sendo sequenciada por outra titulada O Último Trem (1980).

E simbolicamente a criação coreográfica que ligou, indissoluvelmente, a companhia à assinatura de Rodrigo Pederneiras em moldes absolutamente inventivos seria, exatamente, 21, numa inédita parceria do coreógrafo e do grupo instrumental UAKTI, pelo desbravador ideário composicional de outro mineiro - Marco Antônio Guimarães.

Que tinha sido iniciada por Cantares, do mesmo músico, tornando-se o primeiro experimento com personalista autenticidade de Rodrigo Pederneiras no ofício coreográfico, após uma fase em que transitou por obras de teor mais ligado à base clássica, tais como Noturno (1982), Sonata (1984), Prelúdios (1985), Canções (1987), Missa do Orfanato (1989).

Quando, então, o impacto revelador essencialmente provocado pela reveladora brasilidade de 21, em 1992, estabelece uma original conexão coreográfica-musical de Rodrigo Pederneiras / Grupo Corpo com a MPB, passando por diversos compositores - de Tom Zé, Zé Miguel Wisnik, João Bosco, Arnaldo Antunes, até Caetano e Gil, sem deixar de lado um histórico precursor Ernesto Nazareth, em tendência que é lembrada aqui, com a reapresentação de 21, ao lado da mais recente delas - Piracema.


Grupo Corpo / 21 e Piracema. Rodrigo Pederneiras/Concepção Coreográfica/Direcional. Maio/2026. José Luiz Pederneiras/Fotos.


Onde uma ex-integrante do Grupo Corpo simbolizou na passagem cinquentenária da Cia, a transmutação deste processo evolutivo pela busca de um futuro dimensionamento sucessório. E para isto o espetáculo estabelece um liame entre o passado, o presente e o futuro, ao colocar lado a lado, 21, de 1992, e a inédita Piracema, de 2025.

A primeira como uma exclusiva composição coreográfica de Rodrigo Pederneiras, seguida da outra numa simultânea leitura deste com Cassi Abranches, uma bailarina do Grupo Corpo que retorna, ali, como coreógrafa assistente.

Sob um conceitual estético de permanente transformação pela abertura de inusitados caminhos, tanto no seu dimensionamento coreográfico como musical, por intermédio da trilha inédita de Clarice Assad e de um dúplice traçado coreográfico (Cassi Abranches e Rodrigo Pederneiras) capaz de conceituar uma nova era para o Grupo Corpo.

No seu sugestionar, repercutido especularmente na força da concepção coreográfica, desde um tribalismo indígena percussionista paralelo às sonoridades da natureza, passando por expressivos acordes de sonoridades mais universalistas confluindo, enfim, na modernidade de ritmos eletro acústicos. 

Cujo encontro num mesmo programa remete à época visionária do processo criador de 21. Pela performance dos bailarinos em collants coloridos definindo em detalhes a fisicalidade de cada um deles (Freusa Zechmeister) e no cenário artesanal (Fernando Velloso) com a plasticidade pictórica de uma pintura naif afro-brasileira. Numa caixa cênica, inicializada em obscura ambiência entre sombras e, subitamente, resplandecendo entre efeitos quase psicodélicos.

Com estes contrapontos uma gramática gestual vai se desdobrando ao compasso da energizada partitura polifônica de compassos numéricos com prevalência percussiva, entre cordas, sopros, ecos instrumentais e efeitos acústicos que acentuam, geometricamente, a vigorosa dramaturgia corporal imprimida por Rodrigo Pederneiras a 21.  

Extensivos a uma contínua unicidade de proposta estética que aproxima 21 de Piracema, na perfeccionista e evolutiva coesão de hibrida técnica clássica e ritmos da cultura popular, sob o forte sotaque do gingado de um remelexo de quadris, na pulsão de fluida e contagiante corporeidade, ancorada nos avanços da contemporaneidade coreográfica brasileira...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo

  

21 e Piracema / Grupo Corpo, em instantânea temporada no Teatro Multiplan/Village Mal/Barra da Tijuca, dias 7, 8 e 9, às 20h; até o domingo, 10/05, às 17 h.

AS CENTENÁRIAS : SOB CONTAGIANTE COMPASSO DRAMATÚRGICO/MUSICAL, UMA IRÔNICA E BEM HUMORADA ELEGIA ÀS PROFISIONAIS DO LUTO


As Centenárias. Newton Moreno/Dramaturgia. Luiz Carlos Vasconcelos/Direção Concepcional. Abril/2026. Andrea Nestrea/Fotos.


A ancestral tradição das carpideiras, mulheres contratadas para o ofício dos lamentos fúnebres, inspirou uma peça do pernambucano Newton Moreno tornada um verdadeiro clássico na trajetória do teatro brasileiro de nosso tempo, por sua cativante abordagem de temática bastante cara às tradições populares nordestinas.

E que, por outro lado, nos anos 2007/2009, alcançou através da direção de Aderbal Freire-Filho, com a dupla Marieta Severo e Andrea Beltrão, um dos mais memoráveis sucessos de público e de crítica nos palcos do país, a partir da primeira década deste terceiro milênio.

Enquanto a leitura daquela montagem priorizava menos o score musical, a direção de Luiz Carlos Vasconcelos acentua uma perspectiva estética mais próxima de uma comédia musical, através de uma trilha especialmente composta por Chico Cézar com os instrumentistas, atuando ao vivo, em cena.

Acentuada pela participação de duas atrizes-cantoras com nítidas raízes nordestinas, a baiana Laila Garin e a nortista de Natal, Juliana Linhares. O que confere ao espetáculo uma completa autenticidade regionalista, integrando também dois ilustres paraibanos - o músico Chico Cézar e o ator-diretor Luiz Carlos Vasconcelos, sem deixar de referenciar seu dramaturgo o pernambucano Newton Moreno.


As Centenárias. Newton Moreno/Dramaturgia. Luiz Carlos Vasconcelos/Direção Concepcional. Abril/2026. Andrea Nestrea/Fotos.


A narrativa se estabelece através de duas personagens básicas - as carpideiras centenárias Socorro (Laila Garin) e Zaninha (Juliana Linhares), com intervenções em outros e diversos papéis do ator Leandro Castilho, incluindo a representação da própria Morte.

Preenchendo, sob original plasticidade, a caixa cênica (Aurora dos Campos) com uma armação em madeira capaz de sugerir frontalmente, em posição verticalizada,  tanto o portal de uma igreja como um ataúde, ladeado por tecidos em cores sóbrias com a tipicidade do décor interior de um caixão.

Enquanto o assumido sotaque de brasilidade dos figurinos, por Heloísa Stockler e Kika Lopes, se viabiliza em detalhes artesanais que remetem à arte popular nordestina, vista aqui na plasticidade pictórica de suas texturas e simbolismos, como se estes personagens viessem de um destes tradicionais folguedos folclóricos.

Ressaltados sempre no detalhamento de seus adereços e de um expressivo visagismo (Mona Magalhães) com potenciais efeitos luminares (Elisa Tandeta) sabendo equilibrar tonalidades entre prevalentes tons sombrios, intermediados  por sutis claridades.

Conectados ora a energizados acordes de ritmos populares ora a instantâneos cantos de cordel e incelenças, das ladainhas às rezas lamentosas no entorno do pranteamento da partida definitiva de corpos defuntos, sob uma inédita e cativante trilha autoral de Chico Cézar, dirigida por Elísio Freitas.

Outro destaque desta montagem é o primoroso jogo gestual imprimido por Vanessa Garcia, capaz de repercutir mais ainda o simbiótico encontro de duas atrizes que se expressam na veracidade de uma verbalização regionalista, correspondida por uma corporeidade e por uma vocalização que explora todos os contornos psicofísicos de seus personagens.

E que se estende à diferencial performance, fruto da reconhecida maturidade de Leandro Castilho transitando aqui, com força espontânea, entre o masculino e o feminino de alguns de seus papéis, até a  rompante figuração burlesca da indesejada das gentes, no verso manuelino do poeta Bandeira.

A reconhecida competência de Luiz Carlos Vasconcelos na transposição cênica da peça tragicômica em divertido teatro musical, desafia com o riso, as lágrimas do fingido desalento de duas personagens diante da finitude humana.

Mas, ao mesmo tempo, faz ecoar, em processo memorial, a classificação conferida por Barbara Heliodora, à estreia da montagem primeira e original do espetáculo As Centenárias, então para ela, sem qualquer hesitação crítica, “como o mais alegre do ano”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo


As Centenárias está em cartaz no Teatro Carlos Gomes/Praça Tiradentes, às quintas e sextas, às 19h; sábados e domingos, às 17h; até o dia 10 de maio.

EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER : EXEMPLAR DRAMATURGIA INTIMISTA E DESAFIADORA SOBRE A AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE LGBTQIAPN+



Eu Sou Minha Própria Mulher. Doug Wright/Dramaturgia. Herson Capri/Direção Concepcional. Edwin Luisi/Intérprete. Abril/2026. Lívio Campos/Fotos.


A trajetória precursora e não menos controversa de uma judia alemã transgênero - Charlotte von Mahlsdorf, nascida como Lothar Berfelde, enfrentando as perseguições tanto da Alemanha nazista como do conservadorismo repressor soviético na Berlim Oriental ocupada, entre a corajosa sobrevivência e a livre expressão de sua sexualidade.

Uma temática ousada que acabou inspirando uma peça titulada Eu Sou Minha Própria Mulher (I Am My Own Wife) a partir de entrevistas reais de seu autor Doug Wright com sua personagem titular von Mahlsdorf, precedendo sua adaptação e estreia para os palcos nova-iorquinos em 2003, com aclamado sucesso de público, entre uma ou outra crítica apontando restrições.

Estas últimas chegando a levantar questionamentos de um possível colaboracionismo entre Charlotte com a polícia secreta soviética Stasi e, até mesmo, seu pertencimento à corporação de investigativa espionagem, para conseguir manter um cabaré clandestino LGBTQUIAPN+, numa cidade sob rígido domínio político-social, moralmente avesso a qualquer manifestação afirmativa da identidade gay.

Independente disto, sua narrativa textual e sua representação, num dimensionamento de docudrama, transmutou-se num signo de liberação propulsora da diversidade de opção sexual fazendo de Charlotte von Malhsdorf (1928-2002) um ícone, de sua época extremamente proibitiva à resiliência, já em pleno despontar do terceiro milênio, testemunhada de perto, ainda em vida, por ela. 


Eu Sou Minha Própria Mulher. Doug Wright/Dramaturgia. Herson Capri/Direção Concepcional. Edwin Luisi/Intérprete. Abril/2026. Lívio Campos/Fotos.


E é dentro de um contextual mais evolutivo voltado para esta problemática em nossos dias, que a peça retorna aos palcos brasileiros, dezoito anos após sua tão bem sucedida primeira montagem, retomada basicamente no propósito de manutenção tanto de seu ator - Edwin Luisi – como de sua direção Herson Capri, contando com valiosa assistência de Cláudio Andrade.

Sob uma configuração de perceptível plasticidade com sutis mutações, conservando  a ocupação da caixa cenográfica através de móveis de época, peças museológicas e figurino referencial à tipificação figurativa de uma transgressora personagem, com seu vestido preto, um colar de pérolas e calçando uma espécie de “sapatão”, em dúplice concepção de Marcelo Marques.

Enquanto as modulações ambientais dos efeitos luminares (Aurélio de Simoni) e das interveniências musicais de sua trilha (Jerry Marques) remetem, por vezes, às ancestrais sonoridades de gravações, sugestivamente, reproduzidas em processo imagético por um gramofone.

Vencedora dos Prêmios Pulitzer e Tony, a peça evoca, através dos depoimentos de Charlotte ao autor Douglas Wright, as conversas privadas entre eles, fazendo com que este se transforme, também, em uma de suas quase vinte personagens. Indo além dela, entre outras personificações, desde o incentivo da tia lésbica ao pai membro do partido nazista.

Obrigando-a, possessivamente imbuído de sua ideologia extremista,  a integrar as fileiras da Juventude Hitlerista para, assim, talvez se auto afirmar como um homem. O que, em represália posteriormente, levou-a a assassiná-lo, com sequencial condenação amplificada por sua condição judia.

Sob uma adequada e super funcional direção concepcional de Herson Capri, em nenhum momento deixando transparecer quaisquer apelos de vulgarização por um ator (Edwin Luisi) interpretando, com absoluta categoria, os maneirismos naturalmente afetados, de um personagem formatado, aqui, numa convicta autenticidade do papel como travesti.

Em performance, de certa maneira, bastante exigente ao transitar, sob uma espontânea fluidez gestual e paralelas mutações faciais, por uma diversidade de personagens masculinos e femininos, além de variar, com rara artesania, as nuances vocais e sotaques de falas em português e alemão.

O que se tornou uma marca sinalizadora na decifração do misterioso enigma no entorno da vida e das convicções da personagem, conferindo conceituados prêmios ao seu intérprete inicial, por intermédio de um reconhecido ator americano Jefferson Mays.

Premiações e força carismática continuadas, em nível singular, pela irreprimível atuação de Edwin Luisi no papel protagonista de Eu Sou Minha Própria Mulher, sem dúvida alguma, tornada emblemática para a carreira de um dos mais significativos nomes de sua geração, no universo teatral brasileiro de ontem e de hoje...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo

 

Eu Sou Minha Própria Mulher está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo, de quinta a sábado, às 20hs; domingo, às 19h, até o dia 26 de abril, seguindo em nova temporada no Teatro Vannucci / Shopping da Gávea, a partir de 02 de maio, sábado às 20h30; domingo, às 19h30. 

CIA PEQUOD / DESEJO: SEDUTORA E SENSUAL PERFORMANCE CÊNICA-COREOGRÁFICA CONECTA A DANÇA AO TEATRO DE ANIMAÇÃO



Desejo / Cia Pequod. Bruno Cezario e Miguel Veliinho / Concepção Coreográfica/Direcional. Abril/2026. Renato Mangolin/Fotos.


Na passagem dos seus 26 anos de criação a referencial Cia Pequod retoma sua fascinante pesquisa estética no entorno das relações entre a linguagem coreográfica e a dramaturgia de animação, já explorada em 2014, com raro brilho e repercussão internacional, pela original proposta de Peh Quo Deux.

Desta vez indo mais longe, num processo de criação alegórica, para decifrar uma temática provocadora de representação da sexualidade em híbrida manifestação cênica, longe de quaisquer limitações conservadoras, sob recíproco e assumido jogo lúdico sensual.

Tornado mais libertador na figuração simultânea destas aventuras sexuais através da corporeidade humana em pictórica ação paralela diante de objetos inanimados. Com marionetes e atores-bailarinos que, sob mecânicos reflexos especulares, recebem um sopro instantâneo de vida erótica na pulsão de um movimento cenográfico imune a  atitudes censórias.

O que remete não só à ancestralidade em celebrações ritualísticas usando bonecos em atos fálicos de iniciação religiosa sob erotizada sacralização. Tendência que foi retomada no século XX, desde os experimentos do cenógrafo inglês Gordon Craig priorizando a utilização de marionetes na livre representação dos desejos humanos.

E nesta diferencial proposta de Miguel Vellinho, contando com a valiosa parceria do bailarino Bruno Cezario, conferindo uma singular estrutura cênica e coreográfica aos três quadros sequenciais que integram o ideário do espetáculo Desejo inserido no conceitual estético da Cia Pequod.


Desejo / Cia Pequod. Bruno Cezario e Miguel Veliinho / Concepção Coreográfica/Direcional. Abril/2026. Renato Mangolin/Fotos.


No primeiro deles, retomando dois personagens-marionetes de performances anteriores da Cia. Enquanto repousa, a voluptuosa cantora Veronica de Vitta tem seu quarto invadido por um vampiro, com quem combinara um lascivo encontro, potencializado por diversas poses eróticas.

No seguinte, em dois tablados que se juntam, duas clássicas figurações do balé “L’aprés-midi d”un faune”, uma das obras que imortalizaram o coreógrafo e bailarino Vaslav Nijinski no apogeu dos Ballets Russes de Sergei Diaghilev. A Ninfa e o Fauno no formato de bonecos caracterizando, com plástico apuro, os personagens originais.

Enquanto o bailarino Bruno Cezario revive a coreografia original dialogando passionalmente com a Ninfa, na peculiaridade de um gestual purista que o tornou exemplar intérprete do Fauno, desde sua  apoteótica estreia neste papel, em irrepreensível leitura coreográfica de Jean Yves Lormeau, para o Balé do Theatro Municipal/RJ.

Contando, no seguimento final, com o presencial performático dos seis esmerados atores-manipuladores (Bruno Cezario, Caio Cesar Passos, Diego Diener, Liliane Xavier, Márcio Nascimento e Mariana Fausto) precedidos por uma simbólica vocalização do soneto de Olavo Bilac Ora direis ouvir estrelas.   

Desdobrando-se na formatação de duplas amorosas, sem preconceitos de identidade sexual, em ousado gestual de corpos transando numa subliminar conexão metafórica do híbrido encontro de figuras mecanizadas e atores-bailarinos, dimensionados por um teatro coreográfico.

A funcional trilha sonora reúne o experimentalismo das harmonias do clássico e do pop/eletrônico pelo britânico Mica Levi, o impressionismo musical de Claude Debussy  e os energizados acordes autorais de Federico Puppi, em ordenamento sequencial.

Onde um intimista preenchimento da caixa cênica (Doris Rollemberg) é completado pelo acerto de um figurino (Kika de Medina), alternando-se entre o black e tonalidades cotidianas, tudo sendo ressaltado pelas sombras e claridades de uma discricionária iluminação (Renato Machado).

O dúplice e consistente ideário coreográfico-direcional (Bruno Cezario e Miguel Valiinho), sobretudo, imprimindo, com a criação de Desejo, novas perspectivas para a Cia Pequod, tornada, assim, cada vez mais exemplar em sua busca investigativa, por um desbravador teatro de animação sintonizado com os avanços das artes cênicas em nosso tempo...

                                              

                                                     Wagner Corrêa de Araújo

 

Desejo/Cia Pequod está em cartaz no Espaço Mezanino/Sesc Copacabana, de quinta a domingo, às 20h30, até 05 de Maio.

BALLET DALAL ACHCAR 5 ANOS: RETROSPECTIVA PRIORIZA UMA ESTÉTICA COREOGRÁFICA ENTRE O NEOCLÁSSICO E O CONTEMPORÂNEO


Cia Ballet Dalal Achcar. Paradise Garden/Vassili Sulich. Abril/2026. Fotos/Divulgação.


Dalal Achcar é um dos nomes mais simbólicos  que vem marcando a história da dança sob formas brasileiras, da segunda metade do século XX ao terceiro milênio, sempre com irreprimível trajetória. Tendo passado por importantes Cias ora como bailarina, coreógrafa ou diretora, além de seu destaque na área didática influindo no incentivo a inúmeras vocações aqui e além fronteiras.

A mais recente formação da Companhia Ballet Dalal Achcar revela uma nova geração que tem brilhado por sua sólida base técnica mostrando talento e aptidões, tanto nas releituras do repertório de maior proximidade ao clássico como nas criações de linguagem mais contemporânea.

Contando além da própria Dalal na direção artística, com um aprimorado staff integrado pela competência de nomes fundamentais ao desenvolvimento de seus projetos, entre outros, da diretora técnica Mariza Estrela e do maitre de Ballet e coreógrafo convidado Eric Frederic, além de um elenco com cerca de vinte bailarinos.

Que aparecem numa performance com nove obras de seu repertório, a começar daquelas assinadas especialmente por Dalal Achcar como Don Quixote e Cardinal, onde um dos Concertos para cravo e orquestra de J. S. Bach serve de inspiração a uma composição em que os acordes barrocos dão vazão a uma corporeidade gestual impulsionada por movimentos dançantes com um sotaque de pura brasilidade.


Cia Ballet Dalal Achcar. Fuga Technic@/Eric Frederic. Abril/2026. Fotos/Divulgação.


No caso da versão do balé Don Quixote em dimensionamento de Suíte, há outra releitura de uma das mais reconhecidas criações de Dalal Achcar, a partir do original de Marius Petipa. Mas que perde cenicamente o impacto de sua referencial montagem completa em 1982, para o Balé do TMRJ, ao tornar-se fragmentária.

Embora não deixe de revelar o excelente preparo técnico de um elenco jovem, especialmente de seus solistas Gabriela Sisto e Fernando Mendonça nas passagens do Grand Pas de Deux e suas variações. E é extamente um outro Pas de Deux, através dos bailarinos Luana Gali e Matheus Benevides, que vai ter um alcance de luminosa sensitividade expressiva na convicta entrega passional de seus dois intérpretes

Desta vez recorrendo ao celebrado intermezzo do inglês F. Delius – O Caminho para o Jardim do Paraíso, de sua ópera A Village Romeo and Juliet, de 1907, transmutando seus dois protagonistas em rústicos camponeses. Funcionando dramaticamente como um leitmotiv de sotaque wagneriano, com sua melancolizada melodia, retratando um amor impossível.

Mas que por intermédio de sua coreografia idílica, foi uma das duas obras que trouxeram uma instantânea fama ao croata Vassili Sulich, ao lado de La Barre, esta com largo uso em academias de dança no Brasil para as suas formaturas (caso inclusive, da que leva o nome de Dalal Achcar, e da Escola Maria Olenewa do TMRJ).

Sob uma mesma linhagem musical capaz de despertar lembranças sobre o passar do tempo, As Horas, trilha minimalista por Philip Glass para um filme de Stephen Daldry, 2002, de similar titulação, torna-se tema para o coreógrafo Eric Frederic, pensada para três bailarinas (Camila Lino, Gabriela Sisto e Thaís Cabral), como personagens de um romance de Virginia Woolf (The Hours)

Tanto a trilha como a sua releitura coreográfica, provocando emoções afetivas e nostálgicas diante de uma projeção cênica abstrata (ideário cenográfico de Marcos Duprat) ampliada nas tonalidades luminares entre sombras, na representação da palavra pela corporeidade fluida das três bailarinas.

E é através de outra criação de Eric Frederic – Fuga Technic@ - que de forma carismática se estabelecem pontes energizadas de ressignificação da corporeidade gestual com um olhar armado na contemporaneidade coreográfica, através da vigorosa exibição performática de corpos em conexão de um coesivo núcleo de 19 jovens bailarinos.  

Ecoando aqui, afinal, a lição de Martha Graham no seu tríptico princípio - respiração, tensão e relaxamento - com a sequencial perspectiva da valoração inventiva de uma dança comunicativa a ser compartilhada entre os bailarinos e todos aqueles que se entregam a este lúdico jogo ...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo



Cia Ballet Dalal Achcar. Cardinal/Dalal Achcar. Abril/2026. Fotos/Divulgação.


Cia Ballet Dalal Achcar – 5 Anos estreou na sexta-feira 10/04, seguido do sábado, 11/04, às 20hs; com encerramento às 17hs, domingo, 12/04.

MULHER EM FUGA : INSTIGANTE DENÚNCIA DRAMATÚRGICA DA VERGONHA SOCIAL PELA HOMOFOBIA E PELA MISOGINIA NA OBRA DE ÉDOUARD LOUIS


Mulher em Fuga. Inspirada na obra de Édouard Louis. Pedro Kosovski/Dramaturgia. Inez Viana/Direção Concepcional. Abril/2026. Nana Moraes/Fotos.


Depois de consistente versão teatral, por Luís Felipe Reis e Julia Lund, partindo de três livros de autoficção do midiático escritor francês Édouard Louis, através da peça  Eddy e A Violência,  é a hora e a vez de Mulher em Fuga, através de um incisiva releitura dramatúrgica de Pedro Kosovski, inspirada em duas obras sobre a mãe do escritor (Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher e Monique Se Liberta).

Continuada pelo inventivo alcance da direção concepcional de Inez Viana para dois convictos atores - Malu Galli no papel titular da mãe Monique e o filho-escritor Édouard interpretado por Tiago Martelli, sendo este, ainda, o responsável pelo ideário do projeto que se tornou, desde a temporada paulista, uma das grandes surpresas do público e de aplauso crítico na atual temporada.

Para quem já teve o privilégio de ler os sete livros de Édouard Louis, reveladora presença da mais recente literatura francesa, torna-se perceptível, numa primeira análise, um signo estético de episódica saga familiar. Onde as narrativas conectam os seus personagens e seus dramas, a começar da infância opressiva do próprio autor, submissa a um pai desajustado pelo alcoolismo e pelas precárias condições sociais, tornado agressivo, homofóbico, misógino, preconceituoso e inútil à causa operária.


Mulher em Fuga. Pedro Kosovski/Dramaturgia. Inez Viana/Direção Concepcional. Tiago Martelli e Malu Galli / Elenco. Abril/2026. Nana Moraes/Fotos.


E é só quando Édouard Louis alcança sua autonomia, reconhecido como escritor já morando em Paris, que acontece uma transmutação absoluta em sua condição existencial e no seu desafio afirmativo como gay. Acontecendo isto a partir da publicação e do sucesso de seus livros com prevalência de escritas de teor confessional, sob denúncia sociopolítica.

Em que todos os familiares se cruzam, com maior ou menor destaque, dois deles enfocando precisamente a sua mãe em fases diversas diante das violências sofridas no ambiente doméstico e diante da não compreensão afetiva da sexualidade gay de seu filho. Sintetizada nas palavras de Édouard Louis : “Queria usar minha nova vida como vingança contra a minha infância, contra todas as vezes em que você e o meu pai fizeram entender que eu não era o filho que desejavam”, em  Lutas e Metamorfoses de uma Mulher.

Enquanto o outro (Monique se Liberta) mostra o resgate de uma trajetória perdida nas turbulências domésticas, quando ela chega ao apartamento parisiense do filho com perspectivas de recomeçar a viver aos 50 anos  - ali “Nada nela lembrava a mulher que fora minha mãe", assim a define o escritor.

E é então que se inicia a jornada cênica de Mulher em Fuga, um diante do outro, dando voz e corporeidade diferencial à personagem, a começar de uma caixa cenográfica (Dina Salem Levy) preenchida pela simbologia de uma extensa mesa retangular.  Que, ao mesmo tempo, traduz tanto a distância como a proximidade entre Monique e Louis, entre o passado e a remissão através de um acerto de contas, cara a cara, longe da vergonha dos tempos idos.

Sob os efeitos luminares (Aline Santini) ora vazados ora sombrios lembrando passagens melancólicas e instantes de superação, pelo relato das conflituosas passagens experimentadas, com intencionalidade redentora, pela recíproca aceitação. Ela portando um moletom cotidiano com tonalidades aquareladas e ele em tons mais sóbrios, o uso indumentário (Ticiane Passos) sugestionando duas situações sociais.

Destacando a atuação conflitante e conciliadora de dois personagens que encontram interpretações idealizadas por intermédio de dois iluminados atores, sinalizados pelo sotaque da revigorante dramaturgia de Pedro Kosovski ecoando nas texturas sempre investigativas da direção concepcional de Inez Viana.

De um lado, pela palavra dramatizada em narrativa de subliminares tonalidades literárias, por um mais discricionário Tiago Martelli no papel do escritor. No contraponto da provocativa performance de Malu Galli como uma mulher reprimida em busca de sua tão ansiada e tardia sobrevivência pela libertação.

Em dúplice envolvência palco/plateia  exprimindo reflexivos apelos de culpa e revolta, derrota e vitória que encontram culminância na emblemática cena sensorial da atriz diante de uma bateria ressoando os acordes tonitruantes da significativa mensagem tema de Wind of Change, dos Scorpions...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo


 

Mulher em Fuga está em cartaz no Teatro Firjan/Sesi /Centro/RJ, quinta e sexta, às 20h; sábado e domingo às 17h; até 29 de março.
          



ENCONTRO DE LINGUAGENS ARTÍSTICAS EVOCA A INFÂMIA DITATORIAL NA AMÉRICA LATINA, SOB UMA EMBLEMÁTICA PERFORMANCE DE JOHN MALKOVICH


O Infame Ramirez Hoffman. Roberto Bolaño/Autor. John Malkovich/Direção Concepcional/Performance. Março/2026. Mohai-Baláz/Fotos.



O espetáculo cênico-musical-literário O Infame Ramirez Hoffman é inspirado numa narrativa ficcional do escritor chileno Roberto Bolaño em vários segmentos, integrando o romance “Literatura Nazista nas Américas", onde ele conta a vida imaginária de escritores que apoiaram a ditadura militar de Augusto Pinochet.

Glorificados durante a vigência do regime totalitário e em épocas posteriores atirados à lama do desprezo e do esquecimento. Numa simbologia assumida pela obra original e transmutada  no dúplice ideário do projeto que reuniu o ator americano John Malkovich e a pianista de ascendência russa Anastasya Terenkova.

Sob um questionador enigma estético se o processo da criação, artística ou literária, pode se submeter a certos absurdos ou abusos da condição humana. Além dos limites da ética e fora de uma consciência reflexiva, quando o escritor numa pulsão de auto favorecimento torna-se  cego diante de tudo.

Temática exemplarmente abordada por escritores como o português Saramago em seu Ensaio Sobre a Cegueira e o argentino Ernesto Sábato, em Nunca Más, que se tornaria uma experimental performance anterior – Report on the Blind (2017), por intermédio da mesma dupla, o ator Malkovich e a pianista Terenkova, usando uma intensiva conexão entre a textualidade literária-documental e a composição musical.


O Infame Ramirez Hoffman. Roberto Bolaño/Autor. John Malkovich/Direção Concepcional/Performance. Março/2026. Mohai-Baláz/Fotos.



Sendo isto que os incentivou para o espetáculo cênico-musical, usando a parte final do livro de Bolaño, em que um aviador-poeta chileno, radicalmente ungido pela ideologia da extrema direita, é levado à proposição de campanhas multimídia, expondo letreiros e cartazes políticos doutrinadores, em suas exibições  aéreas.

Com incentivo ao cometimento de sequenciais crimes na irreversível (des)governança  militar de Pinochet, por torturas, assassinatos, desaparecimentos corporais, apagamento da memória coletiva, no entorno de todos os contrários e quaisquer de seus opositores. Fatos que se tornaram comuns também em outros países, especialmente, nas ditaduras argentina e brasileira.

Aumentando a expectativa de Malkovich sobre como tem sido a reação relativa à peça na habitual instabilidade política da América Latina, embora já tenha estreado em Praga, num quase referencial à opressão da era soviética em métodos similares, além de Lisboa quase para lembrar os desmandos do Salazarismo.

Alcançando sempre um expressivo retorno crítico em outras cidades europeias e americanas, passando também por Santiago do Chile e Buenos Aires, antes de chegar aos palcos brasileiros, nesta instantânea temporada por três capitais, incluindo Porto Alegre, Rio e São Paulo, esta a única com duas récitas, na Sala São Paulo.

A ambientação minimalista funciona quase como um concerto cênico, além de um telão central para exibição das legendas. Sendo preenchida por dois pianos, ambos com uso por Anastasya Terenkova, mais as estantes utilizadas pelos outros dois instrumentistas, o violinista ucraniano Andrej Bielow  e o bandoneonista argentino Fabrizio Colombo, tudo completado pela atuação carismática de Malkovich no espaço lateral.

Este trio musical, aprimoradíssimo na execução das tessituras melódicas de um repertório diversificado, incluindo desde a prevalência de obras de Astor Piazzola, ao lado de passagens por obras clássicas e contemporâneas,  até algumas subliminares frases pop/roqueiras.

Acentuando, assim, contrastantes acordes, ao propiciar momentos ora alegres, ora sombrios, de acordo com as incursões do personagem titular Ramirez e através do narrador autoral Bolaño, sob emotiva e pulsante vocalização teatral por um emblemático ator - John Malkovich, na continuidade de significativa carreira com 90 filmes, como ator e diretor, indo das telas aos palcos teatrais e de ópera.

Em bela iniciativa da Temporada Dellarte, a representação de um ator internacional consagrado, especificamente do universo dramatúrgico-cinematográfico, remete à era pre digital. Quando o privilégio de assisti-los, presencialmente, ao vivo, acontecia quase sempre no palco dos Municipais carioca e paulista, como foi entre outros, o caso de nomes estelares como o de Vivien Leigh.

Assim, a raridade desta atuação teatral de John Malkovich, certamente há de ficar na lembrança reflexiva de cada espectador, ao mesmo tempo, se inscrevendo no acervo memorial do mais tradicional palco carioca...

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo



O Infame Ramirez Hoffman, com John Malkovich, esteve em cartaz no TM/RJ, no ultimo domingo, 29 de março, às 17h; seguindo para a Sala São Paulo, com apresentações nos dias 31/03 e 01/abril.

Recente

COMUNICADO A UMA ACADEMIA : ALEGÓRICA REFLEXÃO PERFORMÁTICA ENTRE A DOMESTICAÇÃO DE UM PRIMATA E O OFÍCIO TRANSFORMADOR DE UMA ATRIZ

  Comunicado a uma Academia. Dramaturgia inspirada em Kafka. Cavi Borges e Patrícia Niedermeier/Direção Concepcional. Maio/2026. Cavi Borges...