LTDA: DAS ARTES E OFÍCIOS DE UMA FÁBRICA DE MENTIRAS


FOTOS/RICARDO BORGES

A calúnia é uma leve brisa que, sussurrando,  pouco a pouco vai crescendo,  transformada em tempestade e terminando como um tiro de canhão. Há duzentos anos, na ária de Rossini, já prevalecia esta irônica verdade sobre a força propulsora da imaginação produzindo mentiras pela manipulação de fatos reais.

E cujo eco se tornou de incisivo presencial com a expansão das redes virtuais com seus exímios artífices das chamadas fake news. Aqui, a notícia é um produto industrializado que, na sua fuga proposital à comprovação, é capaz de confundir mentes e até de provocar pânico social.

Que, entre as exigências para ser bem vendida, tem que ter segura distorção de uma inicial acontecência de ares reais . Mas revirada ao avesso para ganhar a aparência de verista, no disfarce do boato e da falsificação que está por trás de sua construção gramática.

Tema que vem marcando, sobremaneira, não só as narrativas literárias como as tramas dramatúrgicas, tornando crédulos os mentirosos como o Iago que faz de uma intriga, aparentemente inócua, um mal fatal que leva Desdemona e, também,  Otelo ao ataúde.

Explorado, agora, na nova dramaturgia carioca, pelo ângulo da indústria informativa, manipulada por uma agencia profissional de comunicação em busca de candidatos a uma vaga para profissionais nas artes da inverdade.

Ltda, com textualidade do competente autor, diretor e ator Diogo Liberano que, desta vez, conta com uma cia. teatral baiana atuante no Rio, o Coletivo Ponto Zero, e com mais um surpreendente comando diretorial da atriz Debora Lamm.

Ao se submeter às regras para a admissão na agência de falseamento, o recém jornalista Edimilson(Leandro Soares) tem seu primeiro confronto sobre ética profissional com os sócios contratantes Lydio (Lucas Lacerda) e Lenise (Bruna Scavuzzi), assistidos pela descompromissada funcionária Luana ( Brisa Rodrigues).

Enquanto, paralelamente, como uma terceira voz, direcionando, como narrador, o sequencial da progressão dramática, aparece o personagem do leitor (Orlando Caldeira).

Se, eventualmente, a contextualização temática não se expande totalmente em cena, com mais ousada calibragem critica dos irresponsáveis meandros entre a notícia e a sua falsificação. Ou no desnecessário aporte e quase estranhamento do epílogo, avançando na questão racial/política a partir do assassinato de Marielle.

Na dúplice função de cenógrafa/diretora, a concepção de Debora Lamm é o componente mais inusitado e original da montagem, sabendo como preencher, inventivamente, quaisquer claros e  ausências, e favorecendo, assim,  a representação.

Através de um tratamento ágil que é imprimido à movimentação gestual(Denise Stutz) e ao fluxo vocal/sonoro(Marcelo H) da performance, com corretas interpretações da dupla Lucas Lacerda e Bruna Scavuzzi. Convincente entrega de Leandro Soares à dosagem bem-humorada do personagem fingidor de anti-ético.

Além da enérgica espontaneidade revelada por Brisa Rodrigues como a mais questionadora e resistente personagem aos apelos da má conduta. Completando-se o quadro cênico, com a menor inflexão funcional tanto do papel como nas intervenções de Orlando Caldeira.

Com discricionário desenho de luz(Ana Luzia de Simoni) e adequada indumentária(Ticiana Passos), em espetáculo com válida postura intencional, entre possíveis restrições, e que  vale ser conferido.

                                                 Wagner Corrêa de Araújo


LTDA está em cartaz no Teatro Eva Herz/Livraria Cultura/Cinelândia, de quinta a sábado, às 19h.70 minutos. Até 26 de maio.
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