ENTRE ERROS E ACERTOS, DUAS INCURSÕES DO MUSICAL À BRASILEIRA

ÓPERA DO MALANDRO. Outubro de 2014. Foto / Leo Aversa.

Na trajetória que inspirou o mais celebrado musical de Chico Buarque de Holanda, há uma referência ao século XVIII com a "The Beggars Opera" (1728), do inglês John Gay, com sua radical substituição do cenário clássico da grande ópera pelos conflitos da classe burguesa, aqui com um viés conceitual do universo da pobreza e dos mendigos.

Isto por sua vez, remete à transposição do tema na criação da "Ópera dos Três Vinténs", de Bertold Brecht/Kurt Weill(1928), indo mais longe ainda no seu alcance dos circuitos londrinos miseráveis, numa politica e impactante concepção estética da Berlim anos vinte.

Com notável teor crítico, Chico Buarque mimetiza a temática antecedente num décor absolutamente brasileiro, substituindo miseráveis e ladrões por malandros e contrabandistas da Lapa carioca, em sua Ópera do Malandro, numa visão metafórica do sistema ditatorial brasileiro, de Getúlio Vargas aos “presidentes” militares.

Que se tornou, assim, um marco do gênero musical em nossos palcos substituindo a faceta lírica/operística da qual nem o próprio Gershwin conseguiu escapar com sua quase jazzística “Porgy and Bess”. Chico Buarque, aqui, optando pela dispensa do arcabouço sinfônico/lírico vocal, dá uma lição de inventividade à base, exclusiva e sem concessões, da mais pura musicalidade popular brasileira.

Dando sequencia a versões consagradas do musical desde sua estreia em 1978, da montagem primeira por Luiz Antônio Martinez Corrêa, à memorável transposição da dupla Moeller/Botelho, sem deixar de rememorar o legado cinematográfico por Ruy Guerra, a Ópera do Malandro está mais uma vez  de volta, agora  sob o comando concepcional de João Falcão.

Procurando acentuar, sobremaneira, em sua polêmica releitura, o distanciamento brechtiano. Para, assim,  provocar na plateia uma catarse política direcionada à  contemporaneidade e armada num olhar mais reflexivo.

Isto acontecendo com a quebra de sequencia da trama dramatúrgica original, usando artifícios cênicos como a ausência da identificação realista/sexual dos personagens clássicos, todos eles transubstanciados em exclusiva performance masculina, com exceção do narrador João Alegre que é representado por uma atriz (Larissa Luz).

Mas a ação resultou contrária e a proposta teve seu deslize num clima de conflituada desconcentração, onde o élan poético do texto original das canções destoou da caracterização cênica. E não conseguiu atingir o que seria o pretendido alcance crítico no travestismo dublê da trama narrativa, entre a sexualização e a malandragem.

O que não desqualifica o mérito geral da montagem, com exuberante direção musical (Beto Lemos) acertados figurinos (Kika Lopes) e algumas exemplares atuações como Fábio Enriquez (Teresinha), Eduardo Landim (Geni), Adren Alves (Vitória) e Léo Bahia (Lúcia). Com brilho mais esporádico do elenco restante, incluído um ainda inseguro protagonista Moyseis Marques (Max Overseas), conhecido sambista da noite em sua estreia cênica como ator.

De qualquer maneira, mesmo assim entre erros e acertos, um espetáculo que valeria ser conferido pela sua tributária proposta de inicialização das comemorações dos setenta anos de vida e arte deste carismático criador mor Chico Buarque de Holanda.


SIM! EU ACEITO! Fevereiro de 2015. Foto / Guga Melgar.

Adaptado de uma peça de 1951 - The Fourposter, de Jean de Hartog, que por sua vez inspirou o filme “Leito Nupcial”, de Irving Reis, no ano seguinte (com Rex Harrison e Lilli Palmer), só chegou à Broadway, como musical, em 1966, com o titulo de I Do! I Do!  Sim! Eu Aceito!, na versão de Flávio Marinho.

Com a direção de Gower Champion, tendo o casal Robert Preston e Mary Martin, tornou-se um dos clássicos da comédia musical, especialmente por sua, então inovadora, proposta em torno de apenas dois protagonistas e uma cama nupcial, atravessando meio século de uma mesma relação matrimonial.

Ambientado no final do século XIX, termina em 1945, quando o casal deixa finalmente a casa onde começou esta longa jornada noite adentro, entremeada com as surpresas da felicidade e das decepções, dos ciúmes e das supostas traições, do envelhecimento, da reconciliação e da partida definitiva dos filhos.

O enredo dramatúrgico esbarra na previsibilidade da sua trajetória cronológica de cenas de um casamento monogâmico. Mas, tem seu encanto, literariamente metaforizado, na poesia do amor e na prosa do casamento, pela difícil reconstrução de um cotidiano que desaba, muitas vezes, nas crises da monotonia.

Nas letras das canções originais de Tom Jones, com a música de Harvey Schmidt, há referencias jocosas sobre os conflitos emocionais da passagem do tempo – Eu Amo Minha Mulher; A Lua de Mel Acabou; O Amor Não é Tudo; Ninguém é Perfeito; Quando os Filhos Casam; Onde Estão os Flocos de Neve?...

A concepção cenográfica desta primeira montagem brasileira do musical americano, titulada "Sim! Eu Aceito!", destaca o bom gosto dos figurinos na sua caracterização do fluir dos anos e na simbológica presença central de um leito à moda antiga (Clívia Cohen), sob recatados efeitos de uma luz entre sombras (Marco Cardi).

Parte significativa do sequenciamento na sustentação sonora da narrativa (Liliane Secco), perde-se ainda no minimalismo do arranjo para dois pianos (Priscilla Azevedo/Marcelo Farias), priorizando um sotaque camerístico, num espetáculo musical já restrito a dois atores.

Com convicto equilíbrio do elenco na performance dos personagens, há momentos de maior arrebatamento, ora na fluência vocal de Agnes (Sylvia Massari), ora na tessitura tragicômica de Michael (Diogo Vilela).

Dentro do convencionalismo nostálgico de um musical do passado, a direção de Cláudio Figueira consegue delimitar bem estes parâmetros artísticos ao gosto contemporâneo. E, assim, conduzir a plateia, a uma irônica e risível reflexão sobre os deleites e tormentos contidos no pequeno circuito atemporal de um leito de núpcias.

                                                
                                            Wagner Corrêa de Araújo




Nenhum comentário:

Recente

THE CAR MAN : TRANSGRESSIVO TEATRO DE DANÇA CONTEMPORÂNEA

THE CAR MAN. Teatro coreográfico de Matthew Bourne. Abril /2021. Foto/New Adventures. O coreógrafo inglês Matthew Bourne já afirmou convict...