TEMPORADA TEATRAL 2025 : PRIORIZANDO A INSPIRAÇÃO DA PALAVRA LITERÁRIA EM INSTIGANTES TRANSMUTAÇÕES DRAMATÚRGICAS

Eddy Violência & Metamorfose. A partir da obra de Edouard Louis. Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky /Direção Concepcional. Julho/2025. Renato Pagliacci/Fotos.


Entre os momentos mais especiais da temporada teatral 2025, nos palcos cariocas, bem sucedidas versões dramatúrgicas de obras literárias de prevalência ficcional, entre autores brasileiros e além-fronteiras, tornaram-se habituais no aplauso do público e na opinião da crítica.

Algumas delas sob um dimensionamento estético de uma quase literal fidelidade ao texto original, enquanto outras optaram por avançar numa proposta inventiva de releituras cênicas, priorizando sempre um olhar voltado para a problemática da contemporaneidade e dos novos caminhos do ofício teatral.

Uma das conceituadas escritoras americanas de realismo fantástico - Ursula K. Le Guin (1929-2018), é a autora do enigmático conto Aqueles Que Deixam Omelas, de 1973, sob o significado fabular, moral e filosófico, de uma cidade idílica. Originando o monólogo de similar denominação, numa envolvência intimista da proposta dramatúrgica de leitura do texto original (direção de João Maia, com performance solo de João Pedro Zappa).

No mesmo seguimento, outro monólogo procura se ater à textualidade ficcional do romance Sidarta, de Herman Hesse, onde a nudez do intérprete Angel Ferreira, na direção concepcional por Walter Daguerre, explicita o significativo metafórico do despojamento de qualquer elemento que esconda ou disfarce a natural fisicalidade humana, pelo ato de entrega total à busca de nossa interioridade espiritual e “de como conviver com o seu eu”.

No caso de O Som Que Vem de Dentro, do escritor americano Adam Rapp, sintonizado com uma dramaturgia reflexiva, ao mesmo tempo, plena do compasso psicofísico de um thriller, fluindo do imaginário das páginas ficcionais aos seus desdobramentos cênicos. Na corporeidade e na vocalização de dois convictos atores de gerações diversas (Gláucia Rodrigues e André Celant), sob perceptível empenho artesanal no comando de João Fonseca.


O Som Que Vem de Dentro. Adam Rapp/Dramaturgia. João Fonseca/Direção Concepcional. Maio/2025. Cláudia Ribeiro/Fotos.


Considerado um fenômeno midiático da mais recente  literatura francesa, Edouard Louis e seus romances autobiográficos, tem fascinado dos palcos às telas. Dando voz ao que ele classifica como “morte social”, à causa do preconceito e da exclusão por sua origem humilde e o corajoso enfrentamento da identificação de sua sexualidade, numa conturbada trajetória familiar e social pontuada pela pulsão da homofobia.

E por um episódio de violência por estrupo dando vazão a uma corajosa metamorfose em seu conceitual de vida, na assumida remissão pelo ofício da palavra literária e teatral. Resultando, com base em três de seus livros, na peça Eddy Violência & Metamorfose, uma das mais impactantes montagens do ano (Luís Felipe Reis e Marcelo Grabowsky na direção) com interpretação titular de João Côrtes, como o alter ego do escritor.

A escritora norte-americana Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), é reconhecida como icônica precursora das lutas emancipatórias feministas. Chegando até nós seu pensamento libertário, pelo alcance cênico-direcional de duas representantes de um teatro brasileiro de pulsão performática/ideológica - Alessandra Maestrini e Denise Stoklos. No espetáculo O Papel de Parede Amarelo e Eu, a partir de seu mais polêmico conto, tendo como protagonista Gabriela Duarte no primeiro monólogo de sua trajetória como atriz.


Veias Abertas 60 30 15 seg. Pedro Kosovski e Carolina Lavigne/Dramaturgia. Marco André Nunes/ Direção. Julho/2025. Lígia Jardim/Fotos.


Em plenos anos 70, no entremeio de regimes ditatoriais que se estendiam em processo ascendente na América Latina, incluído o Brasil, o escritor uruguaio Eduardo Galeano publicava um livro fundamental Veias Abertas sobre esta controvertida realidade política do continente.

Que, através da parceria autoral - Pedro Kosovski e Carolina Lavigne - revela desbravadora direção de Marco André Nunes próxima de um teatro coreográfico. Sob a proposta performática de um corpo-linguagem  caleidoscópico, presencial em Veias Abertas 60 30 15 Seg., em provocante dramaturgia de alcance latino-americano.

Sob o ângulo da literatura brasileira recente adaptada aos palcos, Torto Arado um dos maiores sucessos do mercado editorial, teve sua palavra literária (por Itamar Vieira Júnior) transposta ao formato de teatro musical. Mas não alcançando ali o mesmo impacto temático no entorno de um resistente preconceito racial, marcante no ideário do romance. Mas que, em sua adaptação cênica, teve certa limitação na autenticidade dramatúrgica, à causa de excessivas recorrências elucidativas da narrativa ficcional.

Rodrigo Portella assumiu o comado diretor do Grupo Galpão para transmutar o livro do escritor português José Saramago numa releitura dramatúrgica titulada (Um) Ensaio Sobre a Cegueira. Numa proposta diferencial em que sua temática é exposta sob um tratamento estético de prevalente experimentalismo teatral configurando um teatro de linhagem reflexiva que une, em ato de coesão coletiva, atores e espectadores.

O contraponto entre o visto e o imaginado, pela rompante ousadia criativa da concepção de Rodrigo Portella, a partir de uma textualidade literária situada entre a irracionalidade e o pesadelo, nunca deixando de ser um teatro consistente e questionador, solidificado por sua pulsão de denúncia e pela potencialidade nas suas intenções críticas...

 

                                               Wagner Corrêa de Araújo

 

(Um) Ensaio Sobre a Cegueira. A partir da obra de Saramago. Grupo Galpão/Rodrigo Portella/Direção Concepcional. Setembro/2025. Guto Muniz e Tati Motta/Fotos.

RETROSPECTIVA DE DANÇA 2025 : UM ANO COREOGRÁFICO AINDA LIMITADO MAS COM ALGUMAS BOAS SURPRESAS

 

Frida/Balé doTheatro Municipal/RJ. Reginaldo Oliveira/Concepção Coreográfica. Outubro/2025. Daniel Ebendinger.


Com um significativo propósito de evocar a necessária preservação do meio ambiente através de seu maior patrimônio, a Cia de Ballet Dalal Achcar abriu a programação carioca de dança com a reestreia no palco do Municipal de “A Floresta Amazônica”. Obra marcante na trajetória da bailarina, diretora e coreógrafa Dalal Achcar conectando o gestualismo clássico a um sutil sotaque contemporâneo e que deveria integrar, vez ou outra, o repertório do Balé do TM/RJ pela força de sua brasilidade, não só coreográfica, mas musical e temática.

A primeira surpresa entre os grupos de dança contemporânea foi trazida pela Cia Híbrida, através de mais uma criação de seu coreógrafo-diretor Renato Cruz, em outra de suas bem sucedidas propostas-performances de dança urbana, no circuito Rio/Paris.  Novo Pulso dando um pleno recado estético-social, como bem define seu inventivo signo autoral de desdobramento coreográfico - “Novo é o fluxo que des-agua na cena que constrói o porvir”...

Ainda a Cia Hibrida, agora com Nouveau Monde inédita em palcos brasileiros, em que prevalece um processo de estrutura próximo da dança-teatro na intermediação de textos falados questionando o risco da dança robotizada diante da realidade virtual. Numa aproximação quase paralela a Esther Companhia de Dança, desta vez recorrendo aos princípios da Física, na singularidade virtual de uma dança temporal-espacial com o espetáculo Matéria. Incentivando a contribuição personalista de seus cinco bailarinos-criadores sempre direcionados às perspectivas desbravadoras de uma catártica dança cósmica.

Em sua turnê nacional começada no RJ, o Corpo de Dança do Amazonas, apresentou diversos trabalhos, destacando-se, entre eles, TA - Sobre Ser Grande em que a CDA encontra seu momento de maior e mais surpreendente potencialidade criativa e sensorial ao mesmo tempo. Onde a criação de seu diretor-coreógrafo Mário Nascimento estabelece exemplar ressonância do ideário estético/coreográfico de um corpo-linguagem ecoando uma mensagem de esperança, entre reflexos especulares da luta pela sobrevivência de um povo originário e de uma raça indígena.


Corpo de Dança do Amazonas. TA-Como Ser Grande. Mário Nascimento/Concepção Coreográfica-Direcional. Junho/2025. Michael Dantas/Fotos.


Outra Cia, plena de brasilidade, é o Balé Folclórico da Bahia que celebrou seus 37 anos com o espetáculo O Balé Que Você Não Vê, na peculiaridade de suas temáticas no entorno da cultura popular baiana, como pelo tratamento diferencial que assume em sua dramaturgia da corporeidade. Alcançando o grande momento do espetáculo na peculiar versão do Bolero, mantendo as linhas básicas da composição de Ravel, em que todos os elementos estéticos alcançam sua culminância na coreografia original de Carlos dos Santos, pela releitura por Vavá Botelho e Zebrinha.

O espetáculo comemorativo dos 50 anos do Grupo Corpo estabelece um liame entre o passado, o presente e o futuro, ao colocar lado a lado, uma das clássicas obras da Cia - Parabelo, de 1997, e a inédita Piracema. A primeira como uma exclusiva composição coreográfica de Rodrigo Pederneiras, seguida da outra numa simultânea leitura deste com Cassi Abranches. Com uma dramaturgia corporal de movimentos híbridos, entre as energizadas contrações da fisicalidade no início e no final da obra, entremeadas pela suavidade romantizada de gestualidades que se fundem numa pulsão envolvente.

Abrindo a temporada internacional, a Compagnie Käfig, num simbólico processo de criação do coreógrafo franco-argelino Mourad Merzouki reinventa, sob similar titularidade, o filme La Couleur de La Grenade, do armênio Sergei Parajanov, numa retomada de suas múltiplas linguagens artísticas. O que Merzouki transmuta para um palco coreográfico de realidade imagética-onírica, adornado com vistosas tapeçarias antigas, onde seus sete excepcionais bailarinos transitam entre imagens virtuais, imersos em delirante magia gestual.


Cia Híbrida. Novo Pulso. Renato Cruz/Direção Coreográfica/Direcional. Maio/2025. Renato Mangolin/Fotos.



O Balé do Theatro Municipal, além de seu ofício habitual de priorização do repertório clássico, reapresentando o Lago dos Cisnes e o Quebra Nozes, alcançou um inédito dimensionamento coreográfico na performance do balé Frida, criação exclusiva de Reginaldo Oliveira para a companhia Salzburger Landestheater, onde atua há cerca de uma década.

Obra com um toque de teatro coreográfico sobre os dramas psicofísicos da pintora mexicana, materializando seu processo criador no uso da corporeidade dos bailarinos, com um surpreendente resultado, tanto nos solos e duos, como nas prevalentes atuações grupais, em irradiante expressionismo da corporeidade de um afinado elenco de intérpretes. 

Complementando esta essencialista retrospectiva da Dança 2025 pela bem-vinda retomada do ofício coreográfico de Dalal Achcar, na viabilização de uma inédita proposta de 60 anos atrás, com Água de Meninos para a sua Cia, incluindo temas de Tom Jobim, exclusivamente compostos para o balé. O que, junto à recente formação de uma nova companhia carioca, a de Thiago Soares na instantânea temporada de Brusco, há de abrir, certamente, novos horizontes no panorama da dança 2026, tanto em nível carioca como nacional...


                                             Wagner Corrêa de Araújo


Grupo Corpo / 50 Anos. Piracema/Cassi Abranches e Rodrigo Pederneiras. Julho/2025. José Luiz Pederneiras/Fotos.

TITANIQUE - O MUSICAL : A TRÁGICA TRAVESSIA MARÍTIMA TRANSMUTADA EM PARÓDIA BESTEIROL, SOB UM SOTAQUE QUEER E CONTAGIANTE TRILHA JUKEBOX

 

Titanique. Blue, Rousoli e Mindelle/Dramaturgia Original. Gustavo Barchilon/Direção Concepcional. Dezembro/2025. Caio Gallucci/Fotos.


Assim como Mamma Mia (2001) se transformou num clássico do musical jukebox, do West End à Broadway, dimensionado exclusivamente no entorno dos maiores sucessos de uma banda e de um cantor, Titanique tornou-se outro incrível fenômeno do gênero.

Paralelo à versão cinematográfica de James Cameron (1997) onde a trilha privilegiava a canção tema My Heart Will Go On, da compositora e cantora canadense Céline Dion, sequenciada por uma versão para teatro musical, ainda no mesmo ano, e uma posterior releitura-paródia, no circuito off Broadway.

Mas para que o conceitual burlesco, na extravagância hilária das referências eróticas em compasso queer, nas situações nonsense insinuadas por um tratamento entre o absurdo e o besteirol, a partir de uma narrativa inspirada por uma tragédia real, não perturbe muito o conservadorismo acomodado de muitos espectadores, alguns requisitos dramatúrgicos foram essenciais.

E foram estes, com certeza, a razão do grande êxito deste musical-paródia a partir do ideário original de seus realizadores e reproduzido com artesania pelos responsáveis do musical, abaixo dos limites da linha equatorial, sob a ressonante direção artística/concepcional de Gustavo Barchilon.


Titanique. Blue, Rousoli e Mindelle/Dramaturgia Original. Gustavo Barchilon/Direção Concepcional. Dezembro/2025. Caio Gallucci/Fotos.


A começar pelo acerto de sua versão dramatúrgica, realizada em dúplice parceria com o roteirista Rafael Oliveira. Mais a direção musical de Thiago Gimenes e a de movimento por Alonso Barros, tudo a partir de outro dos projetos de Gustavo Barchilon, resultado de sua vasta expertise em musicais da Broadway e do West End londrino.

Numa bem cuidada produção contando com um elenco de craques, entre atores/cantores do teatro musical, ao lado de intérpretes mais voltados para uma linha do humor tanto nos palcos como nos programas e séries de televisão. Reunindo entre os principais protagonistas Alessandra Maestrini, Giulia Nadruz e Marcos Veras, além de George Sauma, Luís Lobianco, Mateus Ribeiro, Talita Real, Wendel Bendelack e uma atuação singular da atriz trans Valéria Barcelos.

O preenchimento realista da caixa cênica (Natália Lana) tem assumida proximidade com a visão pictórica do convés de um antigo transatlântico em dois planos, desde os funis de vapores da parte superior do navio até a plataforma de baixo, através de porta que sugestiona o acesso a outras ambiências como cabines e salão cerimonial de festas e refeições .

Onde uma plasticidade funcional é ressaltada pelos efeitos luminares (Maneco Quinderé), na mutação focal de espaço-tempo por onde transita o elenco de 12 atores, na diversidade de suas indumentárias (Theo Cochrane).  Ora formalistas sob um toque atemporal, ou conectadas a anárquicos e irreverentes detalhes, trazidos por certos personagens, desde o vermelhão brega do coração do oceano à louca cafonice de um décor de pomba para cabelos.

Numa sempre expressiva corporeidade imprimida por Alonso de Barros, equilibrada entre as passagens de um romantismo novelesco, ampliada pelas canções do repertório sentimentalóide de Céline Dion, e um gestual risível, espontaneamente afetado ou atrevido.  

Alessandra Maestrini a delirante narradora como um ícone gay, faz a luxuriante diva (Céline Dion), arrasando por seu proposital sotaque gringo, além de uma potencialidade vocal cuja extensão só é superada pela luminosa tessitura de soprano de Giulia Nadruz (Rose). Caindo de amores por Rose, o deslumbrado e não menos simplório tripulante Jack (Marcos Veras), completa, convicto, o alcance do timing cômico/amoroso do musical.

Estendendo-se o brilho do naipe feminino na peculiar performance da sobrevivente Molly Brown (Talita Real). Sem deixar de destacar os arroubos histéricos de Luís Lobianco no excêntrico personagem drag de Ruth, a mãe de Rose, além do humor camp explodindo ainda com Carl (George Sauma) o noivo frustrado, e Victor (Wendel Bendelack), o capitão do navio.

Gustavo Barchilon mais uma vez, num surpreendente gol de placa no campo conceitual do teatro musical, sabendo destilar bem seu mordaz contraponto crítico no desafio à grande tradição, com ironizado humor e inventivo olhar estético-direcional armado na contemporaneidade...

 

                                        Wagner Corrêa de Araújo

 

Titanique – O Musical está em cartaz no Teatro Sabesp/Frei Caneca/SP,  sábado, às 17 e às 20h; domingo, às 15h e às 18h, até o próximo dia 14 de dezembro.

CHORUS LINE : UM MUSICAL EMBLEMÁTICO QUE REVOLUCIONOU A ESTÉTICA, DESAFIANDO A TRADIÇÃO E O GLAMOUR DA BROADWAY

Chorus Line. Michael Bennet/Criação Autoral. Miguel Falabella/Versão Concepcional. Bárbara Guerra/Direção Artística e Coreográfica. Dezembro/2025. Caio Gallucci/Fotos.


Há exatos 50 anos o ideário do bailarino e coreógrafo americano Michael Bennet que, desde o início de seus estudos numa academia de dança, já tinha decidido optar pela trajetória no mundo dos musicais, alcançava seu grande momento artístico com A Chorus Line.

Especializando-se também como ator, roteirista, produtor e diretor, na década de 70, já era então bastante conhecido no universo da Broadway, quando  empenhou-se na concretização de projeto inovador, apesar dos seus riscos, pelo qual desconstruiria toda a tradição estética conceitual no entorno dos padrões de um musical clássico.

E é esta emblemática criação que, agora, outra vez, está de volta aos nossos palcos numa releitura textual (Miguel Falabella) conectada à contemporaneidade, extensiva à versão das letras, sob envolvente direção concepcional e coreográfica de Bárbara Guerra, numa das mais surpreendentes iniciativas brasileiras do gênero nos últimos tempos.

Para a realização deste inusitado antimusical, Michael Bennet foi observando o comportamento dos “gypsies”, bailarinos que pulavam de galho em galho, como meros coadjuvantes-coristas nas produções, sem nunca se estabilizarem em sua incessante luta, cercada por quedas súbitas, no frenesi da busca de um lugar ao sol.

A partir de uma série de depoimentos destes aspirantes, elaborou uma narrativa psico-confessional, em parceria dramatúrgica com James Kirkwood, e que abordava, desde os  habituais fracassos artísticos às frustrações pessoais, indo dos conflitos de identidade aos abusos sexuais, no enfrentamento hostil do ambiente familiar e do preconceito social.


Chorus Line. Michael Bennet/Criação Autoral. Miguel Falabella/Versão Concepcional. Bárbara Guerra/Direção Artística e Coreográfica. Dezembro/2025. Caio Gallucci/Fotos.


Onde, no despojamento de uma audição em sala de ensaios, procuravam mostrar suas habilidades na tentativa de serem selecionados para uma nova produção de teatro musical, perante um diretor (Zach) que os escolhia ou eliminava, friamente, em caráter definitivo. Papel, agora, simbolicamente, assumido por Raul Gazzola que fizera parte do elenco na pioneira montagem paulista de 1983.

A trilha sonora original (Marvin Hamlisch) é, aqui, artesanalmente tratada pelo comando musical de Jorge de Godoy, em temas melódicos que se tornaram grandes hits, paralela à vocalização num quase formato de monólogos teatrais e recitativos cantados sobre os dramas pessoais e as aspirações de cada concorrente.

Enquanto tomadas fílmicas, por uma câmera móvel (Mess Santos) circulando entre os atores, estabelecem proximidade intimista com os espectadores através das reações faciais emotivas dos intérpretes, reproduzidas num telão frontal, não ficando nenhum deles indiferente diante do que viam. Um procedimento que se tornou habitual nas retomadas mais atuais da encenação de Chorus Line 

Um elenco super afinado reunindo experientes intérpretes, habitués de bem sucedidas incursões no teatro musical, muitos deles premiados pela performance em personagens icônicos, adorados por um público de todas as idades, ficando difícil destacar isoladamente alguns sem citar os outros.

Tudo concorrendo para uma energizada corporeidade gestual (Bárbara Guerra), dividida entre passos e movimentos que remetem em processo paralelo, tanto às sensitivas posturas do ballet (At the Ballet/I Can do That), num referencial à formação daqueles atores/bailarinos, como ao contagiante sensualismo dos acordes pop-jazzísticos, tão presencial na trilha do musical (One - I Hope I Get It).

Em seu prevalente dimensionamento cênico (Natalia Lana) assumidamente despretensioso, incluídos os figurinos com sotaque cotidiano (Theo Cochrane), sem excepcionais efeitos luminares (Tulio Pezzoni) nas cenas preliminares, o que concorre para ampliar a expectativa da surpresa final.

Sequenciadas até o inesperado psicodelismo do apoteótico epílogo, revivendo em todos os seus aspectos cenográficos e indumentários, além de cartolas usadas por todos, entre luzes extasiantes, o absoluto glamour como o maior legado dos grandes musicais da Broadway...

 

                                          Wagner Corrêa de Araújo


Chorus Line está em cartaz no Teatro Villa-Lobos/Jardim Pinheiros/SP, quintas e sextas às 20h; sábados às 16h e 20h; domingos, às 15h30 e 19h; até o próximo dia 14 de dezembro.

ÁGUA DE MENINOS / CIA BALLET DALAL ACHCAR : PARTITURA INÉDITA DE TOM JOBIM INSPIRA OS PALCOS COREOGRÁFICOS



Água de Meninos Fantasia Poética em Dois Atos. Dalal Achcar/Éric Frédéric/Concepção Coreográfica/Direcional. Cia Ballet Dalal Achcar. Dezembro/2025. Laura Fragoso/Fotos.
 


Sessenta anos depois, a bailarina e coreógrafa Dalal Achar retoma um original projeto coreográfico com o qual sonhara durante o apogeu da Bossa Nova. Ideário até então esquecido pela passagem do tempo e que fora resultado de um destes memoráveis acasos artísticos do destino - o balé Água de Meninos Fantasia Poética em Dois Atos.

Todas estas acontecências naquele emblemático cruzamento de esquina, entre as ruas Montenegro e Prudente de Moraes, no bar Veloso (o futuro Garota de Ipanema) ponto preferencial de encontros entre o músico Tom Jobim e o poeta Vinicius de Morais, numa quase proximidade da casa do compositor e do Estúdio de Dança Dalal Achcar.

Para onde, costumeiramente, se dirigiam no pós-horário de funcionamento, por uma deferência especial de Dalal, amiga familiar de longa data de Vinícius, para rascunharem  nas teclas do piano, os acordes e as letras de algumas daquelas canções referenciais da dupla e do gênero bossa nova .

Dalal que muitas vezes ficava por ali, imersa no encantamento das inspiradas melodias, acabou pedindo a Tom se este não se animaria a escrever uma partitura especial para sua Cia. O que afinal ocorreu, quando entregou aquela tão desejada trilha, sob  temas autorais e citações de clássicos da MPB, já pronta incluídos os arranjos orquestrais por Radamés Gnattali.


Água de Meninos-Fantasia Poética em Dois Atos. Companhia Ballet Dalal Achcar. Bailarino Manoel Francisco no papel de Tom Jobim. Dezembro/2025. Laura Fragoso/Fotos.


O que, agora, faz Dalal Achcar retomar de forma entusiástica sua criação coreográfica, depois de um interregno de vinte anos, numa parceria valiosa com o também coreógrafo e atual Maître de Ballet de sua Cia e de seu estúdio - Éric Frédéric. Contando com um argumento narrativo do experiente ator, dramaturgo, tradutor e escritor Eduardo Rieche.

Reunindo, além de um extenso cast de bailarinos, integrantes oficiais da Cia, a participação de convidados super especiais, afinada equipe tecno-artística que confere ao espetáculo uma potencial categoria. A começar do preenchimento da caixa cênica (Marieta Spada) com a plasticidade simbólica de telões frontais que conceitualizam uma tipicidade pictórica ora carioca, ora baiana, a partir de traços de telas dos artistas Glauco Rodrigues, Israel Pedrosa e Carybé.

Ampliada na dúplice apropriação dos figurinos por Dani Vidal e Ney Madeira, indo do sotaque cotidiano em trajes e malhas ao colorido folclórico, em inserções que conectam figuras clássicas da mitologia ao candomblé, como Iemanjá, ressaltadas por expansivos efeitos luminares  (Felício Mafra).

Completando-se na orquestração original (Radamés Gnattali), sob  releitura e regência, e, desta vez, por outro continuador dos atributos musicais da família - Roberto Gnattali, sinalizada por acordes sinfônicos melodiosos, entremeados por energizadas passagens rítmicas, numa rica instrumentação valendo-se de cordas, sopros, teclados e percussões. 

Na incorporação de personagens fundamentais para o dimensionamento de um teatro coreográfico, a presença de nomes significativos ao universo da dança clássica em moldes brasileiros, entre estes os bailarinos  Claudia Mota  (Dalal) e Manoel Francisco (Tom Jobim), sem deixar de mencionar aqui a representante de outra geração Irene Orazem, no papel de Madame Makarova.

A concepção coreográfica de Dalal Achcar, sintonizada entre a tradição da base acadêmica e a modernidade, destaca-se pelo sotaque neoclássico no entremeio de uma corporeidade dançante plena de autenticidade em seu diálogo com o legado afro-brasileiro, neste formato tornando-se mais proeminente o vocabulário de movimento do segundo ato.

A unicidade do corpo cênico dançante, sempre direcionada por uma expressiva gestualidade, destacando-se desde a precisão sensitiva das pontas à entrega performática a uma vigorosa contração da muscularidade nas danças com caracteres populares.

Num absoluto favorecimento da representação do peculiar enredo, enriquecido pelo ineditismo de uma trilha exclusiva para balé, nada mais nada menos, do que atribuída a Tom Jobim, Água de Meninos - Fantasia Poética da Cia Dalal Achcar fica a merecer, por sua surpresa qualitativa, outras temporadas, aqui e além fronteiras...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo


Água de Meninos - Fantasia Poética/Cia Ballet Dalal Achcar, em temporada na Cidade das Artes, de quinta a domingo, em horários diversos, até 07/12, com grande expectativa para outras apresentações.

O FORMIGUEIRO : METAFÓRICA ABORDAGEM DE DISSABORES DO NÚCLEO FAMILIAR SOB SUTIL PARALELO COM A TRAJETÓRIA DAS FORMIGAS


O Formigueiro. Thiago Mendonça/Dramaturgia e Direção Concepcional. Dezembro/2025. Costa Blanco/Fotos e vídeos.


Em 1991, o poeta Ferreira Gullar publicava um de seus mais inusitados poemas visuais sobre a desconstrução da sintaxe da palavra formigueiro numa proposta conceitual - linguística de integração e desintegração da “vida e do trabalho na treva” dos pequeninos seres na trajetória diária de seu auto sustento.

E é por mera e feliz coincidência que o ator Thiago Marinho teve a original ideia de usar similar titularidade - O Formigueiro - para sua primeira criação dramatúrgica que ele próprio dirige, com a participação dos atores Lucas Drummond  (numa dúplice função como produtor), Roberta Brisson, Rodrigo Fagundes, além de Diego Abreu.

Como se esta proposta de representação teatral, credenciada pela experiente supervisão de João Fonseca, sintetizasse comparativamente os riscos na falta de uma formiga  líder para a sustentação de seu habitat, com o súbito acometimento do Alzheimer de uma matriarca, com prejuízo para a dependência afetiva de seus três filhos.

A estrutura narrativa de seu enredo com um aprimorado recurso a apelos ora melodramáticos ora novelescos, ou acertando no equilíbrio entre um tratamento de drama e de comédia, entre o riso e as lágrimas, ao abordar o encontro dos três irmãos na antiga ambiência domiciliar da progenitora.


O Formigueiro.  Thiago Mendonça/Dramaturgia e Direção Concepcional.  Roberta Brisson- Rodrigo Fagundes - Lucas Drummond/ Em cena. Dezembro/2025. Costa Blanco/Fotos e vídeos.


Aqui e agora, fatalmente reunidos para comemorar a melancólica passagem do aniversário materno, sob o doloroso enfrentamento do mal cada vez mais ascendente à causa do Alzheimer, o que a impede de reconhecer qualquer um deles. Sendo sua figura ausente simbolizada por um xale numa cadeira de balanço vazia.

A caixa cênica (Victor Aragão), preenchida por uma plasticidade realista, reproduzindo a tipicidade tradicionalista de uma casa de família, enfatizando o detalhamento ancestral de objetos referenciais - uma  velha televisão, móveis desgastados de copa e cozinha, fogão, mesa e prateleiras, sem esquecer da cadeira de balanço, vista em  sua parte de trás.

Tudo continuado por básicos figurinos (Luísa Galvão) de sotaque cotidiano e tonalidades sóbrias num dimensionamento com ligeiras variações de acordo com a peculiaridade dos personagens, sob uma iluminação (Felipe Medeiros) vazada mas de prevalência discricionária e oportunas intervenções musicais (Ifátoki Maira Freitas)

Dentro de uma temática densa em que são evidenciados os conflitos psicológicos entre os três personagens, diante  do iminente desabamento da estabilidade do convívio familiar, obrigando-os a tomar decisões e atitudes mais drásticas, em níveis emocionais diferenciais para cada um eles.

Nesta caracterização o filho Luiz (Rodrigo Fagundes) que ainda mora ali, acompanhando tudo de perto, como uma espécie de  cuidador que não aceita a  definitiva reclusão da mãe em um asilo, onde o ator se destaca expandindo em cena a exploração  de seu bom humor presencial.

Num contraponto comportamental com os outros dois irmãos que tem vida exterior independente, de um lado um deles Victor (Lucas Drummond) não conseguindo disfarçar a insegurança emotiva, em convicta expressão dramática de seu desalento intimista.

E a irmã Joana (Roberta Brisson), esta casada e julgando-se privilegiada por seu status financeiro, acentuando com fluência a fria indiferença de seu personagem, até ser desmentida pela cruel revelação de que seu marido Cláudio Márcio (Diego Abreu) não passava de um escroque procurado pela polícia.  

A direção convincente de Thiago Marinho sabendo imprimir ao seu texto autoral, inspirado pelo Alzheimer de sua avó, uma linhagem narrativa que o aproxima de uma comédia de costumes e mais sutilmente do gênero besteirol, com apurado empenho no controle das nuances de tensão, humor, drama, alegria e dor.

Na espontaneidade performática de um elenco ágil em suas intervenções coloquiais, no entremeio de sensitivas revelações e risíveis lugares comuns que atraem a cumplicidade do público. Transmutando O Formigueiro numa realização teatral de originalidade tão identitária quanto a busca inventiva neoconcretista assumida pelo livro-poema homônimo de Ferreira Gullar...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo

                                                 



O Formigueiro faz uma instantânea apresentação nos dias 06 e 07 de dezembro, sábado, às 20h; domingo, às 18h; no Teatro Adolpho Bloch /Glória, enquanto ultima preparativos para uma próxima temporada em 2026.

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