EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER : EXEMPLAR DRAMATURGIA INTIMISTA E DESAFIADORA SOBRE A AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE LGBTQIAPN+



Eu Sou Minha Própria Mulher. Doug Wright/Dramaturgia. Herson Capri/Direção Concepcional. Edwin Luisi/Intérprete. Abril/2026. Lívio Campos/Fotos.


A trajetória precursora e não menos controversa de uma judia alemã transgênero - Charlotte von Mahlsdorf, nascida como Lothar Berfeld, enfrentando as perseguições tanto da Alemanha nazista como do conservadorismo repressor soviético na Berlim Oriental ocupada, entre a corajosa sobrevivência e a livre expressão de sua sexualidade.

Uma temática ousada que acabou inspirando uma peça titulada Eu Sou Minha Própria Mulher (I Am My Own Wife) a partir de entrevistas reais de seu autor Doug Wright com sua personagem titular von Mahlsdorf, precedendo sua adaptação e estreia para os palcos nova-iorquinos em 2003, com aclamado sucesso de público, entre uma ou outra crítica apontando restrições.

Estas últimas chegando a levantar questionamentos de um possível colaboracionismo entre Charlotte com a polícia secreta soviética Stasi e, até mesmo, seu pertencimento à corporação de investigativa espionagem, para conseguir manter um cabaré clandestino LGBTQUIAPN+, numa cidade sob rígido domínio político-social, moralmente avesso a qualquer manifestação afirmativa da identidade gay.

Independente disto, sua narrativa textual e sua representação, num dimensionamento de docudrama, transmutou-se num signo de liberação propulsora da diversidade de opção sexual fazendo de Charlotte von Malhsdorf (1928-2002) um ícone, de sua época extremamente proibitiva à resiliência, já em pleno despontar do terceiro milênio, testemunhada de perto, ainda em vida, por ela. 


Eu Sou Minha Própria Mulher. Doug Wright/Dramaturgia. Herson Capri/Direção Concepcional. Edwin Luisi/Intérprete. Abril/2026. Lívio Campos/Fotos.


E é dentro de um contextual mais evolutivo voltado para esta problemática em nossos dias, que a peça retorna aos palcos brasileiros, dezoito anos após sua tão bem sucedida primeira montagem, retomada basicamente no propósito de manutenção tanto de seu ator - Edwin Luisi – como de sua direção Herson Capri, contando com valiosa assistência de Cláudio Andrade.

Sob uma configuração de perceptível plasticidade com sutis mutações, conservando  a ocupação da caixa cenográfica através de móveis de época, peças museológicas e figurino referencial à tipificação figurativa de uma transgressora personagem, com seu vestido preto, um colar de pérolas e calçando uma espécie de “sapatão”, em dúplice concepção de Marcelo Marques.

Enquanto as modulações ambientais dos efeitos luminares (Aurélio de Simoni) e das interveniências musicais de uma trilha (Jerry Marques) remetem, por vezes, às ancestrais sonoridades de gravações sendo reproduzidas por um gramofone.

Vencedora dos Prêmios Pulitzer e Tony, a peça evoca, através dos depoimentos de Charlotte ao autor Douglas Wright, as conversas privadas entre eles, fazendo com que este se transforme, também, em uma de suas cercas de quase vinte personagens. Indo além dela, entre outras personificações, desde o incentivo da tia lésbica ao pai membro do partido nazista.

Obrigando-a, possessivamente imbuído de sua ideologia radical,  a integrar as fileiras da Juventude Hitlerista para, assim, talvez se auto afirmar como um homem. O que, em represália posteriormente, levou-a a assassiná-lo, com sequencial condenação amplificada por sua condição judia.

Sob uma adequada e super funcional direção concepcional de Herson Capri, em nenhum momento deixando transparecer quaisquer apelos de vulgarização por um ator (Edwin Luisi) interpretando, com absoluta categoria, os maneirismos naturalmente afetados, de um personagem formatado, aqui, numa convicta autenticidade do papel como um  travesti.

Em performance, de certa maneira, bastante exigente ao transitar, sob uma espontânea fluidez gestual e paralelas mutações faciais, por uma diversidade de personagens masculinos e femininos, além de variar, com rara artesania, as nuances vocais e sotaques de falas em português e alemão.

O que se tornou uma marca sinalizadora na decifração do misterioso enigma no entorno da vida e das convicções do personagem, conferindo conceituados prêmios desde o seu intérprete inicial, por intermédio de um reconhecido ator americano Jefferson Mays.

Premiações e força carismática continuadas, em nível singular, pela irreprimível atuação de Edwin Luisi no papel protagonista de Eu Sou Minha Própria Mulher, sem dúvida alguma, tornada emblemática para a carreira de um dos mais significativos nomes de sua geração, no universo teatral brasileiro de ontem e de hoje...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo

 

Eu Sou Minha Própria Mulher está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo, de quinta a sábado, às 20hs; domingo, às 19h, até o dia 26 de abril, seguindo em nova temporada no Teatro Vannucci / Shopping da Gávea, a partir de 02 de maio, sábado às 20h30; domingo, às 19h30. 

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