FIM DE PARTIDA : COMO SOBREVIVER NUM UNIVERSO DISTÓPICO SOB A EMBLEMÁTICA DRAMATURGIA DE BECKETT

 









 

Em claustrofóbica atmosfera dimensionada por um sotaque pós-apocalíptico, quatro estranhos personagens  delineados, sob cáustico  humor e soturna melancolia, figuram quatro personagens imersas na implacabilidade da condição humana diante de seu destino terminal.

O absoluto no sense, imprimido por Samuel Beckett em Fim de Partida, tornou a peça um dos textos mais  polêmicos alinhados à estética do absurdo no teatro, sucedendo-se a Esperando Godot num alcance, às vezes, até mais provocador diante de quaisquer tentativas  de decifração de seu enigmático ideário.

O isolacionismo existencial de um universo irremediável com seu direcionar-se, sem quaisquer perspectivas de saídas ou soluções, à insanidade do vazio, à inevitabilidade e ao fracasso derrotista de um “fim de jogo”. Eis, em breves palavras, a síntese e o substrato conceitual desta exemplar tipicidade sobre o próprio ser e o não ser do teatro do absurdo.

Surgido no pós-guerra, este avassalador e inventivo gênero dramatúrgico potencializou-se esteticamente com Eugène Ionesco, Fernando Arrabal e pela especial contundência de Samuel Beckett. Em cartaz há mais de meio século, suas urdiduras cênicas são propositalmente metafísicas e a sua nihilista perspectiva psicopolítica vem questionando visceralmente a acomodação do espectador teatral.

Estas reflexões podem ser conferidas na encenação de Beckett, agora, nos palcos do Rio depois da temporada paulista, com seu Fim de Partida, pelo habitual olhar concepcional de Rodrigo Portella, direcionando os atores Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França. Outra vez com um surpreendente resultado, sinalizado sempre pelo visceral teor de um experimento que conecta a montagem aos avanços da contemporaneidade teatral.

Em insólito dimensionamento de um jogo fatalista, carregado de angústia, sordidez e humor negro, pelo alcance de incisiva representação dos quatro intérpretes, onde a postura reiterativamente atonal de uma cena quase despojada conduz, aqui, irremediavelmente, a uma instigante concentração nos paradoxos do texto beckettiano.

Privilegiando, através de um assumido despojamento do  arcabouço cênico (Daniela Thomas) sob luzes (Beto Bruel) frias entre tonalidades que acentuam a ambiguidade de um  quadro de teor tão catastrófico quanto um bunker nuclear,  isolado e sem saída.  Ampliando-se a desolação surreal dos quatro personagens por intermédio de acordes sensoriais cortantes, pelas afiadas incidências sonoras de Federico Puppi.

Marcado ainda pela assumida estranheza indumentária de Ham (Marco Nanini), um cego portador de deficiência, condenado à imobilidade física, numa cadeira de rodas,  completada pelo visagismo sujo de seu ordenança corcunda Clov (Guilherme Weber), e por dois corpos sem pernas em containers de lixo.  

Visualizados, aqui, apenas pelas cabeças, figurando os submissos Nag e Nell (Ary França e Helena Ignez), referenciando os pais de Ham em atuações mais coadjuvantes por sua instantaneidade, mas sem nunca perder a convicta autenticidade dos papéis, na maturidade teatral de uma dupla de reverenciados atores.

Mas é no confronto destrutivo da fatalista inércia física e da cegueira de Ham, tornando-o autoritário, e da revolta de um quase robótico Clov às suas ordens tirânicas, indo e vindo incessantemente, com um escada em que anseia certificar-se da insólita paisagem externa ou até pensando em exterminar seu controlador.

De um lado o domínio, do outro a submissão, o mestre tirânico e o escravo obrigado a calar-se, fazendo estes dois excepcionais atores Marco Nanini e Guilherme Weber, se destacarem por uma singular e vigorosa  expressividade conferida aos caracteres psicofísicos e tragicômicos de seus respectivos e grotescos personagens Ham e Clov.

Onde a impactante e obsessiva vertigem na releitura  deste Fim de Partida transmite, sobretudo, seu recado de alerta sobre a iminente ameaça de caos climático, transmutando a metafórica mensagem dramatúrgica do absurdo cenário pós-apocalíptico,  numa realidade cada vez mais  próxima ...  

 

                                                Wagner Corrêa de Araújo

 



Fim de Partida está em cartaz no Teatro Total Energies, de quinta a sábado, às 20h; domingo às 19h; até o dia 27 de setembro.

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