BECKETT E PINTER : DUAS VARIAÇÕES NO COMPASSO CÊNICO DO ABSURDO

O QUE VOCÊ VAI VER. Setembro 2014. Foto /  Carlos Cabéra.


“Escrevo as coisas que sinto”. Não importam os meios de expressão de Samuel Beckett - poesia, ficção ou teatro - entregues ao leitor, ao espectador, ao ouvinte radiofônico, com seu estilo verbal experimentalmente preciso que evoca a obra de James Joyce, escritor irlandês como ele, e a quem tanto admirou pelas ousadias estético/linguísticas.

Enquanto na sua peça A Última Gravação ouvem-se vozes do passado num gravador com o qual dialoga o velho Krapp (que teve memorável atuação de Sérgio Britto via concepção de Isabel Cavalcanti) em presencial composição cênica num palco, em All That Fall (Todos os Que Caem) o suporte é absolutamente radiofônico.

Escrita especialmente para a BBC em 1956, teve recomendação expressa do autor de que nunca poderia ter um formato visível. E como foi pensada exclusivamente para outro veiculo que não o palco, serviu de mote para uma evocativa e inspirada versão para o teatro pela diretora Inez Viana, com dramaturgia de Rodrigo Nogueira, sob o simbólico titulo - “O Que Você Vai Ver" .

Em original montagem pela Cia Pequena Orquestra, a peça estabelece um jogo abstrato prescindindo da presença física dos atores numa caixa cênica  ocupada apenas por raros elementos materiais (Rebecca Belsoff), insinuando a plataforma de um embarque numa estação ferroviária onde, tanto por Godot e como na vida, apenas resta esperar, para sempre .

Mas o que a princípio se configura num fator susto/surpresa para uma plateia diante de um palco italiano sem elenco vai, aos poucos, alcançando um lúdico sotaque de metamorfose da linguagem dramatúrgica contrapondo vozes ouvidas como num ancestral e nostálgico formato radio/teatro, com atores invisíveis que olham e incitam a participação do espectador que nada vê.

Ritmos e sons verbais, vozes dubladas (por Cesar Augusto, Fabrício Belsoff, Nanda Félix, Joana Lerner, Marcelo Valle, Michel Blois e Rodrigo Nogueira) ruídos e um principio de fog em cena, substituem o claramente visível pelo estímulo a uma viagem pelos espaços siderais da mente de cada ouvinte/espectador, numa proposta de obra aberta à livre imaginação, fruição e acepção de cada consumidor.

Tudo isto sem jamais deixar de lado o eterno impulso beckettiano de mergulho no vazio abismo da condição humana, com sua imutável e imóvel solidão metafísica.

Enfim, uma proposta dramatúrgica que acaba envolvendo magicamente o público e remete a duas precisas referencias literárias à visibilidade do som.

De um lado, o dramaturgo Heiner Müller com seu “drama que não acontece no palco” e de outro, o poeta Paul Valéry (“a dança é uma música para ser vista”), que tornam esta paradigmática experimentação áudio/teatral de Inez Viana obrigatoriamente visível.

Na obra teatral de Harold Pinter a fusão de procedimentos, que ora remetem ao universo metafórico de Kafka ora à manipulação a la Beckett - Joyce do significado das palavras, conduz seus personagens, na vã tentativa de contextualizar o sentido da trajetória existencial, à clausura claustrofóbica e solitária do palco.

Na incessante busca do inútil sentido das coisas e na aparente realidade das situações que vivem, estão sempre na fronteira do absurdo e do “nonsense”, em circunscrito espaço de três paredes cênicas.

Nos limites da quarta – frontal e invisível, onde o recado do próprio Pinter ao público, é o de que é preciso viver com estas personagens e ver o que se pode fazer por elas.

Em sua peça “A Estufa”, do início de carreira - 1958, esta constatação é levada ao extremo quando se instaura um clima tragicômico no simbológico estranhamento da ambientação de um asilo psiquiátrico, uma prisão politica, ou um “gulag” daqueles anos críticos de guerra fria.

Ali convivem um burocrático mas ditatorial diretor prisional Roote (Mário Borges) delegando poderes, mantidos com rédeas e desconfiança, a dois possíveis auxiliares Gibbs (Isio Ghelman) e Lush (Marcelo Aquino), convergindo em unitárias e soberbas atuações .

Contando com a sedutora presença feminina da Srta Cutts (Paula Burlamaquy), além da opressiva manipulação de Lamb (Pedro Neschling), ambos com eficiente brilho no jogo da representação. E ainda uma menor, mas qualitativa, interferência de Thiago Justino no desdobramento dos personagens Todd/Lobb.

Todos deflagrando situações de contexto enigmático e detonando quaisquer significados sequenciais narrativos, numa espécie de obra aberta na qual o significante e o significado estão na mente de cada espectador.

E onde, diante de uma embate gestual de intrigante desafio - entre o policialesco e o macabro - a única arma de defesa são as palavras, quebradas na contundente interrupção daqueles clássicos silêncios do dramaturgo inglês.

Além da força que emana do dinâmico elenco, o alcance estético na frugal mas mágica atmosfera cênica com seus exatos efeitos visuais (nos figurinos de Biza Vianna e na luz de Aurélio de Simoni).

E, mais uma vez, o comando de Ary Coslov- aqui também dublê de tradutor, cenógrafo e idealizador do score musical - reafirma sua especial habilidade na condução deste pinterianoteatro da ameaça”, com seu diabólico ritual de questionamento sem resposta da condição humana.

                                              Wagner Corrêa de Araújo


A ESTUFA. Outubro 2014. Foto / Arthur Vianna


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