EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER : EXEMPLAR DRAMATURGIA INTIMISTA E DESAFIADORA SOBRE A AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE LGBTQIAPN+



Eu Sou Minha Própria Mulher. Doug Wright/Dramaturgia. Herson Capri/Direção Concepcional. Edwin Luisi/Intérprete. Abril/2026. Lívio Campos/Fotos.


A trajetória precursora e não menos controversa de uma judia alemã transgênero - Charlotte von Mahlsdorf, nascida como Lothar Berfeld, enfrentando as perseguições tanto da Alemanha nazista como do conservadorismo repressor soviético na Berlim Oriental ocupada, entre a corajosa sobrevivência e a livre expressão de sua sexualidade.

Uma temática ousada que acabou inspirando uma peça titulada Eu Sou Minha Própria Mulher (I Am My Own Wife) a partir de entrevistas reais de seu autor Doug Wright com sua personagem titular von Mahlsdorf, precedendo sua adaptação e estreia para os palcos nova-iorquinos em 2003, com aclamado sucesso de público, entre uma ou outra crítica apontando restrições.

Estas últimas chegando a levantar questionamentos de um possível colaboracionismo entre Charlotte com a polícia secreta soviética Stasi e, até mesmo, seu pertencimento à corporação de investigativa espionagem, para conseguir manter um cabaré clandestino LGBTQUIAPN+, numa cidade sob rígido domínio político-social, moralmente avesso a qualquer manifestação afirmativa da identidade gay.

Independente disto, sua narrativa textual e sua representação, num dimensionamento de docudrama, transmutou-se num signo de liberação propulsora da diversidade de opção sexual fazendo de Charlotte von Malhsdorf (1928-2002) um ícone, de sua época extremamente proibitiva à resiliência, já em pleno despontar do terceiro milênio, testemunhada de perto, ainda em vida, por ela. 


Eu Sou Minha Própria Mulher. Doug Wright/Dramaturgia. Herson Capri/Direção Concepcional. Edwin Luisi/Intérprete. Abril/2026. Lívio Campos/Fotos.


E é dentro de um contextual mais evolutivo voltado para esta problemática em nossos dias, que a peça retorna aos palcos brasileiros, dezoito anos após sua tão bem sucedida primeira montagem, retomada basicamente no propósito de manutenção tanto de seu ator - Edwin Luisi – como de sua direção Herson Capri, contando com valiosa assistência de Cláudio Andrade.

Sob uma configuração de perceptível plasticidade com sutis mutações, conservando  a ocupação da caixa cenográfica através de móveis de época, peças museológicas e figurino referencial à tipificação figurativa de uma transgressora personagem, com seu vestido preto, um colar de pérolas e calçando uma espécie de “sapatão”, em dúplice concepção de Marcelo Marques.

Enquanto as modulações ambientais dos efeitos luminares (Aurélio de Simoni) e das interveniências musicais de sua trilha (Jerry Marques) remetem, por vezes, às ancestrais sonoridades de gravações, sugestivamente, reproduzidas em processo imagético por um gramofone.

Vencedora dos Prêmios Pulitzer e Tony, a peça evoca, através dos depoimentos de Charlotte ao autor Douglas Wright, as conversas privadas entre eles, fazendo com que este se transforme, também, em uma de suas quase vinte personagens. Indo além dela, entre outras personificações, desde o incentivo da tia lésbica ao pai membro do partido nazista.

Obrigando-a, possessivamente imbuído de sua ideologia extremista,  a integrar as fileiras da Juventude Hitlerista para, assim, talvez se auto afirmar como um homem. O que, em represália posteriormente, levou-a a assassiná-lo, com sequencial condenação amplificada por sua condição judia.

Sob uma adequada e super funcional direção concepcional de Herson Capri, em nenhum momento deixando transparecer quaisquer apelos de vulgarização por um ator (Edwin Luisi) interpretando, com absoluta categoria, os maneirismos naturalmente afetados, de um personagem formatado, aqui, numa convicta autenticidade do papel como travesti.

Em performance, de certa maneira, bastante exigente ao transitar, sob uma espontânea fluidez gestual e paralelas mutações faciais, por uma diversidade de personagens masculinos e femininos, além de variar, com rara artesania, as nuances vocais e sotaques de falas em português e alemão.

O que se tornou uma marca sinalizadora na decifração do misterioso enigma no entorno da vida e das convicções da personagem, conferindo conceituados prêmios ao seu intérprete inicial, por intermédio de um reconhecido ator americano Jefferson Mays.

Premiações e força carismática continuadas, em nível singular, pela irreprimível atuação de Edwin Luisi no papel protagonista de Eu Sou Minha Própria Mulher, sem dúvida alguma, tornada emblemática para a carreira de um dos mais significativos nomes de sua geração, no universo teatral brasileiro de ontem e de hoje...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo

 

Eu Sou Minha Própria Mulher está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo, de quinta a sábado, às 20hs; domingo, às 19h, até o dia 26 de abril, seguindo em nova temporada no Teatro Vannucci / Shopping da Gávea, a partir de 02 de maio, sábado às 20h30; domingo, às 19h30. 

CIA PEQUOD / DESEJO: SEDUTORA E SENSUAL PERFORMANCE CÊNICA-COREOGRÁFICA CONECTA A DANÇA AO TEATRO DE ANIMAÇÃO



Desejo / Cia Pequod. Bruno Cezario e Miguel Veliinho / Concepção Coreográfica/Direcional. Abril/2026. Renato Mangolin/Fotos.


Na passagem dos seus 26 anos de criação a referencial Cia Pequod retoma sua fascinante pesquisa estética no entorno das relações entre a linguagem coreográfica e a dramaturgia de animação, já explorada em 2014, com raro brilho e repercussão internacional, pela original proposta de Peh Quo Deux.

Desta vez indo mais longe, num processo de criação alegórica, para decifrar uma temática provocadora de representação da sexualidade em híbrida manifestação cênica, longe de quaisquer limitações conservadoras, sob recíproco e assumido jogo lúdico sensual.

Tornado mais libertador na figuração simultânea destas aventuras sexuais através da corporeidade humana em pictórica ação paralela diante de objetos inanimados. Com marionetes e atores-bailarinos que, sob mecânicos reflexos especulares, recebem um sopro instantâneo de vida erótica na pulsão de um movimento cenográfico imune a  atitudes censórias.

O que remete não só à ancestralidade em celebrações ritualísticas usando bonecos em atos fálicos de iniciação religiosa sob erotizada sacralização. Tendência que foi retomada no século XX, desde os experimentos do cenógrafo inglês Gordon Craig priorizando a utilização de marionetes na livre representação dos desejos humanos.

E nesta diferencial proposta de Miguel Vellinho, contando com a valiosa parceria do bailarino Bruno Cezario, conferindo uma singular estrutura cênica e coreográfica aos três quadros sequenciais que integram o ideário do espetáculo Desejo inserido no conceitual estético da Cia Pequod.


Desejo / Cia Pequod. Bruno Cezario e Miguel Veliinho / Concepção Coreográfica/Direcional. Abril/2026. Renato Mangolin/Fotos.


No primeiro deles, retomando dois personagens-marionetes de performances anteriores da Cia. Enquanto repousa, a voluptuosa cantora Veronica de Vitta tem seu quarto invadido por um vampiro, com quem combinara um lascivo encontro, potencializado por diversas poses eróticas.

No seguinte, em dois tablados que se juntam, duas clássicas figurações do balé “L’aprés-midi d”un faune”, uma das obras que imortalizaram o coreógrafo e bailarino Vaslav Nijinski no apogeu dos Ballets Russes de Sergei Diaghilev. A Ninfa e o Fauno no formato de bonecos caracterizando, com plástico apuro, os personagens originais.

Enquanto o bailarino Bruno Cezario revive a coreografia original dialogando passionalmente com a Ninfa, na peculiaridade de um gestual purista que o tornou exemplar intérprete do Fauno, desde sua  apoteótica estreia neste papel, em irrepreensível leitura coreográfica de Jean Yves Lormeau, para o Balé do Theatro Municipal/RJ.

Contando, no seguimento final, com o presencial performático dos seis esmerados atores-manipuladores (Bruno Cezario, Caio Cesar Passos, Diego Diener, Liliane Xavier, Márcio Nascimento e Mariana Fausto) precedidos por uma simbólica vocalização do soneto de Olavo Bilac Ora direis ouvir estrelas.   

Desdobrando-se na formatação de duplas amorosas, sem preconceitos de identidade sexual, em ousado gestual de corpos transando numa subliminar conexão metafórica do híbrido encontro de figuras mecanizadas e atores-bailarinos, dimensionados por um teatro coreográfico.

A funcional trilha sonora reúne o experimentalismo das harmonias do clássico e do pop/eletrônico pelo britânico Mica Levi, o impressionismo musical de Claude Debussy  e os energizados acordes autorais de Federico Puppi, em ordenamento sequencial.

Onde um intimista preenchimento da caixa cênica (Doris Rollemberg) é completado pelo acerto de um figurino (Kika de Medina), alternando-se entre o black e tonalidades cotidianas, tudo sendo ressaltado pelas sombras e claridades de uma discricionária iluminação (Renato Machado).

O dúplice e consistente ideário coreográfico-direcional (Bruno Cezario e Miguel Valiinho), sobretudo, imprimindo, com a criação de Desejo, novas perspectivas para a Cia Pequod, tornada, assim, cada vez mais exemplar em sua busca investigativa, por um desbravador teatro de animação sintonizado com os avanços das artes cênicas em nosso tempo...

                                              

                                                     Wagner Corrêa de Araújo

 

Desejo/Cia Pequod está em cartaz no Espaço Mezanino/Sesc Copacabana, de quinta a domingo, às 20h30, até 05 de Maio.

BALLET DALAL ACHCAR 5 ANOS: RETROSPECTIVA PRIORIZA UMA ESTÉTICA COREOGRÁFICA ENTRE O NEOCLÁSSICO E O CONTEMPORÂNEO


Cia Ballet Dalal Achcar. Paradise Garden/Vassili Sulich. Abril/2026. Fotos/Divulgação.


Dalal Achcar é um dos nomes mais simbólicos  que vem marcando a história da dança sob formas brasileiras, da segunda metade do século XX ao terceiro milênio, sempre com irreprimível trajetória. Tendo passado por importantes Cias ora como bailarina, coreógrafa ou diretora, além de seu destaque na área didática influindo no incentivo a inúmeras vocações aqui e além fronteiras.

A mais recente formação da Companhia Ballet Dalal Achcar revela uma nova geração que tem brilhado por sua sólida base técnica mostrando talento e aptidões, tanto nas releituras do repertório de maior proximidade ao clássico como nas criações de linguagem mais contemporânea.

Contando além da própria Dalal na direção artística, com um aprimorado staff integrado pela competência de nomes fundamentais ao desenvolvimento de seus projetos, entre outros, da diretora técnica Mariza Estrela e do maitre de Ballet e coreógrafo convidado Eric Frederic, além de um elenco com cerca de vinte bailarinos.

Que aparecem numa performance com nove obras de seu repertório, a começar daquelas assinadas especialmente por Dalal Achcar como Don Quixote e Cardinal, onde um dos Concertos para cravo e orquestra de J. S. Bach serve de inspiração a uma composição em que os acordes barrocos dão vazão a uma corporeidade gestual impulsionada por movimentos dançantes com um sotaque de pura brasilidade.


Cia Ballet Dalal Achcar. Fuga Technic@/Eric Frederic. Abril/2026. Fotos/Divulgação.


No caso da versão do balé Don Quixote em dimensionamento de Suíte, há outra releitura de uma das mais reconhecidas criações de Dalal Achcar, a partir do original de Marius Petipa. Mas que perde cenicamente o impacto de sua referencial montagem completa em 1982, para o Balé do TMRJ, ao tornar-se fragmentária.

Embora não deixe de revelar o excelente preparo técnico de um elenco jovem, especialmente de seus solistas Gabriela Sisto e Fernando Mendonça nas passagens do Grand Pas de Deux e suas variações. E é extamente um outro Pas de Deux, através dos bailarinos Luana Gali e Matheus Benevides, que vai ter um alcance de luminosa sensitividade expressiva na convicta entrega passional de seus dois intérpretes

Desta vez recorrendo ao celebrado intermezzo do inglês F. Delius – O Caminho para o Jardim do Paraíso, de sua ópera A Village Romeo and Juliet, de 1907, transmutando seus dois protagonistas em rústicos camponeses. Funcionando dramaticamente como um leitmotiv de sotaque wagneriano, com sua melancolizada melodia, retratando um amor impossível.

Mas que por intermédio de sua coreografia idílica, foi uma das duas obras que trouxeram uma instantânea fama ao croata Vassili Sulich, ao lado de La Barre, esta com largo uso em academias de dança no Brasil para as suas formaturas (caso inclusive, da que leva o nome de Dalal Achcar, e da Escola Maria Olenewa do TMRJ).

Sob uma mesma linhagem musical capaz de despertar lembranças sobre o passar do tempo, As Horas, trilha minimalista por Philip Glass para um filme de Stephen Daldry, 2002, de similar titulação, torna-se tema para o coreógrafo Eric Frederic, pensada para três bailarinas (Camila Lino, Gabriela Sisto e Thaís Cabral), como personagens de um romance de Virginia Woolf (The Hours)

Tanto a trilha como a sua releitura coreográfica, provocando emoções afetivas e nostálgicas diante de uma projeção cênica abstrata (ideário cenográfico de Marcos Duprat) ampliada nas tonalidades luminares entre sombras, na representação da palavra pela corporeidade fluida das três bailarinas.

E é através de outra criação de Eric Frederic – Fuga Technic@ - que de forma carismática se estabelecem pontes energizadas de ressignificação da corporeidade gestual com um olhar armado na contemporaneidade coreográfica, através da vigorosa exibição performática de corpos em conexão de um coesivo núcleo de 19 jovens bailarinos.  

Ecoando aqui, afinal, a lição de Martha Graham no seu tríptico princípio - respiração, tensão e relaxamento - com a sequencial perspectiva da valoração inventiva de uma dança comunicativa a ser compartilhada entre os bailarinos e todos aqueles que se entregam a este lúdico jogo ...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo



Cia Ballet Dalal Achcar. Cardinal/Dalal Achcar. Abril/2026. Fotos/Divulgação.


Cia Ballet Dalal Achcar – 5 Anos estreou na sexta-feira 10/04, seguido do sábado, 11/04, às 20hs; com encerramento às 17hs, domingo, 12/04.

MULHER EM FUGA : INSTIGANTE DENÚNCIA DRAMATÚRGICA DA VERGONHA SOCIAL PELA HOMOFOBIA E PELA MISOGINIA NA OBRA DE ÉDOUARD LOUIS


Mulher em Fuga. Inspirada na obra de Édouard Louis. Pedro Kosovski/Dramaturgia. Inez Viana/Direção Concepcional. Abril/2026. Nana Moraes/Fotos.


Depois de consistente versão teatral, por Luís Felipe Reis e Julia Lund, partindo de três livros de autoficção do midiático escritor francês Édouard Louis, através da peça  Eddy e A Violência,  é a hora e a vez de Mulher em Fuga, através de um incisiva releitura dramatúrgica de Pedro Kosovski, inspirada em duas obras sobre a mãe do escritor (Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher e Monique Se Liberta).

Continuada pelo inventivo alcance da direção concepcional de Inez Viana para dois convictos atores - Malu Galli no papel titular da mãe Monique e o filho-escritor Édouard interpretado por Tiago Martelli, sendo este, ainda, o responsável pelo ideário do projeto que se tornou, desde a temporada paulista, uma das grandes surpresas do público e de aplauso crítico na atual temporada.

Para quem já teve o privilégio de ler os sete livros de Édouard Louis, reveladora presença da mais recente literatura francesa, torna-se perceptível, numa primeira análise, um signo estético de episódica saga familiar. Onde as narrativas conectam os seus personagens e seus dramas, a começar da infância opressiva do próprio autor, submissa a um pai desajustado pelo alcoolismo e pelas precárias condições sociais, tornado agressivo, homofóbico, misógino, preconceituoso e inútil à causa operária.


Mulher em Fuga. Pedro Kosovski/Dramaturgia. Inez Viana/Direção Concepcional. Tiago Martelli e Malu Galli / Elenco. Abril/2026. Nana Moraes/Fotos.


E é só quando Édouard Louis alcança sua autonomia, reconhecido como escritor já morando em Paris, que acontece uma transmutação absoluta em sua condição existencial e no seu desafio afirmativo como gay. Acontecendo isto a partir da publicação e do sucesso de seus livros com prevalência de escritas de teor confessional, sob denúncia sociopolítica.

Em que todos os familiares se cruzam, com maior ou menor destaque, dois deles enfocando precisamente a sua mãe em fases diversas diante das violências sofridas no ambiente doméstico e diante da não compreensão afetiva da sexualidade gay de seu filho. Sintetizada nas palavras de Édouard Louis : “Queria usar minha nova vida como vingança contra a minha infância, contra todas as vezes em que você e o meu pai fizeram entender que eu não era o filho que desejavam”, em  Lutas e Metamorfoses de uma Mulher.

Enquanto o outro (Monique se Liberta) mostra o resgate de uma trajetória perdida nas turbulências domésticas, quando ela chega ao apartamento parisiense do filho com perspectivas de recomeçar a viver aos 50 anos  - ali “Nada nela lembrava a mulher que fora minha mãe", assim a define o escritor.

E é então que se inicia a jornada cênica de Mulher em Fuga, um diante do outro, dando voz e corporeidade diferencial à personagem, a começar de uma caixa cenográfica (Dina Salem Levy) preenchida pela simbologia de uma extensa mesa retangular.  Que, ao mesmo tempo, traduz tanto a distância como a proximidade entre Monique e Louis, entre o passado e a remissão através de um acerto de contas, cara a cara, longe da vergonha dos tempos idos.

Sob os efeitos luminares (Aline Santini) ora vazados ora sombrios lembrando passagens melancólicas e instantes de superação, pelo relato das conflituosas passagens experimentadas, com intencionalidade redentora, pela recíproca aceitação. Ela portando um moletom cotidiano com tonalidades aquareladas e ele em tons mais sóbrios, o uso indumentário (Ticiane Passos) sugestionando duas situações sociais.

Destacando a atuação conflitante e conciliadora de dois personagens que encontram interpretações idealizadas por intermédio de dois iluminados atores, sinalizados pelo sotaque da revigorante dramaturgia de Pedro Kosovski ecoando nas texturas sempre investigativas da direção concepcional de Inez Viana.

De um lado, pela palavra dramatizada em narrativa de subliminares tonalidades literárias, por um mais discricionário Tiago Martelli no papel do escritor. No contraponto da provocativa performance de Malu Galli como uma mulher reprimida em busca de sua tão ansiada e tardia sobrevivência pela libertação.

Em dúplice envolvência palco/plateia  exprimindo reflexivos apelos de culpa e revolta, derrota e vitória que encontram culminância na emblemática cena sensorial da atriz diante de uma bateria ressoando os acordes tonitruantes da significativa mensagem tema de Wind of Change, dos Scorpions...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo


 

Mulher em Fuga está em cartaz no Teatro Firjan/Sesi /Centro/RJ, quinta e sexta, às 20h; sábado e domingo às 17h; até 29 de março.
          



ENCONTRO DE LINGUAGENS ARTÍSTICAS EVOCA A INFÂMIA DITATORIAL NA AMÉRICA LATINA, SOB UMA EMBLEMÁTICA PERFORMANCE DE JOHN MALKOVICH


O Infame Ramirez Hoffman. Roberto Bolaño/Autor. John Malkovich/Direção Concepcional/Performance. Março/2026. Mohai-Baláz/Fotos.



O espetáculo cênico-musical-literário O Infame Ramirez Hoffman é inspirado numa narrativa ficcional do escritor chileno Roberto Bolaño em vários segmentos, integrando o romance “Literatura Nazista nas Américas", onde ele conta a vida imaginária de escritores que apoiaram a ditadura militar de Augusto Pinochet.

Glorificados durante a vigência do regime totalitário e em épocas posteriores atirados à lama do desprezo e do esquecimento. Numa simbologia assumida pela obra original e transmutada  no dúplice ideário do projeto que reuniu o ator americano John Malkovich e a pianista de ascendência russa Anastasya Terenkova.

Sob um questionador enigma estético se o processo da criação, artística ou literária, pode se submeter a certos absurdos ou abusos da condição humana. Além dos limites da ética e fora de uma consciência reflexiva, quando o escritor numa pulsão de auto favorecimento torna-se  cego diante de tudo.

Temática exemplarmente abordada por escritores como o português Saramago em seu Ensaio Sobre a Cegueira e o argentino Ernesto Sábato, em Nunca Más, que se tornaria uma experimental performance anterior – Report on the Blind (2017), por intermédio da mesma dupla, o ator Malkovich e a pianista Terenkova, usando uma intensiva conexão entre a textualidade literária-documental e a composição musical.


O Infame Ramirez Hoffman. Roberto Bolaño/Autor. John Malkovich/Direção Concepcional/Performance. Março/2026. Mohai-Baláz/Fotos.



Sendo isto que os incentivou para o espetáculo cênico-musical, usando a parte final do livro de Bolaño, em que um aviador-poeta chileno, radicalmente ungido pela ideologia da extrema direita, é levado à proposição de campanhas multimídia, expondo letreiros e cartazes políticos doutrinadores, em suas exibições  aéreas.

Com incentivo ao cometimento de sequenciais crimes na irreversível (des)governança  militar de Pinochet, por torturas, assassinatos, desaparecimentos corporais, apagamento da memória coletiva, no entorno de todos os contrários e quaisquer de seus opositores. Fatos que se tornaram comuns também em outros países, especialmente, nas ditaduras argentina e brasileira.

Aumentando a expectativa de Malkovich sobre como tem sido a reação relativa à peça na habitual instabilidade política da América Latina, embora já tenha estreado em Praga, num quase referencial à opressão da era soviética em métodos similares, além de Lisboa quase para lembrar os desmandos do Salazarismo.

Alcançando sempre um expressivo retorno crítico em outras cidades europeias e americanas, passando também por Santiago do Chile e Buenos Aires, antes de chegar aos palcos brasileiros, nesta instantânea temporada por três capitais, incluindo Porto Alegre, Rio e São Paulo, esta a única com duas récitas, na Sala São Paulo.

A ambientação minimalista funciona quase como um concerto cênico, além de um telão central para exibição das legendas. Sendo preenchida por dois pianos, ambos com uso por Anastasya Terenkova, mais as estantes utilizadas pelos outros dois instrumentistas, o violinista ucraniano Andrej Bielow  e o bandoneonista argentino Fabrizio Colombo, tudo completado pela atuação carismática de Malkovich no espaço lateral.

Este trio musical, aprimoradíssimo na execução das tessituras melódicas de um repertório diversificado, incluindo desde a prevalência de obras de Astor Piazzola, ao lado de passagens por obras clássicas e contemporâneas,  até algumas subliminares frases pop/roqueiras.

Acentuando, assim, contrastantes acordes, ao propiciar momentos ora alegres, ora sombrios, de acordo com as incursões do personagem titular Ramirez e através do narrador autoral Bolaño, sob emotiva e pulsante vocalização teatral por um emblemático ator - John Malkovich, na continuidade de significativa carreira com 90 filmes, como ator e diretor, indo das telas aos palcos teatrais e de ópera.

Em bela iniciativa da Temporada Dellarte, a representação de um ator internacional consagrado, especificamente do universo dramatúrgico-cinematográfico, remete à era pre digital. Quando o privilégio de assisti-los, presencialmente, ao vivo, acontecia quase sempre no palco dos Municipais carioca e paulista, como foi entre outros, o caso de nomes estelares como o de Vivien Leigh.

Assim, a raridade desta atuação teatral de John Malkovich, certamente há de ficar na lembrança reflexiva de cada espectador, ao mesmo tempo, se inscrevendo no acervo memorial do mais tradicional palco carioca...

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo



O Infame Ramirez Hoffman, com John Malkovich, esteve em cartaz no TM/RJ, no ultimo domingo, 29 de março, às 17h; seguindo para a Sala São Paulo, com apresentações nos dias 31/03 e 01/abril.

CARMINA BURANA/VORTICE DANCE COMPANY : IMERSIVA PROPOSTA CÊNICA CONECTA DANÇA À TECNOLOGIA DIGITAL


Carmina Burana / Vortice Dance Company. Rafael Carriço e Claudia Martins / Direção Coreográfica Concepcional. Março/2026. Rita Carmo/Fotos.



A Cantata Carmina Burana tornou-se a mais emblemática obra composta por Carl Orff, desde sua estreia, em 1937, já no período de ascensão do regime nazista, provocando incômodo por sua libertária evocação dos prazeres sensoriais, a partir de anônimos versos profanos da era medieval, contrapondo-se, assim, ao “ideário purista” dos teóricos do Reich.

Onde alguns de seus temas musicais, sob textos latinos como Fortuna Imperatrix Mundi, tornaram-se midiáticos inspirando, com sua energética pulsão rítmica e catártica, desde diversas vertentes do pop rock a trilhas cinéticas, indo ainda dos jogos virtuais aos efeitos das plataformas digitais.

E isto se estendeu a um conceitual estético coreográfico em releituras desta Cantata através de várias companhias de dança contemporânea, incluída a mais conhecida hoje em Portugal – Vortice Dance Company  - dando continuidade ao legado inovador e precursor daquela que foi, ligada por sua titularidade (Ballet Gulbenkian), à Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa.

Surgindo o primeiro projeto experimental da Carmina Burana, há cerca de dez anos, por intermédios dos diretores-coreógrafos da Cia Vórtice – Rafael Carriço e Claúdia Martins - optando então por uma proposta radical de vídeo-dança. Sequenciada por uma retomada durante os anos pandêmicos e, mais recentemente, por uma revisão para os palcos que, agora, chega ao Brasil, após várias turnês europeias.


Carmina Burana / Vortice Dance Company. Rafael Carriço e Claudia Martins / Direção Coreográfica Concepcional. Março/2026. Rita Carmo/Fotos.



Dentro de um singular dimensionamento artístico de dar priorização seletiva no seu cast a bailarinos brasileiros selecionados para uma longa temporada de quase três meses, mantendo de seu elenco original português, desta vez, basicamente, dois bailarinos solistas, por acaso os dúplices diretores /coreógrafos da Vortice.

Onde a concepção cenográfica e indumentária mantem-se a mesma da Cia em Lisboa, a saber, Rafael Carriço (cenografia, videografia, sonoplastia) e Cláudia Martins (figurinos), ambos também se responsabilizando, exclusivamente, pela direção artística e coreografia, numa proposta digital ousada com uso da tecnologia do videomapping.

Que se estende do palco à plateia, incluindo o teto e as laterais do teatro propiciando uma imersão sensorial imagética aos bailarinos e aos espectadores, ampliada pela intensidade dos potenciais acordes musicais, no entremeio do uso de uma gravação mantendo a dimensão estética original da obra sinfônico-coral de Carl Orff.

Sob a textualidade de cantos poéticos descobertos no Mosteiro de Benediktbeuern que sinalizam na Roda da Fortuna, a deusa do destino, influindo no ciclo de mudanças na trajetória da condição humana, em quadros luxuriantes no entorno da nudez corporal e dos prazeres sensuais, do lirismo da natureza primaveril, passando pela saciedade do vinho nas tabernas, às sombrias predestinações transcendentais, dos gozos paradisíacos às punições infernais.

As projeções, sob um tratamento digital com uso da IA, ora por representações especulares da cultura medieval ora por assumidas interferências burlescas e contrapontos de uma  ironia crítica e até grotesca,  repercutindo no sugestionamento indumentário, sob um quase desnudamento dos bailarinos, com ressonâncias alegóricas tempo-espaço na psicofisicalidade do corpo cênico.

Não deixando de remeter ao questionamento estético que vem desde grupos precursores desta tendência como o Alvim Nikolais até o Momix, entre outras cias na contemporaneidade, ecoando os riscos da espetacularização tecnológica sobre a pura fluidez da performance de um corpo-linguagem em movimento, contextualizado como dança pela dança.

No caso específico desta Carmina Burana pela Vortice Dance Company, direcionada entre o sagrado e o profano, pela entrega à proposta narrativa consubstanciada e implicitamente conectada à exclusiva estrutura coreográfica de um espetáculo que busca uma essencialidade apreensível, sempre através do encontro destas diferentes linguagens artísticas.

Tudo, afinal, convergindo para uma celebração ritualística pictórica da tradição à modernidade, extensiva ao ideário mais próximo de um híbrido teatro coreográfico onde a técnica é dimensionada pelo maior favorecimento de uma performance de subliminar  transe hipnótico, provocando surpresa na decifração das relações artísticas destas texturas do movimento corporal sob os avanços da tecnologia digital numa imersiva ambiência cênica...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo

 

Carmina Burana/Vortice Dance Company está em temporada, numa turnê que incluiu São Paulo - Teatro Liberdade,  Rio - Cidade das Artes, com previsão de encerramento nos dias 10 e 11 de abril, no Befly Minas Centro/Belo Horizonte.

HÉTERO SIGILO : O DIFÍCIL ENFRENTAMENTO DO CONVÍVIO COM AS DIFERENÇAS FRENTE AO CONSERVADORISMO FAMILIAR E SOCIAL


Hétero Sigilo. Bernardo Dugin/Dramaturgia e Performance. João Fonseca/Direção Concepcional. Março/2025. Nil Caniné/Fotos.


 

Sob um preconceito secular, a rejeição no entorno da diversidade de orientação sexual começa por sua classificação como “o amor que não ousa dizer seu nome”, paralela à sua definição científica como a homossexualidade, por outro lado, alcançando uma subliminar vulgarização pelo sarcasmo de gírias discriminatórias.

Mas destacando-se também pela sua abordagem, com uma proposta de denúncia mais conscientizadora ou remissiva, em inúmeras representações teatrais e cinematográficas, incluindo além da literatura as artes plásticas e, vez por outra, a criação musical.

O que fez crescer um progressivo movimento de reflexão, defesa e protesto originado na liberalidade comportamental dos anos setenta, interrompida pela eclosão, nos anos 80/90, da AIDS, transmutada então pelo estigma da culpa como um vírus exclusivo da comunidade gay.

Embora isto tenha se revertido, apesar ainda de muitos  outros pesares, pela pulsão cada vez maior da comunidade LGBTQIAPN+, persistindo apesar de todo este empenho uma epidêmica tendência comandada pelo recessivo conservadorismo moral, religioso e político.

Dentro de um contexto de desafio e oposição, valendo a pena destacar no universo teatral o surgimento de espetáculos contestatórios deste status refratário, ainda persistente em plena segunda década do terceiro milênio. Através, agora, de um monólogo qualitativo, primeiro resultado dramatúrgico de Bernardo Dugin, titulado muito a propósito, como Hétero Sigilo.


Hétero Sigilo. Bernardo Dugin/Dramaturgia e Performance. João Fonseca/Direção Concepcional. Março/2025. Nil Caniné/Fotos.


Um nome ascendente da nova geração nos palcos cariocas, originário de Nova Friburgo, mas já com boa trajetória como ator, assistente e diretor de teatro, com incursões pelo cinema e pela televisão. E nesta sua peça de estreia autoral, sendo dirigido pela habitual competência de João Fonseca, com assistência de André Celant.

Onde a caixa cênica é preenchida por uma minimalista concepção, frontalizada pela sugestão de um espermatozóide suspenso, e na funcional mobilidade de uma  mesa e duas cadeiras, pelo ideário de Nello Marrese, também responsável por um figurino cotidiano bastante simplificado.

Sob luzes (Daniela Sanchez) entre sombras, ora focais, ora vazadas, ressaltando uma espontânea movimentação  (Vanessa Garcia) de um ator energizado ou então tornado mais pensativo, através dos sempre expressivos acordes composicionais do violoncelista e compositor Federico Puppi.

A narrativa dramatúrgica dimensionada por significativo episódio vivencial sofrido de forma agressiva, tanto por Bernardo Dugin como por seu parceiro amoroso, durante uma missa de sétimo dia em sua cidade natal, quando o padre que oficiava a cerimônia fez uma humilhante  alusão à presença, ali, do jovem casal gay.

Com repercussão em âmbito nacional, o fato provocou um procedimento jurídico e incentivou o ator a criar um perfil digital a que denominou de Hétero Sigilo, transformado depois na textualidade dramatúrgica, como um manifesto a favor da condição de ser e de se assumir como gay.

Na percepção desde a infância que era diferente dos outros meninos, entendendo em maior amplitude, a partir da adolescência, que era necessário aceitar isto sem restrição e acovardamento, diante de tanto bullying, por priorizar a leitura, a paixão pelo teatro e a dança, respondendo aos que riam dele - tu és tu, eu sou gay e daí, qual o problema?...

E é consciente de seu orgulho de ser assim que Bernardo Dugin se entrega a uma convicta performance sendo o personagem ele mesmo, expondo sem amarras a sua interioridade. Imprimindo afetiva sinceridade, ao estabelecer equilíbrio entre os desalentos e as alegrias numa despretensiosa dialetação confessional.

Tornada cativante ao fazer refletir os que o assistem, como se quisesse ecoar no silencio emotivo de cada espectador a poética fala de Caio Fernando Abreu :  Quero a delicadeza de quem me olha e me entende sem que eu precise dizer uma palavra”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo

 

Hétero Sigilo está em cartaz no Teatro Laura Alvim/Ipanema, sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h; até o dia 29 de março.

AUTO DA COMPADECIDA : BRASILIDADE SOB UMA ESTÉTICA BARROCO-TROPICALISTA MARCA A PARCERIA GABRIEL VILLELA E O GRUPO MARIA CUTIA

 

Auto da Compadecida. Grupo Maria Cutia. Ariano Suassuna/Dramaturgia. Gabriel Villela/Direção Concepcional. Março/2026. Tati Motta/Fotos.


O Grupo Maria Cutia, nos seus vinte anos de trajetória pelos caminhos da mineiridade, sempre atraiu o também mineiro Gabriel Villela por recíproca identidade das raízes circenses e de um teatro de rua, voltado para a poesia e para a linguagem popular, desde sua criação em 2006, o que motivou o encontro entre o diretor e a trupe.

Pelo ideário de uma releitura da mais conhecida obra do pernambucano Ariano Suassuna, no propósito de celebrar tanto os 60 anos de Gabriel Villela como as duas décadas do Grupo Maria Cutia, este com inúmeras turnês Brasil afora e além-mar, e, agora, através de uma inédita montagem do Auto da Compadecida.

Conceitualizada sob uma estética conectando o barroco mineiro ao tropicalismo baiano e carioca, paralela à melhor tradição da cultura popular numa releitura inventiva que incorpora elementos brechtianos. Por intermédio de canções e citações textuais, potencializando um contraponto farsesco, com oportuno conteúdo crítico, político - comportamental, sobre o Brasil de hoje.

Paralelo a uma concepção cênico-indumentária, na tipicidade autoral de Gabriel Villela, adicionando tonalidades resplandecentes, no detalhamento pictórico dos cenários, que remetem a uma plasticidade barroquista das ancestrais igrejas coloniais mineiras. Extensivo aos artesanais figurinos que fundem o imaginário barroco, ao circo e à arte popular, passando pelos folguedos folclóricos e pelo carnaval, não esquecendo de destacar o exuberante visagismo facial e a energia gestual de cada ator.



Auto da Compadecida. Ariano Suassuna/Dramaturgia. Gabriel Villela/Direção Concepcional. Março/2026. Tati Motta/Fotos.



A trilha sonora interpretada ao vivo pelos atores-cantores, simultaneamente músicos-instrumentistas, num repertório com uso inusitado das letras para simbolizar cenas como a da chegada dos personagens para a um julgamento no céu, “sem lenço e sem documento”, como apregoa Caetano Veloso em Alegria, Alegria. Passando também, entre outras, por América do Sul, hit vocal de Ney Matogrosso para acentuar a pegada tropicalista.

Incluindo ainda Carcará com seu referencial nordestino, além de Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua, marcando as entradas e saídas carnavalescas do Bloco da Cutia, mais os temas do cancioneiro tradicional e também religioso, sinalizando a milagrosa intervenção da Nossa Senhora Compadecida e do Nosso Senhor Jesus Cristo, desafiando o Diabo, no tribunal celeste.

O palco-picadeiro sob funcionais efeitos luminares (Richard Zair) e luminosa direção musical (Babaya, Fernando Muzzi e Hugo da Silva). Tudo isto integrando uma narrativa picaresca, ingênua e bucólica, ao mesmo tempo, a partir dos embates em compasso da palhaçaria, de Chicó (Hugo da Silva) a João Grilo (Leonardo Rocha) no entorno de um controvertido enterro do cachorro do padeiro (Dê Jota Torres) e de sua mulher (Mariana Arruda).

Alguns dos intérpretes em representações alternativas do universo religioso/cristão, fazendo papel do Padre, do Bispo, do Sacristão, de Nossa Senhora, de Jesus Cristo e do Diabo, ou em atuações isoladas, vez por outra, como um Palhaço, um Cangaceiro, um Capanga e um Major.

Todo o elenco sintonizado em uma coesão performática, ainda que, através de determinados personagens, tenham um apelo carismático maior ou menor, mas sempre estabelecendo uma sólida dialetação palco/plateia em suas incursões.

Absolutamente funcionais com sua convicta envolvência no tratamento assumidamente burlesco e provocador imprimido por Gabriel Villela, privilegiando com seu perspicaz olhar, um diferencial que não deixa indiferente à proposta o mais acomodado dos espectadores.

Levando ao alcance de uma entusiástica adesão expressada por espontâneos aplausos, desde o prólogo ao epílogo, em espetáculo classificado como cênico/musical/picaresco, por acertada auto definição do próprio Grupo Cutia.

A investigativa busca por novas e arrojadas atitudes criativas, marca registrada da instintiva liberdade artística de Gabriel Vilela, faz com que esta sua irrepreensível versão do Auto da Compadecida, repercuta o emblemático signo da obra de seu compatriota- mor Guimarães, o Rosa da Prosa: “Eu queria decifrar as coisas que são importantes”...

 

                                          Wagner Corrêa de Araújo

 

Auto da Compadecida / Grupo Cutia está em cartaz no Espaço Arena/SESC/Copacabana, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18hs, até 29 de março.

BODAS / FOCUS CIA DE DANÇA : 25 ANOS DE CONVÍVIO COREOGRÁFICO COM A ESTÉTICA DIFERENCIAL DE ALEX NEORAL




Bodas / Focus Cia de Dança. Alex Neoral / Direção Concepcional / Coreográfica. Março/2026. Léo Aversa/Fotos.


Com um referencial título que, na história da dança, remete a um dos clássicos do século XX, pelos Ballets Russes por Bronislava Nijinska, desta vez as Bodas da Focus Cia de Dança assumem um original enfoque comemorativo do simbólico convívio artístico do coreógrafo Alex Neoral com seu afinado corpo de bailarinos.

Nesta proposta retrospectiva, sem o intuito de fazer uma mera colagem de trechos selecionados no entorno de criações que continuam a integrar o repertório da Focus Cia de Dança, o conceitual coreográfico é elaborado como uma releitura destas obras para tornar Bodas um espetáculo inédito.

Propiciando para aqueles que tiveram o privilégio, seja como espectadores ou pela análise crítica, de terem visto a maioria destas criações, agora, com Bodas, numa espécie de decifração desta proposta estética a partir da sua reunião fragmentária, priorizando o foco em 16 montagens da Cia.

Além da sua parceria com uma habilitada equipe de criação comandada por Tatiana Garcias que, neste quarto de século, tornou-se um nome fundamental acompanhando, inicialmente como bailarina e depois como produtora, todas as fases de desenvolvimento da Focus, desde seu primeiro espetáculo Vértice, no despontar do terceiro milênio.

A Cia e seu inventor, diretor e coreógrafo (Alex Neoral) sempre revelando novos direcionamentos na corporeidade psicofísica dos bailarinos em sua transmutação das relações de tempo e espaço, nesta celebração em compasso ritualístico, sob o lance de dados de um jogo coreográfico memorial.


Bodas / Focus Cia de Dança. Alex Neoral / Direção Concepcional e Coreográfica. Março/2026. Léo Aversa /Fotos.


Onde a caixa cênica (Natália Lana) é preenchida por plataforma frontal ou superposta  como uma cobertura, ora reproduzindo imagens originais da obra inicial, sinalizadora da futura trajetória artística da Focus, ora transmitindo reflexos especulares dos bailarinos em sua atuação no palco, em imersiva plasticidade.

Complementada por exponenciais efeitos luminares  (Anderson Ratto) e diferenciais figurinos (Maria Osório e Lucas Pereira) com brilhos e tonalidades prateadas sobrepostas, sem perder a identificação de caracteres singulares que remetem às obras coreográficas escolhidas.

A trilha sonora, sob o ideário de Alex Neoral, percorre em seus acordes e temas musicais uma circularidade que alcança vários gêneros, indo do barroco à música eletrônica, da MPB ao tango argentino, passando pelo cancioneiro romântico.

Esta multiplicidade de facetas impulsionando a expressividade do corpo dançante e estabelecendo afinidades, em níveis variados, com o gosto específico de cada espectador, de Bach a Steve Reich, de Astor Piazzola a Chico Buarque e Ney Matogrosso, incluindo ainda Roberto Carlos.

Pela qualitativa e coesiva entrega dos dez bailarinos (Afonso Gondin, Bianca Lopes, Bruno Feliciano, Carolina de Sá, Cosme Gregory, Guilherme Nunes, Olivia Pureza, Paloma Tauffer, Wesley Tavares e Yasmin Mattos) há que se destacar como sua adesão à performance torna-se um elemento essencial, através de quadros fracionados,  ao andamento sequencial ininterrupto para um resultado integralizado de uma obra, completa em todos os seus aspectos.

Ora rigidamente abstratos, vez por outra narrativos sem cair na linearidade, quando reproduzem citações verbalizadas, entre a literatura de Clarice Lispector e os versos de canções de Chico Buarque e Ney Matogrosso, extensivo a projeções numéricas, enquanto toques sonoros percussivos parecem sugestionar 25 badaladas de um sino ou de um relógio, alusivas às “Bodas" de Prata da Cia.

A direção coreográfica-concepcional de Alex Neoral sempre dimensionando os seus desenhos coreográficos pelo vai e vem das entradas e saídas de variadas formações grupais, energizadas entre pausas de silêncio, em artesanal unicidade cronométrica de um tempo gestual destinado à pulsão imediata do próximo instante.

Tudo, enfim, ressaltando mais um resultado do processo criador de Alex Neoral frente à Focus Cia de Dança, reinventando sua essencial contribuição coreográfica à dança contemporânea brasileira, e, ainda, repercutindo o oportuno apelo do pensar filosófico de Gaston Bachelard:“Não se encontra o espaço, é sempre necessário construí-lo”...

                                  

                                        Wagner Corrêa de Araújo

 

Bodas / Focus Cia de Dança apresentou-se em instantânea temporada no Theatro Municipal/RJ, de 05 a 08 de Março.

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