CIRCUNCISÃO EM NOVA YORK : RIR É A MELHOR CURA PARA TEMPOS ADVERSOS

Circuncisão em Nova York. Direção Jacques Lagoa. Abril 2022. Fotos/Rogério Fidalgo

 

Nesta retomada cênica, pouco a pouco deixando de ser tímida para os espectadores, até então exilados numa “prisão domiciliar”, nenhum remédio ou desabafo há de ser melhor que o riso dos palcos. Capaz de ser despertado, de forma pura, autêntica e unanime, por um dos mestres absolutos da comédia teatral brasileira.

Estamos falando, é claro, de João Bethencourt, muito mais nacionalista por sua nova opção pátria, afetiva e artística, que sua origem húngara. De sua lavra, pelo menos 40 peças autorais, além de quase uma centena dirigidas, em mais de meio século sem interregnos, para o bem de todos e felicidade geral do teatro destas plagas tropicais.

Nos saudosos anos da TVE, quando era diretor de um de seus programas mais prestigiados e tradicionais – Cadernos de Cinema, tive o privilégio de ter este dramaturgo mais de uma vez, como um convidado de luxo das rodas inteligentes de conversa, após a exibição do filme, conduzidas pela competente apresentadora Vera Barroso.

Pois, agora, em temporada que se estende até o final deste mês, o público carioca tem a chance de tomar contato com uma das suas exemplares comédias de costumes, nas quais João Bethencourt se especializou e foi, sempre, de uma maestria incondicionalmente categórica.

Trata-se da peça Circuncisão em Nova York, uma das últimas obras de João Bethencourt, com direção de Jacques Lagoa e um elenco que reúne sete nomes destacados de gerações  diversas. A saber, Sílvia Massari, Sérgio Fonta, Daniel Barcelos, Carlos Loffler, Narjara Turetta, Danton Lisboa e Roberta Foster.

Numa concepção cenográfica hiper-realista por Augusto Pessoa, dividindo-se no oficio pelo figurino básico sob um sotaque cotidiano, mostrando a intimista sala de visitas domiciliar de um casal judaico, em Nova York, devassada sob uma vazada iluminação e uma oportuna música incidental (Guilherme DelRio). 

Mais ou menos sugestionada pelo final do século XX, quando tinham se ampliado as liberdades de escolha da identidade sexual ainda, assim, desafiando um resistente conservadorismo social e familiar que persiste até hoje. Especialmente causados, aqui, pelo retrocesso não apenas no setor cultural mas nos desatinos arcaizantes e risíveis de um pretenso Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos.

Numa trama que mostra um casal de mulheres sexualmente assumidas resolvendo ter um filho pela inseminação artificial de uma delas. E as consequentes reviravoltas, em clima de prevalência farsesca, do desvendar do fato à cerimônia tradicional judaica (Brit Milá) da circuncisão do recém nascido.


Circuncisão em Nova York. De João Bethencourt. Abril 2022. Fotos/Rogério Fidalgo.

O espetáculo tem um andamento assumidamente leve, sustentado na visão lúdica e irônica que a direção (Jacques Lagoa) imprime, sob ritmo progressivo de traços bem humorados, nos sustos provocados por posturas comportamentais fora dos padrões hebraicos conservadores, considerados quase religiosos ou éticos, como signos da conduta dia-a-dia.

Sabendo o elenco preencher os contornos da comicidade de seus personagens, com as nuances do riso que nasce das peripécias e das frases ambíguas. Como a matriarca (Sílvia Massari) extravasando preciso senso burlesco ao disfarçar o segredo sexual de sua filha (Narjara Turetta) diante do patriarca (Sérgio Fonta), cujo moralismo melodramático é revelado em convictos recursos atorais.

O casal feminino (Narjara Turetta/Roberta Foster) destacando-se por sua representação de irreverente postura, enquanto o elenco coadjuvante masculino se enquadra com acerto na exploração dos mecanismos de uma narrativa de humor. Com uma especial referência na performance, plena das possibilidades humorísticas e  histriônicas, de Carlos Loffler.

Depois do pânico pandêmico dando sinais de seu ansiado epílogo, motivo maior de comemoração são os teatros sendo reocupados num saudável e necessário reencontro palco/plateia. Compartilhando das emoções psicofísicas que quaisquer tramas, sejam dramáticas ou farsescas, poéticas ou políticas, provocam entre o riso e a reflexão.

Neste ritual de volta, tão sagrado quanto o Brit Milá, um  viva e um bravo ao Teatro de ontem e de hoje...  


                                               Wagner Corrêa de Araújo




Circuncisão em Nova York está em cartaz no Teatro Vannucci, Shopping da Gávea. Às quintas feiras, 20hs. Até 28 de abril. 

Um comentário:

Tribo do Teatro disse...

Que maravilha de crítica, Wagner. Lúcida, clara e oportuna!Obrigado por suas palavras ao nosso trabalho e ao de toda a equipe.Interpretar um personagem de João Bethencourt com o porte do Abraão, que tenho a felicidade de fazer, é uma bênção para todos os atores. Como diz o ditado, rir é o melhor remédio. Ir ao teatro também! Viva a dramaturgia, viva a comédia, viva o teatro. (Sergio Fonta)

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