MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA: LÚDICO JOGO TEATRAL


FOTOS/JOÃO CALDAS

Dario Fo caracterizou seu inventário teatral com a  exploração diferencial de recursos dramatúrgicos afinados, sempre, na prevalência de um complexo  de experimentações cênicas, privilegiando a  interatividade palco/plateia.

Convergindo todas elas para uma espécie de “canovaccio”, herança das soluções de alcance  popular  da “commedia dell’arte”. Numa empreitada estética claramente delineada no seu “método de sondagem, aproximação e ligação” ator>personagem>espectador  , no seu quase  códice  “Manual Mínimo do Ator”.

Sem nunca deixar de lado o desmonte conceitual dos mecanismos sociais/ políticos, com perspicaz ironia e riso sarcástico, numa reflexiva e mágica ritualização do ofício teatral.

A partir de um momento trágico de conflito na vida política italiana dos anos 60, quando uma série de cinco atentados num mesmo dia, em Roma e Milão,  deixa inúmeras vitimas , as manipulações em torno da detenção de  um dos supostos responsáveis pelas ações terroristas – o ferroviário e anarquista Giuseppe Pinelli, causam inusitada polêmica.

Aumentada na suposição de que ele  teria se atirado do quarto andar do prédio, onde ocorria o interrogatório policial,  gerando neste gesto súbito uma onda opinativa de dúvidas e suspeitas sobre a real veracidade do ato.

Dario Fo, protagonizando este acusado como o personagem guia de sua peça, de 1970, Morte Acidental de um Anarquista, transcende seu status como um louco, capaz de assumir, além de presumido algoz e vítima, outras identidades, ora um juiz, um capitão  ou um bispo, questionando “anarquicamente” a própria razão do processo investigativo.

Esta mutabilidade de personagens atua como um tributo à contumaz função representativa do humano pela teatralidade. E, no contextual temático, numa postura crítica sobre as controvérsias dos julgamentos das causas e dos movimentos político/sociais de quaisquer ideários  e condutas.

A organicidade da presente performance do original dramatúrgico, sob a direção  de Hugo Coelho, estabelece marcações de incisivo histrionismo no protagonismo laminar de Dan Stulbach, com veemente exploração dos contornos e inflexões  gestuais / emotivos dos papéis e mascarações em que é direcionado.

Com espontânea adesão , em variáveis gradações, num elenco de perceptível empenho coletivo destacando , especialmente, a convicção de  Henrique Stroeter  e as estripulias sonoras  do músico/ator Rodrigo Geribello. Equilibrada em postulações consistentes de Riba Carlovich e Marcelo Castro e mais discricionária em Maíra Chasseraux.

A cenografia (Marco Lima) de alusões burocratizantes, a informalidade da indumentária cotidiana ( Fause Haten) e a atmosfera de luzes vazadas( na duplicidade funcional do diretor Hugo Coelho)completam o alcance da montagem.

Que, no comando diretorial de Hugo Coelho, na desconstrução da quarta parede, estabelece um lúdico  jogo com o público em enérgica interatividade acional com o palco.  

Ainda que esta livre exteriorização da trama original incida, por vezes, no iminente risco da mordaz reflexão política autoral  dar  concessão ao superficialismo de um risível deleite.

                                             Wagner Corrêa de Araújo


MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA está em cartaz no Teatro dos Quatro/Gávea, sexta às 21h;sábado, às 19h30m e 22h;domingo, às 20h. 80 minutos. Até 2 de abril.


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