AMAZÔNIA / GRUPO DE DANÇA DC : SOB A SURPRESA DA VOLTA AOS PALCOS DE UMA MEMÓRAVEL CIA CARIOCA

AmazôniA/Grupo de Dança DC. João Wlamir/Direção Concepcional. Junho/2024. Fotos/Wagner Brum.

 

No final dos anos 80 um grupo de bailarinos solistas do Theatro Municipal teve a idéia de criar uma Cia de dança voltada para uma linguagem contemporânea conectada à sólida base clássica de seus integrantes. Com o diferencial de sua proposta começando já na própria denominação Grupo de Dança DCDissídio Coletivo, com um subliminar significado estético-social.

A partir de 1987, desde a sua estruturação tendo como mentor concepcional/coreográfico o conceituado bailarino João Wlamir, o Grupo DC desenvolveu uma vitoriosa trajetória em inúmeras turnês brasileiras que se estenderam a apresentações em palcos e festivais internacionais.

Sempre com o aplauso da crítica e o sucesso de público, mais a participação, como convidados em alguns espetáculos, de nomes solistas fundamentais da dança clássica em moldes nacionais, entre outros, Ana Botafogo, Nora Esteves, Cecília Kerche, Auréa Hammerli, Francisco Timbó, Paulo Rodrigues.

Desenvolvendo um repertório original que incluía incursões de sotaque neoclássico, releituras de obras contemporâneas e a priorização de temáticas plenas de brasilidade, em criações de grande força como A.M.O.R, Rio 24 Horas, 16 Minutos Depois, esta última inspirada no Bolero de Ravel, para terminar esta sua luminosa viagem pelos caminhos coreográficos nacionalistas com Cores do Brasil, em 2014.


AmazôniA/Grupo de Dança DC. João Wlamir/Direção Concepcional. Junho/2024. Fotos/Wagner Brum.


E, agora, ao completar dez anos de ausência, na volta à cena com a obra inédita AmazôniA, numa tríplice parceria criativa incluindo, além do próprio João Wlamir, Jaime Bernardes e Mônica Barbosa, com bravura e ousadia para enfrentar o desafio de tempos tão difíceis para captação de patrocínios, especialmente para as artes cênicas.

Num valioso empenho pela descoberta de talentos emergentes para integrarem, inicialmente, o novo staff da DC após uma década de sentido interregno. Todos os oito bailarinos escolhidos, criteriosamente, em processo seletivo, seguindo-se um extensivo período de preparação e ensaios, desde o inicio de 2024.

Desta vez, para tornar visível, cênica e gestualmente, uma imersão na ambiência mágica da AmazôniA resignificada coreograficamente, como emblemático signo pulmonar do mundo, na vastidão de seu verde florestal e na potencialidade de maior reserva ecológica do planeta Terra.

Onde a paisagem cenográfica (Orlando Sérgio) tem um belo alcance na abstrata representação plástica frontal de sua vegetação, ampliando-se na habitual expressividade imprimida pelos efeitos luminares de Paulo César Medeiros. Incidindo sobre a funcional tipicidade da indumentária (João Paulo Bertini), com tons indigenistas, traços de folclorismo nortista e artesania popular.

Havendo também a prevalência de sonoridades percussivas na maioria das composições da trilha (Branco Ferreira), desde  o ritualismo afro-indigenista, acentuado pelas intervenções de um orixá,  ao regionalismo musical, com seu referencial de frases dos gêneros carimbó, sertanejo e forró. Além das citações de temas de Bethania, Chico Science e até do Sepultura.

Os nove bailarinos, a maioria se destacando na fluidez de sua corporeidade dançante, resultado natural de um elenco recém-formado, sob as exigências maiores ou menores de certos quadros. Enquanto alguns demonstram ainda certa insegurança em suas contrações performáticas, outros são mais incisivos em sua dramaturgia da fisicalidade.

O convicto comando concepcional da obra sem jamais perder a singularidade da proposta de um vocabulário do movimento. Figurando situações sócio-ambientais com personagens que remetem, tanto aos povos originários como aos atuais segmentos populacionais, incluindo da diversidade sexual à exploração insensata da própria floresta.

Onde a súbita mudança de compasso com a entrada, no epílogo, das energizadas interveniências do minimalismo musical de Philip Glass, provocam um angustiado grito de alerta, palco/plateia, e de denúncia global para que não se deixe perder, em carater definitivo, a urgente preservação da poesia e da vida daquele Paraíso na Terra ...

 

                                          Wagner Corrêa de Araújo


AmazôniA/Grupo de Dança DC está em cartaz no Teatro Prio/Gávea, em curta temporada, de quinta a sábado, 20h; domingo, às 19h, até domingo 30/06.
       

MOMIX/ALICE : MULTI-ESPETÁCULO CÊNICO CONECTA DANÇA E ACROBACIA SOB EFEITOS PSICODÉLICOS

Alice/Momix. Moses Pendleton/Direção Coreográfica / Concepcional. Junho/2024. Fotos/ Sharen Bradford.


Na proximidade de seu meio século, o grupo Momix volta aos palcos brasileiros com sua mais nova criação - Alice -, estreada em 2018, sendo inspirada no popular livro (Alice in Wonderland) do inglês, poeta e escritor, Lewis Carrol, século XIX, e nas psicodélicas impressões plástico-musicais da artista americana, anos 60/70, Grace Slick, com suas pinturas  da série White Rabbit.

Sob o ideário de Moses Pendleton, diretor e coreógrafo de uma das mais reconhecidas companhias da dança contemporânea mundial que, a partir de 1981, imprimiu uma inventiva transmutação nos processos investigativos da concepção no entorno de um multi-espetáculo cênico. 

Capaz, assim, de reunir dança, coreografia, acrobacia e efeitos cinético-visuais, num experimento artístico múltiplo. Ao provocar viagens pelos espaços siderais da mente, com suas alucinantes conexões de sonoridades e revolucionárias visões cênico-gestuais, convergindo numa obra de arte total, conectada com os avanços tecnológicos da contemporaneidade.

Embora este dimensionamento estético não consiga, por vezes, escapar de uma fria tecnicidade que prejudica a emoção pura da dança pela dança, quando a imanente expressividade da gestualidade corporal pode chegar a ser absorvida pelo risco da prevalência de um design de aboluto domínio digital.  


Alice/Momix. Moses Pendleton/Direção Coreográfica/Concepcional. Junho/2024. Fotos/Sharen Bradford

Em Alice, ao contrário de outras criações do Momix, onde havia sempre uma coletânea de peças independentes, mesmo que tivessem uma certa conexão temática, há a preocupação de se estabelecer uma narrativa  fabular unitária, tendo como substrato as aventuras daquele personagem Alice no País das Maravilhas.

Na especificidade de um diário de viagem que conserva o habitual formato fragmentário do Momix, mas sempre priorizando os relatos fantasiosos com a intervenção dos caracteres que marcam figuras típicas como o Chapeleiro Maluco, as Rainhas de Copas, de Espadas e de Paus, além do Coelho Branco.

Este último desdobrando-se em inúmeros coelhos,  saindo de suas tocas sugestionadas por baldes, baseando-se nas  figurações plásticas de Grace Slick que se estendem a outros animais como um Gato, uma Lagarta Azul, uma Aranha Branca Gigante, enumerando-se, aqui, apenas parte deles.

Sem esquecer das exóticas representações de bebês através de uma facial máscara fotográfica, desproporcional ao corpo dos bailarinos, revelando inusitadas expressões irônicas de riso e de choro. Ou por intermédio de figuras surrealistas resultantes de atrevidos contorcionismos da corporeidade acrobática dos intérpretes.

Num cenografia com projeção de paisagens marítimas ou florestais integrando-se à fluente fisicalidade da performance dos bailarinos, seja através das poéticas alusões de rosas vermelhas suspensas no ar ou do envolvente jogo de espelhos translúcidos que criam planos transespaciais.

Com os exponenciais efeitos causados por figurinos (Phoebe Katzin) aquarelados com predominância de tons rubros e negros que elevam as Alices do solo ao topo da caixa cênica. Tudo sob efeitos luminares (Michael Korsch) de um psicodelismo hipnotizante e que se coaduna com um potencializado videografismo.

A trilha sonora pontuada por toques percussivos, embora soe com um cadenciamento rítmico reiterativo, é estruturada em 22 temas, com idas e voltas, equivalente ao número de quadros. Incluindo referências musicais diversas, passando pelo lirismo da abertura à explosão pop-roqueira do final, depois de acordes meditativos de um réquiem e de uma melodia indiana.

Uma emblemática simbologia abre e termina o espetáculo quando, segundo as indicações de Moses Pendleton,  o livro de Alice deve ser lido por ela de cabeça para baixo ao convocar dançarinos e espectadores para uma delirante viagem de sonhos, sinalizando, na sua releitura em posição normal, a proximidade do epílogo...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo


Alice/Momix depois de sua apresentação no Qualistage/RJ, dias 22 e 23, segue para Belo Horizonte e São Paulo, nos próximos  finais de semana de Junho/2024.

PRIMA FACIE : O INSTIGANTE DESAFIO DE UMA ADVOGADA AO ARRAIGADO MACHISMO DO SISTEMA JURÍDICO

 

Prima Facie. Suzie Miller/Dramaturgia. Yara de Novaes/Direção Concepcional. Débora Falabella/Atuação. Junho/2024. Fotos/Annelize Tozetto.


A partir de sua simbólica  titulação inspirada em clássico termo jurídico – Prima Facie – a peça faz análise instigante dos trâmites contraditórios que envolvem a atuação de uma advogada de causas criminalistas diante de um sistema jurídico, na maioria das vezes machista e patriarcalista, quando o defensor ou, especialmente, a vítima é uma mulher. 

A tradução literal da expressão latina “Prima Facie” é secularmente utilizada com o significado de “à primeira vista” para exemplificar, assim, uma situação judicial em que a acusação ou a defesa tem validade enquanto não prevalecer prova em contrário.

Sob o original ideário dramatúrgico de Suzie MiIler, de conceituda trajetória anterior como advogada de defesa, seguida de sucesso absoluto na Broadway e no West End londrino, além da recente versão cinematográfica, com sua peça Prima Facie. E, agora, em palcos brasileiros, na parceria luminosa de duas personalidades femininas de nosso teatro - a diretora Yara de Novaes e a atriz Débora Falabella. 

Aqui, a jovem e visionária advogada Tessa Engler (Débora Falabella) em protagonismo monologal fala de sua ascendente trajetória jurídica numa celebrada universidade onde se destaca entre seus colegas de classe média alta. Ela que vinha de origem proletária onde a mãe lutava por seu sustento e do impulsivo irmão, sem acreditar que a filha pudesse alcançar êxito em suas pretensões jurídicas naquele tipo de ambiente privilegiado.


Prima Facie. Alexandre Tenório/Tradução. Yara de Novaes/Direção. Débora Falabella/Atuação. Junho/2024. Fotos/Annelise Tozzeto.

Atravessando a narrativa que começa desde os tempos estudantis de Direito ao despontar de uma carreira que, graças ao empenho de seu talento, lhe proporciona vitórias sequenciais nas causas criminalistas. Principalmente em processos voltados para casos de violência sexual como estupro, assumindo, prioritariamente, a defesa das vítimas femininas, mas por vezes, também o lado masculino quando este se julga injustamente acusado.

Até que numa reviravolta, ao iniciar  relacionamento com um daqueles colegas de escritório de classe alta, sente que foi violada sexualmente sem consentimento, entrando então com queixa crime por estupro contra o mesmo. O que lhe rende conturbado processo que tem tudo para ser desfavorável a ela, num tribunal composto apenas por homens.

Sentindo-se cada vez mais coagida, tem decepção traumatizante sustentada em profunda descrença num sistema que apregoa, perante a lei, a justiça é igual para todos, onde, intimidada, acaba dando impactante testemunho de revolta, no desalento desta amarga conclusão. 

Acreditando de que não é bem assim que acontece naquele tão insensato parâmetro de certos julgamentos marcados pelo preconceito seletivo, havendo muito a mudar em relação aos menos favorecidos do status social, não só para as mulheres, mas estendendo-se, ainda, aos de opção sexual diferenciada, aos negros, aos imigrantes e aos que portem deficiências mentais.

Em performance de apelo comovente, uma carismática Débora Falabella hipnotiza a plateia, entre o riso e o drama, desde suas primeiras aparições num cenário móvel (André Cortez) que sugestiona, em processo metafórico,  elementos de um tribunal enquanto vai se transmutando na sua adequação a ambiências diversas da narrativa dramatúrgica.

O que ocorre também com seu figurino (Fábio Namatame) que se transforma, entre o cerimonial e o despojado, no desenrolar das cenas, sob assumidos efeitos de luzes vazadas (Wagner Antônio) e ocasionais intervenções sonoro/musicais (Morris) que enfatizam uma vigorosa psicofisicalidade da atriz.

Culminando tudo no pleno domínio de Yara de Novaes com sua gramática cênica fluente e que irradia a transcedência da denúncia de tema mais que necessário em reflexivo contraponto crítico de um teatro corajoso e revelador, conectado na contemporaneidade.

Em oportuno entremeio das vergonhosas propostas de parte significativa e deplorável de uma bancada legislativa federal, com sua postura misógina de despudorada sustentação fundamentalista num falso moralismo, sendo capaz, afinal, de preferir privilegiar os estrupadores em detrimento de optar por suas vítimas... 

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo


Prima Facie está em cartaz no Teatro Adolfo Bloch/Glória, de quinta a sábado, às    20h; domingo, às 18h. Até 30/06 de 2024.                             

 

NORMA : SOB UM SENSORIAL COMPASSO MELODRAMÁTICO, O DESAFIO DE PAIXÕES CONTRADITÓRIAS

Norma. Guilherme Piva/Direção Concepcional. Junho/2024. Fotos/Gisela Schlogel/Léo Aversa.


O êxito ascendente de duas décadas fez de Norma uma peça, cujo assumido apelo melodramático foi capaz de transformá-la tanto num sucesso comercial, como numa qualitativa criação da nova dramaturgia brasileira, desde sua estréia  tendo, então, como protagonistas originais, Ana Lúcia Torre e Eduardo Moscovis. 

No seu ideário dúplice reunindo dois experientes nomes ligados ao universo da televisão, os roteiristas Dora Castellar e Tônio Carvalho, este último atuando como seu primeiro diretor, a partir de uma narrativa que tem absoluto domínio dos ingredientes mágicos, tanto de uma novela como de uma peça teatral.

Sabendo como manipular bem a conexão de elementos ficcionais e realistas desta história sinalizada pelo acaso do destino que atrai por seus fatores simbológicos. De um lado não escondendo uma trama que pode soar quase como quimérica, mas por outro revelando, sem restrições, uma situação que até poderia acontecer com qualquer um de nós.

Afinal, vivemos uma contemporaneidade política conflituada que, volta e meia, contrapõe seus avanços comportamentais e jurídicos com posturas adversas e retrógadas, o que estamos testemunhando, exatamente agora, em inimagináveis e absurdas decisões legislativas sobre o aborto, o porte das drogas, a delação premiada, tal como se estivéssemos sob a égide de uma teocracia, seja islâmica ou cristã.

Referenciada também na pressão sofrida por aqueles que tem identificação por uma sexualidade diferencial e, ainda, da arraigada misoginia que coloca a mulher em segundo plano no âmbito das relações domiciliares e sociais.

Extensivo ao desprezível preconceito machista quanto a quaisquer tentativas, de prevalência do poder decisório feminino, especialmente pelo caso de uma mulher na terceira idade ao demonstrar afeto amoroso por um jovem declaradamente gay, mesmo que possa ser esta a condição  oculta de seu filho.


Norma. Dora Castellar/Tonio Carvalho/Dramaturgia. Nivea Maria e Rainer Cadete/Elenco. Maio/2024.  

Aqui Norma (Nivea Maria) ao alugar um apartamento recebe a visita súbita de seu último morador, o jovem e galante Renato (Rainer Cadete) que aparece para informar à inquilina seu novo número telefônico fixo evitando, assim, chamadas desconhecidas para ela.     

Desenvolvendo-se, a partir deste inusitado corpo a corpo de desabafos face a face, uma série de questionadoras revelações pessoais dos dois personagens sobre escolhas de vida e circunstâncias psicofísicas intrigantes que provocam a ansiosa busca de decifração pelo mais acomodado dos espectadores.

Os dois intérpretes imprimindo com plena entrega o desalento de seus personagens, tentando desvendar o enigma colocado entre um e outro, mesmo que isto acabe ferindo as conservadoras e mais íntimas convições da velha senhora (Nivea Maria) como os sentimentos libertários que o jovem (Rainer Cadete) expõe sem eiras nem beiras.

Onde um minimalista e assertivo quadro cenográfico  (Ronald Teixeira) sob os discricionários efeitos luminares (Ana Luiz de Simoni) e os funcionais figurinos (Bia Salgado) dia a dia são potencializados esteticamente pela alusiva citação musical instantânea de um popular tema de antigo disco LP de Gal Costa.

Em que a cativante performance na irrepreensível maturidade de Nivea Maria expressa a angústia por um filho perdido pela opção de sua trajetória existencial, enquanto Rainer Cadete imprime com indisfarçável e tocante expressão externa seus transes humanos por se afirmar gay, com sangue e alma.

A acurada direção de Guilherme Piva fazendo irradiar na dupla de atores, sob uma linhagem de primado do sensorial, o alcance de coesiva fluência emotiva, em inventário dramático capaz de envolver carismaticamente palco e plateia  dando, sobretudo, um recado reflexivo de solidariedade e de vida...  

 

                                           Wagner Corrêa de Araújo


Norma está em cartaz no Teatro das Artes/Shopping da Gávea, sextas e sábados, às 20h; domingo, às 19h. Até 30 de junho.

DESERTO: DRAMATÚRGICA E IMAGÉTICA CONEXÃO DA VIDA E DA OBRA DE ROBERTO BOLAÑO


Deserto. Luiz Felipe Reis/Dramaturgia/Direção Concepcional. Maio/2024. Fotos/Renato Mangolin.



No seu meio século de trajetória existencial (1953/2003) o escritor chileno Roberto Bolaño acabou se  tornando um nome icônico da criação literária latino-americana, com sua inconformista visão da desertificação que leva ao silenciamento da essência humanitária.

Num universo cada vez mais dominado pela obsessão do lucro capitalista, pela prevalência de um interesseiro jogo político neoliberal e pela fria digitalização das relações sociais. E onde o seu engajar-se no ofício estético seria uma forma do escritor dialogar poeticamente com os enigmas do passado para tentar decifrar os abismos do tempo presente.

Por intermédio de um valioso legado ficcional e uma insurgente postura contra os desmandos políticos que obrigaram Bolaño a ser um cidadão do mundo, em transito no entremeio de três nacionalidades (Chile, México e Espanha).

Sem deixar de lado o referencial de que pelo menos duas de suas obras ficcionais chegaram a ser adaptadas aos palcos, inicialmente na Catalunha, e a seguir através de seu apocalíptico romance 2666, publicado postmortem em 2004, numa instigante montagem de cinco horas dirigida por Robert Falls em Chicago. 

Quanto ao ideário damatúrgico /direcional de Luiz Felipe Reis com Deserto, peça inspirada em passagens da vida e da obra de Roberto Bolaños, trata-se de uma iniciativa inédita no Brasil e configura-se como mais um dos diferenciais experimentos teatrais da sua Cia Polifônica, numa convicta performance solo de Renato Livera.


Deserto. Luiz Felipe Reis/Dramaturgia/Direção. Renato Livera/Ator. Maio/2024. Fotos/Renato Mangolin.


Contando ainda com parcerias valiosas como a assistência de Julia Lund, além de José Roberto Jardim na interlocução dramatúrgica. Com intermediações de uma trilha de escrituras verbais/musicais de Pedro Sodré e do próprio Luiz Felipe Reis.

Em meta proposta cenográfica dúplice (André Sanches e Débora Cancio) em que a caixa cênica, sob sutis efeitos luminares (Alessandro Boschini), é preenchida pelo sugestionamento da mesa de trabalho do escritor com  um gravador. Incluindo um microfone móvel e uma tela frontal em projeções imagéticas de frases, sobrepostas à assombrada paisagem de um deserto ocultando corpos femininos violados.

Renato Livera imprimindo ao personagem, com perfil autobiográfico, uma incisiva relação ora de observador ora de observado, personificando em sua psicofisicalidade uma cativante representação do escritor falando por seus escritos ficcionais ou por frases confessionais.

Deslocando a simbologia narrativa em irrepreensível expressão do desalento de um ser acometido por uma doença hepática degenerativa, que o levaria à terminalidade, no auge de seu processo de entrega à epopeia ficcional de 2666, diante do risco da perplexidade e do temor de não ver o resultado final.

Desde seu conceitual performático às intervenções projecionais com belo uso subliminar de diferentes recursos técnicos como vozes eletrônicas de um gravador às imagens captadas ao vivo por uma camera cinematográfica.

Luiz Filipe Reis revelando outra vez maturidade artesanal para viabilizar o equilíbrio de um texto introspectivo, entre a metaforização ficcional e o realismo, como se fora uma conferência para o público-espectador,  pelo alcance de absoluto domínio do espetáculo.

Resultado da busca investigativa de uma vigorosa textualidade autoral que reune fragmentos, tanto da obra ficcional como oportunas citações reflexivas de um pensamento político filosófico, sob recortes biográficos.

E que, sobretudo, aproximam Bolaño de uma emblemática geração de poetas e artistas que souberam como fazer de sua missão criadora um tributo ético à vida, diante do ascendente pesadelo de uma crise civilizatória e da iminente ameaça de um incerto futuro... 

 

                                                   Wagner Corrêa de Araújo

 

Deserto está em cartaz no Teatro do Futuros - Arte e Tecnologia, Flamengo/RJ, de quinta a domingo, às 20h. Até 23 de junho.

TARSILA, A BRASILEIRA : ALEGÓRICA INCURSÃO MUSICAL PELA TRAJETÓRIA DE UMA ARTISTA VISIONÁRIA

 

Tarsila, a Brasileira. Anna Toledo/Dramaturgia. José Possi Neto/Direção. Claudia Rais/Protagonista. Maio/2024. Fotos/Paschoal Rodriguez.


Quero ser a pintora de meu país”, uma afirmação predestinada de Tarsila do Amaral, em 1923, que acabou se transformando num signo emblemático de sua vida e obra, além de servir de mote a uma retrospectiva no MOMA – Modern Museum of Art de New York, inspira o musical Tarsila, A Brasileira.

Tanto por ser um nome visceralmente ligado a um processo de transmutação conceitual e estética da arte brasileira, como na afirmação comportamental de uma mulher com o olhar armado na contemporaneidade em seu empenho pelas causas políticas e sociais.

Tendo passado por alguns ciclos fundamentais da história artística e política do país, no século XX, deixando um legado memorial desde sua contribuição essencial na evolução vanguardista da arte brasileira, a partir da Semana Modernista de 1922.

Inicializada pelo empreendimento de autêntica e revolucionária brasilidade na sua pintura que ecoaria no Movimento Antropofágico, simbolizado na icônica tela titulada como Abaporu, com seu referencial do ato de deglutir a tradição pictórica européia por uma absoluta e libertária arte autóctone.

O espetáculo foi concebido numa proposta de roteirização e ideário dramatúrgico por Anna Toledo, com direção concepcional de José Possi Neto, tendo a atriz Cláudia Raia na protagonização titular, acompanhada de respeitável ensemble. Destacando-se, nos papéis principais, Jarbas Homem de Mello, Dennis Pinheiro, Carol Costa, Ivan Parente, Liane Maya, Keila Bueno e Reiner Tenente.


Tarsila, a Brasileira. Tony Lucchesi/Guilherme Terra/Composição/Direção Musical. Maio/2024. Fotos/Paschoal Rodriguez.

Onde um propulsor élan inventivo caracteriza a paisagem cenográfica em outra das potenciais criações de Renato Theobaldo, ao lado da habitual originalidade indumentária de Fábio Namatame, os dois componentes com sua plasticidade recorrendo a uma metafórica estilização dos temas e das cores dos quadros de Tarsila, aqui, ressaltados nos efeitos luminares de Wagner Freire.

Enquanto a trilha sonora, na dúplice idealização de Guilherme Terra e Tony Lucchesi, propicia uma funcional conexão na releitura de temas musicais conhecidos, sob imersivas harmonias e inéditos acordes. O que resulta numa sempre energizada e coesiva gestualização, pelo  dimensionamento coreográfico de Alonso de Barros.

Para uma proposição narrativa que atravessa as fases felizes e trágicas do percurso existencial de Tarsila do Amaral, Cláudia Raia imprime uma performance capaz de cativar por intermédio de uma especificidade interpretativa do personagem, na busca aproximativa ou identitária da sua psicofisicalidade, como artista e como mulher.

Enquanto o Oswald de Andrade, por Jarbas Homem de Mello, é apresentado no acerto da enunciação de falas irônicas ou provocadas por um certo sarcasmo crítico que remete às suas obras literárias.  O que acontece também nas fluentes discussões polemizadas assumidas entre ele e os convictos escritores Mario de Andrade (Dennis Pinheiro) e Menotti  Del Picchia (Ivan Parente).

Sem deixar de lembrar as dúplices participações deste último (Ivan Parente) como um Jean Cocteau diferencial. Ou dos arroubos da atrevida aproximação amorosa de Oswald pela amiga comum do casal – uma sedutora Pagu (Carol Costa) - o que leva ao rompimento definitivo da relação entre o escritor e Tarsila. 

O apuro da teatralidade de um texto, naturalmente sujeito a liberdades ficcionais, não deixa de conceder competência reflexiva a um espetáculo lúdico, no entremeio de passagens musicais calorosas ou impressões introspectivas, quando inesperadas adversidades do destino  possibilitam um compasso mais dramático.

O que a artesanal gramática cênica/direcional de José Possi Neto conduz com raro apuro em todas as suas sequências, até a explosão carismática da cena final com seu subliminar apelo por um tropicalismo carnavalesco, num alegórico jogo teatral vivo, unindo palco/plateia em expressivo aplauso à alma artística brasileira...  

 

                                           Wagner Corrêa de Araújo

  

Tarsila, a Brasileira, depois do sucesso no Teatro Santander/SP, apresentou-se em instantânea temporada no Vivo Rio, com apenas três dias, final de semana de 31/05 a 02/06.

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