QUEIME ISSO :ANTES QUE ANOITEÇA


               
QUEIME ISSO: ANTES QUE ANOITEÇA


Uma nova onda comportamental afetou , com amargor, os anos 80 após o espanto provocado via síndrome da Aids.
E se nunca se experimentara tanta liberdade , um corte laminar se estabeleceria  simultaneamente , acrescido de um retorno avassalador do preconceito homofóbico.

Queime Isso ,original de 1987, , do  dramaturgo inventor  do off / off Broadway -  Lanford Wilson, reflete sobre as ligações afetivo/sociais de um grupo de amigos sob o impacto da morte  de um casal gay num acidente de barco, partilhando um deles -Robbie - um loft com a coreógrafa Anna ( Karine Carvalho) e o publicitário Larry ( Alcemar Vieira).

Num  espaço cenográfico elementar  (Miguel Pinto Guimarães),uma minimalista  sala de estar , aparece também o namorado de Anna, o roteirista e pretenso intelectual Burton ( Celso André), dos três o menos atingido pela recente notícia fúnebre. E que, paralelo à sua postura comedida, revela seu ironizado alheamento por trás da conduta egocêntrica , de  exacerbado pragmatismo.

Enquanto Anna e Larry, no questionamento doloroso e árido das confusas  perspectivas com o súbito findar-se do amigo, dialogam sobre os possíveis  desdobramentos emocionais e profissionais  da emergente tragicidade ( Robbie era também parceiro no universo da dança) . 

Mas o elemento propulsor da trama é a  inesperada chegada de Pale ( Tatsu Carvalho),uma espécie de Stanley Kovalsky da geração yuppie ,aqui escondendo sua anti-aceitação do irmão gay(Robbie).
No ímpeto da revolta e na rudeza de suas atitudes e a intenção de posse física, quase um estupro, de Anna, num ato agressor de afirmação de sua heterossexualidade.

A simbologia do período noturno, onde transcorrem todas as ações, se estende também à caracterização de trajetórias estigmatizadas pelos conflitos de identificação da sexualidade.
A androgenia assumida do comparsa residencial , Larry, a insatisfação afetiva de Anna diante de um namorado distanciado (Burton) e a transgressividade agressora de Pale.

Onde uma vazada  iluminação( Felipe Lourenço) marca os discretos figurinos( Alessandra Padilha), sob positivas incidências musicais não rigidamente enunciadoras de época ( Mauro Bernan).

Este universo em decomposição é retratado ,com a precisão minuciosa de um flagrante fotográfico , pelo exponencial comando cênico de Victor Garcia Peralta , ainda que não  rompa a nuance narrativa sequencial de previsibilidade novelesca.

Mesmo assim  fissurada , por incisivas performances do elenco guiadas pela definição mais favorável de personagens, como os  de Tatsu Carvalho e Alcemar Vieira, de flagrante contraste conceitual e da constância em cena de Karine Carvalho.

Na ansiada expectativa dos  clarões do próximo amanhecer, estes seres em combustão cotidiana,direcionam -se enfim, E antes que anoiteça outra vez, queimam  as lembranças e cauterizam as feridas  memoriais da solidão , dos desencontros e das    iniquidades da condição humana.



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