CIA DOS ATORES / "JULIUS CAESAR-VIDAS PARALELAS" : O PALCO COMO UM CAMPO DE BATALHA ENTRE PERSONAGENS E ATORES


Julius Caesar - Vidas Paralelas. Gustavo Gasparani/ Concepção Cênica/Diretorial. Janeiro/2023. Fotos/Nil Caniné/Batman Zavareze.



Espetáculo idealizado para comemorar os 35 anos da Cia dos Atores, com uma das mais sólidas e vitais trajetórias nos palcos cariocas e brasileiros, Julius Caesar-Vidas Paralelas está chegando na hora certa de um incerto e conturbado momento politico ainda vivido pelo país, após uma insensata tentativa de golpe contra as instituições  do sistema democrático.

Nesta sua retomada em cena de uma conspiração milenar que levou ao assassinato de Cesar, um general romano, pelos punhais nas mãos de Brutus e Cassio, sob a justificativa de que insinuava tornar-se ele um tirano como pretenso imperador, mas contestada por seu partidário fiel Marco Antônio, em visceral discurso no Senado incitando a multidão contra o crime político.

Ao mesmo tempo em que a concepção cênica/autoral do diretor Gustavo Gasparani (aliás, o responsável original pela fundação da reconhecida Cia dos Atores em 1988) conecta, com um simbólico referencial titular "Vidas Paralelas" à obra de Plutarco, a trama de Shakespeare em simultânea e metafórica ação dramática sobre as imperfeições da condição humana. Sustentando-se esta sobre os infortúnios causados por delirante ambição comportamental de cada um dos atores (todos sob nominações fictícias) em suas incontornáveis aspirações carreiristas nos bastidores cotidianos de um espetáculo.

Sem deixar de lado, um enfoque coloquial de reinvenção cênica em que os espectadores são envolvidos, presencialmente, tanto neste clima de intrigas pessoais como no desdobramento da narrativa de William Shakespeare, misturando-se na plateia com personagens e atores, tal como se integrassem, como testemunhas caladas, a revoltada turba romana.


Julius Caesar-Vidas Paralelas. Cia dos Atores. Suzana Nascimento, Gabriel Manita, Gustavo Gasparani, Tiago Herz (em pé). Isio Ghelman, Cesar Augusto e Gilberto Gawronski. Janeiro/2023.

Tudo numa envolvente ambiência cenográfica (Beli Araújo) sintonizada em clima de construção, ora pela proposital informalidade  indumentária (Marcelo Olinto), com o uso de peças de tecido superpostas sobre trajes atuais, para sugestionar sutil caracterização de tipos e de época, ora pelos personagens e seus respectivos intérpretes aguardando serem definidos no compasso de sequenciais ensaios.

Na funcionalidade de efeitos luminares (Ana Luzia Molinari de Simoni) extensivos à plateia e intermediados por projeções cinéticas (Batman Zavareze) desde flashes faciais a antológicos fragmentos fílmicos (algum deles possivelmente do clássico Júlio Cesar, de Joseph Mankievicz, 1953, em preto e branco), sobre manifestações de soldados e populares da Roma Antiga.

Com uma execução instrumental ao vivo pelos jovens atores/músicos Tiago Herz e Gabriel Manita, o último deles na coordenação destes energizados acordes percussivos, com um autoral sotaque pop/jazzístico, entremeados por inspirado solo de saxofone. E também participando do entrecho dramático por intermédio de ocasionais falas e atuações miméticas.

Completando-se o elenco  através da reconhecida maturidade de quatro atores dividindo-se, com especial maestria, na representação dos personagens principais do enredo trágico/histórico de Julius Caesar. Cesar Augusto, Gilberto Gawronski, Isio Ghelman, além de Suzana Nascimento (esta no papel da pretensiosa diretora da peça), cada um deles no alcance de um brilho performático mais estelar que o outro.

Em espetáculo ficcionalmente sendo concebido nas cenas de ensaio e de conversas atorais sobre adequação de personagens, ao lado de muitas crises de ataques de ciúme, brigas e decepção entre eles, na dúvida armada sobre as possíveis escolhas imaginárias da controversa mentora artística.

E, por vezes, provocativo com seu lastro memorial na exposição da popular ancestralidade de emblemáticos motes verbais tais como “Até tu, Brutus” ou versos de precisa advertência, ancorados no aqui e no agora : “Cuidado com os idos de Março”...

Num transcendente conceitual sob um recorte estético contemporâneo, a meta releitura dramatúrgica de Gustavo Gasparani, a partir das maquinações de personagens históricos na busca da legitimação do poder politico no entremeio das vaidosas relações interpessoais dos atores faz, enfim, deste Julius Cesar -Vidas Paralelas uma instigante reflexão sobre o processo investigativo da criação teatral.

 

                                          Wagner Corrêa de Araújo


Julius Caesar-Vidas Paralelas está em cartaz no Oi Futuro, quintas e sextas, às 20h; sábados e domingos, às 19hs. Até 12 de fevereiro

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