UMA FLOR DE DAMA : CONTRA A PULSÃO TRANSFÓBICA


FOTOS/RODRIGO MENEZES

Ainda , em pleno século XXI, recebendo uma classificação diagnóstica de distúrbio medicinal, a postura do ser  transexual é exteriorizada  no pertencimento  temporário  a uma genitália que não é a de sua original fisicalidade biológica.

E , assim,  no discurso do travestismo prevalece a auto estima na atitude afirmativa de sua intrínseca sexualidade. Conceitualizada na alteridade erótico/afetiva do comportamento cotidiano  e no enfrentamento corajoso da dor  e do desconforto de um destino de exclusão.

Num percurso ácido desde os anos de bullying   psicológico – familiar, escolar e profissional – aos riscos existenciais dos malefícios físicos , suicidas  e assassinos.

Nesta retomada da questão transexual, Silvero Pereira, como ator, autor e diretor desnuda-se outra vez como travesti, tendo como mote inspirador um texto ficcional de Caio Fernando Abreu ( Dama da Noite) para titular o solilóquio dramatúrgico – “Uma Flor de Dama”.

Com um cáustico olhar , em oposição a uma tessitura mais poética que imprimiu, apesar dos pesares,  à sua viagem  memorial em BR Trans , dimensionam-se, agora, com maior crueza e descaramento,  os transtornos nas territorialidades do sexo duplo. 

Numa cronologia narrativa noite a dentro, três elementos cenográficos são auto referenciais  no vir a ser  da travessia  transgênica do ator/personagem. Um camarim onde ele se monta,burlescamente, com as vestes designativas do feminino e no mascarar–se  em visagismo  de  ambivalente anatomia genética.

Em tempo de tráfico como objeto de desejo sexual transgressor, na ostentação debochada  da representação transformista e no desafio afirmativo da prostituição pública .

A madrugada, de ferino desabafo e amarga rebeldia, numa mesa de bar com um imaginário cliente/espectador de inusitados fetiches sensuais transmutados, metaforicamente, na rejeição ou na cumplicidade silenciosa da plateia.

E o retorno , na solidão de um vaso sanitário domiciliar, ao seu eu hormonal na constância de um jogo fantasmagórico dos contrários, onde se pode ser sempre macho mesmo dando como fêmea.

Aqui até os  estereótipos assumem um contraponto crítico e viabilizam  uma action painting da trama dramatúrgica , sob  apoio dos recortes luminares do desenho claro/escuro de Renato Machado.

Onde a contundência das falas desbocadas, a afetação e a agressividade gestual, o kitsch risível  e a espontaneidade  irreverente da performance de Silvero Pereira tornam Uma Flor de Dama uma experiência estimulante.

Na qual, enfim, é impossível ficar  insensível ao desagrado e ao desagravo de suas  verdades.

                                     Wagner Corrêa de Araújo



UMA FLOR DE DAMA está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo, de quinta a sábado, 21h;domingo,às 19h. 60 minutos. Até 19 de fevereiro.
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