CLARICE EM DÚPLICE CENA : DEIXA-ME SER , DEIXO-TE SER


FOTO/ARQUIVO FAMILIAR

A complexa interiorização do universo de Clarice Lispector se manifesta no reinventar a presença dramatúrgica da escritora, dividindo o seu “estar só”, na visível  escuta de seu silêncio pelo  outro, além do palco. Este universo literário teatralizado vem deixando um precioso inventário estético e memorialístico.

Formatado, especialmente, em solilóquios/monólogos que vão, entre outras incursões, de Beth Goulart e Esther Jablonski a Rita Elmôr . Passando, ainda, por singularizadas visões, ora com pulsão sacro/ritualística por Eduardo Wotzik , ora lírico/poéticas por Delson Antunes.  

Com vitoriosa  trajetória tanto no aplauso do público como na cúmplice adesão da crítica, duas destas encenações estão de volta aos palcos cariocas.


I - CLARICE LISPECTOR E EU - O MUNDO NÃO É CHATO

FOTO/RUBENS CAMELO

Quando, há dezoito anos, Rita Elmôr surpreendeu a cena carioca com sua envolvente busca de uma resposta ao metafísico questionar-se de Clarice – “Eu sou um mistério para mim” – ficou marcada ainda pela incrível similaridade física com a escritora.

E, assim, depois da performance primeira de 1998 em “Que Mistérios Tem Clarice” , ela retoma sua exteriorização das vivências de uma representação, entre  vida e  mito,  verdade e performance, na desafiante fisicalidade de uma metafórica escrita.

Desta vez, em “Clarice Lispector & Eu – O Mundo Não É Chato”, Rita Elmôr transcende a fórmula inicial, misturando fragmentos da escritora com suas próprias reflexões, num espetáculo revelador em sua sobriedade e despretensão.

A atriz , no  uso inteligente de sua semelhança visual com Clarice, faz uma entrega absoluta a esta personificação. Em linha dramática quase pirandelliana, na sua conduta  de mistura de identidade com a personagem assumida.

É como se Rita/Clarice fossem uma só, neste fluxo de frases entre a dramaturgia autoral e o referencial literário,  entre o “deixo-te ser  e o “deixa-me ser “. E é esta troca, de poéticos subentendidos, que faz irradiar a magia da proposta.

A prevalência do sensorial tem seu alcance ampliado nos achados singulares das fotos  de Clarice/ Rita projetadas ao fundo e no bom gosto do figurino (Mel Akerman). Além do minimalismo da composição cenográfica e dos efeitos visuais, entre sombras e luzes (na dupla concepção de Paulo Denizot).

Onde um núcleo de  trama simples, concisa e consistente, conduzida pela direção artesanal  de  Rubens Camelo, tem no sutil contraponto da intérprete e da personagem, um tom confessional  pontuado entre o lírico humor e a verdade interior.

Capaz, enfim, de estabelecer carisma e empatia com o público numa das mais sensíveis gramáticas cênicas da atual temporada.


II - MISSA PARA CLARICE-UM ESPETÁCULO SOBRE O HOMEM E SEU DEUS

FOTO/RICARDO BRAJTERMAN

Os auto sacramentais e os mistérios , inicializados com as passagens evangélicas  teatralizadas da vida de Cristo , ultrapassaram, especialmente a partir do período barroco,  a sua mera singularidade de tradição religiosa medieval .
Sua simbologia alcança,  assim , uma composição dramática cerimonial de estrutura alegórica, entre o sacro e o profano . Para celebrar o mundo, a natureza, os sentimentos humanos, além de todos os dogmas e rituais religiosos, numa  transcendente espiritualidade universal.

E é este o grande lance de dados da concepção dramatúrgica de  Eduardo Wotzik em Missa Para Clarice – Um Espetáculo Sobre o Homem e Seu Deus. Ao desnudar a profundeza filosófica e a subjetividade psicológica dos conceitos abstratos da obra de Clarice Lispector,  através de uma extasiante liturgia cênica.

Será que Deus sabe que existe?”. Esta metafórica imagem é um enunciado dos segredos que marcam Clarice e seu Deus. E já no prólogo do missal, a trajetória da santificação é induzida pela mensagem amorosa  da Macabéa , a protagonista/mártir  de A Hora da Estrela: “Na  pobreza do corpo e do espírito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu além”.

O celebrante Eduardo  Wotzik numa expressiva entrega sacrificial,com sua "batina” atemporal de pregador, conduz o ritual “católico”. Instaurando, como um arauto , de Elêusis ou de Cristo, a cerimonia dos mistérios e milagres de Clarice.

Neste seu desempenho de ator/diretor/mensageiro do divino , manifestado na contemplação da palavra interior , ele conclama a participação da plateia de  fiéis nas preces da bem aventurada Lispector –“Eu só rezo porque palavras me sustentam.  Eu só rezo porque a palavra me maravilha”.

As atrizes Cristina Rudolph e Natally  do Ó , como acólitos do diácono protagonista, em suas breves intervenções, estabelecem um imanente clima dialético com os espectadores/devotos das benditas espiritualidades da escritora.

O intensivo impulso criativo da direção de arte(Analu Prestes) acentua cada instante cenográfico desta envolvente epifania da palavra literária e do gesto teatral sacralizados.

Onde o  desenho das luzes (Fernanda e Tiago Mantovani) alcança um  maneirismo barroquizante, entre brumas e sombras de refletores e velas.E os acordes melancólicos da elegíaca Sinfonia n. 3 , de Gorécki, com seus cantos de dor, conduzem  ao clima místico idealizado.

Capaz, enfim, de estabelecer um ritual coletivo palco/plateia (sacro>espiritual>profano>físico) de  comunhão estética e louvação, entre as parábolas e  prédicas de Clarice:

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença... Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase... Receba em teus braços o meu pecado de pensar”.

                                    Wagner Corrêa de Araújo



CLARICE LISPECTOR E EU - O MUNDO NÃO É CHATO está em cartaz no Teatro Maison de France,de sexta a domingo, às 19h30m;domingo,às 19h. 60 minutos. Até 11 de março.

MISSA PARA CLARICE–UM ESPETÁCULO SOBRE O HOMEM E SEU DEUS está em cartaz no Teatro Laura Alvim/Ipanema, sexta e sábado, às 20h;domingo, às 19h30m. 80 minutos. Até 18 de março.

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