FLUXORAMA: MERGULHOS INTROSPECTIVOS

FOTOS /ANDRÉ GARDENBERG/CAIO GALLUCCI

“Estar morto é estar entregue aos vivos” . Nas derivações deste pensar do existencialismo sartreano , um  transcendente e aproximativo conceitual para os quatro personagens de Jô Bilac, solitários e quase mortos entre os vivos, em sua incursão dramatúrgica titulada “Fluxorama”.

Nos três primeiros segmentos, vidas sendo desconstruídas  em instantâneos flagrantes à beira do risco onde estes personagens são confrontados com a dissolução progressiva do direito às idealizações e ao  sonhar.

Quando pairam os espectrais traços da decadente fisicalidade em uma mulher, Amanda (Deborah Evelyn) – que vai perdendo, sequencialmente, todas as suas  nuances sensoriais impossibilitando-a, assim, da plena capacitação  vivencial.

Ou, no perigo da brevidade de  sobrevivência de Luiz Guilherme (Luiz Henrique Nogueira) preso nos destroços de um  acidente automobilístico, fazendo inusitadas reflexões sobre os seus afazeres diários na melancólica percepção da  própria mortalidade.

E , ainda, quando a maratonista Valquíria ( Marjorie Estiano ), no desafio corporal de uma corrida atlética insana, almeja incisivamente a vitória olímpica , na crueza da resistência física e em meio à  confusão mental  e  às desarticulações linguísticas.

No fator conclusivo deste círculo de discursos comportamentais, a incômoda circunstância exposta em  Medusa, onde falham as tentativas de concentração introspectiva e catártica de um pretenso meditador  (Emílio de Mello) , nas frequentes interrupções por sonoridades invasivas e dispersão de pensamentos.

Nesta dramaturgia de sotaque tragicômico, o questionamento , em solilóquios insólitos, de nossas posturas convencionalistas e das inevitabilidades  da condição humana. Embora estruturados em passagens cênicas de  instantaneidade espacial e temporal, não escapando, assim,  de   certa superficialidade em seus delineamentos psicológicos.

Com uma encenação direta e seca, Monique Gardenberg desafia o imobilismo dos personagens e a prevalência do “Fluxograma” verbal marcando, com sólidos matizes, suas episódicas representações de conflitos na iminência  da dúvida e das surpresas abissais.

Contando com expressivo domínio de recursos técnicos – no quase cinema da realística cenografia( Daniela Thomas/Felipe Tassara) e da  cotidiana indumentária(Cassio Brasil), contrastando com efeitos metafóricos exercidos pelas luzes(acumulada pela direção) e  pelas incidências dos acordes  de cordas ( Philip Glass) .

Onde as caracterizações da miserabilidade da perda sensitiva em Deborah Evelyn, da patética submissão à adversidade em Luiz Henrique Nogueira, da opressiva inquietude em Marjorie Estiano e das instáveis  interiorizações de Emílio de Mello revelam perceptível intensidade confessional e convicto apuro dramático.


E nunca deixando fora do imaginário  de cada espectador    que estas emboscadas  de situações limites  podem estar, quem sabe , à nossa espreita na próxima esquina...

                                                  Wagner Corrêa de Araújo


FLUXORAMA está em cartaz no Teatro I do CCBB/Centro/RJ, de quinta a domingo, às 19h. 80 minutos. Até 12 de março.

PARA ONDE IR : ENTRE DESTINOS ERRANTES


FOTOS/LU VALIATT

O homem conquista sua felicidade sempre pelo sofrimento”. O emblemático questionamento de Dostoievsky com ressonância  no pensar  de Rimbaud : “Não creio no inferno, pois estou nele”. Sob o constante referencial  crítico de Brecht : ”Os senhores por favor, não fiquem indignados pois todos nós precisamos da ajuda dos outros, coitados!.”

A partir deste transcendente conceitual  – no difícil suporte da condição humana -  se estabelecem as linhas dramatúrgicas do monólogo Para Onde Ir .Em dúplice realização textual e cênica do casal Yashar Zambuzzi e Viviani Rayes, em que ele está na performance e é dela o comando diretorial.

Inspirando-se nas adversidades existenciais de Marmieládov , sob os estigmas da opressão como funcionário público e pelas decepções como pai de família, e não em Raskolnikov, o criminoso e torturado  protagonista mor do romance Crime e Castigo.

No  dimensionamento  cenográfico (acumulado, ainda,  por Viviani Rayes) , uma envolvente  proximidade presencial  do público numa taberna viva, onde um alcóolatra solitário compartilha seu ácido desabafo no diálogo afetivo com alguns espectadores.

Em sua sensorial e introspectiva representação dos recortes sombrios de um coração puro , Yashar Zambuzzi vai, assim, desnudando os dramas secretos de um ébrio, humilhado e ofendido pela vida . Replicando-se na filosófica fabulação dostoievskiana do ser humano que se defende crendo que só pelo desespero da dor se alcança a redenção.

Tornando enfática sua verdade interior de que é nesta catarse, entre o amor e a culpa, onde se encontra o consolo para as carências materiais e o perdão das pulsões à prostituição adolescente  e ao aborto, referendados na insistente citação do poema brechtiano A Infanticida Maria Farrar.

Na transição para o Rimbaud de “Uma Temporada no Inferno”, a metonímica metamorfose do destino errante  dos indefesos  em rebeldia  contra a maldição do satanismo terrestre. Num discurso de desmistificação, delirante, alquímico, impuro e demolidor de todas as ordenações sociais e religiosas, em visceral adesão ao Demônio e na recusa de ouvir Deus.

Entre o lamento confessional e a denúncia vertiginosa, entre o pesadelo realista e o onirismo abstrato, sem virtuosismos supérfluos, Yashar Zambuzzi faz uma vigorosa e instintiva entrega enquanto artista e personagem.

No contraponto de luzes ( Elisa Tandetta) moduladas na obscuridade , no recato de um figurino  (Rogério França) sutilmente puído e nas discricionárias incidências sonoras(Chico Rota).

Onde a apurada  e reveladora manipulação cênica(Viviani Rayes) de um microcosmo psicológico alcança o reflexivo  macrocosmo do trágico destino humano:

"A vida é uma miséria; uma miséria sem fim. Por que existimos ?... " ( Arthur Rimbaud em carta à irmã, em 1891 - ano de sua morte).

                                   Wagner Corrêa de Araújo



PARA ONDE IR  está em cartaz na Casa da Cultura Laura Alvim/Ipanema, de terça a sábado, 20h;domingo, 19h. 60 minutos. Até 19 de fevereiro.
NOVA TEMPORADA: na Casa de Baco, Lapa/RJ, de sexta a domingo, às 19h30m. Até 28 de maio.


UMA FLOR DE DAMA : CONTRA A PULSÃO TRANSFÓBICA


FOTOS/RODRIGO MENEZES

Ainda , em pleno século XXI, recebendo uma classificação diagnóstica de distúrbio medicinal, a postura do ser  transexual é exteriorizada  no pertencimento  temporário  a uma genitália que não é a de sua original fisicalidade biológica.

E , assim,  no discurso do travestismo prevalece a auto estima na atitude afirmativa de sua intrínseca sexualidade. Conceitualizada na alteridade erótico/afetiva do comportamento cotidiano  e no enfrentamento corajoso da dor  e do desconforto de um destino de exclusão.

Num percurso ácido desde os anos de bullying   psicológico – familiar, escolar e profissional – aos riscos existenciais dos malefícios físicos , suicidas  e assassinos.

Nesta retomada da questão transexual, Silvero Pereira, como ator, autor e diretor desnuda-se outra vez como travesti, tendo como mote inspirador um texto ficcional de Caio Fernando Abreu ( Dama da Noite) para titular o solilóquio dramatúrgico – “Uma Flor de Dama”.

Com um cáustico olhar , em oposição a uma tessitura mais poética que imprimiu, apesar dos pesares,  à sua viagem  memorial em BR Trans , dimensionam-se, agora, com maior crueza e descaramento,  os transtornos nas territorialidades do sexo duplo. 

Numa cronologia narrativa noite a dentro, três elementos cenográficos são auto referenciais  no vir a ser  da travessia  transgênica do ator/personagem. Um camarim onde ele se monta,burlescamente, com as vestes designativas do feminino e no mascarar–se  em visagismo  de  ambivalente anatomia genética.

Em tempo de tráfico como objeto de desejo sexual transgressor, na ostentação debochada  da representação transformista e no desafio afirmativo da prostituição pública .

A madrugada, de ferino desabafo e amarga rebeldia, numa mesa de bar com um imaginário cliente/espectador de inusitados fetiches sensuais transmutados, metaforicamente, na rejeição ou na cumplicidade silenciosa da plateia.

E o retorno , na solidão de um vaso sanitário domiciliar, ao seu eu hormonal na constância de um jogo fantasmagórico dos contrários, onde se pode ser sempre macho mesmo dando como fêmea.

Aqui até os  estereótipos assumem um contraponto crítico e viabilizam  uma action painting da trama dramatúrgica , sob  apoio dos recortes luminares do desenho claro/escuro de Renato Machado.

Onde a contundência das falas desbocadas, a afetação e a agressividade gestual, o kitsch risível  e a espontaneidade  irreverente da performance de Silvero Pereira tornam Uma Flor de Dama uma experiência estimulante.

Na qual, enfim, é impossível ficar  insensível ao desagrado e ao desagravo de suas  verdades.

                                     Wagner Corrêa de Araújo



UMA FLOR DE DAMA está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo, de quinta a sábado, 21h;domingo,às 19h. 60 minutos. Até 19 de fevereiro.

O TOPO DA MONTANHA: NUMA NOITE TRANSFIGURADA


FOTOS/ JULIANA HILAL

Eu vi a terra prometida, mas eu não posso chegar lá com você”. Nesta frase metafórica a previsão de uma trama enigmática e de transmutações, entre  o mais simplório cotidiano do comportamento humano e os sonhos míticos de um líder nos seus embates pela igualdade racial nos direitos civis.

Com ambientação no despojamento de um quarto de hotel sem aparatos,onde Martin Luther King acaba de chegar depois de  sua icônica pregação( I’ve Been to the Moutaintop) no púlpito de uma igreja em Memphis.

Imerso no questionamento sobre a continuidade de suas aspirações sociais ou na dúvida do pressentimento da morte próxima. O que seria  fato no dia seguinte -3 de abril de 1968 – interrompendo a trajetória existencial de breves 39 anos.

O Topo da Montanha”, da dramaturga ativista – Katori Hall , reúne, ficcionalmente , apenas dois personagens MLK ( Lázaro Ramos) e a camareira Camae  (Taís Araújo) . Numa apurada tradução (Silvio Albuquerque) que alcança um vigoroso dimensionamento cênico no comando mor de Lázaro Ramos, com o suporte precioso de Fernando Philbert.

O percurso narrativo acontece, inicialmente, como um jogo dialogal de enunciados absolutamente corriqueiros  no seu retrato carne e osso, sangue e vísceras, de um homem comum. Capaz de olhares concupiscentes para a empregada e  perturbado pelo odor fétido dos seus  pés, sem disfarçar suas fragilidades, suas dúvidas e pecados.

A parceria da serviçal hoteleira (Taís Araújo)  brinca, sutilmente,  com seus apanágios sedutores e, progressivamente, envolve MLK num clima de realismo mágico, entre uma postura de   ingênua risibilidade  e o desnudamento de uma atitude  surrealista  de anjo anunciador.

E é este equilíbrio, de tessituras tragicômicas, que estabelece uma delirante  imersão entre o sonho e o real, a ilusão das aparências e as percepções da falácia, num mergulho conceitual sobre o homem e o mito, a mortalidade e a esperança.

Tornando mais factível este confronto psicológico, absorventes soluções cenográficas (André Cortez), que na eficaz sobriedade dos outros elementos técnico/artísticos – figurinos( Tereza Nabuco),luz(Valmyr Ferreira) e score sonoro (Wladimir Pinheiro), materializam um discurso verista/celestial .

A convicta concepção diretorial impulsiona, com prevalente ritmo, as passagens entre estes dois estados sensoriais, da fisicalidade à pulsão do metafísico, transcendentalizados,   sobremaneira, no desempenho ,  de presencial apelo público, do carismático casal de atores.

Onde a  autoestima e a vaidade de um ser de exponencial dotação alcança, na vigorosa entrega de Lázaro Ramos ao seu papel, a oponente caracterização da insegurança e da incerteza na continuidade de sua missão político/apostólica.

Enquanto a verve humorística do personagem de Taís Araújo, afiada em mordazes injunções de angelitude e demonização, imprime um clima de inusitadas e  arrebatadoras  surpresas no sequencial dramatúrgico, numa das mais gratificantes e reveladoras performances da temporada.

                                                    Wagner Corrêa de Araújo


O TOPO DA MONTANHA está em cartaz no Teatro Sesc/Ginástico/Centro/RJ, sexta e sábado, às 19h;domingo,às 18h. 90 minutos. Até 19 de fevereiro.

SE EU FOSSE SYLVIA P.: DUAS VIDAS NUMA REDOMA DE VIDRO


FOTOS/PRISCILA  VILLAS  BÔAS

“Os frutos escuros giram e caem./O vidro se espatifa,/A imagem/Foge e aborta como gotas de mercúrio” – enigmáticos e proféticos versos como um enunciador epitáfio da trágica  trajetória existencial da poeta americana Sylvia Plath.

Marcada, na brevidade de seus 30 anos, pela interrupção voluntária entre  gazes  de um forno, na terceira e exitosa ação suicida , em 1963 .No seu inventário poético, as prevalências psicanalíticas das figuras patriarcais , desde um pai/ídolo que ela perde aos oito anos, ao seu  idealizado substituto masculino, o marido / poeta  Ted Hughes.

Mas , depois de passagens felizes – os dois filhos e a entrega absoluta ao ofício poético -  é tornada  vítima de surtos depressivos. Na angústia de seus questionamentos sobre a condição humana. E nos espectros atormentadores do ciúme, pelas traições de  Ted com a amiga comum  Assia Gutman.

Num processo de identificação com a criação artística e a vida de Sylvia Plath , Alessandra Gelio transubstancia em processo especular, na textualidade autoral de Se Eu Fosse Sylvia P. e na sua vivencia de atriz, este metafísico encontro de duas vidas .

Como se estivessem ambas na mesma  Redoma de Vidro”, num processo referencial memorialístico ao livro autobiográfico da escritora de Boston.

E reencontrando similaridades  cotidianas na morte do pai na infância, na tentativa de suicídio aos  vinte anos e nas turbações pelas incertezas de uma grande paixão amorosa. Isto sem falar nos seus próprios desnudamentos  poéticos , de proximidade intimista e confessional com o universo  de Sylvia Plath.

Dividindo com Cyntia Reis a sintonização cênica, entre nuances metafóricas e tessituras veristas, das possíveis verossimilhanças de duas trajetórias poético/existenciais, Alessandra Gelio concretiza uma sensorial e irradiante  transposição dramática.

Com perceptíveis alcances no  sensitivo protagonismo titular de Alessandra Gelio e no convicto contraponto feminino do papel de Teia Kane, na dúplice caracterização  das passagens das instabilidades amorosas, assim como na densidade que  Léo Rosa imprime à construção de seu personagem.

Contando, ainda, a artesanal  adesão de seus parceiros técnico/artísticos, no desenho sutil de uma luz( Renato Machado) entre  sombras , na eficaz sobriedade dos figurinos(Rosa Ebee/Tiago Ribeiro) e dos acordes / blues ao vivo por Fellipe Mesquita.

E, especialmente, no direcionamento onírico dos elementos cenográficos ( Elsa Romero) com sua materialização de signos poéticos entre Plath e Gelio, como a redoma/aquário de morte suicida, os potes aquarelados, suspensos como lampadários de sonhos  líquidos , e  os manuscritos literários para leituras comuns com espectadores aleatoriamente escolhidos.

Se Eu Fosse Sylvia P. se recomenda, enfim, por sua estimulante experiência jovem nos esforços pela renovação de nossos palcos.

                                                Wagner Corrêa de Araújo
                                               

SE EU FOSSE SYLVIA P. está em cartaz no Teatro Cândido Mendes/Ipanema, terça a quinta, às 20h. 80 minutos. Até 23 de fevereiro.
NOVA TEMPORADA: no Teatro Café Pequeno, Leblon, quartas e quintas, às 20h. Até 01 de Junho.

CABEÇA –UM DOCUMENTARIO CÊNICO: REVIGORANDO A MENSAGEM TITÂNICA

FOTOS/RICARDO BRAJTERMAN

A contribuição de Felipe Vidal à cena carioca , na sua incisiva investida em buscas dramatúrgicas do projeto Complexo Duplo, está sintonizada no seu postular e questionar, pelo  esclarecimento estético , momentos turvos ou caros de nossa contemporaneidade cultural e cidadã.

Como foi seu olhar  sobre o Tropicalismo em  “Contra o Vento – Um Musicaos”(2015) e ,agora, voltado ao rock dos Titãs em “Cabeça–Um Documentário Cênico”, instaurando outras perspectivas e um novo criticismo na abordagem formalista do teatro musical brasileiro.

Onde, ao mesmo tempo em que possibilita um dimensionamento nativo ao “teatro documentário” de Erwin Piscator, estabelece pontes coletivas - palco/plateia- de reflexões sobre um vir a ser contraditório, entre o idealístico sonhar e as mazelas manipuladoras da Nação.

Aqui, ao visitar , faixa a faixa, em três décadas de lançamento do emblemático LP dos Titãs – Cabeça Dinossauro, constata que aquele instante feroz do rock brasileiro, ainda, não viu a materialização dos convictos ecos de protesto e denúncia de uma geração hoje na idade meio centenária.

Evitando a prevalência  apenas do caráter lúdico/musical na transposição show><teatro das 13 canções da gravação original, os oito atores/performers musicais (Felipe Antello,Guilherme Miranda,Gui Stutz, Leonardo Corajo,Lucas Gouvêa, Luciano Moreira, Sérgio Medeiros) incluindo-se aí o dramaturgo diretor Felipe Vidal, fazem sua desaforada , enérgica e irradiante releitura do disco.

Este  jogo teatral vivo, resultante de um processo coletivo, maduro e necessário, no seu conteudístico embate de politização e confronto conscientizado, ao mesmo tempo, surpreende pela força instintiva e espontânea de sua representação.

E, ao fazer de sua encenação um fator propulsor de ideias e contestador de convencionalismos, atraindo também quando transita, acompanhado de visualizações, pelo inventário memorialístico de seus intérpretes.

Seus elementos técnico/artísticos revelam, assim, organicidade  na indumentária cotidiana(Flavio Souza), no referencial showbizz da iluminação ( Tomás Ribas) e do envolvente videografismo( Eduardo Souza).

Além do sensorial gestualismo(Denise Stutz)  vivenciado pela eufórica direção musical, de Luciano Moreira ao lado do mentor Felipe Vidal,  dublê de cenógrafo, acumulada com a performance e o comando mor.

Gritando todos visceralmente o seu discurso teatralizado em  Igreja, Estado Violência, Porrada, Massacre , Dívidas , Bichos Escrotos, entre outros tantos cantos ressonantes, nesta ópera/rock diferencial. Em reverberante lição contrária aos  paradoxos de um País na inversão conceitual , implícita e explicita, de sua Ordem e Progresso.

E que, diante de tanto delírio e caos, poderia melhor ressignificar este seu anátema  na irreverência laminar do paradigma  titânico:

O que não pode ser é o que não pode ser “.

                                                 Wagner Corrêa de Araújo


CABEÇA-UM DOCUMENTÁRIO CÊNICO está em nova temporada, no Teatro Ipanema,de sábado a segunda, às 20h. 110 minutos com intervalo. Até 20 de março.

FOREVER YOUNG: ASSIM FOMOS, ASSIM SEREMOS

PÁPRICA FOTOGRAFI
Duas constatações, talvez, para  pulsão inspiradora  do dramaturgo suíço Eric Gideon na composição de  um “musical terceira idade” sobre o universo, ancestral e antológico, do rock a que ele titulou Forever Young.

De um lado a iniciativa britânica, alguns anos antes, com a banda The Zimmers , para resgatar roqueiros, todos acima da faixa de 80 anos, abandonados por seus familiares ou , simplesmente, esquecidos em asilos e instituições psiquiátricas.

Paralela à proximidade do rock aos seus setenta anos desde que, em julho de 1954, Elvis Presley entrou em estúdio para gravar  That’s Alright Mama.

Ou , no contraponto da energia musical , do espírito libertário , do descompromisso jovem e  da descontração física, a reflexão de verismo melancolizado – assim éramos como ídolos, assim seremos nós, futuros idosos.

Dominados pelas fraquezas da fisicalidade, esclerosados pela acomodação mental, marcados pelas rugas e manchas senis mas, quem sabe, ainda assim capazes da redescoberta  de alegres tempos idos.

Desconstruindo as forçadas conformidades, as humilhadas sombras de  ancestrais trajetórias e  a utopia dos frêmitos da juventude num viajante revival.

Trocando seus palcos olímpicos pela íntima exiguidade  de um retiro.E valendo-se mais do aplauso recíproco de uma “platéia” auto referente nos seus cinco vocalistas , um pianista e uma enfermeira.

Onde, estereotipado no deboche aquarelado de seus figurinos (Paulette Pink) e de um visagismo bem humorado(Hugo Daniel),o elenco atua no décor de um espaço cênico(Rosa Berger) tributo ao teatro brasileiro, sob uma iluminação(Fran Barros) de discricionários efeitos.

Com os zombeteiros controles, nas entradas e saídas de Fafy Siqueira(a enfermeira), dos arroubos rebeldes dos velhinhos roqueiros.  Nos embalos do hippie eterno (Marcos Tumura), nos achaques senis dos personagens de Drayson Menezes e Claudio Galvan, nos desafetos do produtor (Jarbas Homem de Mello), na sutil resignação à passagem do tempo (Vanessa Gerbelli) e na superatividade nas acrobacias de tessitura vocal (Paula Capovilla).

Para driblar uma trama narrativa convencional, monocórdia e previsível, o comando diretorial (Jarbas Homem de Mello) é compensado, especialmente, pelo eficaz desempenho musical do repertório de clássicos do rock e convictas caracterizações cênicas de personagens caricatos .

E, claro,  por uma apurada execução pianística de Miguel Briamonte, com arranjos cativantes , capazes de tornar cúmplice a nostalgia dos “velhinhos” do palco e da plateia.

                                                 Wagner Corrêa de Araújo


FOREVER YOUNG está em cartaz no Teatro das Artes/Shopping da Gávea, quinta a sábado, 21h; domingo, às 20h. 90 minutos. Até 19 de fevereiro.
    

O PÃO E A PEDRA : POR UMA SENSORIAL TEATRALIDADE DIALÉTICA


FOTOS/LENISE PINHEIRO

Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão”- passagem emblemática do Evangelho Segundo São Mateus que dimensiona o intimo relacionamento religião / política na estruturação do “novo sindicalismo”, a partir da greve dos metalúrgicos no ABC paulista( 1979).      
     
Na pulsão anticapitalista do movimento operário, apoiado por um cristianismo progressista e lideranças estudantis, nos  ecos finais da ditadura militar, inspirou-se O Pão e A Pedra, espetáculo da Companhia do Latão.

E que, simbolicamente, foi gerido durante os controversos episódios, entre prós e contras, da recente queda do ciclo de prevalência no poder político do Partido dos Trabalhadores.

Com seu sólido esteio documentário , a peça focaliza os embates de um significativo número de operários sindicalizados em suas demandas ,como trabalhadores assalariados, diante das forças opressivas do capital.

Pairando sobre eles a liderança de Luís Inácio Lula da Silva, com sua presença metaforizada pela voz em off ,ao lado do seu referencial idealista convocatório sobre os mentores da greve.

Apesar do segmento conclusivo, no decorrer das negociações e para decepção de seus militantes, pela cessão e  recuo do ideário reivindicatório a favor da preservação e da sobrevivência da organização sindical.

A dramaturgia e direção de Sérgio de Carvalho revela perceptíveis nuances épico/dialéticas da cartilha brechtiana, com seu  didatismo claro e inteligente. Mas, em paralelo, evita os ecos coletivos meramente panfletários por um eficaz e pungente psicologismo  dos personagens.

O espaço cenográfico singularizado num picadeiro móvel ,  junto aos figurinos cotidianos e aos uniformes de ofício, empresta a esta dúplice realização (Cássio Brasil), as necessárias vivências entre a interiorização e o apelo social da montagem.

Ressaltadas , ainda, no desenho de luz vazado(Melissa Guimarães) e no  magnetismo do acordo textualidade / acordes vocais e instrumentais da trilha autoral ao vivo (Lincoln Antônio).

O desempenho estimulante, enérgico e emotivo do elenco esclarece os conflitos e consubstancia os personagens num jogo de interação e cumplicidade com o público. Alternando, com artesanal espontaneidade e contraponto crítico, os contrastes dramáticos  do status confessional nas posturas  frente ao  trabalho e à vida.

Se é possível destacar,pela relevância de suas personificações, o ceticismo de Ney Piacentini, a rudeza de Rogério Bandeira e a maleabilidade de Sol Faganello, há adesão, organicidade e convicção na performance dos outros companheiros/camaradas.

Tais como se estivessem todos a repetir como o personagem escravo de Eurípides , também um desfavorecido pelas injunções político/sociais:

Se não sou livre pela minha condição, sou pelo pensamento”.

                                                    Wagner Corrêa de Araújo



O PÃO E A PEDRA está em cartaz no Teatro III do CCBB/Centro, de quarta a domingo, às 19h30m. 170 minutos, com intervalo. Até 13 de fevereiro.

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