PÉRSIA / GRUPO SOBREVENTO : ENTRE O MEDO NA DIÁSPORA IRANIANA E A ESPERANÇA NO BRASIL

 

Pérsia/ Grupo Sobrevento. Sandra Vargas e Luiz André Cherubini/Direção Concepcional. Abril/2024. Fotos/Marco Aurélio Olímpio.


Em tempos tão conturbados pelo radicalismo de insensatas ambições políticas, pelo retrocesso de comportamentos sociais sob o domínio do fundamentalismo religioso, acentuado na misoginia, no machismo e na repulsa às opções de identificação sexual, árida tem sido a situação do povo iraniano.

Isto se refletindo, especularmente, no desafio da busca de qualquer saída diante da ameaça das perseguições e até dos chamados tribunais revolucionários direcionando suas decisões judiciais, entre a vida ou a morte, àqueles que ousam pensar diferente do opressivo dirigismo governamental.

E é o pesadelo representado pela dramática odisséia de fuga desta diáspora, que inspira a última criação dramatúrgica do Grupo Sobrevento simbolicamente titulada como Pérsia, comemorando os 38 anos da Companhia, por intermédio de um belo ideário teatral de seus diretores/fundadores Sandra Vargas e Luiz André Cherubini.

Em espetáculo que inclui também em cena, os atores Mauricio Santana, Sueli Andrade, Liana Yuri e Daniel Viana. Num conceitual estético que exalta a liberdade através da milenar tradição poética e artística de uma nação forçada, por sua trajetória distópica, à aculturação migratória em outros países, no caso específico da peça o Brasil, conectando assim dois povos e duas culturas.


Pérsia/ Grupo Sobrevento. Sandra Vargas/Luiz André Cherubini/Direção Concepcional.Abril/2024. Fotos/Marco Aurélio Olímpio.

Num dimensionamento criador de teatro de animação que há quase quatro décadas tornou o Sobrevento um exemplar modelo brasileiro, estendendo suas apresentações a cerca de 40 países, incluído o Irã, em 2010, no conceituado Fajr Festival em Teerã.

Com este gênero cênico que se notabilizou a partir dos surrealistas e dos futuristas, onde os objetos passaram a ter autenticidade metafórica de almas próprias. Sacralizados, além de sua mera funcionalidade material, tanto nas artes plásticas e cinéticas quanto na criação teatral.

Indo muito além dos limites ancestrais do teatro de sombras e de marionetes, em novos signos cênicos que se classificam como teatro de animação ao possibilitarem, na manipulação e uso de objetos que, assim, transcendam seu significado inicial.

Aqui, na envolvência cenográfica (Luiz André Cherubini em parceria com Mandy) da poética plasticidade de uma árvore com seus galhos secos, centralizada na ocupação do espaço arena remetendo a uma paisagem desértica, que tanto pode sugestionar a terra deixada para trás como o sertão brasileiro.

Projetando sombras num sensorial efeito luminar  (Renato Machado) sobre um solo de areia onde são colocadas casinhas de papel para passarinhos figurando numa imagética, memorial e nostálgica, o passado vivido pelos habitantes, obrigados por diferenciais circunstâncias a um vôo de partida sem previsão de volta.  

Onde um destaque mais que especial é alcançado pelo apuro estilístico dos figurinos de João Pimenta na miscinegação de tonalidades aquareladas tanto da tradição persa/iraniana como brasileira, potencializados pelo presencial de instrumentos típicos das duas culturas musicais.

Em antológica trilha (no comando musical de William Guedes) executada pelos músicos/atores que se dividem entre cantorias e citações de poetas da Pérsia de ontem ao Irã de hoje, ao lado de versos brasileiros que vão de Manuel Bandeira a letras de Caetano Veloso.

A narrativa dramatúrgica (Sandra Vargas) tendo como base desde tocantes depoimentos de imigrantes iranianos em seu processo da aculturação, ao conluio das aspirações existenciais destes personagens reais com experiências confessionais dos próprios atores.

Tudo, enfim, tornando o Sobrevento maior ainda em sua qualitividade como teatro de animação neste seu alcance dramático  para nos fazer refletir sobre a tragédia vivida por tantos povos (acentuada agora pelos massacres na faixa de Gaza).

Forçados todos, por uma implacável rota do destino, a abandonar sua terra de origem na busca da esperança em outras plagas, tentando, apesar de tudo, redimir mesmo assim a lacuna irremediável desta separação...  

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo


Pérsia/Grupo Sobrevento está em cartaz no Sesc Arena/Copacabana, de quinta a domingo, às 20hs, até 21 de abril.

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