OS CADERNOS DE KINDZU: COSTURANDO SONHOS EM TERRA MORTA

FOTOS/ DANIEL BARBOZA

O que andas a fazer com um caderno?/Nem sei ,pai./ Escrevo conforme vou sonhando./E alguém vai ler isto?/ –Talvez./É bom ensinar alguém a sonhar”...
É, assim,  a partir da segunda parte do romance Terra Sonâmbula, de Mia Couto, celebrado escritor moçambicano, que se estrutura a narrativa teatralizada pelo Amok Teatro na sua última concepção, titulada como Os Cadernos de Kindzu.
Escrito em 1992, o livro mostra uma terra devastada por uma década(1965/75) de guerras civis, capazes de tornar todos , vítimas ou carrascos, uma massa humana informe e desmemoriada.
E onde, na tragicidade da inexorável predestinação de  efeitos “sonambulizantes” , a única perspectiva de “futuros e felicidades” seria o visceral mergulho nos sonhos.
Sentindo-se estrangeiro em sua própria nação, Kindzu((Thiago Catarino), com as raízes familiais dizimadas, inicia sua trajetória de exilado em país de ninguém.
Cruzando, na sua  sonhada costura de desejos reprimidos, com o fantasma do pai (Sérgio Loureiro) e com as áridas lembranças da irmã de desterro Farida(Graciana Valladares). Remetendo-se, ainda, às presenças femininas maternais ou prostituídas (Luciana Lopes e Vanessa Dias) e às personalizações masculinas do indiano rejeitado (Stephane Brodt) ou do português dominador (Gustavo Damasceno).
Adaptar dramatúrgicamente o purismo de um texto literário de perceptível inventividade  , com seus neologismos e suas nuances de poética oralidade, é um desafio à não perda de sua intrínseca substancialidade.


Retomando o nativismo mítico da peça anterior “Salina - a Última Vértebra”, a presente concepção diretorial/cenográfica de Ana Teixeira e Stéphane Brodt revela,outra vez, um privilegiado alcance do substrato de sensorial esteticismo,  no dimensionamento psicológico dos personagens e em sua pulsão de emotiva interatividade palco/plateia.
Tanto na apurada  austeridade plástica  dos elementos cenográficos e dos figurinos, como na instauração de um clima de mágico realismo na execução de música autoral pelos atores e nas filigranadas modulações do desenho de luz( Renato Machado).
O elenco ,na sua irrestrita entrega à performance ,tem tal exaltação e organicidade em suas linhas dramáticas que  quase impossibilita destaques individualizados na segurança coletiva da construção de seus papéis.
Mas, diante da potencialidade carismática no protagonismo titular de Kindzu  na condução da trama, não há como cada espectador escapar de ser cúmplice da espontaneidade gestual e da força interior de seu intérprete( Thiago Catarino).
No reflexivo propósito de Mia Couto  “para que cada homem fosse visto sem o peso de sua raça”, Os Cadernos de Kinzdu ressoam, enfim, na triste paisagem da contemporaneidade, olhando a vida pelo sonho  com transcendental  “ousadia  para levantar asas pelo azul”.

Wagner Corrêa de Araújo




OS CADERNOSDE KINDZU , com o Amok Teatro, em cartaz no Teatro III do CCBB, Centro/RJ, de quarta a domingo, às 19h30m. 120 minutos. Até 18 de dezembro.

LUDWIG/2 : UM ENIGMA NA MORTE E NA VIDA

FOTOS /JACKELINE NIGRI
Ludwig II, o rei da Baviera,  que ascendeu ao trono aos dezoito anos e foi deposto após  uma conspiração política, sob o  pretexto de  alienação mental, teve uma controvertida trajetória existencial e tanto sua morte, como sua vida(1845/1886), continuam  um enigma até hoje.

Apaixonado pela literatura e pelas artes , teve entre seus ídolos Schiller e Richard Wagner, a quem possibilitou a construção do teatro de Bayreuth(1872), exclusivamente dedicado à representação de suas óperas.Ao mesmo tempo, esbanjou fortunas oficiais na arquitetura de castelos de contos de fadas,  que até hoje são atração turística na Alemanha.

Para atender aos compromissos de herdeiro real manteve um relacionamento formal com a duquesa Sophie Charlotte,  irmã de Elizabeth, a imperatriz Sissi da Áustria. Mas às vésperas das núpcias afastou-se dela , atormentado por seus relacionamentos homoeróticos com jovens plebeus, como seu chefe de cavalaria  Richard Hornig, a quem beneficiou com cargos e vantagens financeiras.

Escandalizou ,assim, com suas atitudes não só os parentes nobres como as classes governantes de seu país, estes últimos inclusive por sua rejeição à política e às guerras nacionalistas,na  priorização de  seus ideais artísticos e suas censuradas aventuras amorosas.

Influenciado pelos heróis românticos wagnerianos, escreveu poemas e textos literários e, no cotidiano, se auto denominava de Rei Cisne , construindo um barco em forma de concha , navegando pelo lago Starnberg, onde ocorreu, na dúvida entre  suicídio ou assassinato,  seu misterioso fim .

A Artesanal Cia de Teatro, especializada em teatro infanto/juvenil, faz com Ludwig/2-Eu Desejo Permanecer um Enigma , sua primeira experiencia adulta  tragicômica, com dramaturgia de Gustavo Bicalho,  que assume a co -direção ao lado de  Henrique Gonçalves/Daniel Belquer.

Resultado de uma residência em Munique, a proposta, com seu enfoque cenográfico atemporal( Linda Sollacher/Karlla de Luca) tem  seu livre referencial na surpresa  dos figurinos(Henrique Gonçalves/Fernanda Sabino) e do inusitado  score  musical( Daniel Belquer/Caeso) de duas épocas .

O ator germânico convidado  Andreas Mayer (Richard Hornig) destaca-se , por uma mais presencial segurança cênica, nos confrontos com o protagonista  Manoel Madeira (Ludwig), que  tem seu melhores momentos na sua sincera entrega aos   solilóquios expositivos de seus conflitos  interiores de  amargura e indecisão.  A participação de Suzana Castelo ( Sophie-Charlotte) é mais recatada  mas, mesmo assim,  alcança a sintonia  necessária com os outros personagens.

A dupla linguagem( alemão/português) estabelece um diferencial na proposta, sem prejuízo da interatividade do elenco masculino e do alcance ao entendimento público. Também as referencias musicais de temas originais, como os de  Tristão e Isolda, não conflitua com sua transcrição atualizadora e  com  as incidências  do pop/eletrônico.

Tendo inspirado o cinema , desde o período silencioso , com versões  de Otto Kreisler(1922),Jürgen Syberberg (1972), Luchino Visconti( 1973) e  Peter Sehr / Marie Nöelle ( 2012),esta presente transposição dramatúrgica do tema biográfico tem uma inventiva estética no mix cronológico de períodos  e de  posturas  sociais  ( como a moderna cena gay ) .

E é esta simbiose que singulariza  a sua  envolvência com o nosso tempo, transcendendo ,de  um epitáfio real,  as verdades  individualistas   e as  vaidades enigmáticas de um homem histórico enquanto personagem contemporâneo.


LUDWIG/2 está de volta, desta vez no Teatro Ipanema, sábado às 21h;domingo e segunda às 20h. 70 minutos. Até 19 de dezembro.

LILI : OU QUANDO A ARTE LIBERTA A IDENTIDADE SEXUAL


FOTOS/LUCIO LUNA/EMMANUELLE BERNARD

No alvorecer do século XX, dois jovens artistas dinamarqueses decidem se unir em matrimonio , compartilhando suas tendências artísticas – ambos eram pintores  (Einer Wegener em paisagens e Gerda Gottlieb  com seus retratos) – e seus desejos afetivos.

Um dia, na ausência de  uma das modelos da artista, Einer ocupa seu lugar travestido com uma indumentária feminina. Mas a inocente experiência desperta fantasias homoeróticos e, a partir daí, sua insistência em  poses é transmutada num ato de irreversível paixão.

E de compulsiva diversão, ora em bailes ora em footings, confundindo-se sempre, nestes trajes e na companhia de Gerda, como se duas amigas fossem. . Até que seus  furtivos flertes com rapazes , ainda que sublimados pela feliz convivência da mútua criação plástica, o levassem à definitiva opção sexual.

Em anos ainda incólumes à preconceituosa onda moral nazista, Einer, já como Lili Elbe, participa das primeiras cirurgias transexuais, incentivadas pelas teorias libertárias do sexólogo alemão Magnus Hirschfeld, mas os promissores resultados iniciais tem um trágico epílogo .

Depois do romance ( de David Ebbershoff) e do  filme de Tom Hooper( Garota Dinamarquesa) , o tema chega ao teatro , com um lastro maior nos Diários de Lili Elbe, pela dramaturgia de Walter Daguerre e  na direção de Susana Ribeiro, sob a titularidade de Lili.

Numa preciosa estetização de uma corajosa aventura humana, pelo alcance afirmativo, através da arte, da liberdade de expressão das sexualidades reprimidas , Elbe ( Darwin Del Fabro) e Gerda( Suzana Castelo) se entregam aos personagens com uma cativante performance .

Com suas presenças irradiadas em cada gesto, entre nuances dramático/coreográficas, em sensível e vigorosa direção de movimento( Renato Vieira), o casal assume um raro dimensionamento psicológico, entre a introspectividade e a envolvência sensorial.

Ela na irônica aceitação da incerteza futura das suas relações amorosas, ele cônscio da superação e desfecho de seus conflitos eróticos, estabelecem , assim, imediata empatia com a platéia.

Na minimalista concepção cenográfica(Beli Araújo) com um referencial plástico a Lygia Pape, fios e cortinas transparentes se transformam em véus/pinturas. Conectando-se à elegância sensual dos figurinos(Antônio Medeiros) e à fluente musicalidade ( Ricco Vianna), sob  luzes ( Rodrigo Belay) entre sombras, cores e claridades.

O comando diretorial ( Susana Ribeiro) acentua o equilíbrio da expressão verbal e da linguagem corporal, numa gramática cênica de envolvente contraponto entre o emocional interiorizado e os tensos reflexos da  ação física de troca genética e de similaridade do desejo erótico.

Apaixonante enquanto expõe ,com delírio e verismo, artistas e personagens, Lili tem, em sua teatralidade textual e cênica, o impacto  de  uma pintura de beleza e desalento e de um irreverente poema coreográfico, de sincera e instintiva pulsão à prevalência das vontades e segredos de nossas díspares sexualidades.


LILI está em cartaz no Espaço Sesc/Copacabana, sexta às 21h; sábado e domingo, às 18h.75 minutos. Até 20 de novembro.

O CASAMENTO SUSPEITOSO: EM HABILIDOSA TEATRALIDADE


FOTOS/CHICO LIMA 


A maestria de Ariano Suassuna na manipulação dos elementos da tradição popular nordestina atravessou tanto sua obra dramatúrgica como suas incursões poéticas e ficcionais.

Assim, ele alcança , com seu cuidado linguístico e estético na abordagem das tradições nativas, um status criador entre o regional e o universal.

Onde sua escrita revela traços do teatro português pré-colonial à Commedia dell’arte , do romanceiro trovadoresco à literatura de cordel, da representação dos mistérios medievais aos folguedos circenses.

Conectando as raízes da ancestralidade dramatúrgica com os maneirismos e modismos comportamentais do homem nordestino, na sua transmutação atemporal dos valores permanentes do teatro.

No espirituoso aporte do cômico, de  matreira espontaneidade e prevalente dinâmica, e na surpresa do emaranhado de  intrigas , entre o simplório e a inteligente ironia, que marcam a trajetória de seus personagens.

Na comemoração de seus 25 anos, a Cia Limite 151, com seu serial e qualitativo repertório de clássicos do  teatro de todas as épocas, retoma a obra de Suassuna, depois de O Santo e a Porca e Auto da Compadecida. Desta vez, com uma peça – O Casamento Suspeitoso, original de 1957,e  de menor complexidade inventora diante de outras incursões do dramaturgo.

Seu enredo, num cenário matriarcal – a casa de Dona Guida (Maria Adélia) ,mãe de Geraldo( Igor Cosso) – desenvolve a esperta tramoia da jovem de reputação suspeita –Lúcia Renata(Isabella Dionísio) para convencê-lo, aproveitando-se de sua ingenuidade, a se casar com ela.

Estas pretensas núpcias com olhar voltado apenas para a herança do consorte, alertam os seus amigos próximos – Cancão( Gláucia Rodrigues ) e Gaspar( André Arteche) a armarem , então, uma burlesca estratégia  de defesa . Acrescentando-se, ainda, outros personagens, pelos  atores Flávia Faviães, Henrique Juliano,Edmundo Lippi e Hélio Zachi.

Usando e abusando do estilo da farsa, com o os habituais disfarces e trocas de personagens para criar uma sucessão de risíveis equívocos, O Casamento Suspeitoso é conduzido, com a habitual competência artesanal de elenco e direção da Cia Limite 151.

Revelando o seguro senso critico de Gláucia Rodrigues e Wagner Campos num empenho construtor para evitar o risco de inferiorizado alcance interativo - palco/plateia -  na previsibilidade da repetição de fórmulas burlescas deste específico contextual de comicidade. E no seu possível confronto frente ao dimensionamento  psicológico, de mágico e mais factível retorno em outras incursões do autor no gênero .

Com ressalva no menor impacto comunicativo da re/identificação feminina (Gláucia Rodrigues)no personagem Cancão(ao contrário do João Grilo do Auto da Compadecida),a performance consistente e o apuro dos despretensiosos  elementos técnico/artísticos(cenografia/Colmar Diniz, luz/Rogério Wiltgen, música/Wagner Campos) garantem a sinceridade da proposta e o frescor da representação.



O CASAMENTO SUSPEITOSO está em cartaz no Teatro Eva Herz, Cinelândia/RJ, de terça a sábado, às 19 h. 90 minutos. Até 17 de dezembro.


OLIVIER DUBOIS E O RESGATE SOCIAL PELA PULSÃO COREOGRÁFICA


FOTOS/CIDADE DAS ARTES/ ZÉ LU GONÇALVES



Antes de se tornar diretor do Ballet du Nord, Olivier Dubois já tinha desenvolvido uma sólida carreira como bailarino, tendo atuado em criações de Angelin Preljocaj, Jean Fabre e Sasha Waltz, entre muitos outros nomes fundamentais no panorama da dança contemporânea.

Ao desenvolver suas próprias obras coreográficas, tornou-se dono de um estilo singularizado pelas suas experimentações no cruzamento visceral de diversas linguagens artísticas, especialmente o teatro, as artes plásticas , a música e a literatura.

Suas criações quebram quaisquer limites entre a tradição e a vanguarda,  nas suas frequentes inserções de elementos libertários, por uma dança espontânea, reflexiva do modus vivendi dos mais díspares estratos sociais.

Assim , ele faz questão de reunir em seus espetáculos tanto  profissionais da dança como amadores que nunca pisaram um palco. Ao mesmo tempo, em  que não privilegia o status estético do physique du rôle, idealizado na corporeidade apolínea de técnica perfeita.

Em comentário crítico sobre seu espetáculo Tragédie, apresentado no Brasil em 2015, ressaltamos,então, que “ havia uma sagração do corpo físico ao transformar, assim, em objetos de contemplação artística, num mesmo grau de validação ,  rostos e troncos, braços e pernas, traseiros e órgãos sexuais. Unindo o elemento erótico ao emocional interior, numa dignificação   humana à unicidade matéria / espírito”.

Nesta sua temporada carioca, com "Mémoires d'un Seigneur", Dubois vai ainda mais longe ao colocar em cena apenas um bailarino profissional – Rémi Richaud, acompanhado de 50 amadores, todos masculinos,  recrutados em diversas comunidades periféricas da cidade.

A inclusão destes “excluídos sociais” legitima, assim, a autenticidade de uma digna proposta, ainda que em metafórica  temporalidade cênica, de resgate das  marginalizações pelo incentivo às pulsões artísticas.

Onde, ainda que alcem meio voo gestual diante da força interpretativa do solista, estes cinquenta coadjuvantes,  com sua despretensiosa e  espontânea entrega, configuram um emotivo e bravo momento de afirmação redentora do coletivo social.

Sob luzes sombrias (Patrick Riou) e árido score sonoro(François Caffenne),corpos rastejantes como serpentes diante de um anti-herói tirânico. Que  em sua compulsão de poder revela, em vigorosa presença dramático/coreográfica,o irradiante talento do jovem bailarino de apenas 21 anos, Rémi Richaud.

No que se refere à concepção coreográfica/teatral de Olivier Dubois, sua contextualização filosófico/literária revela um referencial nietzschiano  de vaidade, domínio e  superioridade humana sobre uma submissa massa, de informe e patética ambiguidade.

E na sua formatação estética, com traços de Martha Graham que remetem, ainda, a Béjart e Bausch, “Les Mémories d'um Seigneur”, para o próprio Dubois, “é talvez a história de um rei , de imensa solidão”, mas numa trajetória de loucura e tragédia que pode ser,quem sabe, a de cada um de nós.

                                            Wagner Corrêa de Araújo


 LES MÉMOIRES D'UN SEIGNEUR ,espetáculo de Olivier Dubois,esteve em      cartaz na Cidade das Artes,RJ, dias 12 e 13 de novembro.

ATÉ O FINAL DA NOITE: RESISTINDO COMO OS CACTOS

FOTOS/RENATO MANGOLIN

Ocupando um lugar à parte na nova dramaturgia carioca, Júlia Spadaccini vem se dedicando, com afinco, a uma contextualização das relações humanas sob os aspectos afetivos e no âmbito familiar, com um olhar armado na contemporaneidade.

Dando continuidade à sua  singularizada  linha autoral, com culminâncias maiores em  sua peça “Quebra Ossos”( 2012) e, especialmente em  “Um Dia Qualquer”(2013), ela retoma os palcos com  novas escrituras para um texto de dez anos e até agora inédito.

Até o Final da Noite é , assim, outro mergulho na vida cotidiana, no mais trivial do que se passa na jornada doméstica de um casal de meia idade – Olavo( Isio Ghelman) e Ana Lúcia ( Angela Vieira). Algum tempo depois da partida para o leste europeu do filho único, e na expectativa de um jantar com novos amigos  - Edu (Rogério Garcia) e Branca( Letícia Cannavale).

Também unidos matrimonialmente, ambos representam outras possibilidades de uma vida a dois, de novos tempos geracionais além do ciclo cronológico rotineiro e sem perspectivas dos anfitriões, envelhecidos sob um mesmo teto há trinta anos.

Olavo encara, com sua habitual indiferença e descrédito, esta visita, ironizando-a até no que ela significa de incômoda invasão jovem de sua passividade domiciliar quase “anciã”.

Enquanto Ana Lúcia insiste em acreditar na enérgica jovialidade do outro casal – Edu e Branca, como possível fator de transformação da desgastada proximidade física e do vazio passional de um marido conformista.

Onde o personagem de  Angela  Vieira, com sua cativante e espontânea performance, revela nuances peculiares ao expressar seus desalentos caseiros , em tons sempre humorados e longe de quaisquer quedas melodramáticas.

Numa mesma coesão,  tem realce o vigoroso tratamento que Isio Ghelman imprime à sua postura de critico sarcasmo às tentativas de sua consorte de fuga aos lugares comuns do convívio conjugal.

Mesmo com o empenho de entrega aos seus papéis, a participação de Letícia Cannavale e Rogério Garcia fica relegada , pela própria delimitação da trama dramatúrgica, a uma função coadjuvante.

A solução cenográfica ( Beli Araújo),mesmo não sendo novidade, tem uma bela eficácia, sob o desenho de luz (Renato Machado) e ao lado do acerto dos figurinos((Ticiana Passos) e do confronto de épocas e estilos musicais( Leandro Baumgratz).

Na dimensão psicológica  do seu formato dialogal, Até o Final da Noite, na concepção diretorial  de Alexandre Mello, ancorada na experiência de suas anteriores  incursões na obra de Julia Spadaccini, prioriza  o naturalismo das falas e ações.
  
Onde o ritmo e a sinceridade de seu comando favorecem o clima da representação. Criando imediata identificação de cada um de nós com a metafórica simbologia do enfrentamento dos cactos às habituais securas do dia-a-dia.

                                               Wagner Corrêa de Araújo


ATÉ O FINAL DA NOITE está em cartaz no Teatro do Leblon, quinta e sábado ,às 21h30m;domingo , às 20h. 70 minutos. Até 19 de fevereiro.


DEMÔNIOS: PASSIONALIDADES RASTEJANTES

FOTOS/DALTON VALÉRIO

O maior dramaturgo de língua sueca desde 1912”, o  ano em que  morreu Strindberg. Assim é definida , pela crítica de seu país, a trajetória autoral de Lars Norén que, aos 72 anos, tem uma vasta e reconhecida obra publicada, entre a poesia e o teatro especialmente.

Na sua identificação com os relacionamentos depressivos que marcam a cinzenta atmosfera nórdica de  Strindberg a Bergman, ele revela ,ainda, traços do insight psicológico e do reducionismo a um único espaço cenográfico e tempo cronológico das peças de O’Neill, Albee e Pinter.

Na sua teatralização da disfunção dos relacionamentos amorosos no âmbito familiar, há uma psicopatologia dos traumas existenciais. Aqui, em Demônios, original de 1984,  retratados com um humor ácido, na  insensatez infernal  de amores rastejando entre ódio, egoísmo e solidão.

E de concretude, apenas, entre pulsões de agressividade e depravada banalização da sexualidade, na fria ambientação doméstica de um casal burguês sem filhos – Katarina(Luiza Maldonado) e Frank( Bruce Gomlevsky).

Que, às vésperas da cerimonia fúnebre com as cinzas da mãe deste último, recebem a visita do casal vizinho Thomas( Gustavo Dasmaceno) e Jenna (Thalita Godoy). Com seu quase tributo contextual ao “medo de Virginia Wolf”, numa “longa jornada noite a  dentro”.

Numa original concepção cenográfica ( Bruce Gomlevsky/Bel Lobo) em formato de arena esportiva, dando aos espectadores um olhar  superiorizado sobre células representativas de recantos de um apartamento. Decorado à base de elegante design, mas com objetos e peças de vestuário displicentemente deixadas ao léu.

Onde a iluminação ( Elisa Tandeta) ,com gradativos nuances, contextualiza requintados figurinos(Andrea Fleury), sob o bom gosto de incidências musicais  (Bruce Gomlevsky)com um sotaque preciso de ópera e jazz para sublinhar a ação.

A alma egocêntrica de Frank exerce seu domínio insano como fuga à sua incapacidade de escapar da obsessão edipiana pela mãe morta, em virtuosística performance de Bruce Gomlevsky.

Enquanto o emotivo contraponto da Katarina de Luiza Maldonado é exercido na compulsão erotizada de um personagem, entre a sensualidade de sua indumentária ou da atrevida fisicalidade desnuda.

Completando esse nervoso round de corações e mentes, as inseguranças de Thomas são compensadas nas rompantes atitudes personificadas por Gustavo Damasceno e as carências afetivas de Jenna na angustiosa tensão do papel de Thalita Godoi.

Em Demônios, carismática dramaturgia das maldades da condição humana, o comando conceptivo/diretor de Bruce Gomlevsky expressa sua contumaz e potencial abordagem do insólito e do humor negro em uma instintiva gramática cênica.

                                         Wagner Corrêa de Araújo




DEMÔNIOS em nova temporada ,no Teatro do Leblon, segundas e terças, às 21h; 100 minutos.Até 13 de dezembro.

ENTREPARTIDAS: QUANDO A VIDA URBANA É O PALCO


FOTOS/DIEGO BRESANI/OLÍVIA PROENÇA/THIAGO SABINO

O Teatro do Concreto, uma já conhecida companhia brasiliense por seus experimentos dramatúrgicos, faz temporada em terras cariocas com a original proposta de Entrepartidas, a partir de uma concepção de Jonathan Andrade, sob o comando diretorial de Francis Wilker.

Num mimético enquadramento estético do espetáculo, poder-se ia aplicar a ele duas possíveis classificações – do chamado Teatro Ambiental ( imaginado por Schechner) ou o Teatro Espontâneo de Kantor , ambos na quebra de limites entre o espectador e a performance. Sem  nunca privilegiar o ator no estabelecimento de novos espaços físicos e relações psicológicas, na total interatividade de observado/observador.

Ou,talvez,simplificando esta formatação, numa aproximativa fisicalidade/emotividade, como se desenvolve comumente o teatro de rua. Mas, aqui, sempre com a pulsão de estimular a plateia ao abandono de seu imobilismo diante da representação compartilhada, na sua integralidade, com o espaço urbano.

Em que cada um se sinta participante da emoção coletiva que surpreende, a cada instante, o mero transeunte ou citadino que se confunde com o corpo cênico. Pois é assim este sequencial de uma dramaturgia, sem quaisquer rigorismos narrativos e sujeita a um sensorial improviso.

Quando o ator transforma seu personagem numa experiência humana viva para os passantes , como curiosos ou testemunhas de um fato que desconhecem ser teatralizado. Desde o ponto de partida do ônibus, que conduzirá seus ocupantes /espectadores a uma viagem inusitada por ruas, becos e praças de Botafogo.

Ali, defronte ao pórtico central do cemitério São João Baptista, um casal de atores discute, nervosamente, com um sotaque tão verista, que as ameaças de agressão física levam os transeuntes e motoqueiros, a uma quase intervenção com fins de apaziguamento.

No interior do transporte, no volante, um também ator com suas prédicas instrucionais aos passageiros. Surpresos, na visualização, pelas janelas, de acontecências externas, com um “engano realístico” na autenticidade a elas imprimida por outros integrantes do elenco.

A seguir, os espectadores ,na cena de maior envolvência, descem numa praça. Onde se cruza um casal de atores, com risíveis juras de amor ,confundindo-se, em sua indumentária e posturas,  com moradores de rua. Via lúdicas interferências musicais e circenses, num sensitivo gestual felliniano/pirandelliano, em que a adesão dos mendigos seria a percepção especular de si mesmos. 

Neste processo criativo, desprovido de aparatos técnicos, a partir de uma linha dramática apenas indicativa, é dada ao elenco uma “força psíquica” coletiva, libertária e capaz de propiciar a eclosão de inventivas individualizações na sua comunicabilidade como artistas.

Recuperando, ainda, a ancestral aura mágica da teatralidade como um palco da vida, onde ,afinal, somos todos atores, com hora para começar e para  sair de cena, nestas eternas Entrepartidas da condição humana.

                                                         Wagner Corrêa de Araújo


ENTREPARTIDAS está em cartaz , de sexta e segunda, às 20h;domingo, às 19h. Com ponto de partida do ônibus no portão central do Cemitério São João Baptista/Botafogo.150 minutos. Até 14 de novembro.

PIXEL: ENÉRGICA E LÍRICA FISICALIDADE URBANA

FOTOS/AGATHE POUPENEY/PATRICK BERGER/LAURENT PHILIPPE
                                                           
Um inventivo e orgânico encontro entre a mídia digital e a gestualidade de origem urbana marcam a Compagnie Käfic em sua criação Pixel ,original de 2014.

Desde que o coreógrafo/diretor Mourad Merzouki , há uma década,na Bienal de Lyon, foi envolvido pelo ardor entusiasta das trocas corporais da capoeira , decidiu integrar dançarinos populares brasileiros em alguns trabalhos de sua Cia.

Juntou assim à sua formação de hip hop, circo e artes marciais,ritmos e gestualidades das comunidades e favelas. Em obras que vem se sucedendo desde que a Käfic se tornou um fenômeno de mídia, com o recorte autoral , de elegante contemporaneidade coreográfica, que ele dá às danças urbanas.

Numa impactante sequência que inclui, entre outras criações, Correria e Agwa, onde faz uso de elementos atléticos e de conceituais ecológicos. Priorizando sotaques e gestualidades nativas africanas, caribenhas e brasileiras , paralelas a manifestações etnográficas das chamadas danças urbanas, do hip hop ao rap,do break ao funk.

Em Pixel, com que excursiona agora por várias capitais brasileiras, soube , com inteligência emotiva e domínio formal, aliar a tecnologia mais avançada das projeções digitais com a fisicalidade de corpos em perpetual motion.

Sem nunca perder o foco de que a materialização de luzes em cores e efeitos visuais singulariza um diálogo arrojado e expressivo dos bailarinos com a tecnologia 3D.

Onde, ao contrário dos múltiplos e usuais abusos cinéticos que subordinam a dança a detalhes de imaginárias sombras espectrais , dá a hora e a vez  ao visível desempenho físico/coreográfico, no comando interativo da plasticidade das digitalizações computadorizadas.

Diante das translúcidas insinuações de imagens fragmentadas de águas, murais tridimensionais , superfícies geometrizadas, prevalece, em sua integral mobilidade, uma dança vigorosa com traços da  urbanidade. Aos quais se juntam objetos lúdicos/esportivos tais como arcos e patins.

O gestual dos onze bailarinos, com absoluto apuro técnico e envolvência sensorial, tem uma pegada de lastro naturalista e muito feeling, desde improvisos a movimentos coreografados.  Ao lado, de contorcionismos de acrobacia circense, corridas atléticas e rodas de break.

De impetuosas rupturas de pernas e braços a ombros robotizados e quedas bruscas, com apoios solares em pés, mãos e cabeças, no seu referencial rapper dos exibicionismos em espaços públicos.

A inspirada trilha sonora (Armand Amar) é um destaque a parte com suas incidências ambientalistas a partir de cordas, teclado, percussão, vozes, sintetizadores numa leitura diferencial da sonoridade hip hop/rap.

Completando-se com  figurinos cotidianos, tudo flui em Pixel, num dialogo de espontaneidade  poética com a mimética digital e a corporeidade cênico/coreográfica para sustentar, enfim, a cumplicidade da plateia.

                                               Wagner Corrêa de Araújo

A  COMPAGNIE KÄFIC APRESENTA PIXEL em turnê nacional pelo RJ( Theatro Municipal),seguindo para São Paulo (Teatro Alfa), Curitiba( Teatro Guaíra) e Salvador (Teatro Castro Alves), novembro de 2016.


            

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