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| Mulher em Fuga. Inspirada na obra de Édouard Louis. Pedro Kosovski/Dramaturgia. Inez Viana/Direção Concepcional. Abril/2026. Nana Moraes/Fotos. |
Depois de consistente versão teatral, por Luís Felipe Reis e
Julia Lund, partindo de três livros de autoficção do midiático escritor francês
Édouard Louis, através da peça Eddy e A Violência, é a hora e a vez de Mulher em Fuga, através de um incisiva releitura dramatúrgica de Pedro Kosovski, inspirada em duas
obras sobre a mãe do escritor (Lutas e
Metamorfoses de Uma Mulher e Monique
Se Liberta).
Continuada pelo inventivo alcance da direção concepcional de
Inez Viana para dois convictos atores - Malu Galli no papel titular da mãe Monique e o filho-escritor Édouard interpretado por Tiago Martelli,
sendo este, ainda, o responsável pelo ideário do projeto que se tornou, desde a
temporada paulista, uma das grandes surpresas do público e de aplauso crítico
na atual temporada.
Para quem já teve o privilégio de ler os sete livros de Édouard Louis, reveladora presença da mais
recente literatura francesa, torna-se perceptível, numa primeira análise, um
signo estético de episódica saga familiar. Onde as narrativas conectam os seus
personagens e seus dramas, a começar da infância opressiva do próprio autor,
submissa a um pai desajustado pelo alcoolismo e pelas precárias condições
sociais, tornado agressivo, homofóbico, misógino, preconceituoso e inútil à causa operária.
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| Mulher em Fuga. Pedro Kosovski/Dramaturgia. Inez Viana/Direção Concepcional. Tiago Martelli e Malu Galli / Elenco. Abril/2026. Nana Moraes/Fotos. |
E é só quando Édouard
Louis alcança sua autonomia, reconhecido como escritor já morando em Paris,
que acontece uma transmutação absoluta em sua condição existencial e no seu
desafio afirmativo como gay. Acontecendo
isto a partir da publicação e do sucesso de seus livros com prevalência de
escritas de teor confessional, sob denúncia sociopolítica.
Em que todos os familiares se cruzam, com maior ou menor destaque, dois deles enfocando precisamente a sua mãe em fases diversas diante das violências sofridas no ambiente doméstico e diante da não compreensão afetiva da sexualidade gay de seu filho. Sintetizada nas palavras de Édouard Louis : “Queria usar minha nova vida como vingança contra a minha infância, contra todas as vezes em que você e o meu pai fizeram entender que eu não era o filho que desejavam”, em Lutas e Metamorfoses de uma Mulher.
Enquanto o outro (Monique
se Liberta) mostra o resgate de uma trajetória perdida nas turbulências domésticas,
quando ela chega ao apartamento parisiense do filho com perspectivas de
recomeçar a viver aos 50 anos - ali “Nada nela lembrava a mulher que fora minha
mãe", assim a define o escritor.
E é então que se inicia a jornada cênica de Mulher
em Fuga, um diante do outro, dando voz e corporeidade diferencial à personagem,
a começar de uma caixa cenográfica (Dina Salem Levy) preenchida pela simbologia
de uma extensa mesa retangular. Que, ao
mesmo tempo, traduz tanto a distância como a proximidade entre Monique e Louis, entre o passado e a remissão através de um acerto de contas,
cara a cara, longe da vergonha dos tempos idos.
Sob os efeitos luminares (Aline Santini) ora vazados ora sombrios
lembrando passagens melancólicas e instantes de superação, pelo relato das
conflituosas passagens experimentadas, com intencionalidade redentora, pela
recíproca aceitação. Ela portando um moletom cotidiano com tonalidades aquareladas
e ele em tons mais sóbrios, o uso indumentário (Ticiane Passos) sugestionando duas
situações sociais.
Destacando a atuação conflitante e conciliadora de dois
personagens que encontram interpretações idealizadas por intermédio de dois iluminados
atores, sinalizados pelo sotaque da revigorante dramaturgia de Pedro Kosovski
ecoando nas texturas sempre investigativas da direção concepcional de Inez Viana.
De um lado, pela palavra dramatizada em narrativa de subliminares
tonalidades literárias, por um mais discricionário Tiago Martelli no papel do
escritor. No contraponto da provocativa performance de Malu Galli como uma
mulher reprimida em busca de sua tão ansiada e tardia sobrevivência pela libertação.
Em dúplice envolvência palco/plateia exprimindo reflexivos apelos de culpa e revolta,
derrota e vitória que encontram culminância na emblemática cena sensorial da atriz
diante de uma bateria ressoando os acordes tonitruantes da significativa
mensagem tema de Wind of Change, dos Scorpions...
Wagner Corrêa de Araújo



Um comentário:
Excelente crítica. Você é craque demais.
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