ZILDA ARNS – A DONA DOS LÍRIOS : GUERREIRA E MÁRTIR POR UM IDEAL


FOTOS / DALTON VALÉRIO

Lutou por um ideal igualitário e morreu em ação, fazendo o que mais amava: o bem". Assim ela foi definida pelo  jornalista e escritor Ernesto Rodrigues no livro “Zilda Arns – Uma Biografia”.

De descendência alemã, a catarinense que quase recebeu um Premio Nobel da Paz, dividiu sua trajetória existencial, da mãe de cinco filhos à pediatra, sanitarista, educadora e religiosa, dedicando todos estes ofícios à sua missão mor – dar amor, cuidar e lutar pela criança desamparada, ou pela orfandade ou pela fome, ora pela violência ora à beira da mortalidade.

Não hesitando em desafiar quaisquer obstáculos pela prevalência de suas ideias e ações. Ainda que fosse combatida, de um lado, por seu conservadorismo contra posicionamentos feministas, pró aborto por exemplo. Mas avançada ideologicamente, por outro, ao se alinhar à opção preferencial pelos pobres propugnada por seu irmão Dom Paulo Evaristo Arns.

Mesmo ousando passar por cima de regras comportamentais burocráticas do poder politico ou de Estado pelo alcance de seu propósito maior. Afinal, a sua Pastoral da Criança era o passaporte oficial para abrir tanto as portas do Planalto como as do Vaticano.

E é na reconstrução desta  trajetória de bravura e desprendimento que Simone Kalil e Luiz Antônio Rocha retomam a parceria, de belo resultado em Brimas, com uma dúplice concepção dramatúrgica para Zilda Arns – A Dona dos Lírios, dividindo-se entre a performance solo da atriz e o comando diretorial.

Em proposta de releitura teatral de uma vida e de uma obra, com sabor poético e sensorial, com um olhar otimista e  uma sutil nuance de humor, mas sem deixar de lado a pulsão reflexiva e o incentivo referencial.

Tanto a um Brasil alegre pela riqueza nativista de costumes como a de um País lacerado por suas adversidades sociais onde a criança é a vitima mais frágil, sendo assim razão primeira e mote condutor do trabalho missionário de Dona Zilda Arns.

Na concepção cenográfica (Luiz Antônio Rocha / Eduardo Albini) que recria uma paisagem de sonho e de nostalgia com traços pictóricos lembrando a pureza branca dos lírios ou o colorido das asas das borboletas.

Ampliados na ambiência pastoral do desenho de luz (Ricardo Lyra) e nas sensitivas intervenções composicionais e sonoras (Beá) em clima new age, remetendo a ruídos da natureza. Tudo, enfim, enriquecido pelas modulações gestuais (Roberto Rodrigues) e a simplicidade funcional dos figurinos ( Caká Oliveira).

Sintonizada em absoluta acepção nos contornos confessionais do personagem, Simone Kalil surpreende pelo dimensionamento psicológico e pela luminosidade afetiva que imprime a um conceitual quase de teatro documentário.

Sóbria e despretensiosa mas capaz, na concisa gramatica cênica pelas mãos de Luiz Antônio Rocha, de comover pela sua representação, entre um relato verista e a poetização de um inventário existencial.

No contraponto de uma narrativa de ferozes embates e de um trágico epílogo, levando Dona Zilda Arns a ser  mártir de um evento sísmico, enquanto é tornada símbolo de combate às insensatezes da condição humana.

                                            Wagner Corrêa de Araújo


ZILDA ARNS – A DONA DOS LÍRIOS, está em cartaz no Teatro Cândido Mendes, de sexta a domingo, às 20h. 60 minutos. Até 4 de novembro.
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