HAMLET, SONHOS QUE VIRÃO : EMOÇÃO E ENERGIA TRANSFIGURADAS NUMA IMERSIVA ENCENAÇÃO ENTRE RUÍNAS

 

Hamlet, Sonhos Que Virão. Aderbal Freire Filho-Wagner Moura-Barbara Harington /Dramaturgia. Rafael Gomes/Direção Concepcional. Junho/2026. Bob Wolfenson -Micaela Wernicke/Fotos.   


Hamlet é das tragédias de William Shakespeare, a que mais tem sido apresentada nos palcos brasileiros, sob inovadoras e simultâneas montagens nestas duas últimas décadas. Sempre diferenciais em sua proposta estética, como as concebidas, entre outros, por Emanuel Aragão, Enrique Diaz, Wagner Moura, Ciro Barcelos, Fernando Philbert e Bruce Gomlevsky.

E agora, inspirada pela tradução de Aderbal Freire Filho, Wagner Moura e Barbara Harington, numa ousada e inventiva concepção cênica-direcional de Rafael Gomes, com parceria de Bernardo Marinho na releitura dramatúrgica. Transformada em fenômeno cult no universo teatral paulista, com  sua representação nas ruínas, no entremeio das obras de ressurgimento do antigo e desativado Cine Copan.

E que no seu extenso espaço dimensionado para este - Hamlet, Sonhos Que Virão, alterna suas configurações originais, numa temporária mutação cinética-teatral (André Cortez) com a plateia no lugar da tela, na sugestão de dois palcos, em plano inferior e superior. Este último no lugar do púlpito, usando a cabine de projeção para pregações religiosas enquanto foi igreja evangélica.

Já, desde a entrada, no saguão frontalizado por uma escadaria, referenciando uma ambiência fantasmagórica a começar de paredes pichadas com celebradas frases da peça. Em espaço sombrio provocando sensorialmente os espectadores, pela perspectiva da imersão psicofísica na tragicidade de sua narrativa dramatúrgica.


Hamlet, Sonhos Que Virão. Aderbal Freire Filho-Wagner Moura-Barbara Harington/Dramaturgia. Rafael Gomes/Direção Concepcional. Junho/2026. Bob Wolfenson -Micaela Wernicke Fotos.   


Os figurinos (Alexandre Hercovitch) assumidamente atemporais em seu design, mixando detalhes de época com traços contemporâneos. A grandiosidade do espaço cênico na antiga plateia, ampliando-se por efeitos luminares (Wagner Antônio), sob projeções em laser, e pelos acordes eletro-acústicos de uma trilha percussiva  (Antonio Pinto e Barulhista), iniciada pelos ruídos de uma tempestade.

São quatro séculos de definição metafórica deste enigmático personagem sinalizado por seu “ser ou não ser”, princípio e fim, razão e dúvida, de uma obra teatral que desafiou o próprio sentido da condição humana. Em sua capacidade de questionar o destino, entre incertezas e hesitações, no eterno confronto com os abismos existenciais, é teatro transcendental pelas suas infinitas possibilidades de representação.

Constatação presencial na potencialidade de mais uma destas desbravadoras montagens de Rafael Gomes e seu olhar sempre armado na contemporaneidade, já na sua segunda temporada, através do seu Hamlet, Sonhos Que Virão com um exponencial protagonista Ícaro Silva, agora em papel titular caracterizado por outra identidade racial, reunindo ainda um elenco afinado.

A começar da insensatez e frieza de um casal envolvido no assassinato do Rei na pretensão de assumir o trono, nas expressivas atuações dos atores Eucir de Souza (como o tio Claudio) e Suzana Ribeiro (Rainha Gertrudes), além dos destaques performáticos de Fafá Renó (Polonio), e Daniel Haidar (Laertes) e Samya Pascotto (Ofélia), esta numa surpreendete cena acrobática do suicídio.

Mas é o ator Ícaro Silva, uma das melhores revelações da ultima geração teatral, que alcança uma força enigmática com seu frenético, vulnerável e melancólico Hamlet negro. Culminante, aqui, na quebra da quarta parede ao se confrontar cara a cara com o espectador, mãos marcadas por  sangue, na passagem mais emblemática da tragédia.

Em mais uma de suas participações no contínuo processo de criação do diretor/cineasta Rafael Gomes que, através deste seu tão instigante Hamlet Sonhos Que Virão,  coloca a proposta cênica/concepcional em  paralelo qualitativo com alguns dos maiores reinventores do espetáculo teatral ou operístico. Sob o avançado signo criador de um Bob Wilson ou de um Patrice Chéreau, numa sintonia além de quaisquer cronologias históricas ou estéticas, condensadas no assombramento questionador das  falas derradeiras de Hamlet :

“Simples comparsas ou audiência deste ato / Tivesse eu tempo, eu vos diria / Mas seja o que há de ser / O resto é silêncio”...

                      

                                        Wagner Corrêa de Araújo

 

Hamlet, Sonhos que Virão continua sua segunda temporada, no Espaço em Obras do Cine Copan/SP,  Quintas e sextas, às 20h30 ; sábados, às 16 e 20h; domingos, 17h; até 19 de julho.

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