SÃO PAULO COMPANHIA DE DANÇA - COMO QUEM SONHA : SENSITIVO INVENTÁRIO GESTUAL SOBRE A PASSAGEM DO TEMPO


 



Cada uma das temporadas anuais da São Paulo Companhia de Dança é titulada a partir de reflexivos conceituais inspirados por temas filosóficos e literários, em ideário estético de sua criadora e diretora artística Inês Bogéa, numa trajetória que envolve a base clássica e os avanços da contemporaneidade coreográfica.

E assim, para o ano de 2026, a denominação Como Quem Sonha partiu de um belo pensamento poético da escritora Hilda Hilst - “Fazei com que eu me mova como quem sonha”. Sob dois referenciais programas elucidativos de duas épocas na história da dança.

O primeiro deles com uma releitura do argentino Mario Galizzi do clássico dos clássicos O Lago dos Cisnes, a partir de Petipa/Ivanov, direcionada em caráter exclusivo para a SPCD. E o segundo reunindo três obras coreográficas, começando por uma das mais celebradas criações de Jirí Kylian -Indigo Rose, tornada assim a terceira do mesmo autor apresentada na SPCD.

Completando-se a representação com uma das concepções autorais de um revelador nome da última geração da dança brasileira - Cassi Abranches - reapresentando o seu balé Agora, o  terceiro dedicado à SPCD.  Ex integrante-bailarina do Grupo Corpo que, após uma bem sucedida passagem por outras Cias neste oficio inventor, tornou-se novamente parte da Cia mineira, atuando ali como assistente coreográfica de Rodrigo Pederneiras.

E, como de hábito, a SPCD traz outra criação pensada para a Cia, a inédita O Som da Chuva, segunda das incursões, ali, da coreógrafa francesa de ascendência belga - Joëlle Bouvier, depois de Odisseia, 2018, destacando-se, em parceria artística com Régie Obadia, no panorama da Nouvelle Danse francesa.


Indigo Rose/ São Paulo Companhia de Dança. Jiri Kylián/Coreógrafo. Junho/2026. Willian Aguiar/Fotos.


O tcheco Jiri Kylián é um dos mais brilhantes nomes da dança contemporânea entre o final da segunda metade do século XX e as duas décadas iniciais do terceiro milênio, sempre com obras marcadas tanto pelo rigor técnico como pela ousadia de seu vocabulário coreográfico.

Indigo Rose, de 1991, é uma de suas composições mais diferenciais, não só pela conexão de linguagens coreográficas como por seu teor de simbólico expressionismo ao abordar a instantaneidade das transições existenciais a partir dos anos da juventude.

Conceitualizada com um olhar focado na jovial fisicalidade de bailarinos entregues a jogos energizados por  uma corporeidade imersa numa ambiência de fantasia no entremeio de um clima cinético. Impressionando pela força que é imprimida especialmente pela nova geração de bailarinos  no atual elenco da SPCD.

Onde a caixa cênica é atravessada por raios luminares incidindo sobre uma faixa central de seda, enquanto provocam pictórico efeito de um teatro coreográfico de sombras, ampliado por uma trilha que vai de efeitos eletrônicos a John Cage, passando por Bach e Couperin.

Recorrendo à temporalidade memorial, o segmento  Agora, de Cassis Abranches,  propõe um inventário, mais abstrato que propriamente narrativo, sobre as incursões físico/emotivas de uma personagem feminina secular que vê desfilar diante de seus olhos a completude de sua  trajetória existencial. Numa fisicalidade em movimento pelo espaço cênico, como se a exposição dos corpos dos bailarinos fosse direcionada por inventivos efeitos video-gráficos de uma ilha de edição.

O que é refletido especularmente como um dos sotaques cinéticos/cênicos da criação coreográfica de Joelle Bouvier estabelecendo liames entre suas duas obras na SPCD - Odisséia, de 2018, e esta última - O Som da Chuva - sinalizada, metaforicamente, sobre o sentido prevalente do universo do  amor em ângulo  feminino.

Paralelo à circularidade de uma temática que envolve as forças da natureza simbolizando as mutações dos relacionamentos através de uma trilha (Lucas Varin) de acordes sonoros que remetem a ventos e tempestades ao lado de temas melódicos amorosos, incluída a brasilidade musical de Manhã de Carnaval.

Ressaltando a magia de elementos cenográficos como os figurinos (Fabio Namatame), balões e um ancestral gramofone  O Som da Chuva, por suas nuances estéticas de uma surpreendente performance coreográfica, plena de fluência técnica-emotiva,  transmutando-se em valioso legado da SPCD para o acervo antológico da dança contemporânea em âmbito mundial...

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo


    Agora/São Paulo Cia de Dança. Cassis Abranches/ Coreografia. Junho/2026. Charles Lima/Fotos.

Abertura da Temporada 2026 da São Paulo Companhia de Dança, de 04 a 14 de Junho, no Teatro Sérgio Cardoso, seguindo em turnês nacionais e internacionais.

Nenhum comentário:

Recente

SÃO PAULO COMPANHIA DE DANÇA - COMO QUEM SONHA : SENSITIVO INVENTÁRIO GESTUAL SOBRE A PASSAGEM DO TEMPO

  Cada uma das temporadas anuais da São Paulo Companhia de Dança é titulada a partir de reflexivos conceituais inspirados por temas filosó...