COPPÉLIA : DANÇANDO PALAVRAS E FABRICANDO SONHOS

FOTOS/ JULIA RÓNAI

A literatura, a poesia e o teatro sempre estabeleceram implícitas e sólidas  ligações com a história da Dança, desde as comédias de Molière ao romantismo, com suas sílfides, o sobrenatural e a magia dos contos de fadas, inspirando grandes clássicos do balé. No século XIX as maiores obras coreográficas nasceram de romances e contos, indo de Miguel de Cervantes (Don Quixote) e Théophile  Gautier (Giselle) a Charles Perrault (A Bela Adormecida) e E.T.A. Hoffmann (Coppélia e Quebra Nozes).

Desde sua estreia francesa em 1870, Coppélia resiste com seu viés de fascínio nas mais diversas versões, a partir da coreografia original de Arthur Saint-Léon. Desta incursão em releituras a partir do original participaram, entre outros, George Balanchine, Pierre Lacotte, Roland Petit, Enrique Martinez, incluindo-se uma concepção experimental, entre o cinema e o palco, pela cia. de balé Maguy Marin.

E até o cinema se aventurou numa celebrada adaptação - Dr. Coppelius, de Ted Kneeland, em 1966, subvertendo a trama original, com o protagonismo absoluto do mágico artesão, indicador de sonhos e manipulador de delírios diante de uma comunidade provinciana.

Esta trama de amor e magia retira do conto original de E. T.A. Hoffmann sua exclusiva nuance macabra, substituindo-a pela envolvência do clima de fantasia e mistério, quase ingênuo, em torno da curiosidade camponesa para desvendar os assombramentos internos da casa de um inventor de bonecos, numa aldeia cracoviana.

Nesta versão que o Balé do Theatro Municipal vem remontando desde 1981, a coreografia é a de Enrique Martinez concebida para o American Ballet Theater de Nova York, conservando as linhas mestras de uma obra prima do repertório desde a integralidade da partitura de Léo Delibes às bases academicistas do gestual clássico/romântico.

Extensível ainda à bela paisagem cenográfica, das cenas em ambiência aldeã aos interiores com fantasiosas surpresas da casa do Dr. Coppelius, sempre em clima  de encantamentos e, nitidamente, configurados sob marcas realistas por José Varona, responsável ainda pelos aquarelados figurinos de substrato romântico/folclorista.

A desenvoltura da condução orquestral da OSTM por Tobias Volkman soube bem como imprimir empatia no delineamento dos melodiosos acordes sinfônicos, no entremeio de impetuosas valsas, mazurcas e czardas, acrescidas do vigor de características danças espanholas e escocesas.


Enquanto o  Corpo de Baile do TM revela, aqui,  empenho e dignidade no desafio continuado desta sua difícil crise enfrentada já há algum tempo, em busca do resgate de sua tradição estética como única companhia oficial dedicada ao balé clássico no país.

Mesmo não tendo ainda retomado "au complet" um necessário alcance de unicidade e equilíbrio qualitativo entre seus componentes, tornando cada vez mais  premente a exigência de concursos ou mudanças regimentais para substituições e preenchimento de novas vagas para bailarinos.

Surpreendente, entre tantos reveses, nesta bem cuidada remontagem, com perceptíveis e bons resultados na recuperação de seus antigos atributos artísticos, pelo firme comando direcional de Cecília Kerche e na acurada supervisão geral e coreográfica de Dalal Achcar.

Onde o Dr. Coppelius, um personagem que traz, na trajetória histórica do BTM, o risco e o desafio da marca carismática de Dennis Gray, e que mais uma vez está sendo defendido, com bravura e raro apuro na representação de um papel de tipicidade  mimético/teatral, pelo múltiplo oficio do artista convidado - Tíndaro Silvano.

Este ator/bailarino, dúplice de coreógrafo mor, com instintiva exploração dos contornos histriônico/dramáticos do seu personagem, destacando-se ao lado do elegante frescor e do irradiante potencial de maturidade técnica e presencial artístico dos primeiros bailarinos Cícero Gomes (Franz) e Claudia Mota (Swanilda), alternando nos respectivos papéis protagonistas respectivamente com os não menos talentosos Filipe Moreira e Renata Tubarão.

Resistindo todos com assumida pulsão direcionada à reconquista do repertório de clássicos que sempre irmanou sua fiel plateia carioca. Na convergência de seus dotes individuais em energizado esforço coletivo pela redenção, agora, através desta Coppélia, oportuna referência memorial do Ballet do TM, no árido round de enfrentamento de uma luta que parece nunca ter fim.
                                       
                                            Wagner Corrêa de Araújo



COPPÉLIA/BALLET DO THEATRO MUNICIPAL/RJ, com  récitas dias 29/09, 05 e 06/10, às 17h; 01, 02 e 04 de outubro, às 19h. 150 minutos.

O DIABO EM MRS. DAVIS : MORDAZ RETRATO ESPECULAR DO STAR SYSTEM

FOTOS/LUCIANA MESQUITA

“Eu acho que Bette Davis provavelmente seria queimada como uma bruxa se ela tivesse vivido duzentos ou trezentos anos atrás”, palavras de um crítico inglês (E.Arnot Robertson) seu contemporâneo sobre o primeiro êxito cinematográfico Dangerous, de 1935, já imprimindo-lhe este signo psicofísico no decolar de carreira da atriz.

E que seria indelevelmente sequenciado na prevalência de um personalismo irascível, sob uma genialidade exaltada, em trajetória próxima de seis décadas e quase noventa filmes, desafiando, até mesmo nos seus anos crepusculares, os padrões comportamentais do então dominante star system hollywoodiano.

Capaz de assumir, com similar espírito de aguerrida luta e ambicioso empenho, o enfrentamento dos percalços, das batalhas familiares às superações profissionais, para ser, finalmente, reconhecida no triunfo estelar. E não atoa, ela própria definindo seu nascimento como um fenômeno de sortilégio bruxesco : “Um raio atingiu uma árvore na frente da casa no momento em que nasci”.

Ainda, e também, por seu humor cáustico, quando diz ter sido "sempre motivada por uma música distante - um  hino de batalha sem dúvida, pois estou em guerra desde o início". Mas sem se deixar dominar pela melancolia, nos seus relatos do legado memorial, encarado sob senso e contraponto crítico, no entremeio do sucesso artístico e da progressiva decadência atoral/física de uma veterana afastando-se dos refletores.

Através de inúmeros encontros públicos, em derradeira atividade, onde expunha em palestras as lembranças de seu ideário de atriz e mulher, com a mesma mordacidade de alguns de seus mais celebrizados personagens fílmicos. Estes, em sua maioria, sob singular referencial titular de simbiótica malignidade - A Perigosa, A Malvada, Pérfida, Com a Maldade na Alma, entre muitos outros.

E que serviram de substrato dramatúrgico para Jau Sant’Angelo no original monólogo O Diabo em Mrs. Davis, com seguro comando concepcional de Aloísio Abreu e substancial performance da atriz Andrea Dantas, na comemoração de seus quarenta anos de trajetória cênica.

Em espetáculo interativo sustentado por funcional sobriedade (Aloísio Abreu), capaz de transmutar o espaço da representação e da plateia em ambiência cenográfica única (Jau Sant’Angelo e Andrea Dantas), materializada apenas por uma mesa, com a indefectível caracterização da dependência de uma garrafa de uísque, uma poltrona e as cadeiras do auditório.

Tornando cúmplices o espectador e a atriz na proposta de sugestionar um “tête-à-tête” com Bette Davis numa de suas palestras dos anos 80. Sensorialmente ampliado pelo refinado visagismo (Walter do Valle) e o elegante suporte indumentário (Marcelo Marques) na indução de perceptível identificação psicológico-gestual entre a atriz (Andrea Dantas) e seu personagem (Bette Davis).

Convergindo para uma encenação direta e seca, na sua pulsão de intencionalidade irônica e de ferino humor, da textualidade de Jau Sant’Angelo à direção de Aloisio Abreu, fazendo Andrea Dantas avançar nos recursos histriônicos, com adequação física, instinto dramático e maturidade performática, longe de mero estereótipo imitativo.

Sabendo, outrossim, provocar o diálogo vivo entre duas atrizes e duas épocas, em despretensioso exercício teatral que, por sua irreverente e instintiva espontaneidade, é de palatável gosto para o cine-maníaco, como há de incitar lúdico deleite para o espectador.

                                              Wagner Corrêa de Araújo



O DIABO EM MRS DAVIS está em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim (Espaço Rogério Cardoso), terça e quarta, às 19h. 50 minutos. Até 2 de outubro.

MACUNAÍMA–UMA RAPSÓDIA MUSICAL : INSTIGANTE ATO DE RESISTÊNCIA À DEMOLIÇÃO CULTURAL

FOTOS/ ELISA MENDES

Como um clássico fenômeno de desconstrução investigativa dos paradigmas estilísticos e convencionalismos temáticos da literatura brasileira, Macunaíma, 1928, criação mor de Mario de Andrade pós Semana de 22, alcança agora, sua terceira versão sob as instancias de instauração do novo e do polêmico.

No entremeio do desafio de outros corajosos avanços estéticos, sob prevalente signo  inventor, depois das emblemáticas releituras para o cinema, com Joaquim Pedro de Andrade, 1969, para os palcos, por Antunes Filho, 1978, e desta vez pelo comando concepcional/diretor de Bia Lessa.

Meio século depois da visão cinematográfica e quatro décadas de sua primeira adaptação teatral, com a também não menos significativa Cia Barca dos Corações Partidos, adicionando ao seu elenco original um número similar de  sete atores, em brava investida cênica para tempos de crise e de retrocesso político-ideológico, aqui titulada como Macunaíma – Uma Rapsódia Musical.

Enquanto a adaptação dramatúrgica do livro para o Grupo de Arte Pau Brasil, em 1978, teve a chancela de Jacques Thiériot, cabendo a Antunes Filho a sua viabilização cênica, a responsável por esta recente transposição livro/teatro é Verônica Stigger.

Que ateve-se ao fio condutor do original literário, embora sujeito a um olhar mais armado na contemporaneidade, completado pela nuance mais transgressora de Bia Lessa, ao contrário do substrato mais ingênuo e primitivista, com um sotaque humoral chanchadesco, pelo ideário cênico de Antunes Filho.

Na transcorrência de uma progressão dramática em contextual cênico de rubricas ora soturnas, em irônico e, ao mesmo tempo, cáustico formalismo estetizante, ora de assumidos despudores na reiterativa corporeidade desnudada e no referencial sem amarras a uma livre sexualidade.

Mesmo que, por vezes, induza em certo prejuízo no desvio focal da narrativa literária pelo apelo desordenado às abordagens orgiásticas e às desnecessárias citações escatológicas. O que, felizmente, não chega a interferir na completude da dialetação palco/plateia, direcionada, sobretudo, a provocar a não acomodação diante de uma paisagem cênica sob o compasso de poesia e de pânico.

Ainda que a própria arquitetura dramatúrgica revele sua opção, a priori, em dar papel privilegiado à performance gestual e a uma teatralidade do corpóreo, ao contrário da incursão mais imersiva na narrativa ficcional e no aporte da invenção linguística, como no caso da paralela encenação de Grande Sertão:Veredas.

Com absoluto alcance na qualificação de um elenco de primeira linha unindo a trupe dos músicos/atores da Barca (Adren Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Eduardo Rios, Fabio Enriquez, Renato Luciano, Ricca Barros) à participação de mais outros sete integrantes. Confrontados entre a nudez frontal e os adereços indumentários de tropicalista rusticidade (Sylvie Leblanc, Maira Himmesltein e Bia Rovato). 

De irreprimível “ostentação cênica” (Bia Lessa) na funcionalidade imaginária do uso de elementos de base plástica, com propósitos de instalação performática, ao acerto dos efeitos luminares (Paulo e Pedro Pederneiras) além das audio-colagens e energizadas intervenções sonoras, ao vivo sob o empenho, sempre artesanal, de Alfredo Del-Penho e Beto Lemos, na direção musical, com uma valorosa participação adicional (O Grivo). 

Desde o entrelaçamento da fisicalidade nua dos atores com lonas negras na representação da poluição e da virgindade das matas, à envolvência abstracionista/geométrica de cubos  plásticos, sugestionando ambiências intimistas e espaços urbanos.

Onde tudo converge para uma pulsão, metaforizada sob transcendentalismo mítico, do universo lendário popular ao contraponto da consciência nacionalista através de um herói sem caráter, “satirizando o Brasil por ele mesmo", na afirmação autoral andradiana. Complementada por antológica seleção inspiracional que vai de Antunes Filho a Tunga, passando pelo expressionismo fílmico de Murnau e a dança/teatro de Pina Bausch, com destaque especial para o jogo cenográfico de caixas com poemas concretistas.

Na passagem da pureza, no substrato indigenista da floresta e da comunidade tribal, à sua conexão com desponderada e insana urbanidade da grande metrópole induzindo, enfim, oportunos encantamentos e sustos, reflexionados à luz das vivências controversas de um país em estado de assombramento e à beira do caos.

                                          Wagner Corrêa de Araújo



MACUNAÍMA–UMA RAPSÓDIA MUSICAL está em cartaz no Teatro Carlos Gomes/Centro/RJ, de quarta a sexta, às 19h; sábado e domingo, às 18h.  180 minutos. Até 13 de outubro.

COMPANY : SOB BRAVO ROUND DE ENFRENTAMENTO PARA TEMPOS DE CRISE


FOTOS/LEONARDO ROCHA

Company foi considerado um musical americano inovador nos anos 70, pela quebra da estrutura convencional, até então de prevalente linearidade dramática, ao privilegiar narrativas paralelas sobre conflitos afetivos em cinco casais, tendo como fio condutor uma comemoração surpresa do aniversário de Bobby.

Um solteirão chegando aos 35 anos e ainda incerto quanto a escolher sua própria companhia,  observa a passagem de seu relógio biológico refletindo, ao mesmo tempo, sobre alternativas e opções. A partir do presencial próximo de seu círculo de amigos e no indicativo favorecimento dos relacionamentos deles, indo de simples namoros ao convívio matrimonial.

Mordaz, humorada e irônica observação dos casos amorosos, do casamento e da solteirice, onde os temas musicais e as letras de Stephen Sondheim, inspirando-se num livro de George Furth, praticamente se limitam a comentar a ação, sem maiores avanços inventivos e sem a facilidade melódica de outras de suas criações.

O que, às vezes, torna Company uma obra de mais difícil acessibilidade no apelo ao imediato gosto popular, ampliado por sua reiterativa progressão dramática e quase nenhuma variação cenográfica. Com todos os personagens insistentemente locados na  ambiência doméstica do apartamento de Bobby.

Montado pela primeira vez, aqui, em 2002, pela dupla Moeller/Botelho, com melhores resultados nos palcos cariocas que nos paulistas, agora retorna com produção menos pretensiosa mas de perceptível qualificação em sua funcional simplicidade.

Onde o providencial comando mor de João Fonseca acerta mais uma vez, apostando num substrato concepcional substitutivo para época de crise, com um valioso suporte tecno/artístico.  

Reunindo da acurada direção musical de Tony Lucchesi à criteriosa escolha de intérpretes dos casais (Cristiana Pompeu, Stella Maria Rodrigues, Helga Nemeczyk, Anna Bello, Juliana Bodini e seus respectivos partners Claudio Galvan, Wladimir Pinheiro, Rodrigo Nice, Renan Mattos, Victor Maia).


E, ainda, na representação do tríduo das descompromissadas amigas em busca de um namorado (que poderia até ser Bobby), aproveitando os atributos de protagonismo vocal em seus papéis, as atrizes/cantoras Joana Mendes, Myra Ruiz e Chiara Santoro. Com um destaque especial para o alcance de modulações tonais na tessitura de soprano desta última, que vem se dividindo bem da cena lírica ao palco  musical.

Dando menores oportunidades musicais e concedendo melhor espaço como performance teatral para Reiner Tenente que, em seus quase  episódicos solos, transmite com sensorial espontaneidade o caráter mais inseguro, recatado e introspectivo de seu personagem.

Há que se notar também o relevante aproveitamento da mobilidade plástica de caixas de presentes sendo içadas do solo como um plástico recurso da concepção cênica (Nello Marrese). Mais a elegância no coloquialismo indumentário (Carol Lobato), potencializado pelo gestualismo coreográfico (Victor Maia) e ressaltado sob vazados efeitos luminares (Luiz Paulo Neném).

Em espetáculo certamente intimidado pelos recentes cortes de verbas e pelos já comuns desmandos censórios, mas tornado possível por brava resistência de seus idealizadores, no enfrentamento do desafio da busca de soluçoes para o teatro musical  brasileiro.

                                              Wagner Corrêa de Araújo



COMPANY está em cartaz no Sesc Ginástico/Centro/RJ, de quinta a sábado, às 19h; domingo, às 18h.150 minutos. Até 29 de setembro.

DIÁRIO DO FAROL – UMA PEÇA SOBRE A MALDADE : OU, COMO NÃO SE DEVE CONFIAR EM NINGUÉM


FOTOS/RAFAEL BLASI

O homem é o necessário câncer da terra,  citação autoral de João Ubaldo Ribeiro no entremeio de uma narrativa romanesca que inspirou potencial versão dramatúrgica, por obra e graça de Fernando Philbert  e Thelmo Fernandes sob o substantivo estímulo de Domingos de Oliveira.

Aqui sob a titulação de Diário do Farol- Uma Peça Sobre a Maldade onde, além de adaptadores, eles assumem respectivamente o papel direcional (Fernando Philbert) e a representação atoral (Thelmo Fernandes).

Para um investigativo e provocador espetáculo sobre a vassalagem humana ao mal no anonimato de um personagem com oficio sacerdotal, levado à força ao estágio religioso pela violenta insensatez de um pai e transmutado, assim, em protótipo da maldade tendo Lúcifer no altar.

E que se autodenomina como o portador da luz identificando-se com o Farol da ilha, lugar da sua vivência amarga de misantropo após transformar sua trajetória existencial em apanágio da maleficência, dos anos de seminário à missão colaboracionista ao regime militar de 64.

Sob as instâncias mais altas dos atos de radical crueldade com exercício do instinto assassino contra seus próprios familiares, e de parceria na tortura terminal nos calabouços da ditadura, capaz de vitimar sadicamente, instigado por feroz ciúme e desprezo, a única mulher (Maria Helena) a quem julgou amar e seu companheiro de ideário politico/guerrilheiro.

Atormentado pelo espectro de sua mãe morta em acidente falseado pelo marido para ficar com a cunhada, decide se vingar com atrocidades sanguinárias em todo seu circulo familiar, a começar da madrasta e de seus dois filhos, para culminar com o estrangulamento do pai, causa mor de seu ódio.

Completando um referencial que vai do pesadelo hamletiano, passando pela prática sadomasoquista, para convergir em artaudiana crueldade, temperada pelo pessimismo  nihilista e por ferina nuance de maquiavelismo. Pontuado por acordes soturnos e ironico contraponto de leveza em canções vocais ao vivo, na precisa trilha sonora de Marcelo Alonso Neves.

Em paisagem cênica (Natália Lama) sugestionada por transparências plásticas em camadas, ressaltando climas entre o sinistro e o assombramento nos efeitos luminares (Vilmar Olos), sob recatada indumentária (outra vez Natália Lama) que veste, com falsa pureza, o ignóbil comportamental do protagonista solo (Thelmo Fernandes).

Este na pele de um psicopata ou de inimputável alienado mental? Ou apenas no disfarce de sagaz manipulador de emoções odiosas que exteriorizam os mais baixos instintos da condição humana sob o signo da maldade sem eira nem beiras?...

Na irreprimível performance de um dos mais lídimos representantes de uma safra de craques da recente geração de atores brasileiros – Thelmo Fernandes, sabendo como imprimir veemência e frieza aos contornos de seu papel. Conduzido por artesanal comando de Fernando Philbert que se expande em cena, domina e atrai a cumplicidade do público.

E ambos, enfim,  guiados por luminosa chama de paixão e sólida técnica teatral com a missão de dar um necessário e urgente recado de alerta e pânico para tempos de perigosa expectativa à beira do abismo:

De qualquer forma, é bom lembrar que, mesmo eu morto, alguém como eu sempre poderá estar perto de você”.

                                              Wagner Corrêa de Araújo 


DIÁRIO DO FAROL – Uma Peça Sobre a Maldade - está em cartaz no Sesc Copacabana ( Mezanino), de quinta a domingo, às 20h. 70 minutos. Até 22 de setembro.

GRUPO CORPO/GIL : ESPETÁCULO TRIBUTÁRIO SOB INVESTIGATIVO FRASEADO MUSICAL/COREOGRÁFICO

FOTOS/JOSÉ LUIZ PEDERNEIRAS

Aproximando-se de seu quase meio século, o Grupo Corpo está de volta, agora com Gil, outra incursão sob o signo da afro brasilidade, em tributo coreográfico a uma personalidade  musical. Precedido pela remontagem de Sete ou Oito Peças Para Um Ballet, de 1994, com dúplice  base musical (Philip Glass/Uakti). 


Desta vez, na completude inventiva de um trabalho composicional inédito do próprio homenageado - Gilberto Gil - com o valioso apoio artístico de Bem e Flora Gil, a partir de uma particularizada releitura de seu legado musical. 

Com um ideário investigativo que não se atém à linearidade e ao imediatismo das facilidades melódicas identificativas de seus grandes sucessos mas, antes de tudo, misturando referencias e estilos reprocessados com o olhar armado na contemporaneidade.

Onde, como num jogo de adivinhação, o espectador/ouvinte apenas percebe sutis lembranças e passagens episódicas de seus temas mais populares, no formato de riff ou recorrendo ao refrão.  Que podem ir de Aquele Abraço ao Sítio do Picapau Amarelo, entre muitos outros, como Tempo Rei, Andar com Fé, Raça Humana.

Revisitados com substrato estético de rapsódia sob  tema e variações, num mix sonoro de ritmos afro-brasileiros, fraseados clássicos, jazzísticos e roqueiros. Aliando sonoridades erudito-eletrônicas com proposital convergência para um grande painel social dançante. 

Que vai da celebração ritual de Xangô (o orixá do compositor no Candomblé) às pontuações de samba, assumidas especialmente em contagiante solo feminino com modulações carnavalesco/passistas, além das ritmicas interveniências percussivas (rock/soul/funk).

Possibilitando um coeso encontro entre a palavra cantada, a música e o gesto, em envolvente fisicalidade sensorial/emotiva (Rodrigo Pederneiras) direcionada a um minimalista mas empático paisagismo cênico (Paulo Pederneiras),com abstrata plasticidade que favorece, sobremaneira,  o clima da representação. 

Ampliado no grafismo aquarelado dos figurinos (Freusa Zechmeister) extravasando bom gosto e que transmutam, ainda, a corporeidade dos bailarinos como potencial elemento cenográfico. Sob irradiantes efeitos luminares (na parceria Paulo e Gabriel Pederneiras), aqui mais solenizados, no entremeio de sombreamentos, em contraponto à explosão tonal de cores da primeira parte do espetáculo

Contando com a energizada performance de seus bailarinos, marca registrada da sólida trajetória do Grupo Corpo, Rodrigo Pederneiras dá vazão ao livre funcionamento de suas atitudes inventivas em outro espetáculo revelador da série dedicada e titulada em torno da reverência a grandes compositores. Sem delimitações de gênero ou época, configurando um rico inventário coreográfico dentro desta linhagem criadora.

Imprimindo sempre espontaneidade gestual e força interior a concepções coreográficas que vem resistindo ao longo dos anos sob uma assinatura original, simbolizada pela inicialização do movimento no quadril, dando partida a um gestualismo diferencial que se estende dos pés à cabeça.

Especificamente, no caso deste Gil, sob variado enfoque a partir da imaginária ritualística do candomblé em reiterativos batimentos de mãos e braços no peitoral e nos ombros. Num conceitual de configuração do impulso fisíco voltado ao chão, à solaridade, ao terreiro, em nítido contraste com os avanços espaciais da primeira peça, dando relevo a solos grupais no lugar dos duos, presenciais na performance precedente.

É afinal, outra vez, o Corpo numa gramática coreográfica em processo de resistência cultural, dando aquele abraço, com predestinação de surpresa e de claridade artística, para  tempos obscuros.

                                         Wagner Corrêa de Araújo


GIL / GRUPO CORPO, está em cartaz no Theatro Municipal RJ, de terça a sábado, às 20h; domingo, às 17h. 80 minutos. Até 15 de setembro.

DANCE>ME/BALLETS JAZZ MONTRÉAL : SENSORIAL TRIBUTO AO POP/LÍRICO LEONARD COHEN

FOTOS / OLIVIER SAMSON-ARCAND /THIERRY DU BOIS

Poeta, escritor e compositor, o canadense Leonard Cohen tornou-se, a partir dos anos 70, um símbolo de sua cidade, o que levou a conhecida cia. local  - Ballets Jazz Montréal – a prestar um dúplice tributo ao seu nome e à sua natalidade.

Dance>Me, pensado ainda em vida de Cohen, acabou estreando em 2017, um ano após a sua morte, e sob a titularidade abreviada de uma de suas mais enaltecidas composições - Dance Me To The End of Love.

Numa proposta dramatúrgico-diretora (Louis Robitaille) em que não há uma assinatura individual de partes da obra mas um embate criativo coletivo, reunindo quinze canções, em ordem cronológica, e um poema, além de citações literárias (audiovisuais) de Leonard Cohen.

Numa parceria criativa de três conhecidos nomes da mais recente geração coreográfica da dança contemporânea - Annabelle Lopez Ochoa, Ihsan Rustem e Andonis Foniadakis (este já conhecido por aqui, em tournée 2015, do Ballet du Grand Thèâtre de Genève).

Prejudicado apenas por seu exclusivo direcionamento a uma frenética e reiterativa gestualidade, de caracteres supra energizados, com pouco espaço para variações modulares mais sutis, em sua progressão atlético/dançante ininterrupta. Com assumido apelo a uma fisicalidade erotizada nas junções corpóreas e nas indicações fetichistas dos bastões de pole dance.


Onde a prevalência de uma rigorosa pulsão de movimentos impetuosos para dançar as palavras e os acordes de um compositor-poeta, mestre na tematização de amores e partidas, no entremeio de sensualidade, melancolizações e morte, é quebrada somente por episódicas pausas poéticas de reflexão e lirismo.

Presenciais no pas-de-deux (para a canção Suzanne) em emotiva performance com destaque protagonista para Céline Cassone. De belo alcance também na transposição de So Long, Marianne, representação que inclui a simbolização imagística de Cohen despedindo-se de sua eterna musa (Marianne Ihlen). Ele retorna, vez por outra, atravessando o palco, sugestionado por um bailarino em fraque e cartola 

E recorrente ainda em outros momentos icônicos de sua trajetória artística como Hallelujah, aqui num live mix de gesto, palavra e canto. Além de curioso referencial às velhas máquinas datilográficas em Tower of Song, potencializado em projecionismo visual de frontalidade cênica mostrando bailarinos soltos no espaço, sob camera lenta.

Aliás, o desenho luminar (Cédric Delorme-Bouchard) é um dos pontos altos da performance num palco vazio ladeado por refletores à vista, com telões móveis que sobem e descem possibilitando belos efeitos de luz e sombras. Enquanto os figurinos (Philippe Duboc) alternam a solenidade de ternos e chapéus com o peitoral nu dos bailarinos e trajes intimistas no naipe feminino.

Em espetáculo coreográfico que tanto pode desagradar aos mais radicais asseclas do predomínio lírico/composicional em Leonard Cohen como, ao mesmo tempo, alcançar a imediata cumplicidade palco/plateia, pela alta qualidade técnica da performance e pela fácil envolvência de seus extasiantes ritmos e acordes melódicos.

                                            Wagner Corrêa de Araújo


Dance>Me – Ballets Jazz Montréal, em tour por Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro (Theatro Municipal). 80 minutos. Até 08 de setembro.

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