INSETOS: COM NOSSAS MESMAS MAZELAS


FOTOS/ELISA MENDES

As doutrinas anímicas acreditavam que as potencialidades espirituais não eram exclusividade dos humanos mas de todos os seres vivos povoadores dos espaços terráqueos.

Enquanto mergulhados nos delírios e fantasias da meninice resistimos, sempre, acreditando na identificação com bichos e plantas em diálogos imaginários, alimentados pelos contos infantis e pelas animações dos quadrinhos, das projeções nas telas e das representações teatrais .

O ficcionista britânico George Orwell transmutou em anseios políticos e de afirmação de classes sociais a insurreição anímica contra os donos de um granja inglesa, nos anos 40, em sua Revolução dos Bichos.

Mais recentemente, em 2009, um espetáculo do Cirque du Soleil titulado Ovo, concepção coreográfica de Deborah Colker, sob a marca da biodiversidade,  colocava em cena bailarinos-ginastas atuando como uma comunidade de acrobatas-insetos.

E, agora, Jô Bilac retoma o tema ao apresentar sua mais recente incursão dramatúrgica – Insetos – estabelecendo uma travessia orgânico/cênica comparativa com as mazelas da nossa contemporaneidade, sem distinção se entre bichos ou para homens.

Que vem muito a propósito para celebrar os 30 anos da Cia dos Atores, onde houve por bem a envolvente montagem de outro Jô Bilac – Conselho de Classe, em  2014. E, aqui, dentro de uma proposta de criação coletiva com a participação dos atores fundadores da trupe –Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Marcello Valle e Susana Ribeiro - e com a convocação de um comando diretorial da hora - Rodrigo Portella.

Diante de um caótico sistema de vida universal, quase já insustentável, sujeito a lutas territoriais e êxodos entre os povos, desrespeitador do equilíbrio ecológico, especular no próprio conceitual das relações humanas e da preservação da natureza como um todo, homens e insetos se identificam nas mesmas adversidades e nos mesmos desafios.

Como num holocausto, baratas sucumbem em ações de extermínio por gazes, ou são extirpados os que são mais frágeis, como as borboletas, pelos mais fortes - besouros guerrilheiros, gafanhotos terroristas ou um louva a deus tirânico. Enquanto as abelhas expulsas de seus habitats voam sem rumo, outros insetos sonham com o paraíso português e aí qualquer analogia brasileira não é mera coincidência.

Inventiva ambiência cenográfica (Beli Araújo/Cesar Augusto) numa instalação plástica à base da mobilidade de pneus, se integra aos figurinos lúdicos(Marcelo Olinto) com leves traços de atributos referenciais destes micro seres(entre asas e antenas), sob luzes entre sombras(Maneco Quinderé). Aos quais se juntam os enérgicos acordes da trilha de Marcelo H e as sutilezas gestuais miméticas de Andréa Jabor.

A tamanhos e tantos ingredientes, acrescente-se a força de performances empenhadas na entrega à unicidade de uma ideia dramática diferencial: Cesar Augusto, Susana Ribeiro, Tairone Vale e na alternância entre os Marcelos, Valle e Olinto, o último em incisivo molejo de sua físico/emotiva corporeidade como homem/inseto.

Mas apesar de tantos atributos técnico/artísticos que fazem sobressair o esforço comum de elenco e direção por um produto bem acabado fica, ainda assim,  uma sensação de certa incompletude nas intenções textuais/dramatúrgicas deste Insetos

Que não se expande totalmente em cena e não alcança um retorno mais cúmplice do público, ampliado pelo estranhamento de um espaço improvisado e com pouco favorecimento para a percepção teatral.

Faltando, enfim, um tom acima na convicção de uma boa ideia temática que fica, em meios vôos,  na dosagem entre o irônico e o ingênuo, carecendo de maior avanço em seu contraponto crítico e no investimento estético/ideológico pelo desentorpecimento em tempos tão teimosos como os nossos.

                                         Wagner Corrêa de Araújo




INSETOS está em cartaz no CCBB/Centro/RJ, quarta a sexta, às 19h;sábado, às 17h e às 19h;domingo, às 19h. 80 minutos. Até 6 de maio.
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