SONHOS JUVENIS, ENTRE AMORES INTRANSITIVOS E DESAFIOS ESCOLARES

MENINOS E MENINAS. Junho 2014. Foto/Neto Fernandez.

É na adolescência que surge a embriaguez das paixões, da descoberta do corpo com tudo o que este possa simbolizar. Do prazer sexual a todas as formas de expressão e de comunicabilidade, como a pulsão criativa. Muitos destes jovens se entusiasmam com os exercícios de jogos lúdicos ou dramáticos no universo escolar, apostando no ato da representação cênica como ideário da sua auto transformação em pequenos galãs, heróis ou líderes de turma.

Mas por uma ironia, na ambiência prática da arte do palco, o teatro para e por adolescentes é o que mais enfrenta percalços. Suas temáticas e suas formas performáticas não pertencem ao mundo das crianças, plateia exclusiva das sessões vespertinas das peças com seus "aí foram felizes para sempre".

Por outro lado, esta formatação cênica não tem espaço no horário noturno, de preços mais avançados e com privilégio quase que absoluto do público adulto. E o próprio adolescente não o prestigia, preferindo gastar sua mesada com shows ou em bares e discotecas, no lugar dos espetáculos teatrais. Inibindo até mesmo o investimento de autores e diretores nesta seara dramatúrgica, o que acaba se refletindo na programação das temporadas com suas raras apostas no gênero.

Mas como toda regra convive com a exceção surgem, vez por outra, surpresas como “Garotos”, um contraponto masculino à já clássica “Confissões de Adolescente”, de Maria Mariana, ou “Meninos e Meninas", textos de Leandro Goulart que vem entusiasmando as plateias juvenis de todo o Brasil, em suas inúmeras e bem sucedidas turnês.

O segredo da fórmula é a conjunção da temática com a música, mantendo a intrínseca estrutura de uma encenação teatral aliada ao sotaque pop/rock da diversão prioritária da juventude - o show musical. Sabendo, ainda, expor de forma descolada as reflexões, ansiedades e segredos do mundo adolescente, sem a preconceituosa tendência de se ficar preso ao politicamente correto.

Em “Meninos e Meninas”, repetindo a trilha de “Garotos”, com um elenco equilibrado de revelações da novíssima geração de atores, a maioria profissionalizada através da televisão, do cinema ou do próprio teatro, aqui sob dinâmico comando paralelo do autor Leandro Goulart ao lado de Afra Gomes.

Há que se destacar ainda a iluminação de Luiz Paulo Neném, fundamental para estabelecer os climas emocionais, entre as ilusões e a realidade, do vir a ser adolescente. Que, ao lado do dinamismo imprimido pela boa criação gestual de Anna Magdalena, conta ainda com propícios figurinos, com um sotaque pop/teen de Renata Grimberg.

Mesmo com sua maior experiência de palco e vídeo, Anna Rita Cerqueira, Douglas Sampaio, Eduardo Mello, Gabi Cavalcanti, Ingrid Klug, João Fernandes e Lucas Cotrim, não retiram o brilho próprio dos outros integrantes menos experientes do elenco que, também, já começam a colher todas as flores e frutos encontrados neste caminho de descobertas.

E é nesta fábrica cênica de sonhos, decepções e surpresas, revelações e atitudes, onde cada um destes “Meninos e Meninas”, ébrios de arte e vida, no palco tornam factível o sábio pensar filosófico/poético de Goethe - “A juventude é uma embriaguez sem vinho”...

MÚSICA PARA CORTAR OS PULSOS. Março de 2015. Foto/Divulgação.

A breve e cotidiana história de Felipe que amou Isabela, que também desejava Ricardo que preferiu trocar seu namorado por Felipe, que acabou não mais amando Isabela, inspirou os dez quadros com sotaque de solilóquios, que levaram ao Música Para Cortar Os Pulsos, de Rafael Gomes.

Um original enredo dramatúrgico do jovem autor paulista que, desde 2010, vem envolvendo e encantando públicos de todas as idades, apesar da exclusiva identidade temática com o universo de 20 anos dos três personagens.

Aqui sua linguagem direta, sem cair nas armadilhas da pieguice, fala do mais comum do sentimento amoroso. Suas dúvidas e certezas, surpresas e decepções, encontros e partidas, em forma confessional e numa nuance cênica isolada em nichos. Mas que, aos poucos, promove uma saudável interação juvenil  entre estes três atores/personagens.

Enquanto Isabela (Júlia Stockler) quase domina a cena com a superlativa condução de seu personagem, Ricardo (Felipe Salarolli) assume uma sutil discrição na exposição da insegurança de sua identidade sexual, ficando para Felipe (Hugo Carvalho) o ponto focal de equilíbrio com a simplicidade psicofísica de sua postura comportamental.

O minimalismo da concepção cenográfica (Diego Fonseca), os cotidianos figurinos (Nathalia Amorim), sob adequada iluminação (Francisco Hashiguchi) e acerto da música incidental (Fábio Gesteira/Vitor Barbosa) alcançam ideal confluência estética no comando concepcional de Rafael Salmona.

Os dois famosos Andrades, o Mário e o Carlos, já tinham se aventurado pelo “amar verbo intransitivo”, definindo-o, com abstrato sentir poético, não importando seu destinatário, objeto ou sujeito. No embate palco e plateia, buscando a lição do poeta maior, “se os olhos se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta”... este pode ser, quem sabe, o referencial para esta boa surpresa autoral da novíssima dramaturgia brasileira.

De Alan Bennett, o conceituado dramaturgo britânico do qual tivemos recentemente em nossos palcos a peça Retratos Falantes, é o texto com similaridade titular ao filme Fazendo História, de Nicholas Hytner, em 2006, inspirado também no enredo autoral. Abordando o sistema educacional inglês, muito distante do nosso, tem seu foco na jornada preparatória de oito alunos para o ingresso no tradicional e rigoroso sistema universitário de Oxford e Cambridge.

Na sua progressão dramática, mostra ainda a presença dos professores Hector (Xando Graça), Irwin (Mouhamed Harfouch) e Dorothy (Nedira Campos), além do diretor escolar (Edmundo Lippi), conduzidos por Gláucia Rodrigues, em acertada estreia no ofício de maestria teatral.

Em clima de polêmica provocação, os dois professores estabelecem uma discussão demolidora do status quo do que seria ali o ensino médio. Irwin assumindo um método didático de rigorismo renascentista sem, no entanto, deixar escapar uma sensível nuance ao aproximar dos alunos, com um aporte filosófico, os grandes temas de caráter histórico.

Por outro lado, Hector aprofunda uma maior liberdade de exposição que estimula o diálogo, chegando a tocar a fundo questões da sexualidade quando, sem nenhum pudor, oferece carona em sua moto, não escondendo suas segundas intenções eróticas. O comportamento leva a uma crise com a direção conservadora e à interferência do único elemento feminino Dorothy.

Mas é a inquietante postura de Hector que prevalece sobre a mente de alunos avessos a posturas preconceituosas e contamina inclusive o posicionamento erudito mais arredio de Irwin, quebrando os seus limites com um vir a ser mais pop, onde até o simples ato do tirar os óculos tem nele um contexto subliminar de inusitada ação sexual.

Com uma sóbria cenografia (José Dias) na ambiência de únicos elementos materiais serem cadeiras e um piano mais os uniformes figurinos escolares (Dani Vidal/Ney Madeira), além da iluminação mais aberta (Rogério Wiltgen), há ainda uma pontual e envolvente trilha ao vivo (Hugo Kerth e André Arteche).

Ressaltando sempre um bom confronto de jovens atores e experimentados intérpretes, da especial performance de André Arteche entre os alunos (Hugo Kerth, Guilherme Ferraz, Helder Agostini, Rafael Canedo, Renato Góes, Ricardo Kennup, Yuri Ribeiro) à madura atuação, do outro lado, de Xando Graça e Mouhamed Harfouch.

Afinal, é nesta escola onde os desafios existenciais são apreendidos sob uma metodologia escolar de forte componente artístico, sob uma contestadora didática que só estimula a criatividade, tornando mais incisivo e provocador o conceitual poético de Murilo Mendes de que “a erudição é a capitalização do supérfluo”...

                                          Wagner Corrêa de Araújo

FAZENDO HISTÓRIA. Novembro 2014. Foto/ Guga Melgar.

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