RETROSPECTIVA TEATRAL 2017: A SALVAÇÃO PELA RESISTÊNCIA


PATRÍCIA SELONK EM HAMLET

Na visceral culminância de uma crise, que já tinha se manifestado em 2016, o teatro também viu seus recursos patrocinadores escoarem pelo ralo, sem falar na dificuldade, cada vez maior,  de encontrar espaços diante do difícil enfrentamento  de seus custos .

Mesmo assim, entre trovões e relâmpagos, com um número menor de montagens de maior exigência e com muita economia cênica, a Temporada Teatral 2017 atravessou a tormenta em melhores condições que a dança e  a ópera, como registramos em textos anteriores.

Sendo sempre difícil o critério para seleção mínima de espetáculos, que se destacaram por uma ou outra razão, no risco de se cometer injustiça na escolha ou nas ausências. Optamos, assim,  por 16 espetáculos em cinco blocos temáticos /estéticos.

Inicializando esta resenha por clássicos  revistos, ora na proximidade de seu formato original ora pela criatividade das abordagens. Ressaltando-se aqui as releituras textuais/cênicas de Antígona e  de Hamlet  , com um olhar de contemporaneidade,  e a dramaturgia autoral em torno do mito de Medéia.

A Antígona , na dúplice concepção Amir Haddad/Andrea Beltrão, numa transubstanciação da autenticidade e da permanência universal da personagem de Sófocles, em singularizado espetáculo solo, de incitante intimismo e cumplicidade pública. Ou a recolocação da Medéia(Débora Lamm) no tempo de não pertencimento do caos migratório, a partir das marginalizações do feminino, no apelo convocatório de Mata Teu Pai, de Grace Passô, com Inez Viana dirigindo.

Ou o redimensionamento contemporâneo da essência, filosófica, psicológica e política, do pesadelo shakespeariano na escritura de Mauricio Arruda Mendonça  e na incisiva transposição de Paulo de Moraes para o Hamlet. Ou o distanciar-se do realismo psicológico no Tennessee Williams da obra prima Um Bonde Chamado Desejo,  na diferencial urdidura dramática imprimida por Rafael Gomes , com vigoroso resultado estético.

Seguindo-se, ainda, nestes conflitos de vontades e dos contrapontos afetivos/sexuais, nas sagas familiares. A gramática cênica, tensa, angustiosa, poética e humana de personagens sitiadas que se atacam em Agosto, do americano Tracy Letts, na envolvência alcançada por André Paes Leme e seu  potencializado elenco.

Ou a trajetória de um núcleo domiciliar, na transição de vidas  parentais em alteratividade  geracional e comportamental , na surpreendente dramatização de Love, Love, Love, nas mãos de Eric Lenate  para a textualidade do inglês Mike Bartlett. Ou na segurança artesanal com que Daniel Herz conduz a voracidade rodriguiana , no entremeio de corrupção e hipocrisia do microcosmo social de Perdoa-me Por Me Traíres.

TOM NA FAZENDA/ ARMANDO BABAIOFF E GUSTAVO VAZ

Dando continuidade a uma saudável abertura à exposição/reflexão sobre a livre opção de  identidade e diversidade sexual, três montagens se tornaram destaques absolutos, com possibilidades do alcance máximo nas premiações anuais RJ/SP.

ELA , de Márcia Zanelatto, através da descoberta  dolorosa de uma doença terminal , em texto primoroso e acurada direção(Paulo Verlings), instaurando uma poética progressão dramática , na pulsão presente/passado e no memorialismo, do sonho feliz à verdade crua de um retrato feminino LGBT.

Ou o relacionamento físico/afetivo de dois homens que se odeiam e se amam mutuamente, entre a rejeição violenta ou a submissão masoquista à igualdade do desejo sensorial, em Tom Na Fazenda, do franco/canadense Michel Marc Bouchard. Numa carismática realização de Rodrigo Portella , sob a égide do ator protagonista Armando Babaioff, no mais impactante momento dramatúrgico do ano.

Sem deixar de lembrar, no mesmo seguimento, O Jornal-The Rolling Stone do inglês Chris Urch, em primorosa idealização de Kiko Mascarenhas/Lázaro Ramos, em torno do preconceito sanguinário oficial de Uganda contra o comportamento gay, metaforizado no relacionamento homoerótico de um jovem nativo e um médico irlandês e ampliado pelo fanatismo religioso.

Na trilha da cultura popular, o referencial tributo ao circo , à tragicomédia e ao melodrama operístico, estabelecendo pontes entre o palco e o picadeiro , em Pagliacci. Na Cia La Minima, entre orgânicos atores/palhaços, sob o domínio artesanal de Chico Pelúcio e refinada trupe técnico/artística.

Ou os liames biográficos/literários de Ariano Suassuna tecidos na teatralidade musical delirante que une Braúlio Tavares e Luis Carlos Vasconcelos à exponencial síntese ibérico/medieval/nordestina, na representação brincante/cordelista e no sotaque mamulengo de Suassuna – O Reino do Sol.

Longe da padronização clássica,quase um anti-musical,  áspero, excêntrico, viral, sem “happy end”, patético na sua ácida solução final, Dançando no Escuro, inspirado no filme de Lars von Trier. Que, na sua particularizada narrativa dramática, iluminou o final de temporada dos musicais em moldes cariocas, no corajoso projeto diretor de Dani Barros para bravos atores/cantores.

Mais, para finalizar esta breve incursão por alguns caminhos da temporada teatral 2017, o descortino de três passagens por um teatro politizado e contestador. Tanto por seu dimensionamento estético como pela provocadora inventividade direta e seca, no tenso mas esclarecedor Adeus Palhaços Mortos. Em avançada experimentação plástico/psicológica de José Roberto Jardim para uma obra básica de Matei Visniec.

Tendência reafirmada na “comédia de ameaça” de Harold Pinter –A Festa de Aniversário – que Gustavo Paso potencializa incisivamente, no equilíbrio de territorialidades opostas,  tanto na sua conotação metafórica como na sua percepção realística, em estilizado retorno cenográfico.

Ou na acentuação historicista dos recalques da violência em nosso cotidiano, desde a fúria colonialista portuguesa aos invasores franceses, na transgressiva demolição legalizada do instinto nativista e da pureza antropofágica.  E que, em Guanabara Canibal,  Pedro Kosovski (texto) e Marco André(encenação) fazem replicar na insanidade aliciadora e marginal dos estabelecidos neste obscurantista poder político por nós vivenciado.

                                           Wagner Corrêa de Araújo

SUASSUNA - AUTO DO REINO DO SOL

RETROSPECTIVA COREOGRÁFICA 2017: QUANDO DANÇAR FOI MAIS QUE PRECISO


NEDERLANDS DANS THEATER 2 /MIDNIGHT RAGA

O ano coreográfico começou no desalento  da sensação de que nenhum espetáculo de dança entraria em cartaz. Então eis que surge, em clima de resistência, a Focus Cia de Dança , dando continuidade ao seu projeto retrospectivo, quebrando o gelo , ainda que com uma retomada – Saudade de Mim.

E já nos idos de maio, acontece, enfim, a primeira estreia com a Renato Vieira Cia de Dança em Blue que, mais uma vez, se inspirou na literatura, agora com o simbólico poema Cem Pessoas , de Wislawa Szymborska, para expressar o vazio das relações afetivas, numa  trilha jazzística, com reunião de bailarinos de grupos e formações diversas.

Enquanto a programação internacional fazia sua entrada com o Pilobolus , do Shadowland 2 , que no abuso de recursos tecnológicos/projecionais e episódicas performances puramente coreográficas, decepcionou o público. Valendo apenas pelo inventivo referencial à estética do teatro de sombras e do cinema de animação.

Fenômeno que se repetiu com o Momix Forever, na comemoração dos 35 anos da Cia, num programa remissivo, de sotaque antológico,  de suas realizações sob comando e idealização de Moses Pendleton. Onde o clima era do dejá vu num grande vídeo clip que só foi capaz de impressionar, um pouco, pela atualidade do foco ecológico, nos extratos de Opus Cactus e Botanica.

O Balé do Theatro Municipal, detonado pela crise econômica inclusive com a perda de alguns de seus melhores solistas, não conseguiu mostrar nenhuma obra que o caracterizasse  como a mais lídima voz da tradição clássica no país.

Limitando-se a uma injustificada participação neoclássica, na concepção de Peter Brook - La Tragédie de Carmen-, menos lírica que a ópera no incisivo desnudamento psico/ físico  do personagem titular. E numa convicta atuação, de bravura e entrega, à luta de resistência dos Corpos Estáveis do Municipal carioca , na simplicidade eficaz, mas com forte carga emotiva, de suas intervenções em Carmina Burana, em formato de concerto cênico.   


CIA URBANA DE DANÇA

Os nossos dois maiores grupos de dança contemporânea conseguiram driblar o clima nebuloso com  significativos espetáculos a partir da tradição da cultura popular dos terreiros de candomblé(Gira) e do lastro ecológico/poético da paisagem natural/humana nordestina(Cão Sem Plumas).

Na corporeidade enlameada e na expressão da ambiência inóspita com base no poema cabralino, a Cia Deborah Colker , num mix de linguagens artísticas, enfrentando o risco da prevalência do imagético sobre o gestual e a fisicalidade dos bailarinos. E o Grupo Corpo, na perfeccionista tessitura coreográfica de Rodrigo Pederneiras, potencializada no movimento ímpar de pulsão físico/espiritual , celestial/profana, de seus 21 bailarinos, entre o barroquismo mineiro e a ritualística negro/africana.

Sobrevivendo, ainda, as apresentações do Panorama, do Festival Cena Brasil , do Dança em Trânsito e do Rio H2K, com originais registros de solos, quadros rítmicos/musculares, trilhas hip hop, eletro/pop, funk/samba. Como Lil Buck na sua  midiática( via you tube) versão da Morte do Cisne ou a action painting da Cie Zahrbat. A força do “passinho” de Alice Ripoll ou a celebração do butô de Tadashi Endo, com olhar na contemporaneidade.

Sem deixar de citar um trabalho singularizado, na interatividade corporal/urbana e na essencialidade da vídeo/dança, assinalando um momento feroz do coletivo social/coreográfico, na série documental/fílmica de Gustavo Gelmini.  

Diversificado na rejeição da espetacularização dos efeitos cênicos, no intimismo envolvente, sujeito/objeto, espectador/bailarino, dos requintados fraseados musicais/corporais de Toque, com Renato Cruz e o performer/percussionista Cyril Hernandez.  

Encerrando-se o ano tormentoso, com a surpresa da criação espontânea, instintiva, mas tecnicamente rigorosa, na espiritualidade juvenil da Nederlands Dans Theater 2 que só falhou, na temporada carioca, pela exclusão do fundamental Cacti , de Alexander Eckman. Felizmente substituída por Midnight Raga com suas nuances gótico/indianas em erotizado sensorial por Marco Goecke, celebrado coreógrafo europeu da última geração.

Seguindo-se , no difícil conceitual de um país perdido, entre os desmandos, a corrupção e a regressão ao conservadorismo moral e artístico, dois simbióticos  embates de posturas reflexivo/coreográficas.

O percurso , entre trincheiras e em campo minado,  e o rompante grito gestual dos bailarinos  das comunidades, no vigoroso trabalho de Sônia Destri Lie e sua Cia Urbana de Dança - “Cinco Passos Para Não Cair no Abismo”.

E a visceral performance/manifesto para tempos sombrios de Renato Vieira (Blue), fechando a conturbada temporada 2017. Instaurando, assim, um transcendente contraponto crítico para um ano em tempo de guerra sem fim.   

                                             Wagner Corrêa de Araújo


GRUPO CORPO/ GIRA

CURTO CIRCUITO NA TEMPORADA 2017 DE ÓPERA


NA BOCA DO CÃO - FOTO/ DALTON VALÉRIO

Desde o início de 2017, a percepção da crise política e econômica teve graves consequências para as artes cênicas, com redução dos patrocínios, suspensão dos editais e incentivos oficiais.

Mas se na criação teatral seus reflexos foram imediatos obrigando a busca de soluções que não interrompessem de vez o fluxo produtor, na ópera e na dança os resultados foram catastróficos, especialmente na programação lírica e coreográfica do Theatro Municipal.

Na insanidade da brusca exoneração do funcional comando diretor/artístico de João Guilherme Ripper, instaurou-se um caos ampliado pelos atrasos salariais dos corpos estáveis do TM, limitando, por razões justíssimas, as atuações do Coro, da Orquestra e do Corpo de Baile.

Suspendendo-se, ainda, a programação planejada e anunciada para 2017, após a ocupação da Presidência pela incompetência de um gestor(André Lazzaroni) fora do ramo. Onde  houve, pelo menos, uma compensação na esperança de algum resgate na reconhecida experiência profissional do novo diretor artístico (André Heller-Lopes).

Mesmo assim, entre trancos e barrancos, o mais tradicional palco carioca viveu o pior momento de sua história, com apenas duas óperas encenadas, uma isolada apresentação do Balé do TM num concerto cênico (Carmina Burana) e na apresentação de uma “Carmen” dramatúrgica de Peter Brook.

Na abertura da temporada, Jenufa, emblemática criação operística de Janácek, surpreendeu por seu ineditismo musical/cênico no, por demais tradicional, repertório do TM. Com uma inventiva concepção diretora de André Heller, correspondida tanto no score sinfônico, como no primoroso elenco protagonista(Gabriella Pace, Eliane Coelho, Eric Herrero).

JENUFA - FOTO/ JÚLIA RÓNAI

Tosca, a segunda ópera encenada, também teve comando artístico de André Heller, que imprimiu-lhe um toque original sem fugir totalmente do seu conceitual de origem. Mas que, cenicamente, já mostrou o peso da crise. Com alguma limitação cenográfica e uma orquestra, às vezes, soando muito alta para os solistas.

Embora com boas performances, como Eliane Coelho, ainda que com menor alcance às exigências do papel titular, ao contrário de sua excepcional adequação vocal/dramática como Kostelnicka, a matriarca/sacristã de Jenufa.

Mesmo não podendo ser confundida como uma peculiar apresentação operística, já que, ali, o inventário dramatúrgico de Peter Brook prevalece sobre a progressão especificamente lírica de Bizet, La Tragédie de Carmen trouxe à cena cantores, além de bailarinos e músicos do TM. Faltando apenas mais rigorismo ao seguimento da proposta autoral, dramatúrgica/musical, o que quase a tornou uma performance indefinida, nem Bizet e nem Brook.

Neste árido deserto em que se transformou a Temporada Lírica 2017, chamou a atenção uma montagem fora do circuito tradicionalista, a estreia mundial de uma ópera de câmara Na Boca do Cão. Derradeira obra ,ainda em vida, do compositor carioca Sérgio Roberto de Oliveira, com cartaz prolongado, tal como uma peça de teatro, num dos espaços de palco do Centro Cultural Banco do Brasil.

Com um sutil referencial bauschiano de dança/teatro na direção conceptiva de Bruce Gomlevsky, libreto/poemático de Geraldinho Carneiro, um grupo camerístico(cordas/sopro/percussão) e um minimalismo cenográfico /indumentário.

Onde a imanente entrega psico/física/vocal a um personagem alter ego da protagonista (a soprano Gabriela Geluda) fez desta “pequena” ópera, uma criação sintonizada com a contemporaneidade, num inusitado espetáculo, valente e revelador,  no entremeio sombrio em que foi mergulhada a cena operística brasileira.

                                            Wagner Corrêa de Araújo

TOSCA - FOTO/JÚLIA RÓNAI

O JULGAMENTO DE SÓCRATES: SIMPLICIDADE REFLEXIVA


FOTOS/ANTÔNIO FILHO

Na trilha de outros mestres do pensamento filosófico e da meditação religiosa, como Jesus ou Buda, também Sócrates nada deixou escrito e seus ensinamentos foram transmitidos por uma terceira voz. Este último por Platão, que o fez personagem centralizador de seus Diálogos, especialmente a Apologia de Sócrates e Fédon.

Tornando-se extremamente oportuna, como indução a uma postura reflexiva pelo contraponto crítico socrático, neste nebuloso status político/social vivenciado,  a ideia de se comemorar o cinquentenário da carreira teatral de Tonico Pereira por um primeiro monólogo em que atua.

No caso, O Julgamento de Sócrates, com textualidade de Ivan Fernandes, a partir de Platão, sem o rigorismo da fidelidade, em direção compartilhada com o ator protagonista. Numa concepção cênica, de propício despojamento, para que os olhares e mentes se concentrem na compreensão do personagem e na percepção da proposta estético/ideológica.

As lições deste singular “socratismo”, com link na contemporaneidade, primam pela simplicidade funcional, ao se deslocarem até mesmo para o cotidiano com sotaque carioquês. Na exposição de uma livre junção atemporal da dúplice personificação da performance, ora pelo inventário memorial do ator ora como o porta voz do ideário ético/filosófico/político do personagem titular.

Estabelecendo,assim, pontes metafóricas curiosas entre episódios biográficos/artísticos do intérprete e passagens do mistério socrático, às vezes, de incrível identificação do período de controvertida governabilidade da Atenas ancestral com a demagogia corrupta e o desmando oficial numa certa cidade/estado chamada de “maravilhosa”.

A progressão narrativa e o ritmo do espetáculo se apoiam integralmente na extrema facilidade com que Tonico Pereira alterna a sua faceta histriônica/dramática e a sua liberdade instintiva no domínio de seus recursos vocais/gestuais.

Num teatro de improviso, que funciona pela espontaneidade com que são utilizados os parcos recursos cenográficos(uma cadeira antiga e um suporte/coluna para uma grande taça de estanho), o desenho de luzes vazadas e as raras incidências musicais (ambas por Frederico Eça).

Com sutil toque onírico/realista na extensão deste suporte cênico aos assentos circulares da plateia sugestionando uma sala de aula ou de tribunal, com o presencial colorido dos espectadores contrastando com a rusticidade e o tom pastel do figurino (em dupla realização de Palloma Morimoto).

Se a alguns pode incomodar o não aprofundamento mais incisivo da tematização filosófica, ampliado pela curtíssima duração do espetáculo, ou mesmo pela ausência de qualquer apelo plástico/visual, há, no entanto, um fator simbiótico que favorece e sintoniza a representação.

Na praticidade simples desta conversa dramatúrgica, entre o confessional e o filosófico, e no cruzamento de dois personagens, entre a vida e o palco, entre o homem, o ator e o filósofo, cada espectador encontra, afinal, sua resposta – pois é “sabendo que nada sabe” que acaba aprendendo a “pensar por si mesmo”.

                                             Wagner Corrêa de Araújo


O JULGAMENTO DE SÓCRATES está em cartaz no Teatro Cândido Mendes, sexta a domingo, 20h. 45 minutos. Até 17 de dezembro.

O JORNAL-THE ROLLING STONE: CRIMINALIZANDO O AMOR ENTRE IGUAIS


FOTOS/ANA BRANCO

Stephen Frears, com o documentário Meu Nome é Kuchu,  2012, armou o olhar mundial  sobre a sanguinária onda governista anti-gay na Uganda, a partir do assassinato do ativista LGBT David Kato, empenhado contra a pena capital oficializada para os gays daquele país africano.

Na alerta do contraditório uso titular referencial, por um órgão da imprensa local(The Rolling Stone), de um dos emblemáticos signos da liberação comportamental e do pensamento através de uma banda roqueira antológica, com fins espúrios ao listar ali os gays  nominalmente criminalizados.

Tema recorrente na abnegada relação afetiva do jovem ugandês Dembe(Danilo Ferreira) e o médico irlandês Sam (Marcos Guian), em violento jogo de sobrevivência sob pedras rolando, midiaticamente, a favor do preconceito e da perseguição ao amor homoerótico.

Conduzindo, assim, a trama dramatúrgica de O Jornal- The Rolling Stone, do inglês Chris Urch e que chega, agora, aos nossos palcos sob comando de Kiko Mascarenhas, tendo Lázaro Ramos na codireção, em apurada tradução/versão de Diego Teza.

Onde o encontro amoroso Dembe/Sam tem suas derivações nas personificações familiais do primeiro, na rigorosa pulsão matriarcal da tia Mama (Heloísa Jorge), no irmão primogênito Joe(André Luiz Miranda), tornado pastor radicalmente conservador, e nas duas quase  irmãs , pela cumplicidade compreensiva da consanguinea Wummie(Indira Nascimento) e no sofrido mutismo nato da  prima Naome(Marcella Gobatti).

Numa concepção cenográfica de bela plasticidade circular (Mauro Vicente Ferreira), sabendo equilibrar o  sugestionismo de seus raros elementos físicos (na mutabilidade de blocos de madeira que ora simbolizam um barco, ora bancos de uma igreja ou de uma ambiência residencial),com elegantes marcações luminares(Paulo Cesar Medeiros).

Extensiva à discrição indumentária(Tereza Nabuco) em tons pastéis. Contrastada apenas na camisa de aquarelismo quase tribal de Dembe que, também, se reflete nos acordes sonoro/vocais afro/brasileiros da trilha(Wladimir Pinheiro). E é especular, ainda, na gestualidade de aproximativa nuance coreográfica ( José Carlos Arandiba).

Na textualidade deste jovem dramaturgo, a postura gay é condenável tanto por razões políticas como por motivação religiosa, a partir do devassamento da intimidade homoerótica com a publicação de fotos como qualquer anúncio policial de procura-se.

Havendo uma progressão dramática mais incisiva no alcance psicofísico da segunda parte, acirrando os ânimos de seus personagens em frentes opostas. No dilema moral e na ambiguidade da adesão , entre a aceitação silenciosa ou a odiosa repulsa familiar ao solitário grito contestador de um apaixonado casal de iguais.

Com absoluta sintonização de um elenco sustentado por um comando diretorial (Kiko Mascarenhas) revelador, tanto no seu dimensionamento psicológico como na sua exteriorização de um cotidiano de retrógrado colonialismo na sua mediocridade e na sua crueza verista.

Sem deixar de destacar, das sutis marcações interpretativas de Indira Nascimento e Marcela Gobatti,no papel respectivo da irmã e da prima , à angustiante certeza de Marcos Guian( Sam), à distância, como causa secreta do mal familiar, exacerbada nas prédicas evangélicas de um convicto Joe por André Luiz Miranda.

Com perceptível domínio da performance, tanto nas flutuações emocionais de enfrentamento do jovem ator Danilo Ferreira(Dembe)como na impositiva radicalização expressiva da experiente atriz Heloísa Jorge (Mama).

Tudo, enfim, concorrendo para um elogiável investimento estético/ideológico sob a dúplice chancela artístico/teatral de Kiko Mascarenhas/Lázaro Ramos. Por um oportuno e necessário espetáculo, em tempos de regressivo obscurantismo contra os avanços da livre manifestação da identidade racial e das opções da sexualidade.
                                    
                                               Wagner Corrêa de Araújo


O JORNAL - THE ROLLING STONE está em cartaz no Teatro Poeira/Botafogo, de quinta a sábado, às 21h; domingo, às 19h. 90 minutos. Até 25 de fevereiro.

UMA ESPÉCIE DE ALASCA: CLÍNICA VOLTA AO FUTURO

FOTOS/LEEKYUNGKI

Um dia acordei com a sensação estranha de estar em um lugar e tempo distintos, lembrei do livro do Oliver Sacks, que tinha lido há quase uma década e escrevi Uma Espécie de Alasca”.

Assim Harold Pinter deu um conceitual à sua única incursão dramatúrgica inspirada em uma textualidade pré-existente, no caso a obra do celebrado neurologista anglo/americano titulada como “Tempo de Despertar” que , depois do teatro ( 1982 ), ainda inspiraria um filme  (1990).

A partir destes relatos clínicos de pacientes afetados por um prolongado adormecimento comatoso, a que a ciência médica chama de encefalite letárgica, Pinter idealizou sua peça. E sem manter qualquer contato direto com algum de seus vitimados, nesta sua releitura dramática, alcança uma narrativa singularizada, esteticamente, pelo distanciar-se de uma rigorosa contextualização  no absurdo teatral.

Mas, como de hábito em seu inventário autoral, embora sem a força de suas criações mais emblemáticas, não deixando de possibilitar sua visceral provocação ao público ao confundi-lo , entre o delírio e a realidade. Se são verdadeiros ou fantasiosos os embates entre o médico Hornby(Jorge Emil) e a recém-despertada de um coma de 29 anos, Deborah( Yara de Novaes). 

Com as interferências da terceira personagem, sua irmã caçula Paulinha(Miriam Rinaldi) e, agora, casada com o responsável(Hornby) pelo acompanhamento clínico do caso, com o qual divide os cuidados e a atenção pela doente.

Esta trama é inicializada com o despertar do sono/sonho adolescente de Deborah ,de quase três décadas, no surto da sua dúvida de ter-se tornado uma mulher adulta, levando-a a um patético questionamento de mágoa , suspeita e acusação.  Ora, com mordacidade, dirigindo-se à irmã que não reconhece longe do memorial da infância(“Onde conseguiu estes peitos?”), ora, com pulsão de revolta, ao médico e cunhado imputando-o como o sedutor e causa principal do que lhe ocorreu.

Encontrando, aqui, em Yara de Novaes a correspondência para uma personagem de extremada contundência tanto na sua frágil fisicalidade sensorial como nos seus rompantes conflitos psico/somáticos. Ao lado dos mecanismos de acuado sacrífico no papel de Miriam Rinaldi e de defesa e compreensão profissional no personagem de Jorge Emil que, sobretudo, favorecem a organicidade da proposta e da representação.

Na invernal, líquida e claustrofóbica ambiência cenográfica de  um quarto de referencial hospitalar, entre oníricos efeitos vídeo/artísticos(Luiz Duva), sintonizados em modulações luminares(André Prado/Gabriel Fontes Paiva). E, ainda, materializados no tom asséptico da indumentária(Débora Falabella/Marina Aretz) e na climatização soturna via incidências sonoro/musicais(Luísa Maita/Jam Da Silva).

Diante do desafio de um Pinter com gramática cênica inusitada , do “absurdo verista” aos riscos da sua perigosa frieza narrativa, a concepção diretora de Gabriel Fontes Paiva soube como bem explorar o contraponto cronológico alterativo , entre o passado e o presente, o real e o imaginário. Identificado numa percepção inventora e por elementos cênico/psicológicos de proximidade fílmica, como as atemporalidades de Resnais/Grillet  em Ano Passado em Marienbad.

Neste lugar comum da ostensiva veracidade de um diagnóstico clínico, com um olhar neurológico(O.Sacks), transposto ao palco mas que, enfim, alcança nuances de sutil absurdidade na sua transubstanciação do significado das viagens da condição humana. Na poesia e no caos,  na vida e na morte, na estranheza de estar indo, simultaneamente, de volta ao futuro mas com passagem e estadia garantidas para ficar no passado.

                                             Wagner Corrêa de Araújo


UMA ESPÉCIE DE ALASCA está em cartaz na Caixa Cultural/Teatro de Arena/Centro/RJ, de quinta a sábado, às 19h; domingo,às 18h. 60 minutos. Até 17 de dezembro.

NUM LAGO DOURADO: COMO A PREVISIBILIDADE DA PASSAGEM DO TEMPO


FOTOS/ JOÃO CALDAS

Sucesso comercial dos anos 80, mais por seu apelo melodramático que pelo aplauso da critica, Num Lago Dourado , de Mark Rydell, era a versão fílmica de uma peça de Ernest Thompson  que,agora, volta aos palcos brasileiros na concepção diretorial de Elias Andreato.

Emblemático por significar um acerto de contas da Academia de Hollywood com o primeiro e último Oscar concedido a Henry Fonda que, enfim,  o recebeu  já em sua internação hospitalar derradeira, em 1982. E também pela mesma premiação,  extensiva às despedidas cinematográficas de sua partner Katharine Hepburn.

Nesta segunda montagem, quinze anos depois da que reuniu Nathalia Timberg /Paulo Gracindo sob o comando de Gracindo Jr.,acentuou-se uma nuance mais bem humorada para evitar o apelo da tematização patética das agruras da velhice diante da terminalidade existencial.

Às vésperas de seu natalício octogenário o professor aposentado Norman(Ary Fontoura) modera seus já habituais achaques de rabugice na companhia de sua mulher Ethel( Ana Lúcia Torre) que, no seu animado apego à vida, o estimula a deixar de lado o insistente pessimismo.

Levando-o, inclusive, a relativizar as mágoas, de uma vida inteira, com Chelsea((Tatiana de Marca), a filha do casal que, na sua visita à aprazível casa paterna às margens de um lago e de um verdejante parque, traz o namorado/dentista Bill Ray(André Garolli) junto ao filho adolescente Bill Ray Jr(Lucas Abdo).

Onde, antecipando a expectativa destes hóspedes,o par de idosos é surpreendido, vez por outra, pelo carteiro local ( Fabiano Augusto) que, ao trazer a mala  postal, faz referências à sua frustrada paixão juvenil por Chelsea.

Com  traços de óbvia pieguice, no entremeio de uma narrativa dramatúrgica, carregada de previsibilidades, sobre o confronto destas personagens anciãs com outras de gerações diversas, potencializado na linguagem comportamental de um garoto (Bill) recorrente às gírias e"virtualmente" mentalizado.

Mas que é funcionalmente bem dimensionada,em clima de superficial realismo psicológico e um ironizado olhar , entre o risível e o sentimentalismo quase lacrimal, pelo direcionamento imprimido por Elias Andreato.

Ampliado na exacerbação do naturalismo cenográfico(Marco Lima) de preciosismo decorativo,sob“douradas”nuances luminares( Wagner Freire), no tom clichê da indumentária (Fause Haten) e nas  incidências de melancólicos acordes melódicos (Miguel Briamonte). 

No uso de todos os ingredientes de uma sessão da tarde, sem esquecer, é claro, a organicidade de seu elenco em sua entrega à representação deste retrato familiar  de um cotidiano de proximidade e de fácil identificação com cada espectador. Dos papéis  coadjuvantes, de grande ou menor relevância, ao convicto contraponto dos embates destes com ou entre as protagonizações. 

Através da performance de Ana Lúcia Torre nos seu rounds dialetais com a personificação,de maior favorecimento carismático, assumida por Ary Fontoura, Num Lago Dourado torna-se, de imediato, invicto na sua pulsão emotiva  e, assim,  não tem como perder a adesão empática de um público cronometrado dos oito aos oitenta. 

                                                   Wagner Corrêa de Araujo 


NUM LAGO DOURADO está em cartaz no Teatro dos Quatro/Shopping da Gávea, sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h. 90 minutos. Até 17 de dezembro.

AYRTON SENNA – O MUSICAL: PERDENDO A CORRIDA...

FOTOS/CAIO GALLUCCI

Ele era o padrão ideal do jovem esportista bem sucedido dos anos  80/90. Em pouco mais de uma década, o paulista Ayrton Senna tinha sido o primeiro brasileiro a se tornar uma referência nas competições automobilísticas mundiais.

A brusca e fatalista interrupção de sua carreira de campeão, em maio de 1994,  fez com que os compatriotas armassem seu olhar pranteado em torno do ídolo que a mídia internacional elevara ao Olimpo do esporte, como heroico e histórico baluarte da Fórmula 1.

Com o propósito de fazer um tributo do palco musical a um encantador mor da pista dos autódromos,a Aventura Entretenimento idealizou Ayrton Senna – O Musical. Para, assim, depois do cinema britânico e da passarela do samba carioca, memoriar o último dia de um atleta lendário.

Mas, aquilo que poderia significar até mesmo a exploração de um inusitado tema para o desgastado filão do musical biográfico nacionalista,acabou transubstanciando, ironicamente, uma corrida perdida com a infeliz titularidade do passaporte de um ilustre e invicto competidor. 

Como,se num burlesco e patético conceitual, sucessivamente, fossem desmoronando cada um dos elementos dramatúrgicos/musicais de um projeto artístico/empresarial inicializado há três anos.

A começar do fragilizado roteiro a quatro mãos(Cristiano Gualda e Cláudio Lins),com uma irregular progressão dramática , acentuada por uma textualidade previsível, nos desacertos da construção linguística/poética de seu libreto que, por vezes, beira do simplório ao ingênuo.

Onde as canções(Cláudio Lins, na parceria com Cristiano Gualda), compostas especialmente para o espetáculo, soam isoladamente, sem qualquer conexão lógica e empática com o que se pretende no enredo,funcionando quase como esquetes que não dão organicidade e não sustentam o acionamento narrativo,apesar do perceptível esforço no comando musical  de Felipe Habib.

Sugestionando a tematização ficcional do que se passa, aleatoriamente, nos espaços siderais da mente personificada como Ayrton Senna (Hugo Bonemer), sua temporalidade é alterativa e sem sequencial cronológico, com efeitos ora funcionais, ora dispersivos.

Desde as lembranças passadas de sua fase pré-adulta, onde ele é conhecido pelo apelido de Beco(João Vitor Silva) em dialetação com o menino Wandson(Lucas Vasconcelos),a esboços familiares entre os pais e namoradas sem clara identificação. Paralelo à representatividade da corrida terminal e seus tipos técnico/profissionais, com maior relevância interpretativa de Victor Maia como um engenheiro.

Ao lado de um elenco de dançarinos/acrobatas que dão visibilidade corpórea a uma polivalente metaforização cenográfica(Gringo Cardia) de efeitos plástico/visuais, potencializada no desenho de luz(Renato Machado), na estética circense e futurista do gestual coreográfico(Lavinia Bizzotto),ainda que bastante mecanizado, e da indumentária ressaltada em néon(Dudu Bertholini).

Diante desta extravagante parafernália cênica, mais voltada para o imediatismo provocador da espetacularização, a  montagem acaba incorrendo num exagero sem aparos estilísticos, nos seus ecos virtuais LED3D/Second Life, com apelativo referencial dos videogames. 

E nem a autoridade diretorial de Renato Rocha, com significativas passagens pelo circo/teatro e no musical/coreográfico, é capaz de insuflar convicção ao descontrolado exibicionismo “criador” desta superprodução.

Que , afinal, acaba por desconcentrar a fixação do espectador no dimensionamento psicológico do piloto/personagem que se pretende inventariar em teatralização musical, através da performance de Hugo Bonemer.

E até este, mesmo com a prevalente adequação de sua fisicalidade e de sua garra vocal para explorar todos os contornos do papel titular, não consegue superar uma gramática cênica que se banaliza pelo fácil delírio tecnológico e pela ausência de qualquer contraponto crítico/reflexivo.

                                              Wagner Corrêa de Araújo


AYRTON SENNA-O MUSICAL está em cartaz no Teatro Riachuelo/Cinelândia/RJ, quinta e sexta, às 20h30m; sábado, às 16h30m e às 20h30m; domingo, às 19h. 140 minutos, com intervalo. Até 4 de fevereiro.

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