A LISTA : CRÔNICA AFETIVA SOB UM REFERENCIAL DE TEMPOS PANDÊMICOS

A Lista. De Gustavo Pinheiro. Direção/Guilherme Piva. Janeiro/2023. Fotos/Bob Souza.


Reunir dois personagens cariocas solitários, típicos de uma dura realidade social de afastamento corporal e reclusão forçada pelo surto pandêmico mesmo que, num impulso subliminar de lugar comum, caracterizassem uma situação similar vivida àquele momento pela população em escala mundial, fez com que a peça A Lista se tornasse um verdadeiro fenômeno. Numa trajetória que vai das plataformas digitais, passa pelos palcos, devendo chegar em breve às telas e à sua publicação em livro (na coleção Dramaturgia da Editora Cobogó).

Desde sua estreia em formato reduzido, tornado padrão para o chamado teatro virtual, a partir do encontro cotidiano daquelas duas mulheres, representadas de um lado por uma velha senhora integrante dos grupos de risco, bastante temerosa de sair de casa, e de outro por uma vizinha mais jovem que se oferece, solidariamente, para efetuar as compras dela, segundo o enunciado  numa lista de supermercado.

Num dimensionamento de comédia dramática, criando um clima emotivo em que tanto a professora aposentada Laurita (Lilia Cabral) como a visitante da vizinhança - Amanda (Giulia Bertolli), marcada pelo sonho e frustração como cantora lírica, vão inicialmente se defrontando, no entremeio de reclamações sob alguns possíveis desacertos na encomenda, num desabafo dialetal de conflitos, expositivo da situação social e do difícil suporte da condição humana para cada uma delas.

Onde foi provocada uma onda mágica, desde o acerto na escolha das duas luminosas atrizes de gerações diferentes, ampliado de modo tocante na conexão familiar existente entre elas. Com forte apelo no carismático sincronismo entre as duas intérpretes, na vida real mãe e filha, tornando maior a empatia palco/plateia que se estabelece desde a primeira parte do espetáculo.

A Lista, de Gustavo Pinheiro. Com Lilia Cabral e Giulia Bertolli. Janeiro/ 2023. Fotos/Priscilla Prade.

E que na atual versão presencial se estende por mais dois momentos, perfazendo uma meia hora além da originária apresentação cinético - digital. Do clima insólito à causa da Covid-19 transcendendo, numa projeção espacial e temporal, da pós pandemia a um futuro imaginário. Sempre sob funcional sequencialidade narrativa, através de um convicto e seguro sustento direcional (Guilherme Piva).

Privilegiando marcas cênicas e indumentárias simbólicas (em dupla concepção de J. C. Serroni), como a plasticidade do uso de um assoalho domiciliar reproduzindo o design do calçadão de Copacabana, mais efusivo na parte paisagística tendo, ao fundo, motes referenciais, como o mar, as montanhas, o Pão de Açúcar, além do banco com a estátua de Drummond.

Através de efeitos luminares (Wagner Antônio) que variam entre tonalidades mais discricionárias a uma expansiva claridade solar e lunar nas cenas externas. Entremeadas com sutis ruídos marítimos, mais perceptíveis na sugestão paisagística da orla de Copacabana, além das inserções sonoras de temas musicais nostálgicos ao lado de clássicos acordes bossanovistas.

Com destaque na substancial qualidade de um texto dramatúrgico (Gustavo Pinheiro) capaz, antes de tudo, de ter crescente alcance sensorial por intermédio de linguagem exemplarmente cotidiana. Sabendo, ao mesmo tempo, como driblar as obviedades de um drama afetivo comum às duas e ao dia-a-dia de muitas outras mulheres, dentro de um contextual identidário extensivo a cada espectador.

Provando, mais uma vez, o quanto se tornou singular e reveladora a escrita de Gustavo Pinheiro, um dos autores de notória representatividade nos novos caminhos e da última geração dramatúrgica carioca e brasileira. Coincidentemente, A Lista divide o mesmo palco do Teatro dos Quatro, com mais uma temporada de A Tropa, outro de seus expressivos sucessos de público e de crítica.

Embora não se configure como uma estreia absoluta, não deixa de ser emblemático o fato de que A Lista, abordando um dos pânicos de uma terminal (des)governança, esteja abrindo, agora, com raro brilho, a Temporada Teatral 2023 dos palcos cariocas. Em ano ainda de grande esperança por novas perspectivas culturais e advindo logo após um pesadelo obscurantista que parecia nunca ter fim...


                                          Wagner Corrêa de Araújo


A Lista está em cartaz no Teatro dos Quatro/Shopping da Gávea, de quinta a sábado, às 21h; domingo, às 19h. Até 26 de março.

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