A FLORESTA QUE ANDA: UMA TRANSGRESSÃO CÊNICA


FOTOS BY ALINE MACEDO


Até onde podem chegar  ou não haveria  delimitações na cena teatral, em   sua  contextualização com outras linguagens artísticas ?

Esta postura ritualística,  ao confundir o teatro com o happening , a “live art” e a performance  seria, então,  o que John Cage idealiza como a forma mais autêntica  de encontro entre a criação artística e a vida ,  em  “eventos teatrais espontâneos e sem trama”.

Continuando, assim, todo um desbravamento iniciado entre o dadaísmo e as teorizações defendidas por Antonin Artaud ,singularmente expostas   nas páginas de  “O Teatro e Seu Duplo”.

A dramaturgia de Christiane Jatahy ,em A Floresta Que Anda,tem como elo inspirador a tragédia Macbeth de Shakespeare, utilizando um mix de elementos plásticos/teatrais/cinematográficos.

 Marcada pela sanguinolência, em  nome do egoísmo ambicioso do personagem título, até a derrota da tirania por  um exército disfarçado em árvores, a proposta promove a inserção  da contemporaneidade política à trama original.

No teor  formalista de uma  vernissage ,  o público penetra num espaço de cenografia( Marcelo Lipiani) não configurada, onde encontra simultâneas exibições fílmicas autorais( Jatahay/Paulo Camacho)  ,de manifestações populares, ocupações públicas, depoimentos  de imigrantes e favelados. Ao lado da perplexidade de objetos realistas ,  como um peixe morto em decomposição.

Ao mesmo tempo, drinks são servidos em um balcão e a iluminação( Camacho) é apenas sugerida entre sombras. Enquanto  surgem intervenções, apenas  delineadas na obscuridade, ora com integrantes da equipe de criação,ora  através  das adesões de espectadores, além da atuação da única atriz Júlia Bernat,  trajada rigorosamente de negro (Fause Haten).

Na sequencia, de alusivo significado  ao título da peça, as telas se movem alternativamente, na inclusão de fragmentos, textualizados imagèticamente, do Macbeth original. A performance feminina solo(Júlia Bernat) faz, aí,  um mix referencial de posturas , entre o gestualismo coloquial e um  instantâneo  referencial pinabauschiano de dança/teatro.

Mas, ao contrário da absoluta clareza inventiva na apropriação anterior de Strindberg( Senhorita Júlia) e de Tchekov ( As Três Irmãs) em  Se Elas Fossem Para Moscou , aqui o paralelismo  de linguagens artísticas acaba desprivilegiando o elemento teatral.  Numa metalinguagem cênica , onde o contraponto visual/cinematográfico tem sua visível prevalência.

Fator que acaba não desqualificando a integralidade simbológica da concepção que, na verdade, é sem delimitações no seu experimentalismo multimídia ,ainda que revele um traço hermético  em sua transgressividade.

Teatro, cinema , artes visuais,instalação, performance, verdade, ficção? Pouco importa, quando seu grande salto criador pode estar na intervenção contestadora do espaço cênico convencional e  na reflexiva e inquietante constatação de " um conceito que se contesta a si mesmo ".





(A FLORESTA QUE ANDA está em cartaz no Espaço Sesc, Copacabana, de terça a sábado, 21h; domingo, 20h. Até 29 de novembro)

AUTOBIOGRAFIA AUTORIZADA: SENSÍVEL TEATRO DO EU

FOTOS BY MAURO KURY

Existiria  um conflito conceitual entre o que se poderia chamar de teatro autobiográfico e o significado do  personagem teatral ?

Quando o ator-autor expõe a si mesmo como auto-performance-biográfica não desapareceria o sentido convencional do intérprete/personagem?

Este viés realista e documental não teria , por si só, um caráter confessional quase às portas de um depoimento, seja literário ou jornalístico, ao vivo?

Estas considerações aparecem em torno  da proposta teatral de Paulo Betti,  com seu espetáculo solo “Autobiografia Autorizada” que, usando de irônico humor, ainda  provoca, na  titulação da peça,  a polêmica questão da censura às narrativas biográficas.

De qualquer maneira, enquanto o texto e atuação são da lavra de Betti, a direção é dividida a quatro mãos, com Rafael Ponzi , num convicto e tocante  espetáculo de temática existencial.

Contando  com uma verdadeira pintura cênica na poética concepção de Mana Bernardes, sugerida nas  velhas folhas de papel amassado com projeções filigranadas de Marlus Araujo.

E, acentuado, ainda, pelas sutilezas ambientais da iluminação de Dani Sanchez e Luís Paulo Nenem. Com destaque pela adequação de matizes pastéis do  figurino (Leticia Ponzi) e da envolvência nostálgica das incidências musicais (Pedro Bernardes).

Este mergulho nas lembranças da fase, infância e adolescência,  pobre e difícil  de/e  por Paulo Betti é capaz, no tempo da memória, de atributos expressivos certamente mais belos e incisivos que o realismo original  do tempo passado.

Na manhã da vida marcada pelo relógio familiar ,em companhia de uma prole imensa de quinze irmãos( dos quais Betti foi o último rebento),pais e avós, numa desafiante e dura realidade de imigrantes italianos na ambiência rural paulistana( Rafard e Sorocaba).

Anos de risadas e queixumes, alegrias e dores, crenças religiosas e superstições, de temores e de libertária força diante do difícil suporte da condição humana.

Marcados pela ancestralidade de uma época de adversidade material  mas recheada das surpresas afetivas, tanto na primitiva matança de porcos como nas escutas radiofônicas , em meio à ingênua diversão de piões ou  das descobertas  eróticas com Carlos Zéfiro.

Inteiramente tomado pelo personagem de si mesmo, com entonação lírica , ora  entre meios tons ,ora em  entusiásticas  vocalizações , Betti assume a postura alegre,  naturalista e coloquial,  dos velhos  contadores de história.

E neste desnudamento testemunhal de episódios biográficos, na tríplice demanda -autor/ator/diretor -  vai confundindo sua trajetória com a da criação, jogando com a identidade real e ficcional.

Num impulso estético/filosófico  que une vida  e arte, poesia e verdade, neste teatro de espelhos  pirandelliano,  onde cada espectador  acaba, enfim,  refletindo  sobre seu próprio eu.


(AUTOBIOGRAFIA AUTORIZADA está em, cartaz na Casa da Gávea, sexta e sábado, 21h;domingo, 20h. 120 minutos. Até 13 de dezembro.)

AS BODAS DE FÍGARO : A SUPREMACIA DO GALANTEIO OPERÍSTICO

FOTOS BY JÚLIA RÓNAI


Sob o impacto da belíssima montagem do Mozart de  As Bodas de Fígaro que o Theatro Municipal apresenta, com ares de um novo tempo, em sua programação artística, lembre-se aqui, mais uma vez, o meritório esforço de seu responsável mor , João Guilherme Ripper.

Há muito,  não se via conjugação tão perfeita entre o apuro musical ( maestro Tobias Volkmann) e a direção cenográfica ( Livia Sabag). Sem deixar de registrar ,  claro, a digna performance de um elenco de cantores quase cem por cento nacional, junto ao Coro e Orquestra Sinfônica do TM.

Ópera que se enquadra , medida por medida, ao gosto dos apreciadores do gênero, ao aliar o refinamento da  forma, em sua estrutura musical,  à inteligente abordagem temática do galanteio amoroso,  na exposição crítica das diferenças sociais.

Por isto mesmo,  já na sua  primeira representação(1786) polemizou ,entre censura e pressão da aristocracia, ao  subverter os padrões da época, com seu foco nos abusos do poder. Numa  sátira mordaz aos desmandos do senhorio feudal,  invadindo a privacidade erótica de seus criados.

O Conde de Almaviva( barítono Douglas Hahn) quer fazer valer o seu direito sexual da primeira noite com a serva Susana(soprano Carla Cottini) ,às vésperas de suas núpcias com Fígaro( barítono Rodrigo Esteves).

 Mas a Condessa de Almaviva( soprano Maíra Lautert) com a cumplicidade de Susana, arma uma intrigante trapaça contra a frivolidade do conde, se envolvendo com o jovem pajem Cherubino( mezzo soprano Malena Dayen).  Com a ingerência, entre outros personagens, de Dom Basílio( tenor Giovanni Tristacci) e da velha Marcelina( mezzo soprano Lara Cavalcanti).

Desde a popular abertura , em  seu enérgico  andamento presto, Tobias Volkmann demonstrou  intimidade com o estilo  mozartiano. Nos  seus ricos e variados matizes sonoros e  no sensível domínio do equilíbrio entre as tonalidades vocais  e o desenvolvimento orquestral.

Tanto nos “singspiels”( recitativos), que atravessam a obra favorecendo sua textualidade dramatúrgica, como nas árias e conjuntos, percebe-se afinação/coesão de um elenco  de cantores de incrível teatralidade.

 Para citar do quinteto protagonista,  o brio do barítono Rodrigo Esteves, da célebre cavatina (“Si vuol ballare”) à irônica  romanza ( Non più andrai).A vivacidade das frases da soprano Carla Cottini (Deh vieni,non tardar) ao nobre sotaque “lamentoso” de Maíra Lautert( Porgi, amor).Além da enérgica jovialidade na tessitura da mezzo soprano Malena Dayen  (Non so più cosa son, cosa faccio ).

O acerto exitoso e conclusivo   deste operístico e louco dia nupcial ( “La Folle Journée",  do original de Beaumarchais) coube, ainda,  ao clima de espetáculo inventivo e intenso, trazido pela espontânea e poética direção cênica de Livia Sabag .

Que, ao lado do apaixonante cenário com referencial mourisco(Nicolàs Boni) e da elegância dos figurinos(Fábio Namatame) completou, às alturas,  a perfeita sincronia  estética, música/teatro ,  para  uma ópera,  “comme il faut”.




 AS BODAS DE FÍGARO está em cartaz no Theatro Municipal , RJ, dias 19,21,26,27 e 28 de novembro, às 20h: dias 20,22 e 29 /11 , às 17h.  Coro e Orquestra Sinfônica do TM , com direção musical e regência de Tobias Volkmann.

220 VOLTS: MASCULINO FEMININO

PÁPRICA FOTOGRAFIAS


O travestismo sempre ocupou seu lugar na trajetória das artes cênicas . Em muitas culturas todos os personagens femininos eram apanágio dos atores homens, como no teatro japonês Nô e Kabuki .

 E no mundo da ópera , do barroco ao clássico até o início do romantismo , ora os castrati por sua voz da tessitura dos sopranos interpretavam papéis femininos , ora sopranos assumiam atuações masculinas, tendencia retomada por Richard Strauss no Cavaleiro da Rosa ,no século XX ( 1911).

Esta dualidade dramatúrgica, visual e comportamental sempre revelava seu lado psicológico e político. Na mulher que disfarçava-se masculinamente ultrapassando as fronteiras da delicadeza ao contrário dos homens que,por sua vez, assumiam este vir a ser feminino. Às vezes ,também como mascarados de carnaval ou ,cotidianamente ,trocando sua identidade sexual.

Muitos destes disfarces eram, enfim, uma forma libertária, seja das mulheres além da opressão de seu papel limitado de mães e donas de casa ,seja dos homens na busca de uma vida alternativa quando um outro lado erótico falava mais alto.

Estas reflexões vem a propósito de - 220 Volts - acentuando , sem cair no chulo e no meramente caricato, personagens femininos na voz e no corpo de um ator ( Paulo Gustavo) que tem alcançado excepcionais resultados estilísticos nesta postura, tanto no teatro, como no cinema e na tv. Acompanhados, sempre, pelo sucesso popular e pelo aplauso da crítica.

Seus personagens, com vistoso figurino(Fause Haten), desfilam por um palco luxuoso em luzes, cores e cenografia , aberto, ao vivo , pelo som eletro/disco/techno do DJ Jesus Luz ,fazendo um dinâmico , especial e divertido mix de comédia burlesca, pantomima, chanchada ,musical, show GLS e festa rave.

Tendo, ainda, a equilibrada participação de três atores(Marcus Majella,Gil Coelho e Christian Monassa) e a movimentada presença cênica de seis dançarinos na linha gogo boys , num texto, concepção e direção que revelam o lado one man show de Paulo Gustavo.

São elaborados esquetes – alguns mais hilários outros menos incisivos –incluindo uma aspirante a rainha de bateria, uma “Vagaba” de boate, uma pretensa cantora celebridade, uma apresentadora de tv , uma mulher que expõe sua feiura falando de estética. E completados ,ainda, na Senhora dos Absurdos, a mentora de todos os preconceitos.

Todos com suporte humorístico mas encontráveis em qualquer esquina, num dinâmico espetáculo que faz qualquer espectador, envolvido no seu brilho cênico, anestesiar com seu riso crítico a "difícil vida fácil " além das portas do teatro.


( 220 VOLTS está em cartaz no Metropolitan, Barra, sexta e sábado, às 22h:30m; domingo, às 20h.100 Minutos. Até 22 de novembro)

PÁPRICA FOTOGRAFIAS

CENAS DE UM CASAMENTO: CRÔNICA DA DECOMPOSIÇÃO CONJUGAL

FOTOS BY MARCOS MORTEIRA 
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Em Cenas de Um Casamento,   relato de costumes sociais  e retrato  psicológico de um caso conjugal, resistente a dez anos mas prestes a desabar diante de uma insustentável fragilidade afetiva, Ingmar  Bergman faz um corte laminar  no vazio dos relacionamentos humanos.

Inicialmente uma série, em cinco capítulos,  da televisão sueca, chegou ao cinema (1974) e, daí, para uma adaptação teatral do próprio autor. No Brasil, teve uma primeira versão  dirigida por Rita Russek  ,com Regina Braga e Tony Ramos. E, agora, na leitura dramatúrgica da tradução de Maria Adelaide Amaral chega aos palcos cariocas, sob a direção de Bruce Gomlevsky.

Entre mentiras e verdades, afetos e agressividade, solidão e medo , o professor universitário Johan( Heitor Martinez)  e a advogada de ações familiares Marianne( Juliana Martins) vão descortinando situações de um casal em que a felicidade, agora,  é  de falsas aparências e  em que nada mais será como antes.

Desde a frieza sexual e a indiferença de Johan quanto a uma nova gravidez de Marianne,  até a revelação de que está com outra mulher e que vai viver longe com ela.  Mas entre idas e vindas, ambos com outros parceiros,  decidem finalmente pelo divórcio. Mas  descobrindo , na transgressão de   amantes ocasionais, a saída  para os desgastes convencionais do  casamento oficializado.

Juliana Martins tem uma  visível sensibilidade  interpretativa nas suas modulações  emocionais .  Sem subentendidos,  na sua sinceridade por um  marido idealizado, seguida  de veemente    violação  da rotina de confiança no comando masculino.  Enquanto Heitor Martinez revela franqueza , sem meios tons, ao se colocar na ação com sua linha de humor cético e ameaçador.

A cenografia ( Pati Faedo) pouco acrescenta ,  com seu controverso ambiente de instalação por módulos ,onde os atores ficam meio deslocados na sequência dos quadros titulados. Compensada na elegante funcionalidade dos  figurinos (Ticiana Passos), das adequadas luzes (Elisa Tandeta) e das precisas incidências musicais (Alex Fonseca).

Se Bergman foi incisivo em seu questionamento de ”duas pessoas que estão se desligando de uma série de convenções e demandas, especialmente a mulher que, de alguém que aceitava todas as regras, passa a oferecer resistência e a criar suas próprias regras”.

Bruce Gomlevsky soube alcançar, enfim,  com visão crítica própria  e alquimia dramática, os paradoxos de um casamento em ruínas. Sabendo apelar  para um clima mais naturalista, sem uma falaciosa introspecção armada diante dos lugares  comuns desta guerra a dois .

 E sem perder , jamais ,a força reflexiva  de Bergman, sabendo  imprimir  ,à ambiência coloquial e cotidiana  desta crônica da decomposição conjugal,  o inteligente    brilho estético de uma  teatralidade cerimonial.


CENAS DE UM CASAMENTO está em cartaz no Teatro dos Quatro, Gávea, sexta e sábado, 21h; domingo, 20h.  90 minutos. Até 01/maio .

SamBRA : PELA CURA DOS RUINS DA CABEÇA E DOENTES DO PÉ

FOTOS BY RICARDO NUNES

O multitalento e as multifacetas  artísticas de Gustavo Gasparani fazem deste ator, bailarino, cantor e dramaturgo ,  uma mágica presença em nossos palcos.

Capaz de ser carismático ora na erudição do mistificador que assume, como personagem solitário, todos  os caminhos shakespearianos de Ricardo III.  Ora, no saber  popular, decifrando, como criador teatral, a simbologia do futebol e do samba na consciência nacionalista do cidadão brasileiro.

Depois do “Samba Futebol Clube”, a grande  surpresa do musical em 2014, Gasparani repete a fórmula mas , desta vez,  conferindo ao  samba o protagonismo absoluto.

Misto de musical  e show, SamBRA - O Musical -100 Anos de Samba  é um roteiro histórico e afetivo na trajetória de um ritmo . Com 95 músicas, ora  cantadas , ora  contextualizadas  dramaturgicamente,   às vésperas da poderosa entidade do  samba soprar  as velas de seu bolo centenário .

Por isto mesmo, principia nos batuques do terreiro da lendária baiana Tia Ciata ,onde nasceu , lá nos idos de 1916, “Pelo Telefone”. De Ernesto dos Santos, o Donga, a inicialização de um  gênero musical nos anais da Biblioteca Nacional e em disco  da Casa Edson.

Seguindo daí , didaticamente , sem cair  no risco da lição escolarizada e sem uma cronologia rigorosa, na arquitetura cênica de um animado  mosaico musical,  em  busca  da interativa celebração  ritualística palco/platéia.

Dos terreiros aos fundos de quintal, das passarelas carnavalescas aos auditórios  radiofônicos e teatrais. Numa efusiva  exposição do  choro, do samba/maxixe, do samba canção, do samba  das revistas e do protesto político, da bossa-nova , do samba/ raiz  das quadras do Cacique de Ramos.

E,  então,   trazendo um elenco de craques , gente  de convicto domínio   cênico/ vocal , sob as rédeas da irrepreensível firmeza inventiva  do diretor/autor (   também,   na performance) Gustavo Gasparani.

Em passagens de exaltação musical e culminância interpretativa,  com Ana Velloso,Beatriz Rabello, Lilian Valeska,Patricia Costa,Alan Rocha ,Bruno Quixotte,Édio Nunes, Maurício Detoni, Wladimir Pinheiro,além é claro de Gasparani.

Com vistosos figurinos(Marilia Carneiro/Reinaldo Elias)personalizados na ambientalidade funcional dos cenários  de Hélio Eichabauer e da precisa modulação das luzes ( Paulo César Medeiros). Sem deixar de lado,  a eloquente identificação  da sincronia coreográfica(Renato Vieira) com a intensidade da condução sonora( Nando Duarte  e seus incríveis músicos).

Atores/cantores/bailarinos/músicos  numa luminosa e espontânea alquimia narrativa entre gestos e vozes, encontros reais e ficcionais de arte e de  vida. Um por todos e todos por um, neste tributo estético de , para e pelo Samba.



SamBRA - O MUSICAL -100 ANOS DE SAMBA está em cartaz no Teatro João Caetano, Centro , quinta,19h;sexta e sábado, 20h;domingo, 18h30m. Até 6 de Dezembro.
Nova Temporada: CIDADE DAS ARTES/BARRA, quinta e sexta às 21h.;sábado. às 15h. Até 27 de agosto.

KISS ME KATE: RECEITA MUSICAL - PORTER COM SHAKESPEARE

FOTOS BY LEO AVERSA

A primeira transposição de uma obra shakespeariana para a Broadway foi  A Comédia dos Erros que, na versão musical da dupla Rodgers/Hart, foi titulada em 1938, como " The Boys From Syracuse" .

Mas os exemplos mais clássicos, inspirados no universo shakespeariano,  foram "West Side Story' ( 1957) , o Romeu e Julieta nova-iorquino, entre a ópera e o musical,  de Leonard Bernstein. Precedido  em 1948, pela Megera Domada,  transformada em Kiss Me Kate, o grande triunfo da maturidade  criativa de Cole Porter.

Kiss Me Kate! O Beijo da Megera ,o espetáculo de Charles Möeller/Cláudio Botelho retoma uma concepção mais recente , original de 1999, com um conjunto  orquestral quase de câmara, nos doze integrantes de apurada competência.

Seu referencial é  pirandelliano -  teatro do espelho, representação dentro da representação. Aqui ,com senso de irônico  humor, acompanha uma tendência muito comum ao teatro e ao cinema norte-americano dos anos do pós-guerra . As constantes narrativas da produção de um espetáculo , dos bastidores à sua consecução, no confronto  do viver  cotidiano  com o ofício teatral.

Fred Graham( José Mayer) e sua ex-mulher Lili Vanessi( Alessandra Verney), vão atuar como Petruchio e Kate, numa montagem de A Megera Domada. Participa também, no papel de Bianca,  a volúvel Lois (Fabi Bang) por quem Fred é apaixonado, mas que prefere Lucentio(Guilherme Logullo).

Entram ainda, os ameaçadores  gangsters( Chico Caruso/Will Anderson),o pretensioso General Harrison(Léo Wainer), e o conciliador Batista  (Jitman Vibranovsky),em performances marcadas  por afinada sintonia.  Todos dividindo ou conflituando emoções , entre os camarins e o proscênio.

Incluído o coeso elenco de apoio, numa montagem de incrível requinte cenográfico(Rogério Falcão)e de sofisticadas luzes ( Paulo Cesar Medeiros) .Com moduláveis  telões, alternando os dois planos narrativos, de  contextualização  no elegante figurino renascentista/contemporâneo(Carol Lobato).

E, ainda, a impecável direção musical(Marcelo Castro) , a vivacidade do gestual coreográfico(Alonso Barros) , a versão  textual inteligente( Claudio Botelho) e o alcance da idealização estética no seu comando cênico ( Charles Moeller).

O carismático  suporte vocal/cênico  de Alessandra Verney encontra equivalência na vigorosa  composição musical/dramática de José Mayer. Singularizando-se,  da ágil baritonalidade  de Chico Caruso  em  "Chama o Shakespeare",  à ardilosa  espontaneidade da ária    de Fabi Bang (“Eu Sou Sempre Fiel”).

Em  direcionamentos , enfim,  de culminância  artística , capazes de  revelar a alquímica  receita Porter/Shakespeare /versão brasileira,   de engenhosa dramaturgia  e de mágica musicalidade.





 ( KISS ME KATE está em cartaz no Teatro Bradesco/ Barra, sexta, 21h30m;sábado, 21h;domingo, 20h. Até 13 de dezembro)

TALK RADIO: UMA VOZ DE CORTE LAMINAR

FOTO BY JOÃO SALAMONDE
Original de 1987,  de Eric Bogosian, Talk Radio já passou  pela Broadway no ano de sua autoria e duas décadas após. Além de sua transposição cinematográfica por Oliver Stone em 1988.

Precedido por um filme de temática similar ( Bom Dia Vietnam, de Barry Levinson), na abordagem do universo dos locutores radiofônicos ,Talk Radio foi além em seu incisivo teor crítico sobre as falácias  da realidade norte-americana.

Enquanto o primeiro satirizou as razões de uma guerra de insustentável orgulho nacionalista sob a era Nixon, o segundo apontou seus projéteis sobre os podres  morais  , sociais e religiosos de uma nação mergulhada na hipocrisia dos anos Reagan.

O locutor Barry Champlain( Leonardo Franco) , em seu programa Conversa da Noite , nos  diálogos ao vivo com os ouvintes, responde com irônico tônus vocal às perguntas sobre racismo, homossexualismo, religião, drogas. Polemizando mais  estes questionamentos  em corrosivas respostas e sarcásticas soluções.

Alternando-se entre os personagens do estúdio  e os das audições do público, um coeso elenco(Alexandre Varella, Marcelo Aquino,Mariana Consoli, Raul Franco , Stella Maria Rodriygues)  conduz a um clima de inquietação nos bastidores e nas nervosas captações de vozes telefônicas, aqui audíveis e visíveis.

 E onde apenas Bernardo Mendes( Kent) e Leonardo Franco( Barry Champlain) não assumem esta dúplice performance.

A firme direção de Maria Maya equilibra, com segurança e inventividade, estes dois planos narrativos opostos. Enfrentando, na precisão do código de cena adotado, um perigoso jogo ,  com seu permanente   risco de  marcações repetitivas.

Figurinos (Luana de Sá) , aparato cenográfico( José Dias) ,luzes sombrias( Adriana Ortiz), servem aos propósitos da montagem , de priorização  do texto no seu confronto entre a fala coloquial e a agressividade verbal .  

Leonardo Franco aprofunda sua atuação na deliberada busca de uma linguagem corporal e emotiva de humor negro, capaz de provocar sentimentos de mágoa e sagazes  subentendidos, tanto nos ouvintes como nos parceiros de estúdio. Faltando apenas uma modulação mais enfática no decisivo monólogo final.

Enquanto suas  locuções radiofônicas   tiram mais sangue das feridas ,dizendo o que pensa sobre as pessoas sem se preocupar com o que podem pensar sobre ele.

 Se elas forem capazes, também,  de ter efeitos de questionamento reflexivo em cada espectador,  vivenciando a acomodação perversa do atual discurso político/ ideológico , o recado de Talk Radio foi muito bem  dado pelo alvo fácil das  palavras de Eric Bogosian:

“Esse país vai mal das pernas. Este país está podre até a medula. E é melhor alguém fazer algo a respeito”.


 (TALK RADIO está em cartaz no Teatro Solar, Botafogo,sexta e sábado,21h;domingo,20h. 80 minutos. Até  13 de dezembro)


SILÊNCIO!: ECOS AMARGOS DE UM SEGREDO

FOTO BY RENATO MANGOLIN


Quando diversas gerações de uma família judaica se reúnem por qualquer motivo comemorativo, os pilares que sustentam o encontro são a religião e os costumes.

E se o mote é celebrar uma tradição como o Shabat ( o descanso do sábado ) aproveitando-se ainda para festejar o cinquentenário da mãe e o noivado da neta , em nome das segundas e terceira descendência, certamente vem a tona sentimentos de afeto ou conflito por desabafos.

Quem não tem matriarcas ou patriarcas que se julgam líderes do que julgam o mais admirável dos governos? Quem não tem pais ou irmãos pelos quais nutrem laços de ternura ou ódios tirânicos?

No mais visceral dos personagens da peça Silêncio!, a matriarca( Suzana Faini) que se julga dona exclusiva da verdade, com seus quase infinitos solilóquios verbais, impressiona pela exuberante interpretação, centralizando as atenções da plateia.

Mas são também sensíveis o silencio do patriarca David (Jitman Vibranovsky) preparando sua demolidora revelação sobre as espúrias origens familiares.

Destaque ainda para as bens construídas presenças cênicas da investigativa estudante(Karen Coelho) e da mediadora noiva(Gabriela Estevão), com desempenho mais sóbrio da mãe (Verônica Reis) e menor alcance na caracterização dos personagens do pai e do noivo( Alexandre Mofatti/ Vicente Coelho).

A cenografia (Nello Marrese), com uma sala de jantar num espaço de arena, é interessante por induzir o envolvimento mais intimista do público, embora incomode, quebrando o ritual familiar, a utilização de banquetas ao lado de cadeiras mais solenes.

Em Silêncio!, com privilegiada direção da autora ,ao lado de Priscila Vidca, percebe-se nitidamente uma sólida enunciação de personagens num tema, a principio sujeito à total previsibilidade , ataques e defesas num jantar familiar.

Nesta sua segunda revelação textual, após a feliz surpresa de sua peça Os Sapos, Renata Mizrahi mostra, mais uma vez, sua qualidade como uma das carismáticas representantes da nova dramaturgia brasileira .


( SILÊNCIO! está em cartaz no Teatro da UFF, Niterói, sextas e sábados, às 21h; domingo, 20h. Até o dia 29/Novembro )

O BEIJO NO ASFALTO: RECORTE MUSICAL DO AMOR DERROTADO

FOTOS BY RENATO PAGLIACCI

Mesmo tendo sido escrita há mais de meio século( 1961), O Beijo no Asfalto ainda tem seus ecos na contemporaneidade. O seu tema  continua atual – a manipulação midiática em torno do preconceito à homossexualidade .

E  seu fato  condutor – um beijo na boca entre dois homens –  está ,cotidianamente, presente em qualquer esquina,  com sua síndrome de  estranheza e rancor , ainda  para  muitos.

Justificado como “amor derrotado”, quando Nelson Rodrigues enveredou pelo tema,teve ,no seu entender,  a mais pura das intenções.

O personagem Alfredo,  atropelado fatalmente, “queria morrer sentindo o carinho de um ser humano e por isso quis ser beijado. Podia ser qualquer pessoa, o que lhe importava era o ato do amor”.

Presenciado por transeuntes, por seu sogro Aprígio ( Gracindo Jr.) e, ainda, pelo repórter Amado Ribeiro( Thelmo Fernandes), o gesto afetuoso de Arandir( Cláudio Lins) acaba servindo de estopim sensacionalista  para uma matéria  da imprensa marrom.

Na sequencia do episódio propulsor, vão se revelando as presenças de Selminha( Laila Garin), mulher do acusado, sua irmã Dália (Yasmin Gomlevsky) e a vizinha (Janaína Azevedo), no âmbito doméstico. 

Na repartição de Arandir, o colega homofóbico ( Gabriel Stauffer), e , no núcleo policial, o delegado Cunha( Cláudio Tovar)e seu   auxiliar Aruba( Jorge Maya) . Além, é claro, do morto ( Pablo Ascoli) que completa o elenco com outras  incidentais atuações ( Juliane Bodini, Ricardo Souzedo, Juliana Marins).

Embora a cenografia ( Nello Marrese) tenha a marca da sobriedade, sob luzes( Luis Paulo Nenén) vazadas,  há um meticuloso cuidado nos figurinos(Claudio Tovar). Convergindo em  funcional gestualidade (Sueli Guerra) e no  extremado requinte do score sonoro (Délia Fischer).

Os dezesseis segmentos musicais são alternados entre  canções autorais,de inspirada linha melódica, e citações de frases de tango, rap e samba (em especial de Dolores Duran). E aprofundam, visivelmente,  a maturidade do suporte  musical / dramático de Cláudio Lins.

Além do  habitual domínio corporal e vocal de Laila Garin, destaca-se a energia ferina de Thelmo Fernandes, o sotaque irônico de Cláudio Tovar, a nuance malévola de Jorge Maya e Gabriel Stauffer, mais a inquietude amarga de Gracindo Jr. e a falsa ingenuidade de Yasmin Gomlevsky.

O desafio de equilibrar em duas vertentes, musical e dramatúrgica,a integridade de um texto clássico  , é assumido na visível desenvoltura e rendimento cênico da direção de João Fonseca. Resistente,  mesmo na  sua  duração prolixa pela inserção paralela das canções, com ocasionais fissuras no impacto da trama original .

E, onde,  a atemporalidade  de seu discurso ideológico/ jornalístico, que  se estende às redes sociais,  encontra, também,  sua  contundência na  virtuosística exploração de um formato inédito no musical brasileiro.



(O BEIJO NO ASFALTO - O MUSICAL está em cartaz no Teatro das Artes, Gávea, quinta a sábado, 21h; domingo,20h. Até  20 de dezembro)

OU TUDO OU NADA : NUS COM A MÃO NO BOLSO

FOTOS BY  GUSTAVO BAKR

“The Full Monty” é uma expressão popular inglesa que significa mostrando a coisa toda. E é este termo que titula o filme britânico de 1997(Peter Cattaneo) , seguido de sua versão musical na Broadway  2000 ( David Yazbeck/Terrence McNally) e que , agora, tem sua primeira montagem brasileira .

Ou Tudo ou Nada , numa bem cuidada  adaptação de Artur Xexéo, mantem seus ingredientes originais com a inserção de maneirismos linguísticos e gírias, para quebrar o distanciamento com a paisagem da   ex “cidade do aço” inglesa, Sheffield.

Em sua narrativa ,seis de seus cidadãos  homens se reúnem com a  missão de resgatar seus problemas comuns  de desemprego,  conflitos familiares , solidão e total falta de perspectivas financeiras,  através de um show de nudez masculina.

Incitados ,inicialmente, por Jerry ( Mouhamed Harfouch), um pai ameaçado de perder a custódia do filho pré-adolescente Nathan( Xande Valois)  e por  Dave ( Claudio Mendes), assolado por um iminente rompimento conjugal. Atraindo, sequencialmente, os outros  comparsas na identificação de   crises pessoais.

Como o   semi- suicida Malcolm( André Dias), o administrador falido /dublê de coreógrafo (Carlos Arruza), o malabarista Ethan( Victor Maia) e o Jegue (Sérgio Menezes), diferenciado pela parte exagerada de sua anatomia sexual.  

Decididos a se tornarem strippers por uma noite, ensaiam num clima a “chorus line” com a velha pianista Jeanette(Sylvia Massari), em empática e bem humorada performance. Tendo ainda, os destaques femininos das esposas Geórgia(Kacau Gomes) e Vicki( Patrícia França) e um coeso elenco coadjuvante.

O score musical ,com suas referencias pop/jazzísticas,  tem a dinâmica regência de Miguel Briamonte, conduzindo a uma  enérgica gestualidade ( Alan Rezende) e a uma meticulosa vocalização ( Mirna Rubin).

Sendo dignos de registro,   a modulação das luzes(David Bosboom/Dani Sanchez) e os adequados figurinos( Ney Madeira/Dani Vidal), tudo  completando a  criativa  saída cenográfica(Edward Monteiro) para uma produção de parcos recursos.

O elenco , de atuação ímpar, tem personificações singulares no empático Jerry, no espirituoso Dave, no depressivo Malcolm, no circense Ethan, no dissimulador Harold, no falso ingênuo Nathan e nos vozeirões de Jegue, Vicki, Geórgia e Jeanette.

A habitual segurança no ofício teatral  e o apaixonado senso estético de Tadeu Aguiar concretizam um convincente resultado ,de   irônico humor implodindo num referencial teor  crítico .

Onde a solução pelo  corpo/mercadoria não deixa de ser uma denúncia à falência inflacionária no caos financeiro,  gerando o   crescente  desemprego.

E desnudando ,  física e emocionalmente, toda e qualquer crença na atual realidade econômica  e no presente cenário  político.


( Ou Tudo Ou Nada - O Musical está em cartaz no Teatro Net Rio, Copacabana, quinta e sexta, às 21h;sábado, às 18h e 21h30m;domingo ,às 19h. Até 20/ Dezembro)

NORDESTINOS: UMA AFETIVA E POÉTICA MIGRAÇÃO CÊNICA

FOTOS  BY JANDERSON PIRES

Poetas e cantadores já classificaram a travessia existencial cotidiana do nordestino em dois momentos psicológicos – durante o dia a paisagem real  da  tristeza sem saída , à noite a paisagem do sonho conduzindo  à esperança.

É quando , afinal, acontece a partida “em nova vida explodida” no duplo significado da poética cabralina, ou a solução pela morte  ou a viagem para o futuro incerto na grande metrópole.

O significativo projeto “Histórias de Vida, Histórias Reais”, idealizado pelo ator/produtor Alexandre Lino,  vai se desdobrar  em três segmentos -  livro, filme e peça. Sempre reunindo narrativas documentais e confessionais de nordestinos em suas vivências, ora sociais ora  culturais, nos maiores centros urbanos do País.

Como elo inicial propulsor, a peça Nordestinos com dramaturgia de Walter Daguerre , um carioca (nordestino de adoção),ao lado dos atores( Alexandre Lino,Erlene Melo,Paulo Roque, Rose Germano) e do diretor Tuca Andrada, todos  com o sangue da raça correndo nas veias.

Compartilhando uma produção singela, onde o minimalismo dos elementos cênicos é ,por si só, capaz de intensificar, em grande dimensão,  a alma e o corpo,  os corações e as   mentes desta brava e afetiva gente sertaneja.

Aqui, o aparato  cenográfico  ( Karlla de Luca) soube captar, em minuciosas filigranas a ambiência nordestina, através de seus figurinos , biombos, telões e mamulengos. Onde as tonalidades aquareladas são  realçadas em luzes tão solares  ( Renato Machado) quanto  as do agreste.

Incluída , ainda, a precisa coerência da gestualidade ( Paula Feitosa), identificada com as sutilezas dos maneirismos linguísticos  e na vivacidade do score sonoro(Alexandre Elias), sob  clássicos recortes  do cancioneiro regionalista .

A linguagem corporal e vocal, em busca do humor e da nostalgia, revela sua emotividade na  entrega absoluta dos atores Alexandre Lino e Rose Germano, ora com suas próprias histórias de vida ora com os “causos” de terceiros. Não ficando para trás, nesta linha interpretativa, a pontual atuação de Erlene Melo e Paulo Roque.

A característica abordagem temática e a poesia do espetáculo alcançam ,enfim, a perceptível invenção estética na  segurança do comando cênico de  Tuca Andrada.

E, diante de um já vitorioso projeto de manutenção da identidade nordestina, que seus mentores entoem, em orgulhosa unicidade  com João Cabral , seu poeta maior:

“Nenhum nordestino é indiferente ao meio em que vive , em que se criou”.


( NORDESTINOS está em cartaz no Teatro Sesi/Centro, quinta a sábado, às 19h30m. 70 minutos. Até 28 de novembro)



GALÁPAGOS: OS SORTILÉGIOS DA SOLIDÃO

FOTOS BY DALTON VALÉRIO


Mobilizados pela ideia de penetrar no denso labirinto dos conflitos  da solidão e da incomunicabilidade humana,a partir do universo teatral de Edward Albee e Harold Pinter, os atores Paulo Giannini e Kadu Garcia comissionaram –na  ao sólido pensar dramatúrgico de Renata Mizrahi.

Galápagos aparece, assim, como um texto singular nas suas incursões autorais,em  seu direcionamento de incisiva interiorização e de uma simbologia fronteiriça à crise existencial da contemporaneidade .  E que encontra na audaciosa inquietação cênica de Isabel Cavalcanti o comando  inventivo ideal à proposta.

Dois homens, de destino e cotidiano absolutamente opostos,   se encontram, casualmente a princípio e rotineiramente a seguir, no balcão de um bar . O artista plástico Carlos (Paulo Giannini),separado, quase depressivo em seu isolamento, e um funcionário de uma multinacional Vander (Kadu Garcia),casado mas  escondendo seu lado nostálgico e infeliz, na falsa armadura de sua extroversão.

As incômodas tentativas de aproximação de Vander  lentamente geram quebras, que nunca se concretizam plenamente, na monossilábica postura de Carlos. E, aos poucos,  vai se descortinando um abstrato  clima de seres perdidos numa ilha ancestral ( a possível referência subjetiva a Galápagos , território dos confins equatoriais), numa patética atitude auto explicativa de que, num naufrágio, quem está só é mais fácil de ser ajudado.

A magia do espetáculo está neste incessante ir e vir, físico e psicológico, dos personagens . Na insistência da provocação de  encontros e retornos  entre dois seres, submersos nas tentativas de  fuga da frustração de vidas sem perspectivas.

O domínio técnico e estético  da linguagem teatral é alcançado pela direção no dimensionamento interpretativo de uma dupla de atores,  de incrível credibilidade e força.

A cenografia (Aurora dos Campos) atende à funcionalidade do que se pretende, aliada ao recato dos figurinos(Bruno Perlatto) ,onde luzes(Renato Machado) entre sombras acentuam as nuances sensíveis destes confrontos coloquiais.

Incluindo, ainda, a trilha sonora meticulosamente arquitetada pela habitual competência de Felipe Storino .Fluindo das incidentais e misteriosas interferências da voz impecável de Simone Mazzer e criando , na plateia , a sensorial  ilusão de sua presença física.

Não por acaso esta tragicomédia foi vencedora  da última edição do Prêmio Shell pois, além de se consolidar como refinado texto, alcança todas as modulações de poético e irônico humor nesta sua elaborada concepção cênica. 

Capaz também de reflexionar , em sua risível acidez, a  constatação premonitória do romantismo literário de Lord Byron  ecoando  nas  teorizações do teatro do absurdo :

"Na solidão é quando estamos menos sós".

                                                Wagner Corrêa de Araújo



GALÁPAGOS está em cartaz no Teatro Gláucio Gil, Copacabana, quinta e sexta, 20h. Até o dia 13 de novembro.

Nova temporada:Na Sala Baden Powell/Copacabana,quinta e sexta, às 20h.70 minutos. Até 3 de novembro.

ACABOU O PÓ : RELATOS DOMÉSTICOS


FOTOS BY JANDERSON PIRES

Um jovem autor na cena carioca – Daniel Porto - em seu segundo texto dramatúrgico, Acabou o Pó ,aprofunda seu estudo dos caracteres comportamentais do cotidiano.

Em sua peça inicial – O Pastor - teve como signo um teatro documental ao abordar ,com extrema verossimilhança , os desmandos obsessivos que a religião pode exercer sobre as mentes prisioneiras de seus asseclas.

Mantendo este contexto cênico de um retrato sem retoques das mazelas sociais prioriza , novamente, o aspecto crítico e sua consequente absorção no posicionamento reflexivo do público.

Mais uma vez são quebrados os limites palco/plateia numa encenação despojada( Karlla de Luca) com uma mesa rústica, cadeiras e utensílios domésticos , onde dois personagens assumem os valores suburbanos cotidianos de duas donas de casa – Kelly( Alexandre Lino) e Nena ( Leo Campos).

A loquacidade de seus diálogos , de autentica ingenuidade, vai revelando os fatos mais comuns e corriqueiros daquele pequeno mundo de conflitos, decepções, crises afetivas e carências financeiras.

Sob luz ambiental ( Binho Schaefer) e conseguindo escapar de posturas estereotipadas, os dois atores se apoiam em acertada naturalidade e ritmo , com uma equilibrada nuance humorística, sob o firme comando cênico de Vilma Melo.

Que , pela proposital ausência de aparatos cenográficos, possibilitando assim maior concentração da plateia, torna factível a condução ao riso , teorizado filosoficamente por Rabelais, como a mais útil de todas as formas de crítica, porque é a mais acessível às multidões.


(ACABOU O PÓ volta ao cartaz, no Teatro Ipanema, todas as quartas feiras de novembro, às 21h)





ESTÚPIDO CUPIDO : EVOCATIVA VOLTA AO PASSADO

FOTOS BY RICARDO BRAJTERMAN               


Entre os anos 60/70, existiam dois Brasis. Um sombrio, outro sob refletores. Um de fardas e coturnos, outro de jaquetas de couro e saltinhos elegantes; um de tanques, outro de lambretas. Um de hinos oficiais, outro de rockinhos nacionais.

E é para ali  que os sonhos dos personagens de hoje convergem, num mix de épocas marcado pela alegria de viver,  na peça/musical  de Flávio Marinho – Estúpido Cupido.

Expert numa dramaturgia de memórias antigas para um tempo presente, o autor se inspirou na novela homônima da tevê ,para recriar um universo cujo  único elo está na Tetê (Françoise Forton), protagonizando lá e cá , e no nostálgico score sonoro.

Num cenário simplificado, mas capaz de atender às ambiências básicas do enredo ( a casa de Tetê e a discoteca que por sua vez se transforma em passarela de misses), a criação de Clara e Clívia Cohen é dividida com os figurinos. De belo  apelo visual, entre a lembrança de ontem  e o registro do hoje, sob as variadas matizes da iluminação( Paulo Cesar Medeiros) .

E , ainda, a singeleza quase ingênua de um enredo em que Aninha(Clarisse Derziê Luz) e Wanda( Sheila Matos) são as amigas  convencendo  Tetê  a comparecer  num baile  de reencontro da antiga turma, incluindo  Frankie( Aloísio de Abreu) e Teddy ( Carlos Bonow).

Em meio aos ritmos dançantes ,do rock ao twist, encontram ali Danieli( Carla Diaz), funkeira e única personagem fora do álbum de lembranças. Paralelamente, quase em forma de coro, um elenco funcional  e envolvente( Luisa Viotti,Julia Guerra,Ryene Chermont,Matheus Penna e Ricardo Knupp) dá voz e corpo ao passado dos protagonistas.

Esta é grande jogada cênica do texto, como se fora um espelho refletindo dois momentos existenciais , a adolescência e as idades seguintes, numa alquimia teatral brilhantemente captada pela direção de Gilberto Gawronski.

Françoise Forton, em grande forma, avança para dentro do personagem em sua  intensa e emocional performance. Mas esta segurança e vibração alcançam também Clarisse Derziê Luz. E se expande na sintonia das atuações de Sheila Matos e Carla Diaz , na elaborada ironia de Aloisio Abreu e no desenho caricato do playboy Carlos Bonow.

Capaz, também , de revelar a  marca colorida  e bem humorada da gestualidade coreográfica ( Mabel Tude) e a  vivaz verbalização , na arquitetura canto/representação , da   meticulosa direção musical ( Liliane Secco), apoiada,ainda,  na competência  dos músicos ( Felipe Aranha, Guilherme Viotti,Jean Campelo).

Tudo visando  transcender os limites palco/plateia  e reflexionando-se, enfim,  numa festa de arromba ,de prazer atemporal, com direito a banho de lua ,   bolinhas de sabão e muita saudade.


( ESTÚPIDO CUPIDO está em cartaz na Sala Baden Powell, Copacabana, sexta, às 21h;sábado, às 19h e 21h; domingo, às 19h. Até 29 de novembro).

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