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| Carmina Burana / Vortice Dance Company. Rafael Carriço e Claudia Martins / Direção Coreográfica Concepcional. Março/2026. Rita Carmo/Fotos. |
A Cantata Carmina Burana tornou-se a mais
emblemática obra composta por Carl Orff,
desde sua estreia, em 1937, já no período de ascensão do regime nazista, provocando
incômodo por sua libertária evocação dos prazeres sensoriais, a partir de anônimos
versos profanos da era medieval, contrapondo-se, assim, ao “ideário purista”
dos teóricos do Reich.
Onde alguns de seus temas musicais, sob textos latinos como Fortuna Imperatrix Mundi, tornaram-se midiáticos
inspirando, com sua energética pulsão rítmica e catártica, desde diversas
vertentes do pop rock a trilhas cinéticas, indo ainda dos jogos virtuais aos efeitos
das plataformas digitais.
E isto se estendeu a um conceitual estético coreográfico em
releituras desta Cantata através de várias companhias de dança contemporânea, incluída
a mais conhecida hoje em Portugal – Vortice Dance Company - dando continuidade
ao legado inovador e precursor daquela que foi, ligada por sua titularidade (Ballet Gulbenkian), à Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa.
Surgindo o primeiro projeto experimental da Carmina Burana, há cerca de dez anos, por intermédios dos diretores-coreógrafos da Cia Vórtice – Rafael Carriço e Claúdia Martins - optando então por uma proposta radical de vídeo-dança. Sequenciada por uma retomada durante os anos pandêmicos e, mais recentemente, por uma revisão para os palcos que, agora, chega ao Brasil, após várias turnês europeias.
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| Carmina Burana / Vortice Dance Company. Rafael Carriço e Claudia Martins / Direção Coreográfica Concepcional. Março/2026. Rita Carmo/Fotos. |
Dentro de um singular dimensionamento artístico de dar priorização
seletiva no seu cast a bailarinos brasileiros selecionados para uma longa temporada
de quase três meses, mantendo de seu elenco original português, desta vez,
basicamente, dois bailarinos solistas, por acaso os dúplices diretores /coreógrafos
da Vortice.
Onde a concepção cenográfica e indumentária mantem-se a mesma
da Cia em Lisboa, a saber, Rafael Carriço (cenografia, videografia, sonoplastia)
e Cláudia Martins (figurinos), ambos
também se responsabilizando, exclusivamente, pela direção artística e
coreografia, numa proposta digital ousada com uso da tecnologia do videomapping.
Que se estende do palco à plateia, incluindo o teto e as
laterais do teatro propiciando uma imersão sensorial imagética aos bailarinos e
aos espectadores, ampliada pela intensidade dos potenciais acordes musicais, no
entremeio do uso de uma gravação mantendo a dimensão estética original da obra sinfônico-coral de Carl Orff.
Sob a textualidade de cantos poéticos descobertos no Mosteiro
de Benediktbeuern que sinalizam na Roda da Fortuna, a deusa do destino,
influindo no ciclo de mudanças na trajetória da condição humana, em quadros
luxuriantes no entorno da nudez corporal e dos prazeres sensuais, do lirismo da
natureza primaveril, passando pela saciedade do vinho nas tabernas, às sombrias predestinações transcendentais, dos gozos paradisíacos
às punições infernais.
As projeções, sob um tratamento digital com uso da IA, ora por representações especulares da cultura medieval ora por assumidas interferências burlescas e contrapontos de uma ironia crítica e até grotesca, repercutindo no sugestionamento indumentário, sob um quase desnudamento dos bailarinos, com ressonâncias alegóricas tempo-espaço na psicofisicalidade do corpo cênico.
Não deixando de remeter ao questionamento estético que vem desde grupos precursores desta tendência como o Alvim Nikolais até o Momix, entre outras cias na contemporaneidade, ecoando os riscos da espetacularização tecnológica sobre a pura fluidez da performance de um corpo-linguagem em movimento, contextualizado como dança pela dança.
No caso específico desta Carmina Burana pela Vortice
Dance Company, direcionada entre o sagrado e o profano, pela entrega à
proposta narrativa consubstanciada e implicitamente conectada à exclusiva estrutura coreográfica de um
espetáculo que busca uma essencialidade apreensível, sempre através do encontro destas
diferentes linguagens artísticas.
Tudo, afinal, convergindo para uma celebração ritualística pictórica
da tradição à modernidade, extensiva ao ideário mais próximo de um híbrido teatro
coreográfico onde a técnica é dimensionada pelo maior favorecimento de uma performance de subliminar transe hipnótico, provocando surpresa na decifração das relações artísticas destas texturas
do movimento corporal sob os avanços da tecnologia digital numa imersiva ambiência cênica...
Wagner Corrêa de Araújo
Carmina Burana/Vortice Dance Company está em temporada, numa turnê que incluiu São Paulo - Teatro Liberdade, Rio - Cidade das Artes, com previsão de encerramento nos dias 10 e 11 de abril, no Befly Minas Centro/Belo Horizonte.
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