220 VOLTS: MASCULINO FEMININO

PÁPRICA FOTOGRAFIAS


O travestismo sempre ocupou seu lugar na trajetória das artes cênicas . Em muitas culturas todos os personagens femininos eram apanágio dos atores homens, como no teatro japonês Nô e Kabuki .

 E no mundo da ópera , do barroco ao clássico até o início do romantismo , ora os castrati por sua voz da tessitura dos sopranos interpretavam papéis femininos , ora sopranos assumiam atuações masculinas, tendencia retomada por Richard Strauss no Cavaleiro da Rosa ,no século XX ( 1911).

Esta dualidade dramatúrgica, visual e comportamental sempre revelava seu lado psicológico e político. Na mulher que disfarçava-se masculinamente ultrapassando as fronteiras da delicadeza ao contrário dos homens que,por sua vez, assumiam este vir a ser feminino. Às vezes ,também como mascarados de carnaval ou ,cotidianamente ,trocando sua identidade sexual.

Muitos destes disfarces eram, enfim, uma forma libertária, seja das mulheres além da opressão de seu papel limitado de mães e donas de casa ,seja dos homens na busca de uma vida alternativa quando um outro lado erótico falava mais alto.

Estas reflexões vem a propósito de - 220 Volts - acentuando , sem cair no chulo e no meramente caricato, personagens femininos na voz e no corpo de um ator ( Paulo Gustavo) que tem alcançado excepcionais resultados estilísticos nesta postura, tanto no teatro, como no cinema e na tv. Acompanhados, sempre, pelo sucesso popular e pelo aplauso da crítica.

Seus personagens, com vistoso figurino(Fause Haten), desfilam por um palco luxuoso em luzes, cores e cenografia , aberto, ao vivo , pelo som eletro/disco/techno do DJ Jesus Luz ,fazendo um dinâmico , especial e divertido mix de comédia burlesca, pantomima, chanchada ,musical, show GLS e festa rave.

Tendo, ainda, a equilibrada participação de três atores(Marcus Majella,Gil Coelho e Christian Monassa) e a movimentada presença cênica de seis dançarinos na linha gogo boys , num texto, concepção e direção que revelam o lado one man show de Paulo Gustavo.

São elaborados esquetes – alguns mais hilários outros menos incisivos –incluindo uma aspirante a rainha de bateria, uma “Vagaba” de boate, uma pretensa cantora celebridade, uma apresentadora de tv , uma mulher que expõe sua feiura falando de estética. E completados ,ainda, na Senhora dos Absurdos, a mentora de todos os preconceitos.

Todos com suporte humorístico mas encontráveis em qualquer esquina, num dinâmico espetáculo que faz qualquer espectador, envolvido no seu brilho cênico, anestesiar com seu riso crítico a "difícil vida fácil " além das portas do teatro.


( 220 VOLTS está em cartaz no Metropolitan, Barra, sexta e sábado, às 22h:30m; domingo, às 20h.100 Minutos. Até 22 de novembro)

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