O FILHO : DEPRESSÃO, CULPA E DESESPERO SOB A IMERSIVA ESCUTA DRAMATÚRGICA DE UM NÚCLEO FAMILIAR

O Filho. Florian Zeller/Dramaturgia. Léo Stefanini/Direção Concepcional. Setembro/2026. Ronaldo Gutierrez/Fotos.


O francês Florian Zeller ficou conhecido, como escritor e cineasta, especialmente  por sua trilogia dramática sobre a desestruturação de um núcleo familiar, sinalizada entre a literatura e o cinema, através de uma simbológica  titulação sequencial  : O Pai - A Mãe - O Filho.

E é depois do aplauso do público e do elogio da crítica para a montagem brasileira de O Pai, com o protagonismo de Fúlvio Stefanini, que seu filho Léo Stefanini está de novo no oficio diretor, desta vez com a terceira daquelas peças/filmes – O Filho – que de sua estreia original nos palcos europeus em 2018, chegou às telas em 2022.

Embora tenha recebido algumas restrições na versão cinematográfica, por uma certa previsibilidade, mesmo dirigida pelo próprio Florian  Zeller, este tendo obtido melhor  resultado fílmico com O Pai, de qualquer  maneira, a sua trilogia obteve expressivo alcance em suas encenações mundo afora.

A trajetória de sua narrativa  teatral, dentro de um mesmo contexto familiar, abordando os conflitos gerados por Nicolas, um adolescente de 16 anos, quando não consegue se adaptar à separação de seus pais Pedro e Ana passando, então, pelo desafio desta inesperada circunstância, a compartilhar da solidão materna.


O Filho. Florian Zeller/Dramaturgia. Léo Stefanini/Direção Concepcional. Setembro/2026. Ronaldo Gutierrez/Fotos.


Mas também sequenciada por outra tentativa de convívio, agora, na companhia de Pedro, o pai, ao lado da sua nova esposa Sofia e de um filho recém-nascido, onde apesar de todas as boas intenções de quem se considera um cumpridor dos deveres da paternidade, o diagnóstico  de uma crise mental do filho ausente se acentua.

Indo da descoberta de suas evasões escolares sob um falso relato de comparecimento no colégio, constrangendo sua mãe e obrigando-a a solicitar que ele se afaste dela, passando a viver com o pai, ainda que  interferindo na suposta convivência feliz do casal como novo hóspede residencial.

Autocentrado em seu silencio interior, recusando quaisquer aproximações dialetais, o jovem Nicolas radicaliza sua revolta com atitudes agressivas e até suicidas de automutilação, levando-o a um tratamento de internação psiquiátrica, gerando, em suas idas e voltas clínicas, uma conturbada e ininterrupta instabilidade familiar.   

Onde o espaço cenográfico (Daniel Distzer), pelo ideário da concepção direcional (Léo Stefanini), opta por um minimalismo essencialista ao mostrar uma sala de visitas que se transmuta em consultório clínico-hospitalar. Provocando através dos efeitos luminares (Cesar Pivetti) e de incidentais temas musicais (Sérvulo Augusto), um subliminar sotaque claustrofóbico.

Que é amenizado apenas por instantâneos movimentos coreográficos representados pelo pai procurando sustar o estado depressivo de Nicolas, em busca de sua adesão expressa por um raro e contagiante sorriso. Não deixando de referenciar o adequado figurino (Yakini Rodrigues) com sua caracterização  cotidiana dos seis personagens.

Valendo destacar do elenco protagonista - Andreas Trotta (Nicolas), Gabriel Braga Nunes (o pai), Maria Ribeiro (a mãe), Bruna Miglioranza (a madrasta) - aos dois atores coadjuvantes Marcio Marinello  e  Luciano Schwab (equipe médica), atuando com convicta unicidade até o inesperado e surpreendente epílogo.

Em caráter mais que especial a espontaneidade das falas, ora compreensivas ora de nervosa impaciência, de Gabriel Braga Nunes no entorno  da impotência paterna frente à mente conturbada e niilista do filho lutando por sua verdade, através da talentosa revelação performática de Andreas Trotta, é também correspondida pela representação das duas atrizes (Maria Ribeiro e Bruna Miglioranza) demonstrando potencialidade emotiva na personificação do contraponto entre a afeição e a insegurança em meio a uma crise familiar. 

Convergindo tudo por  intermédio  de um espetáculo questionador que se configura muito além de uma proposta de decifração da enigmática confusão mental adolescente, sob a insensata  dominância da interconectividade digital, incapaz de  preencher sua carência familiar, sua solidão e seu vazio existencial ...


                                             Wagner Corrêa de Araújo


O Filho, de Florian Zeller, está em cartaz no Teatro do Copacabana Palace, de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h; até o próximo dia 13 de setembro.

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