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| Fafá de Belém - O Musical. Eduardo Rieche e Gustavo Gasparani/Dramaturgia. Gustavo Gasparani/Direção Concepcional. Fevereiro/2026. Nil Caniné/Fotos. |
Há musicais e “musicais” que recriam, dramaturgicamente,
através de canções e passagens existenciais, a vida e a obra de personalidades
fundamentais da MPB de ontem e de hoje. Grande parte deles imersa em similar
dimensionamento estético-fabular, sobre a trajetória de cada um deles, por
insistente recorrência exclusiva, ora à prevalência do seu legado composicional,
ora ao repertório de cada um deles.
Poucos são aqueles musicais que ousam desafiar este formato sempre
sob um sequencial cronológico e, de certa maneira, tornado quase obrigatório na
concepção de um musical brasileiro biográfico. Não se podendo negar que há
aqueles outros que acabam se impondo como uma gramática cênica peculiar
privilegiando, num mesmo patamar inventivo, a conexão tanto dramatúrgica como musical.
É, sem dúvida alguma, o caso de Fafá de Belém - O Musical, a
primeira e mais significativa estreia no gênero “grande musical” da temporada 2026 nos palcos cariocas com um
propósito de ir além sob um subliminar contraponto crítico-reflexivo. Desde o seu
ideário inicial por Jô Santana, um reconhecido produtor e incentivador do
teatro musical em moldes brasileiros.
E já começando pelo acertado lance de dados na escolha dos roteiristas-dramaturgos,
sob a afirmativa competência de Eduardo Rieche e Gustavo Gasparani, contando
também com o valioso aporte do pesquisador musical de Rodrigo Faour, cabendo a
Gasparani a exemplar direção artística-concepcional do espetáculo.
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| Fafá de Belém - O Musical. Eduardo Rieche e Gustavo Gasparani/Dramaturgia. Gustavo Gasparani/Direção Concepcional. Fevereiro/2026. Nil Caniné/Fotos. |
Fazendo alusões à magia exercida pela região amazônica, como um
emblemático signo da plenitude da natureza no norte brasileiro, no entremeio de
um acervo mítico que vai dos povos originários às tradições indígenas autóctones
em sua miscigenação com as crenças religiosas cristãs, da colonização à contemporaneidade.
Incluindo, aqui, Belém do Pará, a terra de origem da cantora, e
seu simbólico Círio de Nazaré, onde ela passou seus anos de infância à descoberta
de seu fascínio pela arte musical, transmutada em sua revelação vocal aos 18
anos, como intérprete de uma das canções temas da novela Gabriela Cravo e
Canela em 1975 (Filho da Bahia, de
Walter Queiroz).
Tudo isto sob um imaginário pretexto para realização de um
documentário fílmico atual sobre a cantora, longe de rigorismos sequenciais, partindo
da sua ambiência familiar, através de aproximativos referenciais à sua mãe
personificada por uma sempre cativante atriz-cantora Lucinha Lins, enquanto é
alternada por Laura Saab, sua neta de sangue e no caminho artístico da avó,
aqui, como uma Fafá criança e adolescente.
Entremeado, nestas idas e vindas de lembranças atravessadas pelo
espaço-tempo, é que vai acontecendo a
decifração poética do mistério de uma vida inteira dedicada ao canto, antes de tudo, ancorada na valorização não só
da cultura musical popular, mas vocacionada também no seu permanente empenho
pelas questões políticas e sociais.
Reverenciada como uma espécie de musa das Diretas Já,
defensora da preservação do patrimônio ecológico, porta voz da comunidade
LGBTQIA+, defensora das causas femininas, indo contra quaisquer formas de preconceito
a posturas identitárias ou de exclusão por raça e sexualidade.
Em espetáculo esmerado em todos os seus aspectos, na
plasticidade da caixa cênica (Ronald Teixeira) preenchida pelas aquareladas
tonalidades de um radiante figurino (Cláudio Tovar) de detalhamento artesanal, ao alcance de um
visual pictórico por intermédio de luzes com efeitos extasiantes (Paulo Cesar
Medeiros).
Entre os acordes contagiantes de um contraponto de ritmos
regionais ou modernos, dando espaço também a clássicos do cancioneiro popular e
ao romantismo brega - sertanejo, sob um
caprichado comando musical (Marcelo Alonso Neves), estendendo-se à energizada corporeidade
gestual provocada pela maestria coreográfica de Renato Vieira.
Tudo isto sendo evidenciado pela potencialidade performática
de um surpreendente desvendamento da última geração do teatro musical - Helga
Nemetik, com sua singular tessitura vocal, paralela à admirável maturidade
artística de uma completa Lucinha Lins, ambas
imprimindo um arrebatador sotaque ao personagem titular.
A partir da fluência de uma narrativa dramatúrgica direcionada
à amplitude conceitual, cenográfica e musical de um espetáculo, pensado para
divertir sem deixar de dar seu recado reflexivo sobre a força transcendente do legado
artístico de Fafá de Belém para a cultura de um povo e de um país...
Wagner Corrêa de Araújo
Fafá de Belém - O Musical está em cartaz no Teatro Riachuelo/RJ, nas quintas e sextas às 20h; sábados e domingos, às 17h; até o dia 08 de março

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