LECUONA / GRUPO CORPO : DE VOLTA AOS PALCOS UMA CRIAÇÃO SINGULAR REINVENTANDO O LEGADO DAS DANÇAS DE SALÃO


Grupo Corpo / Lecuona. Rodrigo Pederneiras / Concepção Coreográfica. Setembro/2026. José Luiz Pederneiras/ Fotos.


Na continuidade de um signo estético que se tornou característico na trajetória do Grupo Corpo, depois de sua mais recente criação coreográfica Piracema, comemorativa dos cinquenta anos da mais celebrada companhia mineira de dança, está de volta uma das obras mais diferenciais de seu repertório – Lecuona, original de 2004.

A começar pela sua própria trilha que, além de não ser especialmente criada para a Cia, faz uso  de gravações originais do pianista e compositor cubano Ernesto Lecuona (1895-1963) um nome referencial da música naquele país, ao selecionar alguns de seus clássicos conectados à tipicidade melódica romântica anos 30 aos 50.

Reverenciada por Caetano Veloso em Fina Estampa, a obra de Lecuona tem um alcance com cerca de quase quinhentas obras, lembrando que este acervo se estende da música latina a trilhas para o cinema americano, o que lhe proporcionou até um Oscar. E que em seu período de formação, passando por Nova York, chegou a estudar com Maurice Ravel na França, tendo escrito também peças de caráter mais sinfônico.

Onde o seu lado popular,  estruturado a partir de acordes com temática melodramática, sinalizada por paixão e sensualidade, domínio e submissão, amor e abandono, lembrança e melancolia, direcionando um encontro de casais no dimensionamento de formas dançantes, sob a prevalência de boleros, tangos e valsas, é aqui representado pelo Grupo Corpo


Grupo Corpo / Lecuona. Rodrigo Pederneiras / Concepção Coreográfica. Setembro/2026. José Luiz Pederneiras/ Fotos.


Gêneros que após o seu apogeu noturno nos clubes, bares e cabarés da época, passaram a ser cultuados, sob a denominação generalizada de danças de salão, em estúdios e academias, com  a sequencial eclosão de novos e mais energéticos ritmos dançantes surgidos após o despertar do rock. 

E na releitura coreográfica imprimida por Rodrigo Pederneiras, a inspiração em melodramáticos acordes para expressar temas quase novelescos sobre impulsos amorosos, ao mesmo tempo, traduz o contraponto afetivo de uma corporeidade gestual de forte apelo psicofísico.

Destacando-se ainda os figurinos idealizados então por Freusa Zechmeister, no entremeio de um tratamento aquarelado, acentuando-se na prevalência de  tonalidades rubras e negras, equilibradas entre o verde escuro e o azul. Indo ora de trajes esportivos ora mais formais, aos quais não faltam sapatos masculinos em verniz e saias femininas esvoaçantes, até o despontar sequencial de cada um dos pares, na valsa do epílogo, em trajes brancos dos vinte bailarinos refletidos num fundo sugerindo espelhos.

Que, então, substitui a anterior ambiência pictórica entre sombras por luzes resplandecentes, numa proposta cenográfica de Paulo Pederneiras que aumenta o envolvimento imersivo de todo elenco, como se fosse um só corpo e um só casal.

Enquanto a coreografia que abre o programa – Piracema, de 2025, como primeira parceria criativa de Rodrigo Pederneiras e a ex-bailarina do Grupo Corpo - Cassi Abranches, agora no oficio de coreógrafa assistente da Cia, vai mais longe em sua proposição inventiva com o olhar armado na dança contemporânea.

Abrindo novas perspectivas ao quebrar não só o hábito da apresentar obras com similar origem autoral. Incluindo-se aí, mais uma vez, um sotaque de brasilidade não só por sua titulação temática-ecológica como pela sua inédita trilha sinfônica/eletrônica por Clarice Assad.

Por outro lado, dramaturgicamente a coreografia Lecuona, por vezes, ressalta com despretensiosa ironia subliminar as variações emotivas neste corpo a corpo de casais apaixonados. Remetendo a um dos versos melodramáticos de Ernesto Lecuona : "No vivo desde aquel dia em que te vi/Porque nunca he dejado de pensar em ti".  

Das mutações faciais aos gestos impulsivos de recusa ou de entrega absoluta,  sempre pontuados com leveza, bom humor e o lirismo de uma assumida simplicidade resgatada pela envolvência de outro exemplar legado do Grupo Corpo...  

 

                                                   Wagner Corrêa de Araújo

   

O Grupo Corpo está apresentando Piracema e Lecuona, no TMRJ, de quarta a sábado, às 20h; domingo, às 17h; até o dia 06 de setembro.

ÓPERA DO MALANDRO - UM CLÁSSICO DO MUSICAL BRASILEIRO RETORNA AOS PALCOS SOB EXEMPLAR MONTAGEM

Ópera do Malandro. Chico Buarque. Jorge Farjalla/Direção Concepcional. Agosto/2026. Priscila Prade/Fotos.


 

Na trajetória que inspirou o mais celebrado musical de Chico Buarque de Holanda, há uma referência ao século XVIII com a "The Beggars Opera" (1728), do inglês John Gay, com sua radical substituição do cenário clássico da grande ópera pelos conflitos da classe burguesa, aqui com um viés conceitual do universo da pobreza e dos mendigos.

Isto por sua vez, remete à transposição do tema na criação da "Ópera dos Três Vinténs", de Bertold Brecht/Kurt Weill(1928), indo mais longe ainda no seu alcance dos circuitos londrinos miseráveis, numa política e impactante concepção estética da Berlim anos vinte.

Com notável teor crítico, Chico Buarque mimetiza a temática antecedente num décor absolutamente brasileiro, substituindo miseráveis e ladrões por malandros e contrabandistas da Lapa carioca, em sua Ópera do Malandro, numa visão metafórica do sistema ditatorial brasileiro, de Getúlio Vargas aos “presidentes” militares.

Que se tornou, assim, um marco do gênero musical em nossos palcos substituindo a faceta lírica/operística da qual nem o próprio Gershwin conseguiu escapar com sua quase jazzística “Porgy and Bess”. Chico Buarque, aqui, optando pela dispensa do arcabouço sinfônico/lírico vocal, dá uma lição de inventividade à base, exclusiva e sem concessões, da mais pura musicalidade popular brasileira.

Dando sequencia a versões consagradas do musical desde sua estreia em 1978, da montagem primeira por Luiz Antônio Martinez Corrêa, à memorável transposição da dupla Moeller/Botelho, sem deixar de rememorar o legado cinematográfico por Ruy Guerra, além de outra polêmica releitura concepcional por João Falcão.


Ópera do Malandro. Chico Buarque. Jorge Farjalla/Direção Concepcional. Agosto/2026.Priscila Prade/Fotos.


E chegando, agora, à singular visão do encenador  e diretor Jorge Farjalla que imprime outros desdobramentos à  montagem original,  com o uso de elementos cênicos sob uma estética clown, ao lado de referenciais da cultura afro-brasileira, provenientes dos rituais do candomblé e da umbanda.

Acentuando uma liberdade maior na inclusão de uma variedade de gêneros musicais, tais como sonoridades melódicas, do tango à rumba, e até por uma sutil passagem pelo funk, adicionando-se especialmente ao último ato, temas populares de árias operísticas italianas, sob novas letras escritas por Chico Buarque.

Concorrendo para isso, a eficaz unicidade de um convívio com as composições originais do próprio Chico Buarque, sob propícios arranjos de Gui Leal, para um energizada confluência de acordes musicais, servindo como acompanhamento instrumental a um afinadíssimo score vocal.

A ocupação da caixa cênica (Chris Aizner)  é um fator que torna mais exuberante a proposta do musical, por intermédio de estruturas móveis buscando reproduzir a decadência de uma ambiência voltada para a marginalidade, à qual nunca faltam as marcas caraterísticas do vermelho ao branco no personagem do malandro  protagonista Max Overseas Navalha.

O assumido exagero carnavalesco da figuração indumentária (Uga Agu e Jorge Farjalla), enriquecida pelos adereços e pelo visagismo quase circense, é sempre potencializada por tonalidades, ora aquareladas, ora por pinceladas mais sombrias nos efeitos luminares  (Gabriele Souza). 

Com um brilho diferencial no acerto dinâmico e absoluto da direção de movimentos (Leilane Teles), conferindo ao espetáculo requintada corporeidade gestual aproximando-o  do teatro de cabaré, num conceitual que remete às invenções cênico-coreográficas da dupla Brecht/Weill.

Entre cerca de vinte personagens, dos papéis principais à pulsão sedutora dos coadjuvantes, torna-se difícil destacar qualquer um deles sem se referir aos outros, no entremeio de uma seleção estelar que vai do fascínio de Totia Meirelles a um irradiante José Loreto, passando por um convicto Amaury Lorenzo,  para chegar a Valéria Barcellos, esta sob um alcance carismático na sua autenticidade social como uma atriz trans no papel de Geni.

Procurando acentuar, sobremaneira, nesta artesanal releitura por Jorge Farjalla, a provocação na plateia de uma catarse política relacionada ao estigma da malandragem, cada vez mais tornada prevalente na contemporaneidade, através de uma exemplar montagem deste clássico do musical brasileiro...

 

                                    Wagner Corrêa de Araújo




Ópera do Malandro depois das temporadas paulista e carioca, esta no Teatro Multiplan, segue em turnê por outras capitais brasileiras.

VISITANDO O SR. GREEN : A PREVISIBILIDADE DE UMA NARRATIVA RESGATADA POR UM CARISMÁTICO ENCONTRO DE ATORES DE GERAÇÕES DIFERENTES

Visitando o Sr. Green. Guilherme Piva/Direção Concepcional. Agosto2026. Ronaldo Gutierrez/Foto.



Desde sua estreia, há quase três décadas, a peça Visitando o Sr. Green, do dramaturgo americano Jeff Baron, vem conquistando a simpatia e o aplauso do público pelo dimensionamento imprimido a um encontro, controvertido e obrigatório, entre um judeu ortodoxo com mais de 80 anos e um jovem executivo de 29.

Consequência de uma decisão judicial que, assim, impôs como punição temporária pelo quase atropelamento do velho judeu, por imperícia do segundo ao volante. Estando sujeito, a partir daí, a visitar e prestar assistência à sua quase vítima fatal, uma vez por semana em seu pequeno apartamento.

Desenvolvendo-se entre ambos, uma relação marcada por conflitos não só de gerações distantes como pelos princípios comportamentais levando o ancião judeu a rejeitar a presença do outro, vez por outra abreviando sua visita semanal na imposição de sua partida.

Sugerindo, a principio, o quanto é ranzinza o Sr. Green ao sentir naquele estado de coisas uma verdadeira intromissão em sua vida solitária, no entremeio da ambiência desleixada de livros empilhados ao acaso e de cartas nao lidas, em que  nem o telefone de modelo antigo sequer funciona.



Visitando o Sr. Green. Guilherme Piva/Direção Concepcional. Elias Andreato e Caio Manhente. Agosto/2026. Nana Moraes/Fotos



O que é correspondido na ocupação da caixa cênica  (Chris Aizner) sugerindo o limitado  espaço em que vive o Sr. Green, frontalizado por uma vidraça coberta de papel escondendo na parte externa um letreiro luminoso. Enquanto os efeitos luminares (Maneco Quinderé) se limitam a uma clareza sombreada por algumas tonalidades melancolizadas.

Onde os figurinos (Karen Brustolin) alternam caracteres opostos da jovialidade de um personagem e trajes fora de moda no outro. Sob ocasionais intervenções de acordes musicais (Liliane Secco) conectando as tradições populares de melodias judaicas típicas a um sutil sotaque de religiosidade.

Na primeira parte há a prevalência de situações bem humoradas provocadas pelas teimosias de um velho acima dos oitenta e as ansiedades de um jovem com 29, descobrindo aos poucos suas identidades nas raízes familiares judaicas. E a partir desta constatação o enredo começando a questionar sobre preferencias afetivas diante da solidão dos dois.

E é quando ocorre uma perceptível transmutação no clima emotivo da dramaturgia conduzindo a trama  ao desenvolvimento de climas psicológicos, ora marcados pela previsibilidade, ora por um conceitual de temporalidade recessiva,  ao constatar por exemplo a não aprovação da homossexualidade ou dos preconceitos quanto à escolha de parceiros amorosos de outra religião, ambos inaceitáveis  pelo  radicalismo doutrinário judaico.

As considerações diferenciais de um judeu recém-viúvo convivendo com o vazio da partida de sua mulher e as núpcias da filha única com um não judeu, paralelo ao susto inicial diante da revelação de que o jovem Ross enfrenta o desprezo dos pais judeus por ser gay, estabelecem o status de um subliminar superficialismo no tratamento da compreensão e da súbita solidariedade entre eles.

Se com o passar dos tempos  acentuaram-se as análises críticas sobre este aspecto, o que afinal foi o segredo que sempre fez desta peça um êxito permanente senão uma criteriosa seleção desta dupla de atores, desde a primeira versão brasileira com Paulo Autran no papel do Sr. Green e de Cássio Scapin, personificando Ross, sob uma artesanal direção de Elias Andreato.

Voltando este, agora como o velho judeu, reunindo sua maturidade numa peça que ele domina como poucos, à de um talento da última geração teatral Caio Manhente, ambos dirigidos com raro apuro por Guilherme Piva, sabendo como imprimir a esta nova tradução de sua textualidade (Gustavo Pinheiro) uma necessária conexão com a contemporaneidade teatral.

O dois atores impressionando pelo alcance de um timing que nunca se perde entre eles, ao compartilharem pontos de vista opostos direcionados, sob um mesmo nível qualitativo, das passagens em que aflora o riso àquelas em que o drama comove palco/plateia, ao tentar decifrar o enigma da intolerância  transmutada no feliz convívio entre dois seres humanos...

 

                                        Wagner Corrêa de Araújo

 

Visitando o Sr. Green está em cartaz no Teatro Vannucci/Shopping da Gávea, aos sábados e domingos, às 17h; até  o domingo, 27 de setembro.

DON QUIXOTE/BTM/RJ : A FORÇA REVELADORA DE UM JOVEM BAILARINO BRASILEIRO ENALTECENDO SUA TRAJETÓRIA ALÉM FRONTEIRAS


Don Quixote. BTM/RJ. Hélio Bejani / Direção Coreográfica . Agosto/2026.  Daniel Ebendinger / Fotos.


 

Nas telas do cinema (Meliès, Pabst, Orson Welles) e das artes plásticas (Gustave Doré e Portinari), na música de Massenet de Richard Strauss, no balé de Petipa e Minkus, assim como nos palcos da Broadway, o tão celebrado personagem de Miguel de Cervantes sempre motivou o universo artístico e fascinou plateias.

Dando continuidade à sua temporada coreográfica 2026,  o Balé do Theatro Municipal carioca reapresenta Don Quixote, desta vez trazendo no papel titular mais um destes talentos revelados pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil - o paulista Gabriel Lopes que ali se formou em 2016, partindo pouco depois para uma brilhante trajetória em renomadas cias russas.

E que após ter realizado seu sonho - dançar pela primeira vez no Municipal do Rio - apresentando-se, ali, ao lado de Nathalia Osipova durante o evento de premiação que leva o titulo da famosa bailarina está de volta. Agora, como o principal protagonista masculino desta remontagem de Don Quixote, no papel de Basílio, em espetáculo do BTM/RJ, sob concepção, adaptação e coreografia de Hélio Béjani e Jorge Texeira.

Alternando-se no elenco dos principais solistas da mais tradicional e atualmente a única cia. oficial no País que dá prioridade exclusiva à dança clássica, Gabriel Lopes e Juliana Valadão estiveram, neste último final de semana, nos papéis centrais como o casal enamorado, no tão conhecido e exemplar balé romântico do século XIX.


Don Quixote. BTM/RJ. Hélio Bejani / Direção Coreográfica . Agosto/2026.  Daniel Ebendinger / Fotos.

A Orquestra Sinfônica do TM/RJ sendo conduzida pelo maestro Tobias Volkman, um expert brasileiro na regência de grandes obras do repertório de balé, sabendo imprimir ritmo, magnetismo e sensibilidade ao dimensionamento de uma partitura plenamente voltada ao exibicionismo pirotécnico. 

Onde a cenografia (Pará Produções e Eventos e Glauco Bernardi) mantem-se conservadora em seu figurativismo pelo uso de telões, num deslize ligeiramente kitsch ao interferir na ambiência lírica da praça flamenca de flores primaveris com balões, subliminarmente quase lembrando festas juninas, no ato final da celebração nupcial.  Sob vazados efeitos luminares (Paulo Ornellas), ora vespertinos ou intermediados por sombras, no ato branco do sonho de Don Quixote.  

Dentro de um sotaque mais tradicional destaca-se o apuro dos figurinos (Tania Agra), retratando desde típicos personagens aldeões, toureiros e ciganos, além de um tratamento mais formalista das indumentárias do casal apaixonado, especialmente na cena das bodas.

O argumento ao usar a titulação apenas pelas instantâneas passagens do papel titular mostrando Don Quixote ao lado de seu escudeiro Sancho Pança, devidamente paramentados com os elementos característicos da original trama literária de Cervantes, incluídos os delírios de um cavaleiro andante desafiando um moinho. Enquanto se sucedem papeis criados especialmente para o balé por Petipa, sob os acordes musicais de Ludwig Minkus, como coadjuvantes da história do amor que conduz o enredo coreográfico.

São tantos tipos e situações numa representação de grande apelo mimético que exige muito timing em sua entrega à psicofisicalidade nas  danças grupais e exibições solistas, valendo ressaltar o empenho do Corpo de Baile/TM fazendo o melhor para este alcance técnico-expressivo.

Mas, sem dúvida alguma, a concentração maior palco-plateia fica no apelo carismático dos solos e pas-de-deux assumidos por Kitri e Basílio, na performance respectiva dos bailarinos Juliana Valadão e Gabriel Lopes. A começar da Kitri, por Juliana Valadão,  em sua elegante adequação do porte físico à emotividade da entrega ao papel, desde o entusiasmo da variação do Ato I aos fouettés executados com apuro, durante a qualitativa parceria do Grand Pas de Deux.

Por intermédio de performance coreográfica tornada ainda mais luminosa através do Basílio de Gabriel Lopes brilhando, pela sua presencial teatralidade e perfeccionismo técnico, já ao despontar em cena. Sempre continuada com sua representação sinalizada por uma expressiva corporeidade, contagiante do alegre sorriso cênico à espontaneidade de movimentos gestuais, no entremeio de giros em espiral e saltos exuberantes de um artista completo.

Em noite de justo reconhecimento e para consagração maior de talentos pátrios além-fronteiras, sob bela iniciativa artistica-direcional do BTM/RJ. O que deveria, enfim,  se tornar um hábito nas grandes companhias de dança Brasil afora...

 

                                     Wagner Corrêa de Araújo


Don Quixote / Balé e Orquestra do TMRJ, em  temporada no Teatro Municipal/RJ, com horários diversos, até o próximo domingo, 30 de agosto.   

A PEQUENA PRISÃO : ECOS DRAMATÚRGICOS DE UM JULGAMENTO EQUIVOCADO, SOB OS DISSABORES DE UMA SÚBITA RECLUSÃO PENITENCIÁRIA


A Pequena Prisão. De Ivan Mendes. Daniela Pereira de Carvalho/Dramaturgia. Fernando Ceylão/Direção Concepcional. Vino Fragoso/Intérprete. Agosto/2026. Claudia Ribeiro e Letícia Cecília/Fotos.


Um relato confessional do então estudante Igor Mendes, hoje professor e escritor, denunciou as absurdas razões que o levaram à condição prisional injusta durante sete meses, a partir de julho/2014, no Complexo Penitenciário de Gericinó, simplesmente por fazer parte de um destes habituais protestos da militância estudantil universitária.

Fato absolutamente contraditório para tempos democráticos e já distanciados dos anos da ditadura militar e que, após uma decisão jurídica reconhecendo o erro da condenação sinalizada por deplorável período prisional, acabou por inspirar seu marcante livro A Pequena Prisão, lançado em 2017.

Onde ele levanta sua voz estendendo suas considerações não só como um passageiro penitenciário, mas fazendo ecoar sua escrita como uma forma de denúncia sobre as precárias e sub-humanas condições na maioria do universo prisional brasileiro.

O que levou ao ideário de uma oportuna transposição dramatúrgica de sua temática no dimensionamento de um monólogo pelo ator Vino Fragoso, tendo a valiosa parceria de Daniela Pereira de Carvalho na adaptação  para o palco, em espetáculo de similar titularidade ao livro, sob o consistente empenho da direção concepcional de Fernando Ceylão, com assistência de Yasmin Gomlevsky.


A Pequena Prisão. De Ivan Mendes. Daniela Pereira de Carvalho/Dramaturgia. Fernando Ceylão/Direção Concepcional. Vino Fragoso/Intérprete. Agosto/2026. Claudia Ribeiro e Letícia Cecília/Fotos.

Destacando-se entre os seus elementos estéticos a ocupação de um espaço cênico no formato de um corredor, entre duas fileiras frontais ocupadas pelo público, por oito grades moveis que referenciam o simbólico ir e vir de cerca de 30 personagens, assumidas em caráter alternativo pelo ator Vino Fragoso.

O que torna sua entrega à atuação performática um exigente tour de force pelas suas diversas nuances expressivas, não só pelo impacto dramático das imersivas narrativas dos prisioneiros, paralelas a um repressivo e desumano comportamental de guardas e administradores daquele complexo penitenciário, popularizado como Bangu I.

Esta original estrutura cenográfica foi sugerida pelo intérprete Vino Fragoso ao se tornar ele próprio o frenético manipulador das grades em movimento, na plasticidade de uma ambiência que amplia para o ator/espectador a sensação claustrofóbica do isolamento.

Enquanto possibilita um compartilhamento sensorial mais incisivo pela proximidade das suas emotivas mutações faciais, junto à energizada corporeidade gestual (Fernanda Dias) ampliada por luzes vazadas entre sutis sombreamentos (Felício Mafra).

Ao mesmo tempo em que um despojado figurino (João Pimenta) ressalta, sob um subliminar sotaque, a tipicidade peculiar indumentária em uma prisão. Em que sua sufocante ambiência ganha novos contornos psicofísicos no entremeio dos graves acordes imprimidos pela trilha sonora incidental de Federico Puppi.

A partir de uma pertinente reflexão do ator sobre as grades que permanecem do lado de fora, lembrando o pensar de Mahatma Gandhi, quanto ao difícil suporte da  condição humana, às vezes mais pesado nas vivências cotidianas e no denso confronto com seus semelhantes  que nos limites físicos de uma cela.

Na previsibilidade antecipatória do conceitual sartreano de que o inferno são os outros, A Pequena Prisão encontra uma exemplar unicidade estética-ideológica entre a força do texto original de Igor Mendes, a fluente escritura dramatúrgica por Daniela Pereira de Carvalho, a precisa configuração cênica/direcional (Fernando Ceylão) e o arrojado e irradiante domínio performático de Vino Fragoso.

Transcendendo-se em sua entrega à representação, na espontaneidade de sua técnica e talento, pela figuração rompante de personagens marginalizados por seu status  de condenados à perda da liberdade, em livro/peça A Pequena Prisão capaz de configurar um instante cruel do coletivo social...

 

                                                 Wagner Corrêa de Araújo

 

A Pequena Prisão está em cartaz no Teatro Poeirinha/Botafogo, de quinta a sábado, às 20h ; domingo, às 19h; até o dia 30 de agosto.

AS IRMÃS PEREIRA : SOB SENSORIAL COMPASSO DRAMATÚRGICO ENTRE O RISO E A REFLEXÃO, UMA OPORTUNA HOMENAGEM À TRAJETÓRIA DE GUIDA VIANNA


As Irmãs Pereira. Pedro Brício/Dramaturgia. Alcemar Vieira e Pedro Brício/Direção Concepcional. Agosto/2026. Nil Caniné/Fotos.


O ideário da peça As Irmãs Pereira, pelo ator, dramaturgo e diretor Pedro Brício, conecta simbólicos propósitos que vão permeando a trajetória de vida e de palco de uma das mais referenciais atrizes brasileiras - Guida Vianna, como um dos nomes mais representativos da sua veterana geração.

Completando, agora, seus cinquenta anos de atuação ininterrupta no palco, nas telas do cinema e da tevê, extensivos à formação didática exercida por ela em suas passagens, por exemplo, pela escola de atores do Teatro Tablado, sendo Pedro Brício, ali entre outros, um dos talentos iniciados  e incentivados por ela.

Depois de suas incursões mais recentes como atriz em bem sucedidas montagens,  do aplauso do público ao da crítica (A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe e Teatro Decomposto), com algumas experimentais incursões pelo ofício de diretora, ao lado de suas inúmeras premiações, como o Troféu Camila Amado, Júri APTR 2026, por seu potencial talento nos palcos e na formação de  novos atores.

A começar pela dramaturgia paralela à direção concepcional de Pedro Brício, aqui, contando com a valiosa parceria de Alcemar Vieira, As Irmãs Pereira sendo representadas pela unicidade de três reconhecidas atrizes, a saber, além de Guida Vianna (Gloria), mais Clarisse Derzié (Edna) e Raquel Rocha (Dulce) personificando um trio de irmãs consanguíneas na faixa de 60 a 70 anos.


As Irmãs Pereira. Pedro Brício/Dramaturgia. Alcemar Vieira e Pedro Brício/Direção Concepcional. Agosto/2026. Nil Caniné/Fotos.


Que, naquele momento, defrontam  o que pode ou deve ser feito com as cinzas maternas de algum tempo atrás, atirá-las ao mar de Copacabana ou nas águas do Rio Tejo, acentuando a lembrança da vivência delas como ex-alunas de um colégio de freiras em Portugal, intencionando deixar de vez, a já decadente residência do carioca Largo do Boticário. 

E é a partir deste encontro inusitado provocado pela visita de Gloria (Guida Vianna) que transcorre toda a narrativa dramatúrgica, indo das perdas pelo luto às afetivas lembranças de tempos passados, no entremeio da solidão nostálgica de mulheres sexagenárias. Sempre pontuando por momentos risíveis estas viagens memoriais pelos espaços siderais da mente de cada uma delas.

Tudo isto se adequando com acerto cênico (Marieta Spada) no preenchimento de um espaço  em formato arena, avançando a encenação na ocupação de cadeiras da plateia sugerindo os assentos da sonhada viagem aérea RJ/Lisboa. E, também, pelo singular uso de objetos que remetem ao ambiente familiar das três irmãs.

Estas portando indumentárias cotidianas (Marcelo Olinto) que caracterizam as peculiaridades psicofísicas de cada uma delas, estendendo-se ao alcance de uma espontânea corporeidade gestual (Raquel Karro) correspondida em instantâneos movimentos dançantes, sob ligeiros temas musicais (Jonas Sá e Pedro Mibielli). Com sotaque de um leve romantismo capaz de suavizar passageiros instantes mais dramáticos, entre luzes (Tomás Ribas) ambientais mais vazadas que focais.

A performance  atoral é sustentada por um assumido dimensionamento direcional dúplice (Pedro Brício e Alcemar Vieira) para realçar, despretensiosamente, o comportamento mais corriqueiro de personagens femininas, diante dos percalços de uma idade avançada e sem maiores perspectivas, enquanto aguardam o epílogo existencial.

E é este tratamento dramatúrgico que estabelece o empenho destas três atrizes em construir personagens do dia a dia,  se identificando com a plateia pelos requintes de um humor fluente, permeado por subliminares e sutis questionamentos existenciais.

O que é correspondido, especialmente, pela maturidade de Guida Vianna refletindo, especularmente, a sua convicta entrega à exploração do contorno de tantos papeis, no seu meio século dedicado ao oficio de representar os transes comportamentais, tristes ou alegres, de cada um de nós diante dos desafios do difícil suporte da condição humana...  

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo

   

As Irmãs Pereira está em cartaz no Espaço Arena/Sesc/RJ, até o próximo dia 16/08, às 18hs, com expectativa de novas temporadas.

QUASAR CIA DE DANÇA / CÉU DE PÊSSEGO : PURO ESTETICISMO COREOGRÁFICO COM SUTIL RECADO ECOLÓGICO


Quasar Cia de Dança / Céu de Pêssego. Henrique Rodovalho/ Direção Coreográfica / Concepcional. Projeto Dança em Transito. Agosto/2026. Jorge Sato e Leo Pinheiro/Fotos.


Desde sua criação em 1988, a Quasar Cia de Dança sob o ideário de seu coreógrafo Henrique Rodovalho, tornou-se a mais conceituada companhia de dança contemporânea da região Centro-Oeste do País, estendendo seu reconhecimento além-fronteiras, especialmente entre o final dos anos 90 e as duas primeiras  décadas do terceiro milênio.

Surpreendendo sempre pelo caráter inventivo e desbravador de suas criações coreográficas e a força qualitativa de um elenco, nas relações de movimento de aprimorados bailarinos, tanto na exposição técnica como na sua singular expressividade no preenchimento do espaço cênico, sob uma potencial proposta de brasilidade.

Retomada em sua mais recente criação - Céu de Pêssego, tendo sempre como mentor coreográfico-concepcional  Henrique Rodovalho na reunião de oito experientes integrantes-bailarinos : Carolina Amares, Daniela Moraes, Fabiana Nunes, Jorge Garcia, Lavinia Bizzotto, Luciana Fontanella, Luiz Oliveira e Samuel Kavalerski.


Quasar Cia de Dança / Céu de Pêssego. Henrique Rodovalho/ Direção Coreográfica / Concepcional. Projeto Dança em Transito. Agosto/2026. Jorge Sato e Leo Pinheiro/Fotos.


Apresentando titularmente uma proposta conceitual, através da titulação da obra - Céu de Pêssego, priorizando o rigorismo da dança pela dança, simultaneamente com um direcionamento gestual mais lúdico no entremeio, de um experiente corpo coreográfico, fragmentando, em teor minimalístico, os seus sequenciais movimentos de solos, duos e formações grupais.

Enquanto uma caixa cênica despojada na plasticidade imprimida pela linearização de tonalidades luminares (Henrique Rodovalho), alcança uma ambiência pictórica imagética, ampliada pelo contagiante sotaque ao representar o espaço celestial sob os efeitos crepusculares no entardecer.

E os figurinos (Cássio Brasil), no entremeio de calças masculinas e de vestidos nas bailarinas,  refletem pinceladas clean na prevalência aquarelada dos azuis propiciando, em paralelo, a percepção de uma energizada corporeidade indo de um subliminar sensualismo a uma assumida romantização.  

Tudo culminando na exponencial trilha autoral de Livia Netrovski e Fred Ferreira conectando sonoridades contrastantes, desde acordes instrumentais e temas vocais, plenos de apelos nostálgicos, a ritmos percussivos correspondidos pela sensorial entrega dos oito bailarinos à performance.

Embora esta última  representação da tão conhecida Quasar Cia de Dança, em espetáculo que remete à total prevalência de sua estética formal, tenha deixado de lado, um recado necessário e mais incisivo, por trás da poética denominação de Céu de Pêssego.    

Este fenômeno resultante da transmutação da natureza ligando a terra à significativa coloração solar de um céu pêssego. No trágico contraponto da denúncia sobre uma das regiões brasileiras mais afetadas pelo descaso ambiental na pulsão do expansionismo ruralista.

Onde a obra, mesmo assim, pelo empenho de sua criação artística, em que vale destacar a parceria com Lavínia Bizzotto e Samuel Kavalerski, não deixa perder a eficácia de outro valioso legado coreográfico de seu mentor-mor Henrique Rodovalho.

Com seu artesanal cast técnico e artístico, fluente em transmitir uma singular atmosfera palco-plateia sustentada em contagiante corporeidade focada, por vezes, num empírico preciosismo coreográfico da arte pela arte, no rigorismo abstrato e exclusivo de uma dança pela dança.

Mas, na proximidade desta sua arrojada experimentação, sabendo dar consistência a um inventário estético-coreográfico que, outra vez, faz da Quasar Cia de Dança um simbólico marco na trajetória das mais emblemáticas manifestações da dança contemporânea brasileira.

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo

  


A Quasar Cia de Dança com o seu espetáculo Céu de Pêssego integra a mostra Dança em Transito que acontece, além das praças públicas,  nos Teatros Carlos Gomes e João Caetano, encerrando-se  no próximo  dia 11 de agosto.

O BEIJO NO ASFALTO : SOB UM SINGULAR MOMENTO DA REPRESENTAÇÃO DE UM CLÁSSICO RODRIGUIANO


O Beijo no Asfalto. Nelson Rodrigues/Dramaturgia. Marco André Nunes/Direção Concepcional. Julho/2026. Lucio Luna/Fotos.


Desde sua estreia em 1960, na memorável montagem do Teatro dos Sete, O Beijo no Asfalto tornou-se um dos mais conceituais exemplares da escritura dramatúrgica de Nélson Rodrigues, sendo uma daquelas de suas criações com maior alcance popular estendendo-se, inclusive, a algumas versões cinematográficas.

Resultado de sua longa trajetória pelas redações na imprensa da época, a peça reflete especularmente seu ofício jornalístico quando atuou em âmbito especifico como repórter. Sobre isto ele deixou uma esclarecedora e singularizada declaração confessional :

Todo meu teatro tem a marca de minha passagem pela reportagem policial. E tanto mais que foi aí que eu conheci o cadáver, porque dos defuntos que eu tinha conhecido, havia uma certa distância entre mim e eles. Eu olhava, mas não me tornava íntimo. Agora, o repórter policial, este sim, torna-se íntimo do cadáver e da morte”.

Aparentemente previsível, em sua cena inicial mostrando um destes meros atropelamentos cotidianos nas ruas de uma cidade, a narrativa desenvolvida pela voz de seus personagens, a partir de um simples beijo de um transeunte na boca de um corpo agonizante, em processo ascendente alcança a dimensão de uma temática sensacionalista.


O Beijo no Asfalto. Nelson Rodrigues/Dramaturgia. Marco André Nunes/Direção Concepcional. Julho/2026. Lucio Luna/Fotos.



Transmutando-a em matéria de capa da imprensa marrom, ao fazer escorrer sangue de suas páginas como  notícia, aproveitando-se da presença testemunhal do repórter Amado Ribeiro (André Mattos) e do delegado policial Cunha (Ernani Moraes). À causa dos acirrados preconceitos e do conservadorismo social, por nunca aceitarem o beijo de um homem em outro homem, ao encarar o fato de forma homofóbica.

Trazendo à vida de Arandir (Eduardo Sterblitch) por seu gesto afetivo, um sequencial tormento no seu ambiente de trabalho e na sua até então tranquila vida doméstica, ao lado da esposa Selminha (Luísa Arraes), de sua cunhada Dália (Nina Tomsic) e do seu sogro Aprígio (Edson Celulari).

Sob uma surpreendente montagem em todos os seus aspectos cênicos, pelo oportuno ideário de Rafael Raposo tanto pela sua abordagem em tempos recessivos na política, moral e costumes, como na acertada escolha de elenco e de seus primados tecno/artísticos, tudo continuado no empenho da artesanal competência da direção por Marco André Nunes.

Onde o espaço cênico (Aurora de Campos) é ocupado de forma minimalista pela mobilidade de apenas uma mesa, sofá e cadeiras que atendem, em processo alternativo, à configuração plena das diferentes ambientações dramatúrgicas. Tornando-se maior a envolvência palco/plateia através de um jogo lúdico, na transparência de painéis verticais e na projeção cinética de fotos e vídeos, aproximando-se referencialmente das plataformas digitais com suas fake news.

Tudo amplificado pelas tonalidades, ora vazadas ora focais, do design de luz (Renato Machado), embora os figurinos (Ronald Teixeira) mantenham um sotaque de época, configurada ainda pela diferencial trilha sonora (Felipe Storino) ao vivo, sob os acordes percussivos de uma bateria e de um baixo acústico.

Quanto ao elenco, os destaques mantendo perceptível unicidade performática imprimida tanto pela potencialidade expressiva dos personagens protagonistas, desde a mordaz atrocidade apresentada por André Mattos e Ernani Moraes, como pela funcional correspondência da intriga em papéis coadjuvantes.

Na ambiguidade da verdade ou da dúvida, tornada primorosa especialmente pelas performances indicativas da psicanalítica repressão de paixões recípocras, sob um sutil eco edipiano, no núcleo familiar - Eduardo Sterblich, Luisa Arraes, Nina Tomsic e Edson Celulari - numa sempre instintiva precisão destes afinados intérpretes no uso de recursos tragicômicos diante do inesperado.

Sendo irreprimível o apuro do comando diretor de Marco André Nunes no dimensionamento dramatúrgico de uma psicofisicalidade assumida tanto nas atitudes e falas atorais, explicitadas pelo primado das ambíguas pulsões sensoriais e culminando no estremecimento provocado pelas surpresas de cada nova revelação. Com O Beijo no Asfalto, enfim, evidenciando uma gramática cênica qualitativa que, sobretudo, configura um destes superiores instantes da arte teatral...

 

                                                 Wagner Corrêa de Araújo

 

O Beijo no Asfalto está em cartaz no Teatro Gláucio Gil/Copacabana, de quinta a segunda-feira, às 20h; até 03 de agosto.

SALVATOR ROSA: DE VOLTA AOS PALCOS UM DOS MAIORES TRIUNFOS DA TRAJETÓRIA OPERÍSTICA ITALIANA DE ANTONIO CARLOS GOMES

Salvator Rosa / Ópera de Carlos Gomes. TMRJ.  Julliana Santos/Direção Concepcional. Luiz Fernando Malheiro/Direção Musical/Regência. Julho/2026. Daniel Ebendinger/Fotos.


Nos seus anos de aperfeiçoamento musical na Itália, duas das óperas de Carlos Gomes alcançariam enorme acolhida do público e o aplauso da crítica. Depois do triunfo absoluto de Il Guarany, 1870, no  Teatro alla Scalla di Milano, foi a vez do êxito de Salvator Rosa em Genova,  1874, precedido pelo fracasso de Fosca.

Se a primeira delas impressionou pela novidade de sua temática plena de brasilidade e pela força melódica de sua partitura, Salvator Rosa, agora, abordando uma narrativa nacionalista italiana conectada a uma estética composicional, tornada também reveladora por sua identificação com a escrita verdiana.

E, 80 anos depois, ao retornar ao palco do Municipal carioca, abrindo oficialmente a temporada lírica 2026, enquanto ao mesmo tempo, celebra as datas de nascimento (1836) e de morte (1896) do compositor, numa bela iniciativa da direção artística (Eric Herrero) com o propósito de valorizar a ópera autoral brasileira.

Com libreto de Antonio Ghislanzoni (o mesmo da ópera Aída), seu enredo,  no entremeio do fato histórico com um lado ficcional, se passa no ducado de Nápoles no século XVII mostrando uma revolta popular contra o domínio espanhol, liderada por Masaniello conseguindo a adesão do pintor Salvator Rosa, este enamorado da filha Isabella do vice-rei governante.  


Salvator Rosa / Ópera de Carlos Gomes. TMRJ.  Julliana Santos/Direção Concepcional. Luiz Fernando Malheiro/Direção Musical/Regência. Julho/2026. Daniel Ebendinger/Fotos.


A caixa cênica é preenchida, em mais uma das inspiradoras ideias de Renato Theobaldo, aqui retomando a cenografia apresentada antes no Festival de Ópera de Manaus, por painéis móveis com recortes das paisagens de estilo barroco do pintor e poeta napolitano Salvator Rosa, frontalizada por um pórtico de colunas gregas clássicas.

Onde um grande destaque é a tonalidade peculiar e contrastante dos figurinos (Marcelo Marques), indo das cotidianas vestimentas de cidadãos napolitanos e guardas da tropa de ocupação, aos reluzentes trajes de luxo aristocrático na reconstituição palaciana.

Alternados por cenas de danças características populares e a sugestão de marchas militares ou de minuetos nas passagens mais cerimoniais, numa precisa adequação coreográfica para bailarinos integrantes do Corpo de Baile do TMRJ (por Hélio Bejani, Marcia Jaqueline, Rodolfo Saraiva).

A regência de Luiz Fernando Malheiro, um especialista reconhecido pela expressividade sinfônica imprimida ao universo da ópera, alcança alguns de seus especiais momentos qualitativos na unicidade das cenas com o Corpo Coral nas passagens mais envolventes do espetáculo. Pelo rigorismo técnico imprimido aos diversos naipes orquestrais, estendendo-se ao dimensionamento performático das principais vozes solistas em seu acompanhamento pela OSTM. 

Entre os protagonistas valendo sublinhar a interpretação segura do tenor Marcello Vannucci em sua completa integração física-vocal com o  personagem  titular, seguido da sempre convicta atuação do barítono Vinicius Atique (Masaniello) e de Marly Montoni (Isabella), surpreendente pelo alcance da uma tessitura  de soprano, entre o dramático e o lírico, na ária "Volate, o libere aure dei cieli"( Ato III, Cena 2).

Entre outros vários papéis da trama, não deixando de referenciar o cativante presencial da soprano Carolina Morel assumindo um personagem masculino - Gennariello, o jovem assistente do pintor Salvator Rosa, na tão aplaudida canzonettaMia Piccirella”.

Demonstrando sua conceitual competência artesanal no ofício de concepção direcional do espetáculo-ópera, Julliana Santos confere a Salvator Rosa um aporte qualitativo de primeiro grau, no legado tradicional da ópera transmutado com o seu habitual olhar armado na contemporaneidade.    

O que, certamente, com este bem- sucedido resultado cênico/musical, acaba por estabelecer contraponto a uma curiosa declaração crítica do poeta-escritor Mário de Andrade, de 21 de julho, 1933, em sua coluna Primeiras, no Diário de São Paulo, denunciando a falta da devida atenção a um merecimento que, no mínimo, deveria estar à altura da obra de  Carlos Gomes :

“Pobre, desgraçado Carlos Gomes, filho de uma terra infeliz! Nunca jamais em tempo algum as obras de teu engenho excelente serão levadas como merecem! Ninguém nunca jamais ouvirá bem cantadas as tuas melodias admiráveis “...

 

                                                 Wagner Corrêa de Araújo


Salvator Rosa/Carlos Gomes abriu a temporada de óperas do TMRJ, com cinco instantâneas representações, acontecendo do dia 12, domingo, até o sábado 18 de julho com dois elencos, em horários e datas diversas.

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