SALVATOR ROSA: DE VOLTA AOS PALCOS UM DOS MAIORES TRIUNFOS DA TRAJETÓRIA OPERÍSTICA ITALIANA DE ANTONIO CARLOS GOMES

Salvator Rosa / Ópera de Carlos Gomes. TMRJ.  Julliana Santos/Direção Concepcional. Luiz Fernando Malheiro/Direção Musical/Regência. Julho/2026. Daniel Ebendinger/Fotos.


Nos seus anos de aperfeiçoamento musical na Itália, duas das óperas de Carlos Gomes alcançariam enorme acolhida do público e o aplauso da crítica. Depois do triunfo absoluto de Il Guarany, 1870, no  Scala di Milano, foi a vez do êxito de Salvator Rosa em Genova,  1874, precedido pelo fracasso de Fosca.

Se a primeira delas impressionou pela novidade de sua temática plena de brasilidade e pela força melódica de sua partitura, Salvator Rosa, agora, abordando uma narrativa nacionalista italiana conectada a uma estética composicional, tornada também reveladora por sua identificação com a escrita verdiana.

E, 80 anos depois, ao retornar ao palco do Municipal carioca, abrindo oficialmente a temporada lírica 2026, enquanto ao mesmo tempo, celebra as datas de nascimento (1836) e de morte (1896) do compositor, numa bela iniciativa da direção artística (Eric Herrero) com o propósito de valorizar a ópera autoral brasileira.

Com libreto de Antonio Ghislanzoni (o mesmo da ópera Aída), seu enredo,  no entremeio do fato histórico com um lado ficcional, se passa no ducado de Nápoles no século XVII mostrando uma revolta popular contra o domínio espanhol, liderada por Masaniello conseguindo a adesão do pintor Salvator Rosa, este enamorado da filha Isabella do vice-rei governante.  


Salvator Rosa / Ópera de Carlos Gomes. TMRJ.  Julliana Santos/Direção Concepcional. Luiz Fernando Malheiro/Direção Musical/Regência. Julho/2026. Daniel Ebendinger/Fotos.


A caixa cênica é preenchida, em mais uma das inspiradoras ideias de Renato Theobaldo, aqui retomando a cenografia apresentada antes na Ópera de Manaus, por painéis móveis com recortes das paisagens de estilo barroco do pintor e poeta napolitano Salvator Rosa, frontalizada por um pórtico de colunas gregas clássicas.

Onde um grande destaque é a tonalidade peculiar e contrastante dos figurinos (Marcelo Marques), indo das cotidianas vestimentas de cidadãos napolitanos e guardas da tropa de ocupação, aos reluzentes trajes de luxo aristocrático na reconstituição palaciana.

Alternados por cenas de danças características populares e a sugestão de marchas militares ou de minuetos nas passagens mais cerimoniais, numa precisa adequação coreográfica para bailarinos integrantes do Corpo de Baile do TMRJ (por Hélio Bejani, Marcia Jaqueline, Rodolfo Saraiva).

A regência de Luiz Fernando Malheiro, um especialista reconhecido pela expressividade sinfônica imprimida ao universo da ópera, alcança alguns de seus especiais momentos qualitativos na unicidade das cenas corais nas passagens mais envolventes do espetáculo, com o rigorismo técnico dos diversos naipes corais, estendendo-se ao dimensionamento performático das principais vozes solistas em seu acompanhamento orquestral.

Entre os protagonistas valendo sublinhar a interpretação segura do tenor Marcello Vannucci em sua completa integração física-vocal com o personagem  titular, seguido da convicta atuação do barítono Vinicius Atique (Masaniello) e de Marly Montoni (Isabella), surpreendente pelo alcance da uma tessitura  de soprano, entre o dramático e o lírico, na ária “Di Sposo, di padre”.

Entre outros vários papéis da trama, não deixando de referenciar o cativante presencial da soprano Carolina Morel assumindo um personagem masculino - Gennariello, o jovem assistente do pintor Salvator Rosa, na tão aplaudida canzonettaMia Piccirella”.

Demonstrando sua conceitual competência artesanal no ofício de concepção direcional do espetáculo-ópera, Julliana Santos confere a Salvator Rosa um aporte qualitativo de primeiro grau, no legado tradicional da ópera transmutado com o seu habitual olhar armado na contemporaneidade.    

O que, certamente, com este bem sucedido resultado cênico/musical, acaba por estabelecer contraponto a uma curiosa declaração crítica do poeta-escritor Mário de Andrade, de 21 de julho, 1933, em sua coluna Primeiras, no Diário de São Paulo, denunciando a falta da devida atenção a um merecimento que, no mínimo, deveria estar à altura da obra de  Carlos Gomes :

“Pobre, desgraçado Carlos Gomes, filho de uma terra infeliz! Nunca jamais em tempo algum as obras de teu engenho excelente serão levadas como merecem! Ninguém nunca jamais ouvirá bem cantadas as tuas melodias admiráveis “...

 

                                                 Wagner Corrêa de Araújo


Salvator Rosa/Carlos Gomes abriu a temporada de óperas do TMRJ, com cinco instantâneas representações, acontecendo do dia 12, domingo, até o sábado 18 de julho com dois elencos, em horários e datas diversas.

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