DESERTO: DRAMATÚRGICA E IMAGÉTICA CONEXÃO DA VIDA E DA OBRA DE ROBERTO BOLAÑO


Deserto. Luiz Felipe Reis/Dramaturgia/Direção Concepcional. Maio/2024. Fotos/Renato Mangolin.



No seu meio século de trajetória existencial (1953/2003) o escritor chileno Roberto Bolaño acabou se  tornando um nome icônico da criação literária latino-americana, com sua inconformista visão da desertificação que leva ao silenciamento da essência humanitária.

Num universo cada vez mais dominado pela obsessão do lucro capitalista, pela prevalência de um interesseiro jogo político neoliberal e pela fria digitalização das relações sociais. E onde o seu engajar-se no ofício estético seria uma forma do escritor dialogar poeticamente com os enigmas do passado para tentar decifrar os abismos do tempo presente.

Por intermédio de um valioso legado ficcional e uma insurgente postura contra os desmandos políticos que obrigaram Bolaño a ser um cidadão do mundo, em transito no entremeio de três nacionalidades (Chile, México e Espanha).

Sem deixar de lado o referencial de que pelo menos duas de suas obras ficcionais chegaram a ser adaptadas aos palcos, inicialmente na Catalunha, e a seguir através de seu apocalíptico romance 2666, publicado postmortem em 2004, numa instigante montagem de cinco horas dirigida por Robert Falls em Chicago. 

Quanto ao ideário damatúrgico /direcional de Luiz Felipe Reis com Deserto, peça inspirada em passagens da vida e da obra de Roberto Bolaños, trata-se de uma iniciativa inédita no Brasil e configura-se como mais um dos diferenciais experimentos teatrais da sua Cia Polifônica, numa convicta performance solo de Renato Livera.


Deserto. Luiz Felipe Reis/Dramaturgia/Direção. Renato Livera/Ator. Maio/2024. Fotos/Renato Mangolin.


Contando ainda com parcerias valiosas como a assistência de Julia Lund, além de José Roberto Jardim na interlocução dramatúrgica. Com intermediações de uma trilha de escrituras verbais/musicais de Pedro Sodré e do próprio Luiz Felipe Reis.

Em meta proposta cenográfica dúplice (André Sanches e Débora Cancio) em que a caixa cênica, sob sutis efeitos luminares (Alessandro Boschini), é preenchida pelo sugestionamento da mesa de trabalho do escritor com  um gravador. Incluindo um microfone móvel e uma tela frontal em projeções imagéticas de frases, sobrepostas à assombrada paisagem de um deserto ocultando corpos femininos violados.

Renato Livera imprimindo ao personagem, com perfil autobiográfico, uma incisiva relação ora de observador ora de observado, personificando em sua psicofisicalidade uma cativante representação do escritor falando por seus escritos ficcionais ou por frases confessionais.

Deslocando a simbologia narrativa em irrepreensível expressão do desalento de um ser acometido por uma doença hepática degenerativa, que o levaria à terminalidade, no auge de seu processo de entrega à epopeia ficcional de 2666, diante do risco da perplexidade e do temor de não ver o resultado final.

Desde seu conceitual performático às intervenções projecionais com belo uso subliminar de diferentes recursos técnicos desde vozes eletrônicas de um gravador às imagens captadas ao vivo por uma camera cinematográfica.

Luiz Filipe Reis revelando outra vez maturidade artesanal para viabilizar o equilíbrio de um texto introspectivo, entre a metaforização ficcional e o realismo, como se fora uma conferência para o público-espectador,  pelo alcance de absoluto domínio do espetáculo.

Resultado da busca investigativa de uma vigorosa textualidade autoral que reune fragmentos, tanto da obra ficcional como oportunas citações reflexivas de um pensamento político filosófico, sob recortes biográficos.

E que, sobretudo, aproximam Bolaño de uma emblemática geração de poetas e artistas que souberam como fazer de sua missão criadora um tributo ético à vida, diante do ascendente pesadelo de uma crise civilizatória e da iminente ameaça de um incerto futuro... 

 

                                                   Wagner Corrêa de Araújo

 

Deserto está em cartaz no Teatro do Futuros - Arte e Tecnologia, Flamengo/RJ, de quinta a domingo, às 20h. Até 23 de junho.

TARSILA, A BRASILEIRA : ALEGÓRICA INCURSÃO MUSICAL PELA TRAJETÓRIA DE UMA ARTISTA VISIONÁRIA

 

Tarsila, a Brasileira. Anna Toledo/Dramaturgia. José Possi Neto/Direção. Claudia Rais/Protagonista. Maio/2024. Fotos/Paschoal Rodriguez.


Quero ser a pintora de meu país”, uma afirmação predestinada de Tarsila do Amaral, em 1923, que acabou se transformando num signo emblemático de sua vida e obra, além de servir de mote a uma retrospectiva no MOMA – Modern Museum of Art de New York, inspira o musical Tarsila, A Brasileira.

Tanto por ser um nome visceralmente ligado a um processo de transmutação conceitual e estética da arte brasileira, como na afirmação comportamental de uma mulher com o olhar armado na contemporaneidade em seu empenho pelas causas políticas e sociais.

Tendo passado por alguns ciclos fundamentais da história artística e política do país, no século XX, deixando um legado memorial desde sua contribuição essencial na evolução vanguardista da arte brasileira, a partir da Semana Modernista de 1922.

Inicializada pelo empreendimento de autêntica e revolucionária brasilidade na sua pintura que ecoaria no Movimento Antropofágico, simbolizado na icônica tela titulada como Abaporu, com seu referencial do ato de deglutir a tradição pictórica européia por uma absoluta e libertária arte autóctone.

O espetáculo foi concebido numa proposta de roteirização e ideário dramatúrgico por Anna Toledo, com direção concepcional de José Possi Neto, tendo a atriz Cláudia Raia na protagonização titular, acompanhada de respeitável ensemble. Destacando-se, nos papéis principais, Jarbas Homem de Mello, Dennis Pinheiro, Carol Costa, Ivan Parente, Liane Maya, Keila Bueno e Reiner Tenente.


Tarsila, a Brasileira. Tony Lucchesi/Guilherme Terra/Composição/Direção Musical. Maio/2024. Fotos/Paschoal Rodriguez.

Onde um propulsor élan inventivo caracteriza a paisagem cenográfica em outra das potenciais criações de Renato Theobaldo, ao lado da habitual originalidade indumentária de Fábio Namatame, os dois componentes com sua plasticidade recorrendo a uma metafórica estilização dos temas e das cores dos quadros de Tarsila, aqui, ressaltados nos efeitos luminares de Wagner Freire.

Enquanto a trilha sonora, na dúplice idealização de Guilherme Terra e Tony Lucchesi, propicia uma funcional conexão na releitura de temas musicais conhecidos, sob imersivas harmonias e inéditos acordes. O que resulta numa sempre energizada e coesiva gestualização, pelo  dimensionamento coreográfico de Alonso de Barros.

Para uma proposição narrativa que atravessa as fases felizes e trágicas do percurso existencial de Tarsila do Amaral, Cláudia Raia imprime uma performance capaz de cativar por intermédio de uma especificidade interpretativa do personagem, na busca aproximativa ou identitária da sua psicofisicalidade, como artista e como mulher.

Enquanto o Oswald de Andrade, por Jarbas Homem de Mello, é apresentado no acerto da enunciação de falas irônicas ou provocadas por um certo sarcasmo crítico que remete às suas obras literárias.  O que acontece também nas fluentes discussões polemizadas assumidas entre ele e os convictos escritores Mario de Andrade (Dennis Pinheiro) e Menotti  Del Picchia (Ivan Parente).

Sem deixar de lembrar as dúplices participações deste último (Ivan Parente) como um Jean Cocteau diferencial. Ou dos arroubos da atrevida aproximação amorosa de Oswald pela amiga comum do casal – uma sedutora Pagu (Carol Costa) - o que leva ao rompimento definitivo da relação entre o escritor e Tarsila. 

O apuro da teatralidade de um texto, naturalmente sujeito a liberdades ficcionais, não deixa de conceder competência reflexiva a um espetáculo lúdico, no entremeio de passagens musicais calorosas ou impressões introspectivas, quando inesperadas adversidades do destino  possibilitam um compasso mais dramático.

O que a artesanal gramática cênica/direcional de José Possi Neto conduz com raro apuro em todas as suas sequências, até a explosão carismática da cena final com seu subliminar apelo por um tropicalismo carnavalesco, num alegórico jogo teatral vivo, unindo palco/plateia em expressivo aplauso à alma artística brasileira...  

 

                                           Wagner Corrêa de Araújo

  

Tarsila, a Brasileira, depois do sucesso no Teatro Santander/SP, apresentou-se em instantânea temporada no Vivo Rio, com apenas três dias, final de semana de 31/05 a 02/06.

GRUPO CORPO : INSTIGANTE INVENTIVIDADE GESTUAL ENTRE A URBANIDADE DE “CORPO” E O REGIONALISMO DE “PARABELO”


Grupo Corpo/Parabelo. Rodrigo Pederneiras/Direção Concepcional. Maio/2024. Sharen Bradford/Fotos.


Prestes a completar seu meio centenário o Grupo Corpo continua a expandir sua potencial singularidade como um das mais inventivas Cias de dança contemporânea do nosso país. Capaz, sempre, de continuar surpreendendo mesmo na retomada de coreografias antigas de seu repertório, como é o caso destas tituladas como Corpo e Parabelo, respectivamente criações dos anos 2000 e 1997.

Sabendo como bem explorar o conluio de recursos cênicos, da iluminação aos figurinos, a favor de uma energizada e interativa corporeidade dançante que nunca deixa a desejar na sua busca por um perfeccionismo técnico na unicidade performática de seus bailarinos. A partir, sempre, da peculiar gramática coreográfica estabelecida pelo ideário concepcional de Rodrigo Pederneiras.

Dentro de um dimensionamento estético/coreográfico a prevalência temática do Grupo Corpo se apoiando em permanente brasilidade que aparece, ali, desde 1976, com a obra propulsora da fama da Cia, Maria Maria, inspirada nas composições de Milton Nascimento, sendo esta sua estreia visionária inicializada pela lavra do coreógrafo argentino Oscar Araiz.

Na travessia histórica do grupo muitas foram estas incursões por trilhas de compositores da MPB, numa especificidade que se desenvolveu por intermédio da participação direta dos músicos autores na sua montagem, paralela à arquiteturação cênica /coreográfica dos espetáculos. Em peças antológicas da Cia mineira caso, entre outras, como Corpo, por Arnaldo Antunes, ou através da parceria Tom Zé e Miguel Wisnik, em Parabelo.


Grupo Corpo/ Parabelo. Tom Zé e Miguel Wisnik/Música. Maio/2024. Fotos/Sharen Bradford.


A primeira delas - Corpo - estruturada sob acordes de prevalência percussiva, com base composicional tecno-eletroacústica, para um texto recortado verbalmente como um poema concretista, sinalizado nos leitmotivs de palavras e frases vocalizadas (pé / mão / pé / mão - mão / umbigo / braço) indutoras de vigoroso gestual mecânico/robótico dos bailarinos.

Onde a indumentária (Freusa Zechmmeister e Fernando Velloso) de malhas negras referencia um quadro cênico e luminar (Paulo Pederneiras) de tonalidades futuristas, preenchido virtualmente pelo piscar de luzes de um painel eletrônico, através de um movimentar-se diferencial capaz de sugestionar “esse composto de ossos, carne sangue órgãos músculos nervos unhas e pelos”.

Enquanto Parabelo dá um salto da realidade urbana para o sertanismo, naquela que o próprio coreógrafo (Rodrigo Pederneiras) considera a sua obra de mais plena brasilidade, a partir de uma abordagem estética - regionalista da fome nordestina. E da  resistência, na pulsão de crenças populares e religiosas, pelo desafio para sobreviver à insólita paisagem do agreste.

A peça tendo um componente icônico em sua trajetória, do êxito de suas apresentações anos 90, no Festival de Dança de Lyon/França, e como tema artístico de abertura  das Olimpíadas de 2016 no RJ ou por sua caracterização imagética que pode remeter também a um memorial metafórico do universo dos sertões.

Toda esta proposta plena de um sensorial alcance desde os figurinos (Freusa Zechmeister) em malhas escuras que descortinam traços vermelhos no corpo e nos pés, à plasticidade cenográfica (Fernando Velloso) com a simbologia dos painéis de ex-votos ao de ancestrais fotografias que registram o cotidiano sertanejo e as lembranças familiares.

Movimentando-se nos ritmos do baião e do xaxado ao forró, os bailarinos potencializam danças envolventes de apelo popular, carregadas de um autêntico sabor regionalista sob formas brasileiras, retomando signos emblemáticos das coreografias do Grupo Corpo, no molejo dos requebros de quadril e no gingado dos remelexos da sua corporeidade.

Em outra retomada luminosa de uma criação coreográfica, pautada no substrato nativo e, mais uma vez, provando como este original legado artístico a transformou, globalmente, numa das mais carismáticas companhias de dança do Brasil e do mundo...

 

                                               Wagner Corrêa de Araújo


O Corpo/Grupo Corpo. Rodrigo Pederneiras/Direção e Coreografia. Arnaldo Antunes/Música. José Luiz Pederneiras/Foto.

 O Grupo Corpo está em temporada no Teatro Multiplan/Shopping Village Mall, de quarta a sábado, às 20h; domingo, às 17h, até  02 de junho

O LAGO DOS CISNES : EM MAIS UMA REMONTAGEM, O BALLET DO THEATRO MUNICIPAL MOSTRA QUALITATIVO EMPENHO ARTÍSTICO

 

O Lago dos Cisnes. BTM/ Helio Bejani/Direção Concepcional. Com Juliana Valadão e Cícero Gomes.Maio/2024. Fotos/Daniel Ebendinger.


Entre os três celebrados balés compostos por Tchaikovsky - Quebra Nozes, Bela Adormecida e Lago dos Cisnes - nada se compara ao emblemático efeito de magia provocado por este último, tanto pelas suas carismáticas tessituras orquestrais, como por sua icônica coreografia (Petipa/Ivanov) que vem resistindo há quase um século e meio.

Isto sem deixar de falar em sua temática poético-romântica sobre uma metafórica paixão inspirada a um príncipe pela desafiadora ambiguidade de uma personagem, ora mulher ora cisne, numa fabulação de amor e traição entre o bem e o mal, este representado pelas sinistras artimanhas de um feiticeiro.

Com um referencial mítico proveniente de ancestrais culturas européias no entorno do simbolismo lendário da pureza dos cisnes brancos, seres alados que eram evocados em suas planações sobre os lagos, como mensageiros da chegada dos calores e das alegrias da estação primaveril.

Este êxito permanente na preferência do público de dança também se dá pela prevalência de seus trechos antológicos na trajetória histórica do balé clássico. O que torna maior a exigência técnica, tanto na preparação de seu elenco, como no necessário cuidado artesanal na remontagem de sua coreografia original.


Lago dos Cisnes. Jorge Teixeira/Maître do BTM. Com Gustavo Carvalho e Marcella Borges. Maio/2024. Fotos/Daniel Ebendinger.


Havendo uma nítida percepção deste empenho nesta remontagem de O Lago dos Cisnes pelo Ballet do Theatro Municipal, sob um acertado comando concepcional, 8respectivamente do diretor Hélio Bejani e do maître Jorge Teixeira, trazendo promissores ares na retomada do prestígio como melhor Cia oficial de dança clássica do país. 

Na continuidade de rigorosa preparação do seu Corpo de Baile a partir da entrada, por intermédio de criteriosa seleção, de outros integrantes, estes já demonstrando unicidade qualitativa com o staff anterior de bailarinos. Com um visível desempenho sob harmônica plasticidade nas cenas de conjunto dos atos brancos ou nos encontros grupais, especialmente nas danças de caráter - italianas e espanholas,  na mazurka e nas czardas. Ou pelo alcance da conexão técnica/gestual no tão aplaudido Pas de Quatre.

Com aproveitamento de cenografia e figurinos do acervo da FTM, presos à tradição no discricionário cenário em telões e sob uma mais cerimonial indumentária.Tudo ressaltado no contraste luminar (Paulo Ornellas) de claridade das ambientações palacianas dos atos I e III, às tonalidades mais sombrias nas cenas do lago entre árvores.

A Orquestra Sinfônica do TM/RJ sendo conduzida com brilho por Tobias Volkmann, tornando-se este um dos regentes mais requisitados para o grande repertório clássico do balé. Salvo alguns fugazes descompassos das trompas na noite de estréia, toda a partitura teve um expressivo alcance desde o sotaque de melancolia em algumas passagens com solos de harpa, cordas e sopros, aos agitatos de allegros dançantes.

Onde, ao longo de suas onze récitas, alternam-se três duplas de intérpretes protagonistas como Siegfried e Odette/Odile, todos com distintas qualificações destacando-se, sempre, por convicta e emotiva psicofisicalidade na entrega aos seus papéis.

De uma quase etérea leveza da Odette/Odile de Manuela Roçado à precisão sensitiva/irônica nesta dicotômica metamorfose por Juliana Valadão, sem deixar de registrar a envolvência da postura longilínea de Marcella Borges na dúplice personificação.

Quanto ao Príncipe Siegfried, vale evidenciar a presença marcante de dois primeiros bailarinos do BTM, de um lado o elegante porte tecno-coreográfico de Filipe Moreira e, de outro, Cícero Gomes numa adequação coreodramática absoluta neste papel, depois de mostrar em montagens anteriores deste balé no palco do Municipal, a força burlesca e cativante de seu Bobo da Corte.

Completando este quadro balético, a participação de um  brasileiro da recente safra (aqui convidado, como David Motta Soares no Lago de 2022) de jovens talentos em franca ascendência, nas suas carreiras permeadas com participações em cias estrangeiras.  Referência de Gustavo Carvalho que no momento atua como um dos primeiros solistas do Ballett am Rhein, de Dusseldorf, dando vazão à sua já vasta experiência no clássico e no contemporâneo.

A química de sua atuação impecável como um passional Siegfried ao lado de uma romantizada Odette/Odile por Marcella Borges, completa o encantamento deste elenco irradiante de craques que, afinal, concorrem para fazer deste Lago dos Cisnes, com o Ballet do Theatro Municipal, uma das mais gratificantes surpresas da temporada coreográfica brasileira de 2024.

                                 

                                             Wagner Corrêa de Araújo


O Lago dos Cisnes/BTM. Com Filipe Moreira e Manuela Roçado. Maio/2024. Fotos/Daniel Ebendinger.


O Lago dos Cisnes/BTM está em cartaz, no Theatro Municipal/RJ, de 23 a 25/05 às 19h; até domingo, 26 de maio, às 17h.

CABARET KIT KAT CLUB : DESCONTRAÇÃO MUSICAL IMERSIVA SOB A IMINÊNCIA DO PESADELO NAZISTA

Cabaret Kit Kat Club. Kleber Montanheiro/Direção Concepcional. Maio/2024. Fotos/Caio Gallucci.

 

Desde sua première, em 1966, no West End londrino e na Broadway, Cabaret tornou-se um musical icônico marcado pela clássica saudação Willkommen às então descontraídas noites berlinenses de 1930. E tornando-se mundialmente adorado, especialmente a partir do filme de Bob Fosse, protagonizado por Liza Minelli.

E a novidade inglesa de sua transmutação em Cabaret Kit Kat Club vem obtendo um êxito inusitado nos grandes palcos musicais e, agora, em sua primeira temporada brasileira numa luminosa direção concepcional de Kleber Montanheiro, sob a funcional adaptação dramatúrgica de Mariana Elizabetsky, a partir das escrituras de Christopher Isherwood que inspiraram o musical de Joe Masteroff.

Desta vez, com o ideário de transformar o seu espaço cenográfico num palco arena circundado por mesas iluminadas, sugestionando aos espectadores, desde a sua entrada, um clima sensorial como se estivessem realmente dentro da discoteca berlinense. E onde o prólogo já começa com os atores/bailarinos, provocativamente em brincadeiras sensuais, se acercando atrevidamente ora de um, ora de outros.

Até que aparece Emcee, um mestre de cerimônias caracterizado por uma psicofisicalidade com sotaque de androgenia, em mais uma das convicentes personificações, marca do talento de brilho ascendente do ator André Torquato, com seu Wilkommen, Bienvenue au Cabaret, no subliminar recado de que aqui a vida é sempre linda, deixem seus problemas lá fora.

Cabaret Kit Kat Club. Fernanda Maia/Direção Musical. Com Fabi Bang. Maio/2024. Fotos/Caio Gallucci.

A trama básica confronta duas histórias de amor, uma através do escritor americano Cliff Bradshaw (Ícaro Silva) que vai a Berlim em busca de temas para seu romance, onde acaba tendo um caso com a vulgar dançarina do Cabaret – Sally Bowles (Fabi Bang). E a outra, no romantizado amor da dona de hospedaria Fräulein Schneider (Anna Toledo) e o comerciante judeu Herr Schultz (Eduardo Leão).

Paralelas situações ficam com Ernst Ludwig (Bruno Sigrist) na dúbia personalidade de gentileza ocultando sua pulsão nazista e Fräulein Kost (Carla Vazquez) uma prostituta com prevalência de clientela naval, mais o empenho de um energizado elenco coadjuvante de atores/bailarinos, em interativa e energizada corporeidade gestual, na direção de movimento por Barbara Guerra.

Todos trafegando entre um palco principal em formato circular com duas extensões opostas, resultado da tríplice concepção de Kleber Montanheiro incluindo, além da direção, o cenário preenchido com inventivos elementos móveis e os figurinos com um sutil referencial de época.

Tudo ressaltado por precisos efeitos luminares (Gabriele Souza) com prevalentes tons de escuridão para propiciar a atmosfera envolvente, e ao mesmo tempo decadente, de uma ambiência à beira de tempos sombrios.

Onde o acompanhamento musical de uma orquestra feminina com dez instrumentistas, comandada pelo habitual esmero criativo na regência, arranjos e no teclado por Fernanda Maia, faz uma artesanal versão da trilha de John Kander.

Destacando-se no elenco protagonista o presencial instigante e o carisma espontâneo de André Torquato como Emcee e a performance empolgante e sinalizadora de Fabi Bang, lembrando que esta integrava o coro da memorável montagem de 2011 e, aqui, assumindo o lugar de Claudia Raia no principal papel feminino - Sally Bowles.

Sem esquecer o calor humano pleno de sensitividade que se expande da interpretação tocante de Anna Toledo como Fräulein Schneider. E nos personagens masculinos, convicta a atuação, embora ocasionalmente mais tímida, de Ícaro Silva como Clifford Bradshaw. Valendo citar ainda as boas intervenções de Eduardo Leão e de Bruno Sigrist.

A grande lição desta montagem está no dimensionamento estético/político que a autoridade cênica de  Kleber Montanheiro imprime entre a busca do descompromissado hedonismo e a perspectiva do mal, representado pelo espectro nazi fascista que continua a nos rondar de tão perto...

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo


Cabaret Kit Kat encerrou no último final de semana sua primeira temporada, no 033 Rooftop do Teatro Santander/SP.

ÓPERA CARMEN/TMSP : TRADIÇÃO MUSICAL E MODERNIDADE CENOGRÁFICA, ENTRE O O FRANQUISMO E O MUNDO FASHION

Carmen/G. Bizet. TMSP. Tenor Max Jota( Don José) e Annalisa Stroppa(Carmen).Maio2024. Fotos/Larissa Paz.


Na proximidade de completar o sesquicentenário de sua première, em março de 1875, Carmen continua a ocupar o lugar das mais populares criações operísticas de todos os tempos. Muito embora, por uma ironia do destino, tenha precipitado a morte do compositor Georges Bizet, que não resistiu à decepção de sua noite de estreia.

E que, através dos tempos, vem se tornando conhecida por suas diferentes e muitas vezes transformadoras concepções cenográficas, inspirando dos palcos às versões cinematográficas, desde a fidelidade imprimida pelo cineasta Francesco Rosi à adaptação jazzística  de Otto Preminger.

Sem deixar de lembrar as de Jean Luc Godard e de Carlos Saura, priorizando sua temática entre o romance de Prosper Merimée e a ópera de Bizet, às vezes sem nenhuma citação musical. Enquanto nos palcos Peter Brooks faz uma releitura com base nos arquétipos da tragédia grega para caracterizar a pulsão do feminino, entre a sexualidade e a violência.

Ou o regisséur Frank Corsaro, em Nova York 1986, transmutando sua ação entremeada por signos da era franquista, onde Carmen é uma espiã legalista e Don José integrante do exército fascista, mantendo-se a partitura original. Trilha também seguida, apenas em subliminar parte, pelo ideário concepcional de Jorge Takla para esta Carmen da temporada 2024 do Municipal paulista.


Carmen. TMSP. Jorge Takla/Direção Concepcional. Roberto Minczuk/Regente. Maio/2024. Fotos/Larissa Paz.


Aqui, a época ainda são os anos fascistas lembrados pela referência dos personagens militares como Don José ou de um painel com o signo dos punhos cerrados para o alto, mas a prevalência básica é o universo fashion com a preparação de um desfile cuja temática será uma alegoria do mundo taurino.

Tudo ambientado num espaço cenográfico (Nicolás Boni) em dois planos, com um balcão superior lateral, no que seria um atelier de costura no primeiro ato, alternado por um grande painel central decorado por pintura com referencial goyesco, acima de algumas portas. Que depois se transforma, nas cenas seguintes, em refúgio dos contrabandistas e, finalmente, na sala nobre do desfile final.

Os diferentes climas sugestionados por bonitos efeitos luminares (Mirella Barndi) entre sombras e claridades, que potencializam as passagens dramatúrgicas emotivo/musicais. Completadas nos figurinos (Pablo Ramirez) anos cinquenta, ora mais cotidianos, ora com extrema elegância nas indumentárias do desfile, chegando ao seu apogeu nas aquareladas alusões, de plasticidade metafórica, a personagens  das touradas.

E, ainda, com o alcance de uma artesanal e luminosa conduta musical de Roberto Minczuk, com funcionalidade tanto nos momentos de acordes mais energizados quanto nas passagens de maior lirismo. Extensiva ao brilho das partes corais adultas pelo Coro Lírico Municipal e das vozes infantis, respectivamente pela regência de Érica Handrikson e de Regina Kinjo.

Quanto às atuações dos papéis protagonistas houve pequenos senões nas exigências da tessitura de barítono do argentino Fabián Veloz, não atingindo um mais completo convencimento vocal como Escamillo, especialmente na celebrada Canção do Toreador. Também com uma certa timidez o papel de Don José  (pelo tenor Max Jota) foi se impondo aos poucos num crescendo de sua vocalização atoral a partir de La Fleur que tu m’avais jetée e, com um maior apelo palco/plateia, na cena do ato conclusivo.

No que se refere aos papéis femininos, o soprano Camila Provenzale saiu-se muito bem como Micaela destacando-se pela suavidade introspectiva de seu timbre na ária Je dis que rien ne m’épouvante. Mas, sem dúvida alguma, a presença mais estelar tanto como atriz e como mezzo-soprano ficou com a italiana Annalisa Stroppa.

Exuberante em todos as suas passagens, tanto no alcance de uma voz primorosa como na energizada sensualidade de sua performance, seja na Habanera como na Seguidilha. Concedendo veracidade e alta convicção à originalidade da direção concepcional de Jorge Takla que, aqui, soube bem como definir os limites estéticos/dramatúrgicos entre a tradição musical e a contemporaneidade.

Na assertividade de uma ópera que sempre há de soar atual por sua abordagem da condição feminina, para tempos de tantos feminicídios em que se faz mais que necessário denunciar qualquer forma de misoginia...

                          

                                              Wagner Corrêa de Araújo

 

Carmen, da Temporada Lírica 2024, esteve em cartaz no TMSP, em sete récitas, do dia 03 até este último final de semana de Maio.

O VENENO DO TEATRO : DESAFIANDO OS LIMITES DA FICÇÃO DRAMATÚRGICA


O Veneno do Teatro. Rodolf Sirera/Dramaturgia. Eduardo Figueiredo/Direção. Maio/2024. Fotos/Priscilla Prade.


A partir de um conceitual estético sob uma sensorial representação levada aos extremos - onde o que o ator deveria transmitir é o que está realmente acontecendo com o seu personagem em estado terminal – ocorre a narrativa dramatúrgica da peça  O Veneno do Teatro.

Idealizada por um dos mais destacados nomes contemporâneos do universo teatral de linguagem catalã - Rodolf Sirera - estreou, em 1978, depois de ter sido concebida inicialmente como um roteiro televisivo. Com o significativo propósito de lembrar o fim da opressiva era franquista, tendo lançado mundialmente a fama de seu autor.

Chegando aos palcos brasileiros numa mais diferencial versão de sua primeira montagem, em 2011 por Bartholomeu de Haro e, agora, com direção concepcional de Eduardo Figueiredo. Mais a dupla protagonização dos atores Maurício Machado e Osmar Prado, este de volta aos palcos após um interregno de dez anos.

Rodolf Sirera fazendo um mergulho textual desde as citações da Antiguidade Greco-Romana por intermédio de Xenofonte em sua “Apologia de Sócrates ao Júri” até o apogeu da era do Iluminismo, antes da Revolução Francesa, lembrando os teóricos d’Alambert e Diderot, além de referir-se ao Teatro Clássico de Racine.


O Veneno do Teatro. Rodolf Sirera/Dramaturgia. Com Osmar Prado e Maurício Machado. Eduardo Figueiredo/Direção. Maio/2024.

Tudo para introduzir a condenação de Sócrates ao suicídio, na proposição do intrigante convite feito pelo personagem do Marquês (Osmar Prado), com seu subliminar referencial ao Marquis de Sade, para um jovem e conceituado ator Gabriel de Beaumont (Maurício Machado) na intenção deste representar o monólogo investigativo da morte do filósofo.  

Através de uma atuação hiperrealista no entorno da agonia final do personagem envenenado em que o próprio ator morreria em cena para criar uma autêntica intensidade, feita com sangue e dor, do processo da morte fisiológica sem qualquer disfarce, diante do aplauso de um único espectador, o próprio Marquês.

Contestado pelo ator quando declara que personagens  podem morrer em cena todas noites mas voltam à vida logo a seguir. E, assim, aos poucos vai se instaurando um clima transgressor de medo que se transmuta numa espécie de thriller de suspense e terror, longe de todas as clássicas convenções da representação teatral.

Se nas indicações cênicas do original de Sirera, havia a ambientaç6ão requintada de uma residência nobilárquica iluminada por candelabros, tanto na plasticidade dos cenários e na elegância indumentária (criados por Kleber Montanheiro) há traços do estilo rococó, século XVIII, conectados a um decor art nouveau, ao gosto da burguesia francesa anos 20.

Sempre amplificados por efeitos luminares (Paulo Denizot) entre sombras acentuando os mistérios da figura aristocrática de um Marquês com um sotaque de decandentismo, apelando sempre para o suprematismo de suas teorias intelectualistas contestatórias sobre as verdades e as mentiras do espetáculo teatral.

Valendo ser destacada a trilha (Guga Stroeter) para cello solista (Matias Roque Fideles) fazendo uma fusão entre melancólicos acordes barrocos e instantâneos repiques pop/roqueiros. Caracterizando as mutações emotivas de dois personagens mergulhados num jogo diabólico sob cruel manipulação de sentimentos de ódio e repulsa.

O que confronta a luminosa performance de dois atores entregues convictamente a um irrestrito jogo dúplice, ora de afirmação da vaidade do ator/personagem Gabriel de Beaumont, na corporificação de Maurício Machado, ora do  poder de convencimento, em compasso de tortura, do outro - o Marquês, de Osmar Prado, submetendo-o aos seus sádicos caprichos.

Num direcionamento para um teatro impulsionado pelos caminhos da dramaturgia de nosso tempo, Eduardo Figueiredo mostra autoridade cênica para nos sintonizar com uma polêmica questão que acompanha a trajetória histórica do espetáculo teatral. Sinalizada, aqui e agora, no enunciado daquela que seria a verdade na reflexiva lição proposta pela peça : “Na vida, todos nós representamos, todos nós, o tempo todo”...


                                            Wagner Corrêa de Araújo


O Veneno do Teatro está em cartaz no Teatro Sesi/Firjan, Centro RJ, quintas e sextas, às 19h; sábados e domingos, às 18h. Até 02 de Junho.

O ELIXIR DO AMOR : BELA MONTAGEM ABRE PROMISSORA TEMPORADA LÍRICA NO MUNICIPAL CARIOCA

O Elixir do Amor. Ópera/TMRJ. Menelick de Carvalho/Direção Concepcional. Abril/2024. Fotos/Daniel Ebendinger.


Com o Elisir d‘Amore, de Gaetano Donizetti, um  exemplar modelo na tradição da opera buffa italiana, inicia-se a temporada lírica 2024 do TMRJ. Que promete trazer outros títulos destacáveis como o Tríptico, na comemoração do centenário da morte de Giacomo Puccini, além da Rusalka, de Antonín Dvorák, uma obra-prima do repertório tcheco e raramente presente em nossos palcos.

Sem deixar de mencionar a apresentação da primeira ópera composta por Puccini – Le Villi – que completa o tributo ao  compositor, além da estreia de mais uma das mais que bem-vindas criações operísticas sob sotaque de brasilidade, por João Guilherme Ripper, desta vez com Candinho, numa homenagem a Candido Portinari.

Gaetano Donizetti, ao lado de Vicenzo Bellini e de Gioacchino Rossini, foi um dos mais ativos compositores operísticos italianos da primeira metade do século XIX. O Elixir de Amor, de 1832, sua mais popular ópera cômica, antecedeu sua mais famosa ópera dramática Lucia de Lammermoor, de 1835.

Com libreto de Felice Romani, é ambientada no meio rural e mostra o embate amoroso travado entre Aldina, uma rica proprietária, e seus dois pretendentes, Nemorino, um tímido aldeão, e Belcore, um sargento de passagem por ali com seu pelotão. Sendo tudo resolvido pelo charlatão Dulcamara e sua falsa poção mágica, capaz de produzir os mesmos fluidos da paixão lendária de Tristão e Isolda.


O Elixir do Amor. Ópera/Gaetano Donizetti. TMRJ. Felipe Prazeres/Maestro Titular. Abril/2024. Fotos/Daniel Ebendinger.

A montagem do Municipal carioca, embasada na tradição do original, acontece em dois atos que preenchem a caixa cênica do palco com os bonitos cenários e figurinos de Desirée Bastos, inspirados pela conexão do orientalismo turco ao provincianismo franco/italiano.  

Com assumido conceitual estético de plasticidade pictórica no entorno da ingenuidade e pureza do design de uma peça infantil, caracteres sempre acentuados nas variações focais e pelos vazados efeitos luminares de Paulo Ornelas, no sugestionamento de um quadro cênico primaveril.

Onde a Orquestra Sinfônica do TMRJ, no seguro comando por Felipe Prazeres, procura se equilibrar nas indicações de uma partitura dimensionada entre a energia dos acordes rítmicos e a leveza dos andamentos líricos. Sabendo aproveitar bem as intervenções do corpo Coral preparado pelo seu maestro Edvan Moraes, mesmo com ligeiros desencontros entre um grupo e outro.

Tudo acompanhado por uma cada vez mais reveladora concepção cênica/direcional de Menelick de Carvalho, sabendo quebrar aquela antiga rigidez na postura gestual dos intérpretes da grande ópera e que fazia, usualmente, prevalecer o canto em detrimento de uma boa atuação atoral.

Com expressiva performance entre a comicidade e o lirismo tanto do elenco protagonista como nas movimentações dos integrantes do Coro, desde seu oficio de camponeses numa fazenda como na festa comemorativa de um casório, aproveitando-se aqui a mesma ambiência cenográfica nos dois atos.

Havendo que se notabilizar a escolha de um acertado protagonismo a começar da soprano Michele Menezes (Adina) no magnetismo de um talento ascendente com seu fraseado espirituoso e sua elegante coloratura. Seguido pela mais ocasional participação de outra soprano Fernanda Schleder, no seu simpático presencial e na convincente vocalização da personagem Gianetta.

No staff masculino, o barítono Vinicius Atique com o brio de seu talento vocal imprimindo ao sargento Belcore a animada configuração de um convicto militar e de um atrevido amante.

Intermediado pela chegada triunfante e as entradas explosivas do prestidigitador Dulcamara anunciando seu elixir milagroso (Udite, udite, o rustici), na envolvência da maturidade como baixo/barítono de Savio Sperandio.

Enquanto Anibal Mancini exibe um potencial registro intermediário de tenor lírico desde a aria Quanto é bella à exuberância vocal alcançada com a romanza Una Furtiva Lacrima. Direcionando-se para o epílogo feliz de uma opera buffa que, na despretensão de uma montagem de deliciosa fluidez, promove um carismático encontro palco/plateia...

 

                                                    Wagner Corrêa de Araújo

 

O Elixir do Amor está em cartaz no TMRJ, desde o ultimo dia 19, estendendo-se, em horários diversos, entre quarta, sexta e sábado, até o domingo 28 de abril.

RAUL SEIXAS – O MUSICAL : SOB UMA DRAMATÚRGICA "METAMORFOSE AMBULANTE" DE UM ÍCONE DO ROCK BRASILEIRO

 

Raul Seixas-O Musical. Direção/Dramaturgia/Leonardo da Selva. Com Bruce Gomlevsky. Abril/2024.Fotos/Dalton Valério.


Quase duas décadas após o exponencial êxito de sua versão performática de Renato Russo, Bruce Gomlevsky incursiona - em Raul Seixas - O Musical - por uma diferencial concepção dramatúrgica no entorno da vida e da obra de um dos mais emblemáticos nomes do rock brasileiro.

A partir de um belo ideário autoral e direcional de Leonardo da Selva, inspirado não só no texto das canções como nos diversos manuscritos do cantor - compositor, a peça se estrutura num processo investigativo livre do costumeiro registro cronológico e sequencial do musical biográfico.

O que lhe confere uma originalidade específica no dimensionamento da personalidade de Raul Seixas em narrativa imaginária sobre um dos possiveis atravessamentos solitários pela madrugada, na intimidade de seu estudio residencial, quando, então, são relembradas cerca de vinte de suas composições.

Intermediadas por seu pensar existencial, como artista e cidadão, sempre conectado com a problemática mundial voltada às vivências de seu próprio país, como um dos pioneiros do gênero roqueiro de marcas nacionalistas, ao lado de um caracter comportamental que o conceitualizou sob o signo de um “maluco beleza”, lembranças certamente originárias do Baú do Raul.


Raul Seixas-O Musical. Leonardo da Selva/Direção Concepcional. Com Bruce Gomlevsky. Abril/2024. Fotos/Dalton Valério.

O que possibilita conhecer o lado visionário de Raul sonhando ser reconhecido também como escritor, o que aconteceria mais tarde na prevalência da trajetória literária de seu parceiro letrista Paulo Coelho, enquanto caberia a Seixas o ofício reconhecido de um roqueiro desbravador de novos caminhos.

Inicializados em dúplice memorial, no legado do rol da fama, pela transgressiva temática de suas primeiras parcerias  com Paulo Coelho - “Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” ou “Sociedade Alternativa”, seguidas pela libertária exclusividade composicional de Raul levando, inclusive, à censura dos anos ditatoriais, no desafio de letras “Como Vovó Já Dizia”.

O que potencializa a envolvência de um enredo dramático/direcional (Leonardo da Selva) que transmuta o tema das canções de Seixas num compasso imaginário e, ao mesmo tempo realista, em proposta documentária/musical na sua junção de passagens da vida de artista com reflexões cotidianas do seu processo de criação.

Tudo aqui depurado pela solidez do tratamento sonoro dado por Gabriel Gabriel que é correspondido pela absoluta funcionalidade de uma banda, integrada por Ziel de Castro (guitarra), Maninho Bass (baixo), Júnior Monteiro (teclados) e Carlos Oliveira. (bateria), além da participação da cantora Sadili.

Dando vez a incidentais intervenções de acordes da lavra de Little Richard, Elvis Presley e Beatles, em arranjos para cordas, sopros e vozes corais extensivos aos temas musicais de Raul Seixas. Ampliados pela força gestual imprimida por Marina Salomão ao protagonista titular e pela indumentária característica da tipicidade do compositor e sua época no exotismo marcante de alguns elementos de sua indumentária (Maria Callou).

Completado  pelo brilho psicodélico das luzes (Gabriel Prieto) que levam a um imersivo mergulho numa caixa cenográfica (Nello Marrese) povoada por objetos que representam, plasticamente, o universo personalista de Raul Seixas e que lhe possibilitou muitas viagens ousadas e inventivas pelos espaços siderais da sua mente.

E que faz alcançar uma coesiva dialetação, entre as canções e a verbalização dos manuscritos, num tom confessional sustentado na autenticidade psicofísica de um irrepreensível intérprete (Bruce Gomlevsky).

Sabendo assumir seu personagem com cativante espontaneidade e vigoroso elan performático. Ecoando um carismático conluio coletivo palco-plateia ao  incorporar, convictamente, o icônico apelo de Nasci Há Dez Mil Anos Atrás :

Prefiro ser essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”...

                                                     Wagner Corrêa de Araújo


Raul Seixas-O Musical está em cartaz no Teatro EcoVilla Ri Happy/Jardim Botanico, sexta/sábado 20h; domingo 19h. Até 21 de abril.

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