EXPERIMENTAL PROCESSO CÊNICO SOB REFLEXO ESPECULAR OPERÍSTICO

O PEQUENO ZACARIAS - UMA ÓPERA IRRESPONSÁVEL. Dezembro de 2014. Foto/Guga Melgar.

Quando se fala em E.T.A.Hoffmann (1776/1822), vem logo à lembrança personagens inesquecíveis, com o quais este romântico alemão atravessou gerações. Foram, afinal, de sua lavra as narrativas que levaram aos balés Coppélia e Quebra Nozes, além de sua própria trajetória criadora, como autor de literatura fantástica, inspirar o libreto da ópera de Offenbach –“Os Contos de Hoffmann".

Tendo já realizado um musical a partir das histórias dos Irmãos Grimm, José Mauro Brant, desta vez, buscou Hoffmann no conto O Pequeno Zacarias, acrescentando o subtítulo - Uma Ópera Irresponsável, com a parceria musical de Tim Rescala. A trama dramatúrgica tem como protagonista um boneco/fantoche que, desde o berço, impressiona pela feiura mas que, em contrapartida, revela um privilegiado resplendor na sua trajetória existencial, marcada por fadas e bruxarias.

O tema envolve vários personagens e muitas idas e vindas cronológicas, o que na ficção literária fica perceptível com o alter ego de um narrador, não beneficiando, por sua vez, a adaptação teatral, com certa falta de clareza e por uma incomoda extensão (acentuada com o desequilíbrio do alongado primeiro ato).

Por outro lado, a refinada concepção plástica da cenografia (Miguel Pinto Guimarães), o requinte dos figurinos (Carol Lobato), a climática iluminação (Paulo César Medeiros) e o dinâmico comando cênico de José Mauro Brant, ao lado de Sueli Guerra/dublê de coreógrafa, são uma festa estética aos olhos da plateia.

E é aí que aparece a força matriz da brilhante performance do elenco de cantores/atores (Soraya Ravenle, Sandro Christopher, Janaína Azevedo, Wladimir Pinheiro, Chiara Santoro, Rodrigo Cirne, Marcello Sader e do próprio diretor/dramaturgo José Mauro Brant). Capaz de enaltecer, às alturas, as ricas nuances da partitura lírico/musical de Tim Rescala, tornando simbológica, enfim, esta viagem nas asas da canção.

Uma das maiores surpresas da temporada 2014 foi, sem dúvida alguma, a deliciosa e inventiva concepção de teatro musical que Daniel Herz deu ao texto original de Beaumarchais - As Bodas de Fígaro, com a brilhante tradução de Barbara Heliodora e através de adequada utilização da composição lírica de Mozart.

Na sua primeira representação em 1786, a ópera criou polemica por abordar, com irônico realismo, uma temática revolucionária e até subversiva para os padrões da época - os abusos do poder, numa sátira aos desmandos do direito feudal sobre as classes menos favorecidas.

O Conde Almaviva (Ernani Moraes) quer fazer valer o seu direito sexual da primeira noite com a empregada (Carol Garcia), antes do dia das núpcias dela com Fígaro (Leandro Castilho). Mas a Condessa (Solange Badin), com a cumplicidade da serva (Carol Garcia), trama uma intrigante trapaça contra a indiferença e a frivolidade do conde, se envolvendo com o jovem pajem Cherubino (Tiago Herz), com a ingerência, entre outros personagens, de Dom Basílio (Alexandre Dantas) e Marcelina (Cláudia Ventura).

Este picaresco enredo, com seu autentico clima de farsa de costumes, tem um tratamento cênico de incrível vivacidade, primando por uma original opção atemporal. Acentuada pelo score musical de Leandro Castilho, num mix preciso da partitura mozartiana com sonoridades populares brasileiras.

Aqui os atores representam, cantam sem aportes lírico/vocais (com exceção de Carol Garcia) e executam a parte instrumental, mantendo quase na íntegra a ópera original. Sempre com o apoio dos elucidativos figurinos de Antonio Guedes e do dinâmico gestual de Márcia Rubin, numa perfeita interação do movimento cênico com o substrato musical.

Esta performance acurada do elenco, com timing e nuance humorística, dos grandes aos menores papéis, faz funcionar todas as querelas e “imbróglios”, no duelar da atitude zombeteira de Fígaro com os desmandos de Almaviva, da postura maliciosa de Suzana com as frustrações da Condessa. Tendo, como contraponto, as ambições amorosas juvenis de Cherubino  numa talentosa revelação atoral de Tiago Herz.

Recriando sem desfigurar, esta produção de As Bodas de Fígaro faz eco ao fenômeno das versões mozartianas contemporâneas, de Ponnele a Sellars, passando por Brook e pelos festivais de Salzburgo. E, enfim, ao manter a intenção dramatúrgica de Beaumarchais e a substância musical de Mozart, provando, mais uma vez, além de tempo e de espaço, época e cronologia, a permanência e a atualidade do mítico Amadeus.

AS BODAS DE FÍGARO. Dezembro 2014. Foto/ Paula Kossatz.

Fidélio teve uma trajetória conturbada desde a sua primeira versão (1805), fracassada, até a definitiva de 1814, um sucesso. Esta única incursão operística de Beethoven, inspirada na dramaturgia original de Jean Nicolas Bouilly, ainda sob os efeitos ideológicos da Revolução Francesa, fascinou o compositor por seu caráter de ode lírica à liberdade através do amor.

Sem nenhuma concessão ao imediatismo melódico e a malabarismos vocais tão ao gosto do público da época, a ópera seguiu outro caminho, apostando na solidez da arquitetura musical/dramática e no sensível apelo humanista do libreto. Pouco frequente no repertório usual das temporadas (chegando mesmo a ser apresentada em versões italianas, como sua première no Municipal carioca em 1927), apesar de tudo impressiona por sua tessitura orquestral e vocal, capaz de colocá-la na mesma dimensão beethoviana da Missa Solene e da Ode à Alegria, no epílogo da Nona Sinfonia.

Neste aspecto, a montagem foi valorizada pela significativa condução orquestral da OSTM por Isaac Karabtchevsky, no preciso dimensionamento dos diferentes planos sonoros, acentuados, mais ainda, pela vigorosa consonância do Coro do TM. Este último, sem dúvida, responsável pela culminância interpretativa na calorosa cena final do Coro dos Prisioneiros, no Primeiro Ato.

Quanto ao elenco, teve um desempenho vocal satisfatório, atendendo, às difíceis exigências da partitura. Embora sem brilhos absolutos, vale destacar a linha cantante de solistas, entre outros, como a soprano norte-americana Julie Davies, em sua expressiva coloratura dada a Marzelline. Ou o tenor argentino Santiago Ballerini, de apuro convincente como JaquinoE ainda a feliz intervenção, mesmo em breves frases, do tenor brasileiro Ricardo Tuttmann (Prisioneiro). Valendo ainda ressaltar pela especificidade vocal alemã adequada, Martin Homrich (tenor), Sebastian Noack (baritono) e Paul Armin Edelmann (baixo).

O questionamento da montagem ficou na pergunta sem resposta para o público no que se refere à concepção cênica. No intervalo entre os dois atos prevaleceu a dúvida sobre se esta plateia marcava sua presença num concerto cênico, para uma ópera em forma de concerto ou, talvez, para a um drama lírico sob olhar contemporâneo.

Polemizou, enfim, a visão particularista de uma excepcional encenadora teatral (Christiane Jatahy), de habitual convicção vanguardista, em sua estreia no gênero operístico, com a proposta de quebra total de paradigmas do espetáculo lírico, no mix de experimentações estéticas e diversidade de linguagens. Onde o exclusivo uso da ambientação do teatro além do palco, em detrimento da construção de cenários, a utilização de figurinos cotidianos sem unificação visual (Antonio Medeiros/Tatiana Rodrigues), além da quase não representação gestual do elenco (preso a cadeiras), interferiam na apreensão da essência do drama.

Vazio que não foi preenchido nem mesmo com a exibição do belo filme da diretora, ficando o desvendar do enredo ora distanciado da performance cênica, ora circunscrito ao Singspiel (textos falados) e à instantaneidade narrativa da exibição das legendas. E fragilizando, assim, sua reflexiva compreensão que, ali, se faz mais que necessária, pois já dizia , em 1950, o maestro Wilhelm Furtwängler

Fidélio é , em verdade, mais uma missa que uma ópera. Os sentimentos expressos em suas palavras a aproximam de uma religião, a religião da humanidade”.

                                               Wagner Corrêa de Araújo


FIDÉLIO. Ópera em concepção contemporânea por Christiane Jatahy. Abril de 2015. TMRJ. Foto/Divulgação.



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