RAUL SEIXAS – O MUSICAL : SOB UMA DRAMATÚRGICA "METAMORFOSE AMBULANTE" DE UM ÍCONE DO ROCK BRASILEIRO

 

Raul Seixas-O Musical. Direção/Dramaturgia/Leonardo da Selva. Com Bruce Gomlevsky. Abril/2024.Fotos/Dalton Valério.


Quase duas décadas após o exponencial êxito de sua versão performática de Renato Russo, Bruce Gomlevsky incursiona - em Raul Seixas - O Musical - por uma diferencial concepção dramatúrgica no entorno da vida e da obra de um dos mais emblemáticos nomes do rock brasileiro.

A partir de um belo ideário autoral e direcional de Leonardo da Selva, inspirado não só no texto das canções como nos diversos manuscritos do cantor - compositor, a peça se estrutura num processo investigativo livre do costumeiro registro cronológico e sequencial do musical biográfico.

O que lhe confere uma originalidade específica no dimensionamento da personalidade de Raul Seixas em narrativa imaginária sobre um dos possiveis atravessamentos solitários pela madrugada, na intimidade de seu estudio residencial, quando, então, são relembradas cerca de vinte de suas composições.

Intermediadas por seu pensar existencial, como artista e cidadão, sempre conectado com a problemática mundial voltada às vivências de seu próprio país, como um dos pioneiros do gênero roqueiro de marcas nacionalistas, ao lado de um caracter comportamental que o conceitualizou sob o signo de um “maluco beleza”, lembranças certamente originárias do Baú do Raul.


Raul Seixas-O Musical. Leonardo da Selva/Direção Concepcional. Com Bruce Gomlevsky. Abril/2024. Fotos/Dalton Valério.

O que possibilita conhecer o lado visionário de Raul sonhando ser reconhecido também como escritor, o que aconteceria mais tarde na prevalência da trajetória literária de seu parceiro letrista Paulo Coelho, enquanto caberia a Seixas o ofício reconhecido de um roqueiro desbravador de novos caminhos.

Inicializados em dúplice memorial, no legado do rol da fama, pela transgressiva temática de suas primeiras parcerias  com Paulo Coelho - “Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” ou “Sociedade Alternativa”, seguidas pela libertária exclusividade composicional de Raul levando, inclusive, à censura dos anos ditatoriais, no desafio de letras “Como Vovó Já Dizia”.

O que potencializa a envolvência de um enredo dramático/direcional (Leonardo da Selva) que transmuta o tema das canções de Seixas num compasso imaginário e, ao mesmo tempo realista, em proposta documentária/musical na sua junção de passagens da vida de artista com reflexões cotidianas do seu processo de criação.

Tudo aqui depurado pela solidez do tratamento sonoro dado por Gabriel Gabriel que é correspondido pela absoluta funcionalidade de uma banda, integrada por Ziel de Castro (guitarra), Maninho Bass (baixo), Júnior Monteiro (teclados) e Carlos Oliveira. (bateria), além da participação da cantora Sadili.

Dando vez a incidentais intervenções de acordes da lavra de Little Richard, Elvis Presley e Beatles, em arranjos para cordas, sopros e vozes corais extensivos aos temas musicais de Raul Seixas. Ampliados pela força gestual imprimida por Marina Salomão ao protagonista titular e pela indumentária característica da tipicidade do compositor e sua época no exotismo marcante de alguns elementos de sua indumentária (Maria Callou).

Completado  pelo brilho psicodélico das luzes (Gabriel Prieto) que levam a um imersivo mergulho numa caixa cenográfica (Nello Marrese) povoada por objetos que representam, plasticamente, o universo personalista de Raul Seixas e que lhe possibilitou muitas viagens ousadas e inventivas pelos espaços siderais da sua mente.

E que faz alcançar uma coesiva dialetação, entre as canções e a verbalização dos manuscritos, num tom confessional sustentado na autenticidade psicofísica de um irrepreensível intérprete (Bruce Gomlevsky).

Sabendo assumir seu personagem com cativante espontaneidade e vigoroso elan performático. Ecoando um carismático conluio coletivo palco-plateia ao  incorporar, convictamente, o icônico apelo de Nasci Há Dez Mil Anos Atrás :

Prefiro ser essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”...

                                                     Wagner Corrêa de Araújo


Raul Seixas-O Musical está em cartaz no Teatro EcoVilla Ri Happy/Jardim Botanico, sexta/sábado 20h; domingo 19h. Até 21 de abril.

3 comentários:

zieldecastro disse...

Que maravilha de espetáculo... Concordo plenamente com a análise... Parabéns!

Anônimo disse...

Nostalgia com certeza, momento muito maravilhoso com o Raul Seixas O Musical. Análise perfeitaaa...

Anônimo disse...

Que maravilha !!

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