ALGUMA COISA PODRE ! : PARÓDIA DA ERA SHAKESPEARIANA EM COMPASSO MUSICAL

 

Alguma Coisa Podre. Um musical da Broadway sob direção concepcional de Gustavo Barchilon. Julho/ 2023. Fotos/Caio Gallucci.


Desde sua estreia na Broadway em 2015, o musical Alguma Coisa Podre! (Something Rotten!), na dúplice autoria de Karey Kirkpatrick e John O'Farrell, tornou-se um fenômeno simultâneo de sucesso e de contestação. Lembrando a mesma irreverência que transformou O Livro dos Mormons e Monty Python em tops absolutos do teatro musical.

Afinal, seu assumido caráter de deboche irônico sobre fictícios mecanismos da criação teatral usados por William Shakespeare tornou-o, por um lado, espalhafatoso com um subliminar sotaque de escracho sob exagerados traços burlescos mas, ao mesmo tempo, sendo uma paródia satírica e inteligente da era elisabetana.

Chegando pela primeira vez à cena paulista com perspectivas de também chegar ao Rio, em mais uma das caprichadas direções concepcionais para este gênero por Gustavo Barchilon, reunindo em sua ficha técnica craques do teatro musical, como Cláudio Botelho e sua sempre precisa brasilidade nas versões textuais do musical além fronteiras.

Contando, aqui, com um grande elenco integrado por nomes estelares como Laila Garin, George Sauma, Leo Bahia, Wendell Bendelack e Marcos Veras, os dois últimos em suas primeiras incursões como protagonistas de um musical. E, ainda, alguns outros destacando-se, ora em atuações coadjuvantes, ora como covers nos papéis principais. 


Alguma Coisa Podre! George Sauma, Marcos Veras, Wendell Bendelack, Léo Bahia e Laila Garin. Julho/2023. Fotos/Caio Gallucci.


Partindo, na proposta titular, da celebrada advertência em Hamlet (“Há algo de podre no reino da Dinamarca”), o musical usa frases de efeito, trocadilhos, palavrões, pastiches e muito duplo sentido para mostrar os bastidores do processo de criação teatral. Indo da era shakespeariana, com foco mais específico nas imaginárias escrituras cênicas que teriam conduzido àquele personagem, aos procedimentos intrigantes e “podres” que estariam também por trás dos grandes musicais a la Broadway.

E, nesta montagem, não deixando de lado a adequação de uma dramaturgia psicofísica ao nosso linguajar popular, com oportunas referências às disparidades do Brasil de hoje. O que provoca um inventivo contraste com a sua fidelidade à tradição, tanto no belo ideário convencional do aparato cenográfico (Duda Arruk) como na artesania da elegante concepção indumentária (Fábio Namatame).

Já no prólogo, em seu primeiro e cativante tema musical, partindo para a mordacidade risível e a ironização demolidora em Olha a Renascença Aí, com performance coletiva da Companhia, incursionando por instantâneos acordes de hits do circuito Broadway. Para, a seguir, fazer, com cara e coragem, um sarcástico deboche do Bardo inglês na canção Vai se Fuder Shakespeare.

Com um tratamento ágil e divertido da trilha sonora original, nos arranjos e direção musical de Thiago Gimenes, correspondido pela segura habilidade de Alonso Barros na diferencial coreografia que imprime ao elenco de cantores/dançarinos, abusando de tiques cômicos no vocabulário do movimento, incluído um sapateado envolvente. Numa ambientação multicolorida, ampliada na plasticidade pictórica dos tons de luzes entre sombras por Maneco Quinderé.

Onde a narrativa rocambolesca vai concedendo a Shakespeare (George Sauma) caracterizações de um dramaturgo pop star, numa espécie de glam performance, em seus confrontos dialetais com o rival Nick (Marcos Veras), este na convicta e arrogante personificação de um jovem autor teatral em busca da fama custe o que custar.

Sem deixar de falar nos histriônicos arroubos de dois experts no ofício do fazer rir – Wendell Bendelack fazendo Nostradamus e Léo Bahia, atuando como Nigel, um diretor de Cia. teatral. E das carismáticas intervenções femininistas de Laila Garin, como Bea, a esposa grávida de Nick, mais as engraçadas passagens quando é mostrado o recato de Portia (Bel Lima) a esposa  de Nigel, conectado ao obsessivo e neurótico puritanismo de seu pai - o Irmão Jeremiah (Rodrigo Miallaret). 

Todos potencializados num completo timing de comédia musical e tudo convergindo, afinal, a partir deste afinado elenco, para um enredo melodramático com briga de egos e a inserção de meta profecias teatrais, onde as rivalidades de dois dramaturgos só se resolveriam no palco, por intermédio da premonição de um mágico musical de sucesso.

Despertando entusiasmo por seus ingredientes de loucura fabular e de anárquica conduta novelesca, brilhantemente burilados pelo comando direcional de Gustavo Barchillon. Numa ousada aventura caricatural que pode incomodar os tradicionalistas mas que, em seu conceitual estético de despretensioso e lúdico humorismo musical, é capaz de levar às gargalhadas o mais comedido dos espectadores...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo


 Alguma Coisa Podre! está em cartaz no Teatro Porto Seguro/Campos Elísios/SP, sexta às 20h; sábado, às 16 e 20h;domingo, às 15h e 20h. Até 06 de agosto.

KAFKA E A BONECA VIAJANTE : A DOR DA PERDA INFANTIL NUMA SENSITIVA VIAGEM DE TEATRO MUSICAL

Kafka e a Boneca Viajante. Rafael Primot/Dramaturgia. João Fonseca/Direção. Julho/2023. Fotos/Ale Catan.


A amargura de um homem é, com frequência, o aturdimento petrificado de uma criança” (Franz Kafka).

Esta palavras de Franz Kafka podem, quem sabe, conduzir à decifração de imaginária correspondência na qual o escritor, nos derradeiros meses de sua vida e frente à terminalidade de sua trajetória literária, teria dedicado a uma menina, vista num parque de Berlim em prantos, por ter perdido sua boneca.

Um história poética mas melancólica sinalizada, sob a  pulsão de um fantasioso ideário post mortem, por intermédio de sua viúva Dora, através da suposição de um inédito manuscrito ficcional. Sem nenhum substrato de prova realista e com relatos lendários de que até a própria menina Rita, já adulta, teria se encontrado com ela, vinte anos depois.

Episódios sobre os quais nunca se encontrou nenhuma prova por quaisquer dos mais eminentes pesquisadores do legado kafkiano. E que o autor catalão Jordi Sierra i Fabra transmuta numa narrativa ficcional plena de encantamento e capaz de tocar, a fundo, crianças e adultos.

E adaptada, agora, dramaturgicamente, com a mesma titulação do livro - Kafka e a Boneca Viajante - por uma inspirada textualidade de Rafael Primot. Tendo chegado aos palcos cariocas, sob o sempre artesanal comando de João Fonseca, dimensionado aqui numa sensitiva versão em compasso de teatro musical.

Kafka e a Boneca Viajante. Carol Garcia, a Menina, e Alessandra Maestrini, a Boneca. Julho/2023. 

Reunindo um quarteto de craques do gênero como protagonistas desta mágica aventura para todas as idades. Preenchida pela envolvência delicada dos personagens mais pueris assumidos por Alessandra Maestrini como Brígida a boneca e Carol Garcia interpretando a menina Rita, e nas personificações adultas de André Dias no papel do Sr. K e Lilian Valeska fazendo Dora sua esposa.

Numa ambiência cênica (Nello Marrese) que acentua, sob  expressivos efeitos luminares (Paulo Cesar Medeiros), o clima de fantasia e delírio na metafórica visualização de um móbile/cronômetro que marca as passagens do tempo e dos mistérios da trajetória existencial.

Entre citações simbólicas e recortes biográficos, indo das enigmáticas escrituras kafkianas às viagens da boneca por diversos países. O despontar infanto-juvenil de uma menina e a crepuscularidade de um casal, conectando-se numa singularidade metafísica das fases da vida.

Complementada por referenciais de épocas passadas, através de selos e carimbos, e dos detalhes de uma indumentária (João Pimenta) sugestionando os anos vinte na vida de Kafka. E transmutada aos nossos dias por temas musicais característicos de culturas diversas e pelas antológicas canções brasileiras, na interativa funcionalidade da trilha presencial de Tony Lucchesi.

Onde uma fluente dramaturgia da fisicalidade prevalece no movimento coreográfico imprimido por Mirna Rubim ao gestual das  palavras faladas, cantadas e dançadas. Destacando-se a potencialidade carismática de quatro atores/cantores em plena uniformidade cênica e empatia psicofísica.

Conduzidos por uma convicta direção concepcional de João Fonseca capaz, assim,  de conceder aos personagens densidade poética e coesão emotiva nos seus sensoriais avanços dramático/performáticos, dos sonhos infantis à superação do desalento provocado pelas perdas.

Na personificção de temas caros ao universo infantil através da cativante pureza e ingenuidade da menina de Carol Garcia e da espontanea envolvência lúdica provocada pela boneca de Alessandra Maestrini. Com aparições paralelas de personagens característicos como um soldadinho de chumbo e de uma gaivota, pelos dois outros atores.

No contraponto do amadurecimento geracional, da força interior de  André Dias como um escritor à beira da morte às  delicadas nuances atorais de Lilian Valeska como sua esposa, no entremeio da compaixão por uma perda infantil e do difícil suporte da finitude da condição humana.

De volta, enfim, às sábias palavras literárias de Jordi Sierra para definir sinteticamente a proposta de Kafka e a Boneca Viajante: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no final, o amor  retornará em uma forma diferente”...

 

                                         Wagner Corrêa de Araújo


Kafka e a Boneca Viajante está em cartaz no Teatro II do CCBB/RJ, de quinta a domingo, às 19h30m, até 30 de julho.

A CERIMÔNIA DO ADEUS : EM SOBREVOO MEMORIAL PELOS ESPAÇOS SIDERAIS DA MENTE

 

A Cerimônia do Adeus, de Mauro Rasi. Ulysses Cruz, Direção. Julho/2023. Fotos /Diego Imai/Fernando Gonsales.


“Pare de trapacear : o sentido da nossa vida está em jogo no futuro que nos espera; não sabemos quem somos, se não sabemos quem seremos’’, palavras questionadoras de Simone de Beauvoir, em irônico olhar de sarcasmo sobre os ritos de passagem da condição humana. E que podem servir de referencial para o instigante texto dramatúrgico de Mauro Rasi - A Cerimônia do Adeus, a partir de similar inspiração titular no livro da escritora francesa.

Enquanto o relato existencialista de Simone de Beauvoir era voltado à despedida terminal na velhice de Jean-Paul Sartre, seu partner de vida e de literatura, o de Mauro Rasi mostra o processo de descobertas da adolescência na trajetória do jovem Juliano (Lucas Lentini), o alterego do dramaturgo, na ambiência conservadora de uma cidade paulista interiorana. 

Na qual o personagem protagonista surge na metafórica companhia cotidiana dos livros de seu quarto e nos conflitos familiares com uma arquetípica mãe, implicante e carinhosa, Aspázia (Malu Galli), junto aos restritivos princípios religiosos da tia espírita Brunilde (Fernanda Viacava).

Simultaneamente, no fluir do sonho juvenil de Juliano em se tornar um escritor e do despertar de desejos sexuais homoafetivos, direcionados entre a assumida atração recíproca pelo amigo Francisquinho (Fernando Moscardi) e as sutis insinuações sensuais do primo Lourenço (Rafael de Bona), há a interveniência das visões presenciais de duas de suas inspirações livrescas - Jean Paul Sartre (Eucir de Souza) e Simone de Beauvoir (Beth Goulart).


A Cerimônia do Adeus. Ulysses Cruz/Direção concepcional. Malu Galli e Beth Goulart. Julho/2023.


Em espetáculo que retoma a transcendente releitura paulista que Ulysses Cruz fez logo após a montagem original da peça, em 1988, no Teatro dos Quatro, na  direção de Paulo Mamede. E é aquela sua versão que reestreia, com inéditas pontuações depois de quase quatro décadas, numa sequencial temporada em SP e no RJ.

Antenada num sustento cenográfico de tônus mais minimalista e contida indumentária cotidiana (na tríplice criação concepcional de Ulysses Cruz), desta vez priorizando um perceptível substrato performático que, permite um direcionamento maior do imaginário, no fluxo memorial de uma viagem pelos espaços siderais da mente.

Afinal, este retrato é mais especular na sua proximidade radical dos delírios e anseios libertários da consciência visionária do personagem mor, perturbado pelo clima de opressividade quando se desenrola sua adolescência. Naqueles incertos anos de pleno domínio dos governos militares, no  retrocesso da censura ditatorial ao pensamento que ousasse alçar voos mais altos.

As luzes (Nicolas Caratori) claro/escuras se espalhando além dos limites da caixa cênica e criando frestas cinéticas entre as portas laterais, sob os efeitos eletrônicos de energizada trilha pop/roqueira remixada (André Abujamra). Ampliando-se este sensorial imagético num mix de projeções visuais piscodelizadas, incluídos instantâneos fragmentos fílmicos de antigas cenas parisienses.

Na híbrida convergência pictórica onírica com esparsos recortes naturalistas da casa maternal de Juliano, especialmente seu quarto e os livros, numa plasticidade estética imersiva e, sobretudo, propícia à mágica dialetação espectral da celebrada dupla francesa de escritores com os outros personagens.

Em dimensionamento psicofísico, ator e personagem se confundem na luminosa composição de Beauvoir/Beth Goulart e na acertada sobriedade de Sartre/Eucir de Souza. Com funcional destaque ainda na irreverência juvenil de Fernando Moscardi, no espontâneo conservadorismo de Rafael Bona, na acomodada espiritualidade de Fernanda Viacava, no rompante contraponto crítico de Lucas Lentini e na irrepreensível entrega de Malu Galli ao seu papel.

No entremeio das pinceladas de drama e comédia, de riso e melancolia, de erudição e falas comuns, A Cerimônia do Adeus, através do olhar atento e inventor de Ulysses Cruz, tem o alcance, assim, de um inventário dramatúrgico dos anos oitenta sabendo, antes de tudo, como sintonizar o desbravador legado de Mauro Rasi com os avanços do teatro de hoje...

                                            Wagner Corrêa de Araújo



A Cerimônia do Adeus está em cartaz no Teatro Copacabana Palace. Quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18h. Até 23 de julho.

CARMEN : SIGNIFICATIVO RETORNO AO PALCO DO MUNICIPAL CARIOCA DA MAIS EMBLEMÁTICA ÓPERA FRANCESA



Carmen/Ópera de Bizet. Julianna Santos/Concepção Direcional. Julho/2023. Fotos/Daniel Ebendinger.


Das páginas novelescas de Prosper Merimée à transposição operística de Georges Bizet, Carmen vem inspirando diferenciais releituras e provocantes resssignificados para a clássica personagem de uma cigana, mitificada como símbolo precursor dos embates pela afirmação do feminino.

Das adaptações cinematográficas, divididas entre um dimensionamento dúplice de fidelidade seja pelo original romanesco seja pela sua formatação em ópera, indo de Lubitsch a Godard, de Rossi a Saura, passando pela instigante concepção dramatúrgica de Peter Brook ou pela transgressora visão cênica de Gerald Thomas, além das inúmeras versões de pura dança ou de híbrido teatro coreográfico-musical.

Marcada, nas últimas décadas, por idas e voltas na cena lírica do Municipal, sendo algumas das mais marcantes a direção concepcional de Sergio Britto nos anos 80 ou uma mais recente, por Allex Aguilera um ex-integrante de La Fura dels Baus. E, agora, na artesanal direção cênica de Julianna Santos, mais conectada no respeito à tradição sob um sutil sotaque de modernidade.

Onde se estabelece um confronto com os multifacetados figurinos de época (no capricho detalhista de Marcelo Marques, um completo expert em trajes para ópera) caracterizando ora militares ora ciganos, ao lado de recortes cotidianos de cigarreiras, campesinos e crianças, junto a indumentarias típicas flamencas ou de instauração da tauromaquia.


Carmen, de Bizet. Solistas, Coro, Balé e Orquestra do TMRJ. Julho/2023. Fotos/Daniel Ebendinger.


Sem carregar uma arquiteturação realista do paisagismo cenográfico, no sugestionamento de simbologias metafórico-conceituais nas diferenciais ambientações dos quatro atos. Como se, ali, o leitmotiv do tema do destino se  tornasse sensorialmente visível numa caixa cênica preenchida apenas por alguns elementos materiais (como mesas e bancos transmutados simultaneamente de uso militar a tablado flamenco).

Em supreendente plasticidade pictórica de Natalia Lana, desta vez ampliando suas incursões estético-cenográficas do palco dramatúrgico ao universo musical da ópera, potencializadas nos belos efeitos luminares claro/escuro  de Paulo Ornellas. Tornando-se perceptível a unicidade da proposta diretorial/cênica de Julianna Santos no alcance de uma psicofisicalidade performática, tanto nas atuações vocais dos solistas como na sua extensão gestual aos encontros  entre estes e os grupos corais, adulto e infantil.

Quanto à Orquestra Sinfônica/TM, esta voltando a ter o necessário requinte, como suporte de superação para tempos difíceis vividos, na complementação de seus naipes com experientes músicos, estimulados pela amadurecida regência de seu maestro titular (Felipe Prazeres) na captação dos efusivos acordes romântico/hispânicos que a partitura exige.

Além de uma destacada participação incidental do Corpo de Baile/TM (com o acerto coreográfico de Hélio Bejani) retomando o antigo hábito francês de incluir, em sua integralidade, partes composicionais baléticas nas performances operísticas. Onde também o já tão conhecido quarteto cantante protagonista, mais uma vez, mostra o bravo desempenho de quem domina, musical e dramaticamente, os seus personagens

A começar da mezzo soprano titular Luisa Francesconi numa adequação absoluta ao seu papel, tanto no físico como na potencialidade vocal. Já na primeira grande ária, em notável crescendo, soltando progressivamente a voz, plena de convicta passionalidade em momentos célebres como a Seguidilha ou a Habanera.

Há que se destacar também as luminosas modulações tonais na tessitura vocal de tenor lírico, no caso de Eric Herrero e seu sempre carismático Don José, na culminância romantizada que imprime, por exemplo, à antológica ária "La fleur que tu m’avais jetée”.(Com um recado à parte, para que, como um meritório diretor artístico, programe  o devido tributo ao centenário de morte de Puccini em 2024).

Ou no sensitivo dueto "Parle moi de ma mère" com  a soprano Flávia Fernandes, na suavidade estoicista do gestualismo alcançado por ela e na pureza angelical da vocalização de sua Micaela, na romanza "Je dis que rien ne m'epouvant". Sem deixar de ressaltar o presencial masculino sempre impositivo do Escamillo, pelo barítono Leonardo Neiva, no alcance de uma ideal ressonância interpretativa para seu Torero na assobiável "Chanson du Toréador".

Certa vez, ao entrevistar Antonio Gades, perguntei como ele via suas duas Carmens, a fílmica e a teatralizada no palco. Relembro aqui uma resposta que, certamente, há de servir como referencial especular para o significado simbólico desta remontagem de uma ópera secular que, além do rico substrato musical, revela um reflexivo processo de projeção deste icônico personagem  feminino nos dias de hoje.

“O filme trata de uma assimilação ou quase possessão dos intérpretes de Carmen pelos personagens. Mas para o teatro, eu quis uma coisa totalmente distinta: projetar a essência desta Carmen no que ela tem de mais fundo e mais autêntico...”

 

                                               Wagner Corrêa de Araújo


A ópera Carmen está em cartaz no TMRJ/Cinelândia,  em horários diversos, desde sua estreia em 14/julho. Nos dias 16, 23 e 30, às 17h; 21, 26 e 28, às 19h. Até 30/07.

CARLOTA / FOCUS DANÇA PIAZZOLA : UM TRIBUTO AO LEGADO ESTÉTICO FEMININO NO CONCEITUAL COREOGRÁFICO DE ALEX NEORAL



Carlota-Focus Dança Piazzola. Alex Neoral/Concepção coreográfica. Julho/2023. Fotos/Cristina Granato.


Antecipando a celebração em 2024 de suas três décadas de incursões cênicas, sob um permanente signo de buscas inventivas para a dança contemporânea em moldes brasileiros, Alex Neoral está de volta com a Focus Cia de Dança. Através de mais uma obra inédita do ofício criador multifacetado deste idealizador, diretor e coreógrafo, titulada muito a propósito como Carlota - Focus Dança Piazzola.

Desta vez, além da data comemorativa, prestando um tributo a quatro nomes femininos impulsionadores da sua formação artística/profissional como bailarino e para seu futuro como coreógrafo. Por intermédio de suas passagens no Grupo Tápias de Giselle Tápias, na Cia Nós da Dança de Regina Sauer, na Cia Vacilou Dançou de Carlota Portella e na Cia Déborah Colker.

Com outro original dimensionamento para cumprir, assim, um desejo de Alex Neoral de criar um espetáculo coreográfico/musical onde as onze composições de Astor Piazzola são usadas, além do propósito de homenagem e gratidão, sob um substrato temático/gestual capaz de inspirar expressiva obra para nove bailarinos. 

Plena de energia, sensualidade e paixão  remetendo à memória da obra precursora na revelação do fascínio que o novo tango passou a excercer no universo da dança contemporânea. Estamos falando de Piazzola Caldera que Paul Taylor, em 1997, direcionou à sua Cia, e que os cariocas tiveram o privilégio de ver, há exatos oito anos, no palco da Cidade das Artes.  

Transmutada sequencialmente nas diferenciais  releituras coreográficas deste gênero musical/dançante por alguns dos mais conceituados nomes europeus, latinos e brasileiros, estendendo-se a abordagens filmicas emblemáticas como o Tango de Carlos Saura e, agora, passando a integrar  também o repertório de Alex Neoral, um dos nomes básicos de nossa dança contemporânea.


Carlota-Focus Dança Piazzola. Alex Neoral/Concepção coreográfica. Julho/2023. Fotos/Cristina Granato.


A partir da realização do sonho num  enfoque coreográfico no entorno fascinante do acervo composicional de Piazzola, capaz sempre de impressionar o público e a crítica com sua envolvente fusão de acordes neoclássicos e ritmos jazzísticos, tradição e modernidade, longe da prevalência do mero apelo folclorista como era conhecido até então o tango argentino.

Onde, na pulsão de mais uma das surpreendentes criações de Alex Neoral, o seu sensitivo e ao mesmo tempo crítico olhar decifrador dos mistérios da arte coreográfica, é assumido outra vez com empenho, espírito inventivo e bom gosto para um elenco de nove excepcionais bailarinos (Bianca Lopes, Carolina de Sá, Cosme Gregory, Letícia Tavares, Lindemberg Malli, Natanael Nogueira, Paloma Tauffer, Vanessa Fonseca e Wesley Tavares).

Em ambientação cênica (Natália Lana) de singular design artesanal, funcionando como um teto/cobertura que centraliza o palco/arena e, imageticamente, servindo de suporte plástico a uma envolvência de passionalidades, na trajetória destas “quatro estações portenhas”. Ressaltadas sempre no diversificado e emotivo apelo visual provocado pelas modulações luminares de  Anderson Ratto.

Com belos figurinos (Maria Osório) na transparência de malhas colantes, sob matizes pictóricos, e pantalonas de tecidos esvoaçantes, sem quaisquer preocupações de caracterizar apenas o masculino ou o feminino, mas identificando hibridamente bailarinos e bailarinas numa só corporeidade sensorial.

Priorizando uma movimentação em grupos, duos e solos, apoiada numa expressiva psicofisicalidade que exorbita a qualidade técnica dos nove bailarino ficando dificil sublinhar destaques individuais frente à convicta unicidade da entrega integral à performance.

Instigante no olhar visionário de Alex Neoral que longe daquele tango melancolizado de pés no chão, num seguimento ao conceitual deste “nuevo tango” moldado para sentir e pensar, faz fluir um gestual balético ao lado da energizada gestualidade de sotaque contemporâneo.

Numa corporeidade que referencia a tradição do tango nos casais abraçados enquanto, impulsionados pela moderna sonoridade/guia de um bandoneón, vai descortinando em movimentos sincopáticos de circularidade grupal, uma escala de corpos em conexão, altaneiros ou atirados ao chão, como se estivessem todos, armados com mágicas adagas, a “torear en la plaza” coreográfica.

Para Astor Piazzola, na síntese de uma frase de Jorge Luis Borges estava o segredo do emblemático processo da criação: “Em uma gaveta de minha escrivaninha, uma adaga sonha seus sonhos de tigre”. Com Carlota-Focus Dança Piazzola, Alex Neoral e sua incrível trupe, afinal, transubstanciam num imersivo e potencial corpo cênico/coreográfico, este elo inspirador que unia a genialidade daqueles dois artistas “hermanos”...


                                                 Wagner Corrêa de Araújo



Carlota – Focus Dança Piazzola está em cartaz no Espaço Arena/Sesc Copacabana, de quinta a domingo, às 20h. Até 23 de julho.

A HERANÇA / PARTES I E II : ALMAS GAYS SITIADAS EM CONTUNDENTE E REFLEXIVA SAGA DRAMATÚRGICA

A Herança. De Matthew Lopez. Zé Henrique de Paula/Direção Concepcional. Julho/2023.Fotos/Hudson Rennan.


Inspirada na conexão metafórica da trama ficcional do romance de E. M. ForsterHowards End” e do enredo dramatúrgico de Tony Kushner para “Angels in America”, a extensiva trajetória em duas partes da peça A Herança, alcançou um emblemático êxito, desde a sua estreia londrina, em 2018 no West End, à sua representação no circuito da Broadway, no ano seguinte.

Da lavra de um conceituado dramaturgo e roteirista da última geração americana - Matthew López - a peça chega finalmente aos palcos brasileiros graças ao corajoso empenho e ao ideário dúplice do ator Bruno Fagundes e do diretor Zé Henrique de Paula. Reunindo doze atores e uma atriz a uma dezena de outros participantes, estes em performances mais figurativas, com a acurada tradução e a luminosa direção concepcional de Zé Henrique de Paula.

Potencializando, via sua narrativa teatral, um expressivo e pungente retrato dos embates da comunidade gay em suas lutas de afirmação libertária pela prevalência da livre identificação sexual. Das árduas conquistas pelo reconhecimento social aos desafios de sua retomada, pós onda derrotista causada pelo preconceito à causa do pesadelo da AIDS, a que se nominou, em caráter depreciativo, de “câncer gay”.

Tendo como substrato conceitual subliminar os conflitos da intolerância moral na Inglaterra 1910 (em Howards Ends) através de personagens protagonistas que se transmutam em aproximativa similaridade dialogal com aqueles de A Herança. Enquanto há o referencial de “Angels in America” no incisivo pânico causado pela “peste” mortal anos 80/90 com o surto do HIV. E ainda capaz de fazer ecoar riscos de retrocesso especular nos avanços de hoje do coletivo LGBTQIAPN+.

Na originalidade de um processo cênico que se desenvolve por intermédio de uma espécie de oficina de criação literária/dramatúrgica possibilitando uma intervenção alterativa de cada um dos 12 atores, com sugestionamentos personalistas no entorno da trama, tornados cada um deles simultâneos narradores e personagens. Inicializado pelo alterego do escritor E.M.Forster, no papel guia assumido, em cativante envolvência, por Marco Antônio Pamio.


A Herança. De Matthew Lopez. Zé Henrique de Paula/Direção Concepcional. Julho/2023.Fotos/Hudson Rennan.

Numa ambiência cenográfica (Zé Henrique de Paula) minimalista em que a caixa cênica é preenchida durante o longo percurso das duas partes pelo presencial no palco da maioria dos atores, entre ocasionais entradas e saídas. Caracterizados por figurinos cotidianos (Fabio Namatame),  vazados efeitos luminares (Fran Barros/Tulio Pezzoni) e com incidentais acordes sonoros, ora de temas impressionistas ora com citações melódicas de época (sempre com o peculiar acerto das trilhas de Fernanda Maia).  

Onde cada espectador vai se identificando com a imbatível competência atoral imprimida aos personagens delineados num dimensionamento de maior protagonismo, a começar pelo sensitivo Eric (Bruno Fagundes com o emocional à flor da pele sob carismática convicção), como um jovem judeu intelectual de classe média, e seu conturbado namorado Tob (Rafael Primot) na ascendente celebridade como dramaturgo.

E que, em sua volatilidade, acaba cooptado pelo apelo sensual do ator Adam (André Torquato), por um possível papel em sua próxima peça. Este último também em atuação alterativa como Léo, um garoto de programa, na instantaneidade das aventuras erotizadas por dinheiro, sendo assediado pela compulsiva solidão de Tob. Destacando-se ambos por uma instigante psicofisicalidade em seus respectivos personagens.

Aparecendo também um casal vizinho, o mais velho no caso de Walter (em papel sentimentalizado por Marco Antonio Pamio) e o de maior aparência atlética  Henry (por um mais racionalizado Reynaldo Gianecchini), exercendo o primeiro uma profunda ascendência reflexiva sobre Eric ao revelar seu afetivo acolhimento numa casa de campo a doentes terminais de AIDS. Enquanto Henry, o  empresário de espírito mais prático, com a súbita morte do companheiro, acaba assumindo-se como restrito partner amoroso de Eric.

Com duas passagens provocativas ao final de cada uma das partes capazes de transtornar até as lágrimas o mais resistente e acomodado espectador heterossexual, ou indo mais longe, no toque de qualquer coração insensível de algum  imprevisto homofóbico que estiver por ali.

Impactante na patética e crua veracidade do monólogo de Walter/Forster (M. A. Pamio) pranteando os mortos condenados pela sentença terminal da Aids, na primeira parte. Ou no epílogo da peça, o melancólico complexo tardio da culpa de uma atormentada mãe e zeladora da casa/abrigo (na comovente atuação de Miriam Mehler) por não aceitar a condição gay de seu filho até que este também se tornasse outra vítima fatalista da doença.

Transmutando-se tudo na integralização de um retrato sem retoques do legado conceitual para um Cânone Gay, numa América em três tempos. Explicitado aqui na simbologia, em compasso de transe, da própria sinalização titular da peça como A Herança, conferida à peça por seu autor. Que conecta a maldição de um passado devastador a um presente de resiliente combate à hostilidade, mostrando o Século XXI com um olhar questionador, armado na perspectiva de que poderia, enfim, ser mais promissor, quem sabe, este incógnito futuro...


                                           Wagner Corrêa de Araújo



A Herança está em cartaz no Teatro Raul Cortez/SP, 5as e sábados, às 20h, a Parte I; 6as, às 20h e domingo, às 18h, a Parte II. Com perspectiva talvez de vir ao RJ, ao final de sua temporada paulista.

NEY MATOGROSSO/HOMEM COM H : A IRREVERENTE TRAJETÓRIA ARTÍSTICA/EXISTENCIAL DE UM ÍCONE DA MPB


Ney Matogrosso - Homem com H / O Musical. Fernanda Chamma/Marilia Toledo/Direção. Junho 2023. Fotos Adriano Dória.

"Rompi tratados / Traí os ritos / Quebrei a lança / Lancei no espaço / Um grito / um desabafo"...(Sangue Latino) Ney Matogrosso.


Desde 2022, um musical vem seguidamente retornando, em novas temporadas, aos palcos paulistas. E já prepara seu voo artístico para também encantar o publico carioca, onde deverá aportar no decurso  ainda deste segundo semestre. Estamos falando de um dos grandes êxitos da última temporada da Paulicéia com indicações a prêmios como o da APCA e vencedor do Destaque Imprensa Digital 2022 – Ney Matogrosso Homem com H/O Musical.

Numa dramaturgia a quatro mãos por Emilio Boechat e Marília Toledo, inspirada a partir de três livros biográficos e dimensionada basicamente por sequencial narrativa cronológica, possibilitando um mergulho em tempos controversos de nossa história, no conflituado convívio da liberdade comportamental de toda uma geração pós-Woodstock com a repressão do regime militar.

Ancorando-se numa segura direção concepcional  (Fernanda Chamma e Marília Toledo) e contando com um grande elenco ao lado de uma dúplice protagonização titular. Repartida entre a ambiência familiar no interior mato-grossense, na personificação do ainda juvenil artista, pelo também  jovem ator Murilo Armacollo, às múltiplas etapas da ascensão de Ney como personalidade icônica no cenário musical brasileiro, na alterativa representação vocal e performática de Renan Mattos.


Ney Matogrosso-Homem com H / O Musical. Emílio Boechat/Marília Toledo/Dramaturgia. Junho/2023.Fotos/Adriano Doria.

Na despretensiosa mas extremamente funcional arquiteturação cênica (Carmen Guerra) sustentada apenas por platôs de madeira em vários níveis, à maneira de um show, onde transcorrem todos os registros da  trama, desde as cenas mais intimistas às exibições especificamente musicais. Facilitando de vez rápidas mudanças frente à plateia, de um clima para outro, incluídos os figurinos (Michelly X) e o visagismo (Edgar Cardoso) extremamente peculiar do personagem.

São várias décadas desde os anos provincianos no enfrentamento e no desafio adolescente ao conservadorismo de um pai militar, à pressão social contra a livre identificação sexual de uma geração libertária sob o signo de viagens psicodélicas de paz e amor, às passagens por Brasília  onde Ney Matogrosso experimenta o ofício de ator.

Para o descortino, no entremeio de suas aventuras paulistas e cariocas, da surpresa inventiva de uma atuação assumidamente  diferencial na banda Secos & Molhados, sinalizada sempre por uma postura andróginaque transforma Ney Matogrosso em instântaneo fenômeno de mídia. Com suas performances irreverentes, sob aquarelada maquiagem e corporeidade seminua em gestual inusitado, nos palcos e na televisão, num posicionamento de resistência à época ditatorial.

Onde vão se sucedendo envolventes caracterizações  de figuras como as de Rita Lee (Hellen de Castro), parceiros musicais de shows, empresários, além da referência presencial de incisivos relacionamentos amorosos tais como Cazuza (Vinicius Loyola) e Marco de Maria, vítimas fatais da Aids.

Tudo acentuado com o apuro de vazados efeitos luminares (Fran Barros/Tulio Pezzoni) que imprimem à energizada linguagem coreográfica (Fernanda Chamma) um sotaque pleno de requebros e expressões faciais de híbrida sexualidade marcando, assim,  o caminho precursor do cantor em shows direcionados a todos os gêneros e gostos e sob o aplauso de quaisquer idades.

Priorizando pelo dúplo comando direcional (Fernanda Chamma e Marília Toledo) provocantes e erotizadas formas de representação cênica e musical, amplificadas nos arranjos de artesanal trilha sonora (da lavra de Daniel Rocha).

Enquanto a performance de Renan Mattos faz temer, a princípio, a adoção de uma linha mais afetada pelas eventuais fragilidades de um intérprete cover, esta impressão  acaba superada com o seu mimetismo especular revelando, afinal, uma fluente e sensorial adequação psicofísica ao papel que atrai a cumplicidade interativa da plateia.

E não foi por um mero acaso que o próprio Ney Matogrosso, ao assistir o espetáculo, dirigiu-se ao camarim e abraçou com indisfarçável emoção o personagem e o ator que Renan Mattos faz viver ali com tão intensa convicção...


                                             Wagner Corrêa de Araújo


Ney Matogrosso Homem com H – O Musical está em cartaz no Teatro Procópio Ferreira/Rua Augusta/SP, até domingo, 2 de Julho.

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