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| Visitando o Sr. Green. Guilherme Piva/Direção Concepcional. Agosto2026. Ronaldo Gutierrez/Foto. |
Desde sua estreia, há quase três décadas, a peça Visitando
o Sr. Green, do dramaturgo americano Jeff Baron, vem conquistando a simpatia e o aplauso do público pelo
dimensionamento imprimido a um encontro, controvertido e obrigatório, entre um
judeu com mais de 80 anos e um jovem executivo de 29.
Consequência de uma decisão judicial que, assim, impôs como punição
temporária pelo quase atropelamento do velho judeu, por imperícia do segundo ao
volante. Estando sujeito, a partir daí, a visitar e prestar assistência à sua
quase vítima fatal, uma vez por semana em seu pequeno apartamento.
Desenvolvendo-se entre ambos, uma relação marcada por
conflitos não só de gerações distantes como pelos princípios comportamentais
levando o ancião judeu a rejeitar a presença do outro, vez por outra abreviando
sua visita semanal na imposição de sua partida.
Sugerindo, a principio, o quanto é ranzinza o Sr. Green ao sentir naquele estado de coisas uma verdadeira intromissão em sua vida solitária, no entremeio da ambiência desleixada de livros empilhados ao acaso e de cartas nao lidas, em que nem o telefone de modelo antigo sequer funciona.
| Visitando o Sr. Green. Guilherme Piva/Direção Concepcional. Elias Andreato e Caio Manhente. Agosto/2026. Nana Moraes/Fotos |
O que é correspondido na ocupação da caixa cênica (Chris Aizner) sugerindo o limitado espaço em
que vive o Sr. Green, frontalizado por
uma vidraça coberta de papel escondendo na parte externa um letreiro luminoso.
Enquanto os efeitos luminares (Maneco Quinderé) se limitam a uma clareza sombreada
por algumas tonalidades melancolizadas.
Onde os figurinos (Karen Brustolin) alternam caracteres opostos
da jovialidade de um personagem e trajes fora de moda no outro. Sob ocasionais
intervenções de acordes musicais (Liliane Secco) conectando as tradições
populares de melodias judaicas típicas a um sutil sotaque de religiosidade.
Na primeira parte há a prevalência de situações bem humoradas
provocadas pelas teimosias de um velho acima dos oitenta e as ansiedades de um
jovem com 29, descobrindo aos poucos suas identidades nas raízes familiares judaicas.
E a partir desta constatação o enredo começando a questionar sobre preferencias
afetivas diante da solidão dos dois.
E é quando ocorre uma perceptível transmutação no clima
emotivo da dramaturgia conduzindo a trama
ao desenvolvimento de climas psicológicos, ora marcados pela previsibilidade,
ora por um conceitual de temporalidade recessiva, ao constatar por exemplo a não aprovação da
homossexualidade ou dos preconceitos quanto à escolha de parceiros amorosos de
outra religião, ambos inaceitáveis pelo radicalismo doutrinário judaico.
As considerações diferenciais de um judeu recém-viúvo convivendo
com o vazio da partida de sua mulher e as núpcias da filha única com um não
judeu, paralelo ao susto inicial diante da revelação de que o jovem Ross
enfrenta o desprezo dos pais judeus por ser gay, estabelecem o status de um
subliminar superficialismo no tratamento da compreensão e da súbita solidariedade
entre eles.
Se com o passar dos tempos
acentuaram-se as análises críticas sobre este aspecto, o que afinal foi
o segredo que sempre fez desta peça um êxito permanente senão uma criteriosa seleção
desta dupla de atores, desde a primeira versão brasileira com Paulo Autran no
papel do Sr. Green e de Cássio Scapin, personificando Ross, sob uma artesanal
direção de Elias Andreato.
Voltando este, agora como o velho judeu, reunindo sua maturidade
numa peça que ele domina como poucos, à de um talento da última geração
teatral Caio Manhente, ambos dirigidos com raro apuro por Guilherme Piva,
sabendo como imprimir a esta nova tradução de sua textualidade (Gustavo
Pinheiro) uma necessária conexão com a contemporaneidade teatral.
O dois atores impressionando pelo alcance de um timing que
nunca se perde entre eles, ao compartilharem pontos de vista opostos direcionados, sob um
mesmo nível qualitativo, das passagens em que aflora o riso àquelas em que o
drama comove palco/plateia, ao tentar decifrar o enigma da intolerância transmutada
no feliz convívio entre dois seres humanos...
Wagner Corrêa de Araújo
Visitando o Sr. Green está em cartaz no Teatro Vannucci/Shopping da Gávea, aos sábados e domingos, às 17h; até o domingo, 27 de setembro.


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