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| Filho da Margem / Cia Boca do Mundo. Márcio Cunha/Direção Coreográfica /Concepcional. Outubro/2026. Carol Pires e Leonardo Miranda/ Fotos. |
O artista plástico,
ator, bailarino e coreógafo Márcio Cunha vem imprimindo às suas incursões
plásticas, desdobradas em espetáculos coreográficos, desde o tríptico inicializado por Frida,
Basquiat e Rosario, uma autoral pulsão integrativa de elementos da dança, da
performance teatral e do processo das instalações. Com prevalência em
energizada imersão psicofísica de seu idealizador e intérprete na
trajetória de criação do outro artista focalizado.
Transmutando em outra trilogia, desta vez inspirada no processo investigativo da corporeidade gestual com sua permanente e incisiva imersão no mágico universo dos Orixás. E, ao mesmo tempo, conceitualizando uma inédita denominação para a sua Cia, bem a propósito tornada Boca do Mundo.
Inicializada em sua nova fase pelas propostas de decifração da enigmática
simbologia física, espiritual e religiosa dos terreiros, dos jogos de búzios e
da capoeira, legado de uma ancestralidade identificando-se com as crenças populares do sincretismo afro-brasileiro.
Dimensionando-se com o espetáculo Pipoca e sequenciada por Boca do Mundo, chegando, agora, à complementação integrativa do tríptico através do mais recente deles, Filho da Margem que, depois de um apurado e longo processo de elaboração, acaba de alcançar os palcos cariocas em sua definitiva temporada de estreia.
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| Filho da Margem / Cia Boca do Mundo. Márcio Cunha/Direção Coreográfica /Concepcional. Outubro/2026. Carol Pires e Leonardo Miranda/ Fotos. |
Com ideário original de Márcio Cunha para mais uma de suas criações que podem ser classificadas como um teatro coreográfico, provocador de expectativas tanto para seus mentores como para o devido compartilhamento do público e da opinião crítica, pelas suas características de encontro diferencial entre linguagens artísticas, indo além de seu teor de priorização de uma obra meramente coreográfica.
Contando com a valiosa e sempre oportuna participação das artistas-bailarinas Carla Stank e Joana Carelli como intérpretes criadoras numa representação, simbológica e ritualistica, do encontro entre o elemento feminino e masculino, aqui, por ele próprio - Márcio Cunha - integrando-se no exercício presencial do seu reconhecido ofício coreográfico, paralelo à artesania de sua direção geral.
Onde a ocupação do espaço cênico faz com que este se transforme numa instalação plástica, por um design de arte que converge ali elementos característicos dos terreiros de candomblé, com seus orixás conectados à condição humana dos três bailarinos-performers (Márcio Cunha, Carla Stank, Joana Carelli). Sendo ressignificados, coreograficamente, pelo atravessamento da matéria fisica da corporeidade em movimento, com a fluidez reflexiva da espiritualidade transmitida pelas crenças místicas/míticas afro-brasileiras.
Sob precisos efeitos luminares (Juca Baracho) que potencializam em suas tonalidades a tipicidade ambiental de um paisagismo de sacralidade ritualística, ampliado por um imaginário plástico-escultórico e indumentárias brancas. Por vezes recobertas por traçados de saias e turbantes de palhas, penas de aves, fragmentos de galhos de árvores remetendo a elementos da natureza. Florestas e rios que podem ser ouvidos por intermédio dos ruídos de águas no entremeio de cantos de pássaros, pela inventiva trilha sonora em dúplice realização (Leonardo Miranda e Márcio Cunha), dando um necessário recado de preservação ecológica.
Toques percussivos alternam a energização de uma corporeidade brincante com passagens, ora rítmicas ora calmas, para um quase silencioso gestual de transe dos intérpretes-bailarinos, como se ali estivessem sendo possuídos por suas divindades, na acentuação de uma consciência interior visualizando-se em expressões faciais, adornadas com objetos de invocação, e na suavidade dos improvisos de movimentos de mãos, braços e pernas.
O espetáculo coreográfico Filho da Margem, através da Cia Boca do Mundo, com seus convictos intérpretes-criadores entregando-se de corpo e alma a uma proposta que, pelo seu direcionamento estético propicia uma dança física e espiritual de manifestação dos Orixás, certamente não deixando de referenciar uma emblemática reflexão da coreógrafa Martha Graham: ""O palco é um lugar comum, mas todo solo onde o bailarino pisa é lugar sagrado"...
Wagner Corrêa de Araújo
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