A INQUILINA : TRANSGRESSIVA E AMOROSA TRANSMUTAÇÃO COMPORTAMENTAL ENTRE DUAS MULHERES


A Inquilina. Jeen Silverman/Dramaturgia Fernando Philbert/Direção. Janeiro/2024. Fotos/Erik Almeida/Pino Gomes.



Jeen Silverman vem se destacando na última geração norte americana de dramaturgos e escritores que escrevem para os palcos e para a televisão. E é uma de suas recentes criações - A Inquilina (The Roommate) que chega agora aos palcos brasileiros em mais uma das acuradas traduções de Diego Teza.

A partir de um ideário comum das atrizes Luisa Thiré e Carolyna Aguiar não só na similaridade aproximativa da idade delas com a das duas personagens da peça, conectado ao significativo simbólico da meia idade para todas as mulheres, como uma ressignificação do próprio ato de viver a partir desta fase etária.

Apoiado por mais uma das personalistas concepções direcionais de Fernando Philbert que vem se destacando, com perceptível habitualidade, por suas singulares incursões cênicas em significativas criações da dramaturgia contemporânea.

Desta vez contando, além de uma convicta dupla de atrizes, com o conluio de uma equipe tecno artística de primeiro time, integralizada no absoluto acerto cenográfico de Beli Araújo e no requinte de sempre dos figurinos de Karen Bustolin acentuando, aqui,  as radicais mutações psicofísicas na personagem de Sharon (Luísa Thiré).



A Inquilina, de Jeen Silverman. Com Luiza Thiré e Carolyna Aguiar. Janeiro/2024. Fotos/Erik Almeida/Pino Gomes.

Extensivo ao energizado sotaque imprimido pelas escolhas musicais de Rodrigo Penna que potencializam a corporeidade gestual cotidiana das duas atrizes através da envolvente direção de movimento (Toni Rodrigues) nas passagens dance music, sob as diferenciais tonalidades do design de luz (Vilmar Olos).

Tudo se iniciando com a chegada da nova locatária de Sharon (Luiza Thiré), para preencher o vazio e a solidão de seu tedioso cotidiano na província, interrompido pelas raras chamadas  telefônicas do distanciado filho designer. Ou pelos repetitivos encontros das amigas em um clube de leitura.

A inquilina Robyn (Carolyna Aguiar), vinda diretamente do Bronx nova-iorquino, supreeendendo pelo despojamento de seus looks assumidamente joviais, contrastando com a sobriedade "careta" da indumentária doméstica da hospedeira Sharon (Luiza Thiré), embora ambas portem faixas etárias de mulheres cinquentonas.

E é com natural impulsividade que Robyn se declara identitariamente como uma rigorosa vegana, gay assumida e fumante inveterada, incluídos aí seus tragos maconhais. Toques comportamentais que ela vai contrapondo às perceptíveis marcas de timidez e conservadorismo de Sharon.  

Onde já começa a se estabelecer o dimensionamento de uma completa química entre as duas atrizes capaz, assim,  de  contagiar o público com um riso fácil ao ver a progressiva e quase burlesca adesão de Sharon às pulsões e posturas  avançadas de Robyn.

Mas quando esta transmutação súbita de interativa ousadia entre as duas vai ultrapassando os limites, Sharon já não se reconhece mais no seu antigo papel de ter sido até ali apenas uma mãe divorciada e melancólica dona de casa, contando apenas com as ocasionais chamadas do filho ausente ou a troca de conversas com as comparsas de leituras literárias.

Da aparente ingenuidade na reconquista da sensual alegria de viver sem padrões limítrofes no além da juventude perdida, ao ápice de uma transformação ancorada à beira dos ásperos riscos de incentivo às atitudes subliminarmente condenáveis, desde os golpes financeiros ao roubo, como partes do dia-a-dia existencial, prevalece a maestria de uma luminosa lição performática destas duas atrizes.

Com o direcionamento ao risível irônico se metamorfoseando em investigativo processo psicológico de mergulho em duas mentes opostas e que, sequencialmente, vão se amoldando uma a outra pelo domínio avassalador exercido reciprocamente entre elas, A Inquilina acaba se sustentando esteticamente como uma comédia dramática entremeada por sutis traços de humor negro.

Longe de quaisquer rótulos acomodativos  sem deixar de expor, lado a lado, da corajosa redescoberta das razões do viver refletindo especularmente sobre as nossas próprias identidades, ao desafio de novas trajetórias existenciais apresentadas, mesmo diante do perigo de sermos derrotados por isto ou por aqueles aos quais nos prendemos sem conseguir escapar...

 

                                              Wagner Corrêa de Araújo



A Inquilina está em cartaz no CCBB/Teatro II, de quinta a sábado, às 19hs; domingo, às 18h.  Até 04 de fevereiro.

Nenhum comentário:

Recente

DESERTO: DRAMATÚRGICA E IMAGÉTICA CONEXÃO DA VIDA E DA OBRA DE ROBERTO BOLAÑO

Deserto. Luiz Felipe Reis/Dramaturgia/Direção Concepcional. Maio/2024. Fotos/Renato Mangolin. No seu meio século de trajetória existencial (...