COYOTE : COMÉDIA DRAMÁTICA CONFRONTA A SOLIDÃO HUMANA COM A DESOLAÇÃO AMBIENTAL

 

Coyote. Eric Coble / Dramaturgia. Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo / Direção Concepcional-Performática. Fevereiro/2026. Victor Poliak / Fotos.


Dois vizinhos solitários acabam se encontrando, conversando e refletindo diante do súbito e sequencial aparecimento de um coyote nas escadas de incêndio do prédio. Este é o mote do dramaturgo escocês/americano Eric Coble para a sua peça originalmente denominada My Barking Dog, inédita em palcos brasileiros e aqui titulada Coyote, em outra das apuradas traduções de Diego Teza.

Na tipicidade do latido de um pequeno lobo, com certa similaridade canina na aparência deste mamífero predador, a partir de um nome conferido por descendentes dos povos originais do México. E que diante da ascendente devastação de seu meio ambiente, acaba invadindo o espaço urbano na sua busca pela sobevivência.

A narrativa fabular sendo pontuada pelo dimensionamento do realismo mágico e de um clima fantasioso e meio surrealista na tentativa de decifrar o enigma que passa a perturbar e, ao mesmo tempo, a preencher o dúplice cotidiano vazio de Tony (Rodrigo Pandolfo) e de Melinda (Karen Coelho).

O primeiro na condição de desempregado numa incessante navegação pelas plataformas digitais na esperança de encontrar um trabalho, enquanto Melinda enfrenta o fastio de um cotidiano e a desilusão de sua sufocante jornada noturna em uma fábrica.


Coyote. Eric Coble / Dramaturgia. Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo / Direção Concepcional-Performática. Fevereiro/2026. Victor Poliak / Fotos.


No inicio, cada um deles expressa o desalento personalista de dois seres frustrados com o melancólico alcance de suas vidas, sem quaisquer perspectivas frente à prevalência dos desmandos de uma sociedade  capitalista que se orienta apenas por seus interesses lucrativos.

E é extamente pela imersão num clima de fantasia, de sonhos e até delírios com as supostas visões de um animal, que eles encontram certo consolo revelando-se, reciprocamente, através de falas confessionais. Inicialmente bastante autoreferenciais dirigindo-se à plateia, por intermédio de uma energizada Karen Coelho. Depois compartilhadas de um para o outro – Rodrigo Pandolfo, este numa vocalização mais discricionária ou mais sutil. Tudo entremeado por ironia, drama, riso ingênuo ou cáustico, em passagens ora sombrias, ora bem humoradas.

Numa minimalista concepção cenográfica (Cássio Brasil) os atores se movimentam sobre um piso de placas quadradas retiradas aos poucos, para revelar simbolicamente uma terra vermelha, sugestionando assim os resquícios da natureza selvagem, aqui, oculta sob o concreto dos edifícios e abaixo do asfalto das ruas.

Ambos com inusitado figurino que traz traços do dia-a-dia carregado por um sotaque de excentricidade, especialmente no desleixado traje meio pijama paralelo ao uso de gravata mal ajeitada, blusa invernal e calça do personagem masculino, completando o diferencial ideário cênico-indumentário de Cássio Brasil.

Enquanto se ouvem ruídos e acordes desconexos (Marcelo H), entre instantâneos solos de sax, amplificados nos efeitos luminares (Ney Bonfante) configurando situações comportamentais, ora aleatórias, ora interativas, no entremeio dialogal dos dois personagens, provocado pelas aparições, indo  do  imaginário ao realismo, de um Coyote.

A direção concepcional-performática é assumida pelos dois convictos atores dando continuidade à trajetória de uma parceria inicializada nos estudos teatrais, tornada independente e inventiva no palco reunindo, agora, esta dinâmica dupla – Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo - na realização comum da peça Coyote.  

Numa incisiva criação cênica, plena de contrapontos dramatúrgicos e críticos, sob um subliminar conceitual do absurdo e do no sense, capaz ao mesmo tempo de ser provocador tanto do riso como de um questionamento do “way of life” contemporâneo, em sua frenética pulsão consumista acreditando estar, ali, a saída para o isolamento psicofísico no caos urbano.

Tão desconectado da natureza que a simples presença de um Coyote fugitivo da depredação ambiental pode ser capaz de levar a uma mudança no comportamento sensitivo, relacionado tanto à valoração do mundo selvagem quanto ao seu papel na própria preservação do outro, conceitualizado como civilizatório, num futuro distópico...

 

                                          Wagner Corrêa de Araújo

  

Coyote está em cartaz no Teatro Poeirinha/Botafogo, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h; até o dia 01 de março.

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