DISFARCE E DENÚNCIA PELA MAGIA DRAMATÚRGICA

CRÔNICAS DE NUESTRA AMERICA. Setembro 2014. Foto/ Marina Andrade.
                                 
Nos anos 70, diante do surto de regimes ditatoriais na América Latina, o artifício da oportuna utilização da palavra literária, por trás dos seus múltiplos segredos com significados mágicos, promovia uma guerra invisível a todas as formas de censura e coerção.

Desenvolveu-se assim uma literatura, de arroubos estilísticos, em que a simbologia narrativa transformava a então opressiva realidade cotidiana num fantástico universo onde, só assim, todas as coisas podiam ser ditas.

Era o chamado Realismo Mágico, com predominância argentina (Júlio Cortazar e Jorge Luis Borges) e colombiana (Gabriel Garcia Márquez), com ecos no Peru (Manuel Scorza), em Cuba (Alejo Carpentier) e na Venezuela (Arturo Uslar Pietri).

Mas com importantes nomes no Brasil, no texto absolutamente ficcional de Murilo Rubião e J.J.Veiga e, também, mostrando seus reflexos nas criações dramatúrgicas e nas crônicas da imprensa diária, como foi o caso do escritor e dramaturgo Augusto Boal.

De seu exílio na Argentina, ele enviava para O Pasquim, irônicos relatos ficcionais de caprichada estética linguística que, mais tarde, integrariam o livro Crônicas de Nuestra America (1977).

E que acabou, quase quatro décadas depois, servindo de inspiração para o envolvente espetáculo com o mesmo nome, em adaptação de Theotonio de Paiva e dirigido, com artesania, por Gustavo Guenzburger.

Um marinheiro inglês John Sutherland (Henrique Manoel Pinho e Lucas Oradovschi) supre, nas ilhas Falkland, a nostalgia de seu exílio, com a aventurosa trajetória de desocupado em terra estrangeira, entre amigos de botequim, amores ciumentos e traiçoeiros galanteadores.

Com marca presencial, num convicto elenco (incluindo ainda, no naipe feminino, Adriana Schneider, Clara de Andrade, Carmen Luz e Larissa Siqueira), todos se destacando por dinâmico gestual cênico.

Em funcional performance que ocupa ainda um inventivo cenário instalação quase suspenso no ar (Dani Vidal/Ney Madeira) - que remete ao cinema surrealista, anos 20, de René Clair, com uma climática luz (Paulo César Medeiros) e sugestivo score musical (João Gabriel Souto).

Tudo, enfim, viabilizando um saboroso roteiro dramatúrgico, com ferino e inteligente humor que cria empatia com a plateia, provocando uma reflexão político/filosófica, por trás do transcendente silencio da palavra literária transmutada em ruidoso e significante clamor teatral.      
     
Outro texto essencial destes anos de pesadelo é Em Família, de autoria de Oduvaldo Vianna Filho, original de 1972, retornando aos palcos numa concepção de Aderbal Freire-Filho que, numa homenagem ao Teatro de Arena, berço de grandes e incisivos momentos teatrais, é titulado, aqui, de Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum.

A propósito da temática nominativa, uma espécie de referencial a uma obra musical, curta mas emblemática, do compositor americano Aaron Copland – “Fanfarra Para o Homem Comum“ onde, apenas com metais e percussão, ele faz um expressivo tributo a um cidadão qualquer, ao mais comum dos homens, àqueles aos quais o destino não diferenciou de qualquer dos outros mortais.

Os personagens desta comédia dramática são exatamente estes homens comuns, seres impotentes diante dos reveses do cotidiano vivendo este dia a dia sem ambições, combatentes mais preocupados em alcançar sua vitória na batalha pela sobrevivência material .

Aqui, o que importa é fazer marchar a máquina da vida compensando com as alegrias do convívio familiar, a difícil luta existencial, sem casa própria, com contas a pagar, entre as dores, defeitos e desafetos. E onde os pais transformam em prêmio a partida dos filhos, ainda que em troca de solidão e abandono.

Enquanto isto, o casal de idosos (Cândido Damm e Vera Novello) vai sendo aniquilado pela carência de recursos que o obriga a trocar o acolhedor ambiente original do lar por um recanto na casa dos descendentes, primeiro passo para o isolamento terminal num asilo de última idade.

A nuance melodramática que o tema faz convergir no roteiro dramatúrgico tem, na versão atual, um proposital distanciamento brechtiano, simbolizado aqui, ora por um cenário minimalista (Fernando Mello da Costa) sob efeitos luminares (Paulo Cesar Medeiros) que evita a prevalência do realismo, ora pela presença permanente em cena de todos os atores e, especialmente, pelo acréscimo de um palhaço (Kadu Garcia). 

Este último, com suas instantâneas entradas em cena interfere na ação, como se interrompesse a trama remetendo à frase operística de I Pagliacci -"La commedia é finita”, provocando assim a reflexão da plateia. A impotência dos familiares diante do destino reservado ao casal idoso é acentuada, ainda, pelo nostálgico score musical de Tato Taborda.

E o equilibrado e acertado domínio cênico do elenco (incluindo-se aí, Isio Ghelman, Paulo Giardini, mais Ana Velloso e Beth Lamas) torna visível a inventiva proposta estética da direção de um espetáculo em processo construtor, onde a cena fatalmente remete ao ato de heroísmo do homem comum arquitetando, cotidianamente, a sua própria trajetória existencial.

                                              Wagner Corrêa de Araújo

VIANINHA CONTA O ULTIMO COMBATE DO HOMEM COMUM. Julho 2014 . Foto/Guilherme Gazzinelli. 

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