BALÉ DO TM/RJ-O LAGO DOS CISNES : NO DESAFIO DA DIFÍCIL JORNADA DE VOLTA À TRADIÇÃO CLÁSSICA

O Lago dos Cisnes/Balé do TMRJ. David Motta Soares e Cláudia Mota. Maio/2022. Fotos/Jorge Luis Castro-Revista Dança Brasil.


Há mais de um século, desde o sucesso da versão de 1895, pós a fracassada estreia russa em 1877, O Lago dos Cisnes se tornou um protótipo do balé romântico e da dança clássica. Neste sentido, a composição de Tchaikovsky ficou marcada por seu fator simbológico não apenas no plano musical (com a utilização do leitmotiv) e coreográfico (o rigor da técnica acadêmica a serviço do potencial sinfônico). 

Estendendo seus significados aos questionamentos psico/filosóficos da duplicidade personal, contextualizada no romance “O Duplo” (1846), de Dostoievsky, inclusive inspirando, na década anterior, a trama dramatúrgica do filme Cisne Negro. No balé, o desdobramento sensorial do personagem Odete><Odile, em seu processo de encantamento, vai de um idílico romantizar a um exponencial sensualizar, na personificação da brancura ou do negrume de um cisne.

E é esta transmutação do eu no outro que permitiu a mutabilidade de suas identificações, da madrasta inicial ao feiticeiro Von Rothbart, como na passagem do feminino ao masculino, nos cisnes da polemizada versão de Matthew Bournes. Ou no complexo edipiano do Príncipe Siegfried pela Rainha Mãe, segundo a transcrição de Mats Ek’s.

Também o seu itinerário cênico/brasileiro é significativo e singularizado pela pioneira versão integral nas Américas, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, há mais de meio século,1959, através da remontagem de Eugenia Feodorova. Sendo a última versão completa, apresentada neste histórico palco, a de 2016, em concepção comandada por Yelena Pankova e originalmente criada por ela, a partir de ligeiras variações, em 2006.



E, agora, depois de seis anos, o Balé do Theatro Municipal faz sua primeira tentativa de retomada de um dos mais emblemáticos clássicos de seu repertório, já quase próximo do centenário da Cia., o que acontecerá quase ao final da década seguinte. Após enfrentar diversas crises, das financeiras aos dois anos de interdição por motivos sanitários, pela eclosão da Covid. Precipitada pela partida de diversos integrantes/solistas do Corpo de Baile que optaram por companhias do exterior, especialmente europeias.

Naturalmente, isto representou uma grande perda na preservação da qualidade de sua trajetória técnica, mantida primordialmente pelo preparo, rigoroso e cotidiano como deve ser, para suas temporadas anuais. E a questão se agravou mais com a falta de concursos para renovação de suas vagas e substituição daqueles que estão já fora da faixa etária ideal e não apresentam mais o mesmo rendimento físico/artístico em suas atuações.

Com esta interrupção de dois anos pelo surto pandêmico e o engessado preenchimento por falta de novos concursos, o Balé do TM/RJ continuou arriscando-se a não fazer mais jus à sua tradição qualitativa de única companhia clássica oficial do país. O que, claramente, foi demonstrado pela melancólica e equivocada performance de As  Bodas de Aurora, onde o brilho dos poucos solistas entrava em flagrante conflito com um improvisado elenco, complementado fragilmente à base de alunos da Escola Estadual Maria Olenewa, ao lado de um decadentista suporte cenográfico e imprecisões técnicas.

Através dos recursos de um bem-vindo patrocínio, os atuais diretores (Hélio Bejani/Jorge Teixeira) do Corpo de Baile conseguiram, finalmente, realizar este O Lago dos Cisnes, um pouco mais próximo da qualidade de percurso das remontagens deste clássico, bastante funcional mas ainda carente do alcance absoluto de um esteticismo ideal.

Desde o prólogo, mesmo assim, fica instaurado um clima quase de magia da representação, tanto por uma maior segurança do Corpo de Baile, complementado com bailarinos contratados para a apresentação e ainda com suporte da EEDMO, como pela energia, consistência e desenvoltura dos solistas. Ampliado em acertado contraponto na sustentação da OSTM, conduzida com mãos firmes pelo maestro Tobias Volkman, com apenas um pequeno descompasso na gradação do volume sonoro do naipe de sopros, no inicio do primeiro ato, em noite de estreia.

O Príncipe Siegfried de David Motta Soares, como já era o esperado por seu apuro profissional na passagem pelo Bolshoi Ballet, exorbitou sua primorosa técnica e sua elegante gestualidade em porte esguio, dando potencial leveza à sua entrega passional ao personagem. Com uma ressonância de brilho privilegiado também na performance de Claudia Mota, em sua imposição equilibrada e aprimorada do arquétipo dialogal Odete/Odile. Sem deixar de falar na espontaneidade criativa e do sempre energizado domínio cênico/corporal do Bobo da Corte de Cícero Gomes.

Mantido, ainda, neste O Lago dos Cisnes, o senso plástico da cenografia e dos figurinos voltados à tradição, em sintonia com o processo coreográfico a partir da criação original (Petipa/Ivanov). Dentro de uma certa releitura técnica e com pequenas alterações no enredo, não tanto significativas ou prejudiciais ao andamento da pulsão estética de uma obra carismática da história da dança.


                                        Wagner Corrêa de Araújo


O Lago dos Cisnes, com o Balé e a OSTM, está em cartaz no Theatro Municipal/RJ, Cinelândia, de sábado 14/05 até a próxima quinta feira, 26 de maio, às 19h.

INTIMIDADE INDECENTE: RISO MORDAZ E IRONIA CRÍTICA NO ENTORNO DA LONGEVIDADE CONJUGAL

Intimidade Indecente, de Leilah Assumpção. Guilherme Leme Garcia/Direção. Maio 2022. Fotos Luciana Mesquita.


No despontar de seus aproximados sessenta anos, após a vivência de um relacionamento matrimonial de duas décadas, casal experimenta o desgaste e surgem os primeiros abalos e rupturas. E que vão se sucedendo, entre partidas e reencontros, até alcançar a decrepitude da velhice terminal.

Entre os dezesseis textos dramatúrgicos de Leilah Assumpção, a maioria deles afirmativos da condição feminina sob o signo libertário de um grito de protesto em desafio à opressão de uma sociedade machista, Intimidade Indecente, de 2002, é o mais recente entre os que chegaram aos palcos.

Enquanto Mariano, o marido (Marcos Caruso) confessa estar tendo um caso com a jovem de 17 anos, amiga de sua filha, provocativamente sua mulher Roberta (Eliane Giardini) vai mais longe e acaba por  revelar sua assumida paixão homossexual por outra mulher, no caso a sua analista.

Em sua linguagem despudorada carregada, vez por outra, de agressividade e de palavrões, a autora desnuda, sem quaisquer atenuantes, os frágeis prazeres e os podres poderes da sexualidade na terceira idade.

Mantendo, assim, o mesmo vigor de insolência que lhe trouxe a pecha da fama pela polêmica, por sua postura de permanente enfrentamento, desde os anos da insensata censura e do ridículo conservadorismo da ditadura militar.

Esta peça, a partir de sua estreia, nunca encontrou uma parceria tão ideal quanto a da performance de Marcos Caruso, ora ao lado de Irene Ravache, ora de Vera Holtz e, nesta atual temporada, de Eliane Giardini. Com estas duas últimas atrizes, sob a sempre acurada direção de Guilherme Leme Garcia.

Intimidade Indecente Com Eliane Giardini e Marcos Caruso. Maio/2022 .Fotos/Luciana Mesquita.

Desta vez, contando com minimalista cenografia  (Aurora dos Campos) absolutamente funcional no seu significado metafórico, sediando plasticamente duas vidas em décadas, à base de um único sofá em posição frontal num palco despojado. Sob efeitos de iluminação (Tomás Ribas) alterativos, entre uma prevalência luminar vazada ou climatizando, em emotiva ambiência psicológica, a cena final.

O casal sempre portando a mesma indumentária, sem qualquer mudança aparente, com ligeira variação visual apenas no formato do cabelo preso ou solto de Eliane Giardini ou nas mudanças nas expressões faciais de ambos. E com entradas musicais incidentais, ora em citações gravadas ora a capella através de popular canção infantil que acaba tendo o compartilhamento vocal da plateia.

Onde a performance naturalista imprime sempre um comportamental dia a dia, tanto  no dimensionamento gestual como  na dialetação verbal, ora calma ora tensa, entre os dois atores, nesta abordagem dos conflitos conjugais e domiciliares próprios à maioria dos casais na travessia progressiva do tempo e das idades.

O que acaba levando, automaticamente aos clichês e estereótipos capazes de propiciar, em contextualizados lugares comuns, certa previsibilidade narrativa mas também uma mais fácil identificação com espectadores, geralmente aqueles na faixa da meia idade em diante.

Provocando-lhes um sensorial riso lúdico à beira de ilusória alegria ao se depararem, por exemplo, com o questionamento de um dos atores sobre o que é a solidão. Em subliminar e irônico amargor convergindo ao mesmo tempo, sob um sotaque de melodrama, para o humor e para a melancolia.

Numa artesanal gramática cênica conduzida com perceptível empenho e habitual maestria por Guilherme Leme Garcia. Em energizada sintonia com a potencialidade carismática de dois atores (Marcos Caruso e Eliane Giardini) esbanjando maturidade nesta pulsão, sob o mecanismo de um signo verista de liberdade instintiva, direcionada à abordagem performática de um conflito de vontades.

Em inventário dramático que se sustenta num teatro sólido como espetáculo, consistente por sua verdade interior. E que revela na sua contextualização crítica da solidão humana, quem sabe, uma parte da história de cada um de nós...


                                             Wagner Corrêa de Araújo



Intimidade Indecente está em cartaz no Teatro dos 4/ Shopping da Gávea, quinta a sábado às 21h; domingo às 19h. Até 29 de maio.

MISERY : UMA TEMPORADA NO INFERNO EM COMPASSO DE THRILLER TEATRAL

Misery. Direção Eric Lenate. Mel Lisboa e Marcello Airoldi. Abril 2022. Foto/Leekyung Kim.

O desafio de escrever um romance em clima claustrofóbico de terror psicológico, tendo como emblemático referencial o processo de criação da escrita literária numa temporada no inferno.

Estas são as linhas básicas do livro de Stephen KingMisery, de 1987, e que já rendeu uma versão cinematográfica, um espetáculo da Broadway e montagens teatrais como esta, a mais recente, na concepção diretora de Eric Lenate.

A partir de um acidente automobilístico sofrido por um escritor numa região sob duros rigores invernais, este volta a si na casa de uma enfermeira das vizinhanças - Annie Wilkes por Mel Lisboa - em personificação dúplice como uma fã alucinada pelas narrativas ficcionais sequenciadas em torno de uma personagem feminina denominada Misery.

E que a torna revoltada pela última edição da série, sendo esta incapaz de admitir a sua exclusão definitiva de seguir no protagonismo na trama, por previsível morte. Gerando um clima misto de admiração e repulsa, além do  terrorismo psicofísico que ela passa a exercer sobre o responsável por isto - o escritor enfermo Paul Sheldon (Marcello Airoldi).

Imobilizado por fraturas no ombro e nas pernas, dependente de analgésicos e, ainda, mergulhado nas transições emotivas da enfermeira, que de admiradora passional chega a estágios de obsessão psicótica. Capaz inclusive de influir, coercitivamente, no desenvolvimento de um novo manuscrito de Paul Sheldon para resgatar, com a volta à vida, a personagem feminina excluída em tempo  terminal.

Onde os dois  atores - o escritor acamado e a enfermeira, se digladiam nos três ambientes de um cenário circular, mobilizado por quatro ágeis contrarregras visíveis em cena. Com um subliminar referencial da produção da Broadway, idealizado com extrema funcionalidade, incluídos os elementos naturalistas que compõe um decorativo quadro paisagístico por Eric Lenate, ao lado de figurinos caracteristicamente cotidianos (Carol Badra/Leopoldo Pacheco).

Extensivo no uso de interferências sonoras/visuais (relâmpagos e trovões) e na trilha sonora (L. P. Daniel) com capacidade de ampliar, nos acordes e temas musicais em andamento de leitmotiv, a sensação de suspense provocada pelas bruscas mutações sensoriais do enredo. O que aproxima muito a proposta de um teatro cinético, presencial substancialmente nos efeitos luminares (Aline Santini), numa quase peça/filme de suspense mas sem jamais abstrair a prevalência dos recursos dramatúrgicos.

Surgindo inesperadamente um terceiro personagem – o xerife Buster (por Alexandre Galindo), mergulhado nas investigações sobre o desaparecimento do escritor. Sutil, misterioso, intrigante em suas poucas palavras e gestos contidos quando se depara¸ no lado externo da casa, diante de uma janela e de uma porta, com a enfermeira Annie.

Mel Lisboa em Misery. Direção Eric Lenate. Abril 2022. Foto/Leekyung Kim.

Em convicta e diferencial representação, despertando interrogativa curiosidade e inusitada expectativa na plateia. Em acionamento interpretativo, mais voltado para a calma e o silêncio, contraditório ao permanente clima de tensão, quase pânico, estabelecido entre a enfermeira e o escritor.

Marcado sempre pelas súbitas variações emocionais, sustentadas no enfrentamento do embate de extremados climas psicóticos. Ora através da aparente dedicação afetiva da enfermeira que, em verdade, estabelece um conflito à beira da violência diante de sombrias e diabólicas atitudes para impor sua vontade até no próprio oficio do escritor.

Este por sua vez, dissimula seu medo e seu pânico diante dos surtos psíquicos dela, aceitando as ideias de mudança no entrecho ficcional de Misery sugestionando finais diferentes, como nas narrativas de Scheherazade, para ganhar tempo e escapar da morte.

Neste livre funcionamento das atitudes inventivas de um categórico diretor e na consistência de uma proposta que se impõe pela coesiva luminosidade de seus interpretes, o simultâneo experimento de linguagens não seria uma reflexão metafórica sobre o processo de criação literária?

Não convergiriam, afinal, as três personificações para uma pulsão identitária com o ofício do escritor na instigação do processo dialético entre seus personagens ou no desvendar de viagens pelos espaços siderais da mente, sob imersão visceral numa temporada no inferno?...


                                               Wagner Corrêa de Araújo


Misery está em cartaz no Teatro Sesi/Firjan, sextas às 19h; sábados e domingos, às 18hs. Até 05 de junho.

TRIBUTO À DANÇA E À MODA NA ÚLTIMA CRIAÇÃO DE ANGELIN PRELJOCAJ

Nuit Romaine, coreografia de Angelin Preljocaj. Estreia mundial em 29 de abril, 2022. Fotos/Noemi Ottilia Szabo.

Concebido como um  tributo ao Dia Internacional da Dança, "Nuit Romaine" estreou exatamente nesta data comemorativa, no último dia 29 de abril. Trata-se de uma provocante obra coreográfica que une tradição e modernidade, através de um espetáculo que percorre os espaços renascentistas do Palazzo Farnese em Roma, num ideário que uniu a Maison Dior e o diretor/coreógrafo Angelin Preljocaj.

Que retoma sua parceria com o universo da moda, já presente em criações anteriores com Jean-Paul Gaultier, em Branca de Neve, além de Azzedine Alaia em três balés, o mais significativo sendo La Fresque, inspirado numa lenda milenar chinesa. E agora na sua mais recente concepção, a partir de uma sugestão da Maison Dior, com Nuit Romaine. 

Em trajetória mágica pelas ambiências artísticas de uma das mais belas obras arquitetônicas da Roma da Renascença fazendo interagir  em processo estético transformador, afrescos, pinturas e móveis numa fusão de duas épocas, por intermédio de bailarinos em figurinos Dior, mais registros plásticos do acervo Farnese, de nobres e clérigos papais que habitaram o Palazzo nos seus anos de glória aristocrática.


Nuit Romaine. Documentário fílmico da ultima criação coreográfica de Angelin Preljocaj. Em 29/04/2021.

Numa corporeidade que conecta uma gestualidade sensorial entre o clássico e o contemporâneo, através de temas musicais barrocos e românticos a acordes modernos de György Ligeti, em figurinos atemporais (Maria Grazia Giuri) incluindo elegantes elementos ancestrais sob túnicas e sedas ao uso de jeans e tênis.

Num narrativa metafórica conduzida por duas deusas mitológicas interpretadas por duas estelares bailarinas - Eleonora Abbagnato e Friedman Vogel, em criação especial do Balé do Teatro da Ópera de Roma, com direção geral e coreográfica de Angelin Preljocaj. Sendo mais uma vez registrada em processo fílmico que o coreógrafo acha fundamental para preservar o legado da dança contemporânea: 

"Para mim, é importante dar memória à dança. Muitas pessoas consideram a dança efêmera, mas a dança não é mais efêmera que a música. É realmente triste saber de todas essas peças que não existem mais porque não foram devidamente documentadas e desaparecem, principalmente quando seus coreógrafos não estão mais aqui". E completa - "Se  você não viu o trabalho e não o conhece, pode alterar o pensamento original e isto muda a percepção da história da dança".

Sensual e poético ao mesmo tempo, Noite Romana é um experimento singular não só pela fusão da moda à dança, como por ser um surpreendente encontro de linguagens artísticas. Assistam correndo enquanto está disponível nas plataformas digitais.

 

                                           Wagner Corrêa de Araújo



          https://www.facebook.com/groups/lesballetomanes/permalink/5527674440598382/

            Ou pelo You Tube - Dior Celebrates International Dance Day with "Nuit Romaine" 
             Link: https://www.youtube.com/watch?v=BxsHOaGkjzc
            

UMA PEÇA PARA FELLINI : O CINEASTA ÍCONE QUE ACREDITOU TER INVENTADO QUASE TUDO



Uma Peça Para Fellini. Concepção cênico/direcional:Cavi Borges e Márcia do Valle. Abril 2022. Fotos/Cláudia Ribeiro.


Federico Fellini, num auto retrato do ano (1993) de sua despedida definitiva das telas e da vida, sob o habitual espírito crítico de um cineasta ícone, sentindo ser “habitado por um hóspede obscuro, ...coloco à disposição a minha voz, minha sensibilidade artesanal, minhas tentativas de plagiador ou de autoridade”.

E não seriam estas palavras uma espécie de mágico reflexo especular capaz de conduzir ao ideário da criação cênico/cinética de Uma Peça Para Fellini, tendo como referência a provocante trajetória artístico existencial deste mistificador mor? A tríplice convergência de uma atriz (Márcia do Valle), um cineasta (Cavi Borges) e um roteirista/dramaturgo (Joaquim Vicente) no conceitual alternativo deste projeto não estaria muito mais próxima da própria razão estética do ser ou não ser deste artesão de sonhos?

Se de início o espetáculo pretenda fazer um tributo a posteriori (por causa pandêmica) ao centenário de nascimento do celebrado cineasta ocorrido em 2020, acaba também lembrando o telúrico legado de um casal alquímico da história do cinema, Federico Fellini/Giulietta Masina, mortos ambos em 1993.

E amplia sua abrangência reverencial ao escolher uma locação de emblemático significado para o homenageado titular - o saguão de um cinema estendendo-se ao mesmo tempo, por uma livraria e galeria, expondo livros, cartazes e registros fílmicos de e sobre Fellini, além da reprodução de parte de seus manuscritos, caricaturais aquarelas e desenhos em crayon, em trajetória inteira de vida e de arte.

Onde a caixa cênica é transmutada em espaço cinético sugestionado, no entremeio de luzes (Djalma Amaral) ambientalistas, por uma tela frontal e outra lateral onde são exibidos recortes antológicos dos filmes, dos personagens aos atores, com prevalência de figuras míticas como Marcello Mastroianni ou as eternas mulheres/divas - Giulietta Masina, Anita Ekberg, Anouk Aimée, Claudia Cardinale.


Uma Peça Para Fellini. Com Márcia do Valle. Roteiro dramatúrgico /Joaquim Vicente. Abril 2022. Fotos/Cláudia Ribeiro.

Ou do próprio Fellini, redivivo através de imagens, com “la voce della luna” ecoando através das estrelas e assumida convictamente na cósmica corporificação performática de Márcia do Valle. Incluídos os incidentais acordes sonoros (por Leonardo Miranda) inspirados muito a propósito em variações autorais sob temas de Nino Rota. Mais a propícia indumentária (Flávio Souza)  remetendo, figurativamente através de elementos composicionais (chapéu, xale, túnica, lenços), a personificações fellinianas.

E, sobretudo, através de uma reprodução em tamanho natural, uma espécie de totem em papelão e madeira do cineasta, com o qual a atriz protagonista Márcia do Valle contracena afetivamente, como se ele ali estivesse, ao vivo, presente de corpo e alma.

Em processo cômico/dramático, sustentado num formato de monólogo que não se limita a ser apenas uma narrativa confessional dimensionada como um solilóquio. Sua personagem aqui é desdobrada entre a imaginária fã-faxineira Giuvaneide com sua vassoura num destes cinemas poeira, ao fascínio da luxuriante representação das mulheres/atrizes,  as porta vozes do feminino, e do inquieto espírito inventivo do próprio Fellini, sempre por obra e graça do versátil talento de Márcia do Valle.  

Compartilhando seu carismático papel com cada um dos presentes, ocupantes de mesas entre as quais a atriz circula, energizada por um incisivo gestual (Patrícia Niedermeier) conectado a simpático apelo histriônico e vocal que não deixa indiferente o mais alheio dos espectadores. Questionando, dialogando, olhos nos olhos, face a face, sob focal e emotiva interatividade.

Como se cada um deles estivesse visualizando metaforicamente a atriz em big close-up ou simbolizada em imaginário set de filmagens sob planos gerais ou abertos. Revelando-se, aí, o sutil sotaque de um experiente diretor (Cavi Borges), ao sublimar o espaço cenográfico como uma tela, com  olhar armado na linguagem cinematográfica, sempre contando com a valiosa parceria cênica de Márcia do Valle e de uma potencial textualidade (Joaquim Vicente) que sabe ter muito a dizer.

Remetendo, enfim, Uma Peça Para Fellini, em compasso de um tríptico estético – teatro, cinema, circo - com seu lúdico brilho dramático e burlesca pulsão no riso, ao extasiante universo dos mistérios de um gênio, que acreditando ter “inventado quase tudo”, ao mesmo tempo, teimava em ser definido pela ironia de suas enigmáticas palavras : “Eu sou um grande mentiroso”...


                                         Wagner Corrêa de Araújo


Uma Peça Para Fellini está em cartaz no Estação Net Rio, Botafogo, sextas e sábados, às 21h30m. Até 25 de junho.

RENATO VIEIRA CIA DE DANÇA : A ARTE ENGAJADA DA “SUITE ROCK - PARA LOUCOS E AMANTES”

 

Renato Vieira Cia de Dança/Suíte Rock-Para Loucos e Amantes. Abril 2022. Fotos/Guilherme Licurgo/Renato Mangolin.


Is this the real life?/ Is this just fantasy?”- Bohemian Rhapsody/Queen. Quantas vezes estas palavras terão ecoado como um patético desafio para o coreógrafo Renato Vieira, isolado na similar reclusão a nós todos destinada neste tão dolorido biênio pandêmico.

Mas a pulsão criadora precisava continuar, e no entremeio de tantas adversidades, acrescidas às sanitárias a desilusão de ver a cultura de um país ser envilecida pela insensatez de seus mandatários, a Renato Vieira Cia de Dança finalmente volta, presencialmente, aos palcos com uma vigorosa e provocadora Suíte Rock-Para Loucos e Amantes.

Um manifesto estético e reflexivo que se apropria de clássicos do rock anos 70 e 80, sob o sotaque introspectivo dos acordes camerísticos de música de concerto, através de um quarteto de cordas fugindo à sua formação tradicional. Desta vez, por intermédio de um violino, uma viola e dois violoncelos, um deles com o recurso de pedais para sugestionar os riffs de uma guitarra elétrica, com certeira direção musical de Maria Clara Barbosa.

Reunindo quatro potencializados instrumentistas jovens (Sarah Cesário, Rafael Kalil, Denis Rangel e Karen Barbosa) entregues à mesma pulsão energizada dos cinco experientes bailarinos (Bruno Cezario, Soraya Bastos, Felipe Padilha, Hugo Lopes, Rafael Gomes), todos eles “amantes e loucos” em brava e interativa performance de resistência, sem nunca se renderem, pois o show tem que continuar.

Em afetivo e político referencial a tempos emblemáticos que marcaram uma geração com mais de meio século de trajetória, direcionada ao paraíso (Stairway to Heaven/Led Zeppelin) sob o mandamento libertário de uma religião artístico-existencial do não desistir nunca.

Suíte Rock-Para Loucos e Amantes. Renato Vieira Cia de Dança. Abril 2022. Foto/Guilherme Licurgo.

Onde os sensoriais figurinos (em dúplice oficio criativo de Bruno Cezario) com malhas brancas e torsos nus  na ala masculina e uma esvoaçante veste em tons escuros para destacar a única representante do sexo oposto, remetem à sutil e metafórica plasticidade do uso de plumas no ombro, num reflexo especular do voo gestual no verso roqueiro “Minha alma é pintada como as asas das borboletas”..."Eu posso voar-meus amigos"(The Show Must Go On/ Queen).

A ludicidade desta busca perfeccionista de uma linguagem corporal híbrida, sustentando-se entre o aproveitamento da base clássica, aliada a uma incisiva dramaturgia da fisicalidade, é antenada na contemporaneidade, um signo permanente das incursões  da Renato Vieira Cia de Dança.

Entre a palavra e o gesto conectando uma relação de (meta)presença quase cósmica, ao estabelecer travessias do corpo e da alma do bailarino em cena com o corpo de cada espectador, onde “Ele dá as cartas com reflexão/E aqueles com quem ele joga/nunca suspeitam”(Shape of My Heart/Sting).

Transmutada de outros espetáculos de sua lavra, aqui analisados em postagens anteriores, na linhagem significante de suas temáticas gestualizadas, em engajado compromisso com as grandes causas, das sonoridades jazzísticas em Blue à poética de protesto dos marginalizados em Malditos e, agora, o rock clássico dimensionado por eruditas sonoridades instrumentais.

E nesta percepção da força imersiva de uma leitura coreográfica inserida pela temporalidade de duas gerações, na experimentação estético/sensitiva da Suite Rock-Para Loucos e Amantes, não há nenhum de nós que evite o escorrer de uma lágrima emotiva por tudo que isto representou de vanguarda e memória comportamental em anos de juventude.

No legado deste tão necessário espetáculo fazendo dançar a vida em cada um de nós, quando somos questionados pela difícil convivência com o nonsense politico e social de um dia a dia sinalizado por tantas absurdidades :

Podem não dar condições de trabalho mas não podem tirar minha liberdade de criar”, eis Renato Vieira com a palavra certa para a hora incerta, mesmo tendo que recorrer talvez ao indagativo refrão do Queen/Bohemian Rhapsody :“How long, how long must / We Sing this Song?"...

                                            Wagner Corrêa de Araújo



Suite Rock-Para Loucos e Amantes/Renato Vieira Cia de Dança está em cartaz no Teatro I do CCBB, de quinta a sábado, às 19hs; domingo às 18hs, até 08 de maio.

CIRCUNCISÃO EM NOVA YORK : RIR É A MELHOR CURA PARA TEMPOS ADVERSOS

Circuncisão em Nova York. Direção Jacques Lagoa. Abril 2022. Fotos/Rogério Fidalgo

 

Nesta retomada cênica, pouco a pouco deixando de ser tímida para os espectadores, até então exilados numa “prisão domiciliar”, nenhum remédio ou desabafo há de ser melhor que o riso dos palcos. Capaz de ser despertado, de forma pura, autêntica e unanime, por um dos mestres absolutos da comédia teatral brasileira.

Estamos falando, é claro, de João Bethencourt, muito mais nacionalista por sua nova opção pátria, afetiva e artística, que sua origem húngara. De sua lavra, pelo menos 40 peças autorais, além de quase uma centena dirigidas, em mais de meio século sem interregnos, para o bem de todos e felicidade geral do teatro destas plagas tropicais.

Nos saudosos anos da TVE, quando era diretor de um de seus programas mais prestigiados e tradicionais – Cadernos de Cinema, tive o privilégio de ter este dramaturgo mais de uma vez, como um convidado de luxo das rodas inteligentes de conversa, após a exibição do filme, conduzidas pela competente apresentadora Vera Barroso.

Pois, agora, em temporada que se estende até o final deste mês, o público carioca tem a chance de tomar contato com uma das suas exemplares comédias de costumes, nas quais João Bethencourt se especializou e foi, sempre, de uma maestria incondicionalmente categórica.

Trata-se da peça Circuncisão em Nova York, uma das últimas obras de João Bethencourt, com direção de Jacques Lagoa e um elenco que reúne sete nomes destacados de gerações  diversas. A saber, Sílvia Massari, Sérgio Fonta, Daniel Barcelos, Carlos Loffler, Narjara Turetta, Danton Lisboa e Roberta Foster.

Numa concepção cenográfica hiper-realista por Augusto Pessoa, dividindo-se no oficio pelo figurino básico sob um sotaque cotidiano, mostrando a intimista sala de visitas domiciliar de um casal judaico, em Nova York, devassada sob uma vazada iluminação e uma oportuna música incidental (Guilherme DelRio). 

Mais ou menos sugestionada pelo final do século XX, quando tinham se ampliado as liberdades de escolha da identidade sexual ainda, assim, desafiando um resistente conservadorismo social e familiar que persiste até hoje. Especialmente causados, aqui, pelo retrocesso não apenas no setor cultural mas nos desatinos arcaizantes e risíveis de um pretenso Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos.

Numa trama que mostra um casal de mulheres sexualmente assumidas resolvendo ter um filho pela inseminação artificial de uma delas. E as consequentes reviravoltas, em clima de prevalência farsesca, do desvendar do fato à cerimônia tradicional judaica (Brit Milá) da circuncisão do recém nascido.


Circuncisão em Nova York. De João Bethencourt. Abril 2022. Fotos/Rogério Fidalgo.

O espetáculo tem um andamento assumidamente leve, sustentado na visão lúdica e irônica que a direção (Jacques Lagoa) imprime, sob ritmo progressivo de traços bem humorados, nos sustos provocados por posturas comportamentais fora dos padrões hebraicos conservadores, considerados quase religiosos ou éticos, como signos da conduta dia-a-dia.

Sabendo o elenco preencher os contornos da comicidade de seus personagens, com as nuances do riso que nasce das peripécias e das frases ambíguas. Como a matriarca (Sílvia Massari) extravasando preciso senso burlesco ao disfarçar o segredo sexual de sua filha (Narjara Turetta) diante do patriarca (Sérgio Fonta), cujo moralismo melodramático é revelado em convictos recursos atorais.

O casal feminino (Narjara Turetta/Roberta Foster) destacando-se por sua representação de irreverente postura, enquanto o elenco coadjuvante masculino se enquadra com acerto na exploração dos mecanismos de uma narrativa de humor. Com uma especial referência na performance, plena das possibilidades humorísticas e  histriônicas, de Carlos Loffler.

Depois do pânico pandêmico dando sinais de seu ansiado epílogo, motivo maior de comemoração são os teatros sendo reocupados num saudável e necessário reencontro palco/plateia. Compartilhando das emoções psicofísicas que quaisquer tramas, sejam dramáticas ou farsescas, poéticas ou políticas, provocam entre o riso e a reflexão.

Neste ritual de volta, tão sagrado quanto o Brit Milá, um  viva e um bravo ao Teatro de ontem e de hoje...  


                                               Wagner Corrêa de Araújo




Circuncisão em Nova York está em cartaz no Teatro Vannucci, Shopping da Gávea. Às quintas feiras, 20hs. Até 28 de abril. 

DALAL ACHCAR E ALEX NEORAL : EM SURPREENDENTE PARCERIA NA ABERTURA DA TEMPORADA COREOGRÁFICA 2022

Tal Vez / Cia de Ballet Dalal Achcar. Coreografia - Alex Neoral. Abril 2022. Fotos/Márcia Ribeiro

 

Neste respirar de novos ares, com o fim da reclusão pandêmica, os palcos cariocas revelam a estreia simultânea de mais duas de suas reconhecidas cias de danças – Cia de Ballet Dalal Achcar e Renato Vieira Cia de Dança – em espetáculos surpreendentes por seu conceitual estético/coreográfico.

A começar pela Cia de Ballet Dalal Achcar que, através de sua diretora/coreógrafa, teve a boa e bela ideia de confiar na habitual competência criativa de Alex Neoral – o mentor da Focus Cia de Dança – para idealizar uma concepção coreográfica exclusiva para os seus 18 jovens bailarinos.

Espetáculo que foi titulado simbolicamente de Tal Vez, numa lúdica aliteração vocabular com dúplice significado, em seu referencial de desafio à solidão humana, perceptivelmente ampliada no isolamento forçado de dois anos pandêmicos e confrontada diante do desejo pela busca dos encontros perdidos.

Numa tematização metafórica de um baile acompanhado por melodiosos acordes de antigas canções de sucesso sob um repertório de prevalência nostálgica, provocando lembranças e evocando saudades.

Dimensionada através da trajetória expositiva de gêneros cantantes ora românticos, ora melodramáticos, ora dançantes, num apanhado memorial de paixões e desencontros, brigas e reconciliações, em duplo oficio  de Alex Neoral como coreógrafo e responsável pelo roteiro musical.


Cia de Ballet Dalal Achcar / Tal Vez. Coreografia e Roteiro Musical/Alex Neoral. Abril 2022. 


Onde a caixa cênica, em original concepção de Natalia Lana, é preenchida por jogos de cortinas em diversos planos, provocando uma plasticidade funcional capaz de sugestionar, sobre o acertado jogo de projeções e luzes aquareladas (Paulo Cesar Medeiros), uma atmosfera de sonhos e delírios quase surreal.

E o figurino de João Pimenta, através da coloração das malhas e dos cetins esvoaçantes, numa abrangente extensão desta fantasia. Inicializado em tons soturnos na entrada hierática dos bailarinos, cobertos por capas formais, apresentando sutilmente traços de sua indumentária idealizada para o musical Romeu e Julieta.  

Em peças de vestuário superpostas e que vão sendo despojadas na climatização de um psicodelismo tropicalista, entremeado ora com tonalidades vibrantes, ora ironicamente melancolizado pelas variações luminares.

Tudo convergindo numa sequência de citações cênicas sob recortes cinéticos, de estilizações musicais/teatrais como revistas, teatro cabaré, music hall e musicais de palco ou cinematográficos, de várias épocas e lugares. Numa dramaturgia da fisicalidade sincronizando movimentos rítmicos, antenados na contemporaneidade de uma linguagem com eficaz aproveitamento da base clássica dos bailarinos.

Traduzida num vocabulário gestual pulsante em sua corporeidade coreográfica, de energizados quadros coletivos a introspectivos solos e duos, expressando performáticas reações emotivas ou críticas, conectadas no teor simbológico das palavras cantadas.  

Para, assim, viabilizar este Tal Vez, evidenciado na qualificada convergência de seus elementos técnicos e artísticos, do convicto desempenho de seu corpo dançante ao potencializado destaque de sua concepção cênico/coreográfica, no cuidado artesanal do olhar de Alex Neoral.

Ritualizado no compartilhar sensorial palco e plateia, bailarinos e espectadores, como um singular teatro coreográfico, sob um sutil sotaque a la Pina Bausch.  E,  talvez”, representando um sinal de estar chegando a “Tal Vez” do despertar de um pesadelo político/cultural que parece não ter mais fim...

 

                                             Wagner Corrêa de Araújo



   Tal Vez /Cia de Ballet Dalal Achcar está em cartaz no Teatro Riachuelo/RJ, de quinta a sábado, às     19h; domingo, às 17h. Até 17 de abril.

ROTA DE FUGA / CIA URBANA DE DANÇA : VOLTA PRESENCIAL SOB EMPENHO AFETIVO E ENERGIZADA FISICALIDADE

Rota de Fuga, com a Cia Urbana de Dança. Direção Sonia Destri Lie. Abril 2022. Foto/Jenner Souza.


No pós diluvio pandêmico e na contramão às politicas culturais oficiais sob signos de terra arrasada, este último final de semana trouxe, mesmo assim e sequencialmente, a volta em caráter presencial de três significativas cias. A Cia Urbana de Dança, a Renato Vieira Cia de Dança, além da parceria de Alex Neoral com a Cia de Ballet Dalal Achcar.

A primeira delas – a Cia Urbana de Dança - tendo como mentora Sonia Destri Lie, valendo-se da criatividade coletiva de seus bailarinos, com supervisão direcional/coreográfica desta, e titulando emblematicamente a sua primeira apresentação em palcos de Rota de Fuga. Num assumido referencial aos tempos adversos enfrentados por seus integrantes em dois anos de afastamento preventivo por causa sanitária.

Tornando viável em corajoso empenho, por intermédio aqui de sutil sotaque coreodramatúrgico, sustentado na estética habitual de energizado gestual urbano, marca registrada da Cia. No compasso de um contextualizado dilema psicofísico do desistir de vez ou do jamais arrefecer. E na prevalência do ansiado sonho da volta, pelos bailarinos Miguel Fernandez, Tiago Souza, Jéssica Nascimento, Johnny Brito e Elton Sacramento.


Rota de Fuga / Cia Urbana de Dança. Direção Sonia Destri Lie. Abril 2022. Foto/Jenner Souza.


No início da certeza da proximidade de um epílogo para a até então única saída, pela atuação nas plataformas digitais, mas já se vendo diante do enfrentamento de uma crescente crise inflacionária, que torna escassos os recursos de patrocínio, gerando a necessária busca de quaisquer “rotas” possíveis para viabilizar a busca da criação artística.

Mesmo assim conseguiram estrear, ainda que numa performance de apenas duas noites, uma no Teatro Armando Gonzaga e a outra no Teatro João Caetano, acreditando no valioso fruto do esforço e da crença de que estes cinco competentes bailarinos, originários de comunidades, unidos venceriam.

Em palco vazado  com varas de  luzes rebaixadas entre sombras (Renato Machado), uma indumentária básica de malhas por Zsolt e incisiva trilha autoral de Rodrigo Marçal. Considerando-se as circunstanciais limitações, de um espetáculo quase em  processo de construção, mas certamente superáveis no calor do reencontro cotidiano, palco/plateia, de uma possível temporada mais à frente.

Ressaltando, enfim, o que venho afirmando em anteriores análises criticas, o bravo percurso, entre trincheiras e em campo minado, e o rompante grito gestual dos bailarinos  das comunidades, no sempre vigoroso trabalho de Sônia Destri Lie e sua Cia Urbana de Dança.

                                               Wagner Corrêa de Araújo


Rota de Fuga, com a Cia Urbana de Dança. 07/Abril 2022. Teatro João Caetano. Foto/Jenner Souza.


BORDADOS/AMOK TEATRO : SENSORIAL INCURSÃO FEMININA NO UNIVERSO ÁRABE

Bordados/ Amok Teatro. Direção-AnaTeixeira e Stephane Brodt. Março 2022. Fotos/Sabrina Paz.


A partir de um tríplice elemento conceitual, sustentado entre a palavra textual, a ambiência familiar intimista e a expressão psicofísica do poder feminino árabe, foi arquitetada a sensorial estética do espetáculo Bordados. Numa concepção direcional, cênico e dramatúrgica de Ana Teixeira e Stephane Brodt para o Amok Teatro.

Em proposta que dá continuidade ao Ciclo das Mulheres com sua abordagem da temática e da manifestação do feminino sob um contexto universal. Desta segunda vez, através de uma livre inspiração nos introspectivos documentários da lavra do francês Yan Arthus-Bertrand, “7 Bilhões de Outros” e “Humano – Uma Viagem Pela Vida”, respectivamente de 2003 e 2015.

Muito vistos nestes adversos tempos de crise civilizatória, por seu caráter reflexivo e questionador sobre o cada vez mais difícil suporte da condição humana. Especialmente nas plataformas digitais, no desafio da reclusão a que todos nós fomos forçados pelo surto pandêmico, embora tenham sido lançados antes nos circuitos cinematográficos.

Ao mostrar o tradicionalismo ritualístico de um intimista e caseiro chá entre seis mulheres árabes, em especular referencial ao seu titulo (Bordados) a peça tece, sob o simbólico compasso de filigranas douradas, o cotidiano opressivo da mulher árabe. Com extensão metafórica ao sexo oposto, pela postura machista e misógina que conduz às agressividades, à violência doméstica e à criminalidade, em contraponto à luta dos anseios femininos pelo empoderar-se  através da afirmação de sua identidade.

São absolutamente tocantes os depoimentos veristas de vida na sinceridade crua de tons confessionais, através de seis atrizes desdobrando-se na convicta entrega à representação de seus personagens. A saber, Fathmeh (Carmen Frenzel), Massarat (Flávia Lopes), Hiba (Jacyam Castilho), Khadija (Sandra Alencar), Nesrine (Vanessa Dias) e Walla (Vania Santos).

Bordados/ Amok Teatro. Direção-AnaTeixeira e Stephane Brodt. Março 2022. Fotos/Sabrina Paz.


Numa linguagem dramatúrgica marcada pelo coloquialismo em narrativa de conversa quase leitura, dividida entre a palavra e o gesto, mas com um empenho emotivo capaz de estabelecer pontes carismáticas e identitárias com algumas espectadoras que não escondem seus olhares  umedecidos.

Mas é no habitual cuidado artesanal do Amok com o espaço cênico e seus componentes que a peça dá uma lição de maestria pela sua elegância e seu bom gosto. Ana Teixeira e Stephane Brodt não pouparam esforços de sua reconhecida autoridade cênica para deslocar a ação, com perceptível prevalência narrativa, para uma imersão sensitiva na encenação realista de um interior residencial árabe.

Ornado por tapete persas, luminárias mouriscas, cadeiras entalhadas e um requintado conjunto para servir chá. Extensivo à indumentária das atrizes, portando um figurino à base do típico Hijab, entre túnicas e véus que cobrem parte do rosto, em tons recatados na concordância com os costumes muçulmanos.

Onde recursos de luzes (Renato Machado) mais vazadas se equilibram nos reflexos entre sombras das luminárias pendentes e lanternas solares. E os acordes orientalistas de uma trilha autoral em off (Rudá Brauns) tem uma originalidade à parte, entremeada por ocasionais cânticos das atrizes sob tipicidade instrumental percussiva e coreográfica (na dança folclórica Dabke) ao vivo, simbolizando  a alegria cerimonial do Zalghuta.

Bordados é mais um dos produtos bem acabados do Amok, capaz de tornar transcendentes quaisquer lugares comuns que ele assume no entorno do amor e da maternidade. No ideário do seu vir a ser da condição feminina sabendo, antes de tudo, emprestar coragem afirmativa à mulher, seja árabe ou brasileira. Na assumida simplicidade de sua trama trazendo, sobretudo, uma incisiva mensagem de esperança, pela veemência de seu apelo sensorial em favor de todas as mulheres do mundo...


                                           Wagner Corrêa de Araújo


Bordados / Amok Teatro está em cartaz no Teatro III do CCBB/RJ, de quarta a sábado, às 19h30m e, aos domingos, às 18 horas. Até o dia 24 de abril.

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