ESTADO DE SÍTIO : ALEGÓRICO MANIFESTO CONTRA O AUTORITARISMO

FOTOS/ JOÃO CALDAS

Já na sua estréia parisiense, em 1948, a peça Estado de Sitio refletia um substrato temático aproximativo do romance A Peste, do ano anterior, ambos da lavra de Albert Camus. Em relatos, ora ficcional, ambientado em Orã, na Argélia, ora dramatúrgico, desta vez em Cádiz, na Espanha, quando as duas cidades enfrentam o violento surto de uma doença epidêmica e o advento de implacável onda de autoritarismo.

Enquanto a narrativa romanesca impressionara o pensamento político, tanto da esquerda como da direita, como aos adeptos do movimento existencialista, do qual fazia parte intrínseca o escritor, a peça não teve a receptividade esperada. Foi considerada de exacerbado subjetivismo discursivo em torno do pensar filosófico/ideológico de Camus numa época em que a vanguarda inventiva era o sensorial impacto da psico-fisicalidade, presencial no Teatro da Crueldade de Artaud.

Idealizada em tríplice modulação, indo da chegada de um cometa e seus funestos presságios, na trajetória para uma fase de totalitarismo governamental, sob as instâncias da peste e da morte, ao epílogo, com a derrota deste domínio nefasto e a catarse pela volta da liberdade.

Havendo, em sua escritura cênica, uma recorrência ao coro grego para explicitação dos progressivos desmandos tirânicos, da supressão do livre pensar, da contaminação endêmica, da covardia diante dos valores impostos e no enfrentamento da calamidade pela resistência, com a vitória do amor solidário na cena final.


Mais uma vez, o artesanal comando dramatúrgico de Gabriel Vilela, como de hábito, privilegia o apuro visual na plasticidade de seus figurinos autorais com elementos barroquistas e recortes burlescos/circenses, compondo uma paisagem cenográfica (J. C. Serroni) de apelo onírico. Ampliada na imaginária grotesca da mascaração (Claudinei Hidalgo) com acentuação do clima de horror fantástico pelos efeitos luminares (Domingos Quintiliano).

Com metafórica simbologia, de poesia e pânico, na passagem do cometa que, aqui, é representado como a figura espectral de uma noiva de branco, na envolvente figuração do ator Nathan Milléo Gualda. Predestinando o trágico destino que se abate sobre os habitantes de Cádiz com a governança da Peste (Elias Andreato) e sua secretária a Morte (Claudio Fontana), em carismática performance destes atores.

Outro personagem de icônico apelo niilista é o Nada, com suas ébrias admoestações de mordaz cinismo, em irreprimível atuação de Chico Carvalho, estabelecendo liames entre a filosofia nietzschiana e o ideário existencialista, com sua negação de um sentido para a condição humana diante da crueldade da vida onde “Não há nada mais verdadeiro que a morte”. 

Como contraponto crítico, no entremeio destes papeis de absurdidade e sarcasmo tragicômico, Diego (Pedro Inoue) e Vitória (Nabia Villela) representam a esperança na redenção pelo amor, ainda que sem a mesma força do dimensionamento psicológico do transcendente tríptico protagonista.

Tanto na progressão dramática como no score musical, a visão concepcional de Gabriel Vilela revela um assumido referencial estético dos autos sacramentais espanhóis medievos ou gongóricos, como nas peças de Lope de Vega. Contando com o apoio valioso de uma cuidadosa direção musical (Babaya e Marco França).

Potencial, especialmente, na polifonia do coro de teatro grego, apresentando cânticos ancestrais, ora ciganos, ora judaicos, ora de teor revolucionário como o Hino da Resistência Francesa. Com um destaque absoluto na tessitura dos recitativos e vocalizações femininas das atrizes/cantoras Nabia Villela e Rosana Stavis.  

Apesar de ter sido escrita não como um reflexo mais especular do então findo pesadelo nazista mas como uma advertência ao continuísmo ditatorial fascista/franquista simbolizado por Cádiz, nestes seus setenta anos, a peça Estado de Sítio  continua ecoando seu grito de alerta como manifestação de um instante feroz do coletivo.

Contra todas as formas contagiosas do totalitarismo politico, do revanchismo religioso/moral, do obscurantismo cultural, do desprezo às diferenças,  sendo mais que oportuna esta sua volta quando o cotidiano de uma nação, sitiada sob o pestilento risco do medo, vai se tornando insustentável...  

                                        Wagner Corrêa de Araújo


ESTADO DE SÍTIO está em cartaz no Teatro Sesc/Ginástico/RJ, de quinta a sábado, às 19h; domingo, às 18h. 90 minutos. Até 28 de Julho.

Comentários

Carlos Augusto disse…
Obrigado, Wagner !
No Rio de Janeiro, a atriz Mariana Elizabetsky foi substituida pela atriz Nábia Vilela.

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